quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Pai de uma criança de 7 anos



Carta aberta à Direção do Colégio Santa Cruz




Sobre um livro e uma criança de sete anos

São Paulo, 23 de setembro de 2026.




À Direção do Colégio Santa Cruz,




Escrevo como pai de uma aluna da Educação Infantil do Santa Cruz, e em nome próprio. No dia 22 de setembro, um aluno de sete anos do 1º ano voltou para casa com uma leitura indicada pela professora: Che Guevara para meninas e meninos, da Coleção Anti-heróis, com texto de Nadia Fink e ilustrações de Pitu Saá, edição brasileira da Sur Livro.




O livro apresenta Che como um libertador que conquistou um mundo mais justo e ensina à criança que "Che Guevara era um homem muito corajoso, sonhador e de alma livre". A Cuba que ele ajudou a construir aparece como um lugar onde ninguém passa fome, porque tudo é dividido. A autora disse ao jornal La Capital, de Rosário, que o livro fala claro com as crianças e não distorce a história. Sobre o restante, o livro não diz nada.




O restante está documentado, e boa parte foi escrita por ele. Na Sierra Maestra, em fevereiro de 1957, Che matou com um tiro na cabeça Eutimio Guerra, um guia camponês acusado de traição, e descreveu a execução no próprio diário. De janeiro a junho de 1959, comandou a fortaleza de La Cabaña e decidiu os recursos dos condenados pelos tribunais revolucionários, que julgavam sem devido processo. Foram fuziladas sob a sua jurisdição 55 pessoas, segundo Jon Lee Anderson, autor da biografia de referência, e 105, segundo o Cuba Archive. Na Assembleia Geral da ONU, em dezembro de 1964, disse: "Fusilamientos, sí, hemos fusilado, fusilamos y seguiremos fusilando mientras sea necesario." Na mensagem à Tricontinental, de 1967, defendeu o ódio intransigente ao inimigo como fator de luta, capaz de transformar o combatente em uma "máquina de matar".




Nas notas de viagem de 1952, que deram origem a Diários de motocicleta, escreveu que os negros de Caracas haviam conservado a pureza racial graças ao pouco apego ao banho, e opôs "el negro indolente y soñador" ao europeu, com sua tradição de trabalho e poupança. O filme deixou a passagem de fora. Em 1963, na embaixada cubana em Argel, encontrou sobre uma mesa o Teatro completo de Virgilio Piñera, dramaturgo cubano e homossexual, atirou o livro longe e quis saber quem lia aquele maricón. Juan Goytisolo estava presente e contou o episódio em suas memórias. Régis Debray, que conviveu com ele, escreveu que Che, como Fidel, nunca tolerou homossexuais por perto.




Confrontei esse registro com o que o Santa Cruz escreve sobre si. O Plano Diretor de 2019 diz que a escola quer formar cidadãos capazes de reconhecer e fazer valer os direitos humanos, de se abrir à diversidade racial e de gênero e de repudiar qualquer tipo de discriminação [pp. 4–5]. Diz também que, ao tratar de temas complexos, a escola não se exime de transmitir valores humanos e cristãos, entre eles o respeito ao próximo e a tolerância. Desde 2021, o programa Santa Plural reserva vagas e bolsas para crianças negras e indígenas a partir do G4 e declara como objetivo a educação antirracista. Em 2025, a escola suspendeu 34 alunos do ensino médio por mensagens racistas e homofóbicas em um grupo de WhatsApp — e fez bem. Neste ano, indicou a um aluno de sete anos a biografia elogiosa de um facínora que escreveu que os negros eram indolentes e que desprezava homossexuais. Penso nas famílias que o Santa Plural trouxe para a escola. Se uma delas perguntar o que o homem do livro do 1º ano escreveu sobre os negros de Caracas, o que a escola responderá?




Não peço que Che desapareça do Santa Cruz. No ensino médio, com o registro completo diante dos alunos, estudá-lo é coerente com o livre-pensar e com a diversidade de ideias que a escola defende. Quase ninguém chega às próprias crenças pela lógica, e quase ninguém sai delas por ela. Aos sete anos, a admiração chega antes de qualquer argumento; quando os fatos vierem, no ensino médio, encontrarão a crença já defendida. O Plano Diretor, quando fala em formar pensamento autônomo, pressupõe um leitor capaz de discordar do que lê.




Em casa, minhas filhas aprendem a medir as pessoas pelo que fizeram. O livro mede Che pelo que ele sonhou. E ignora o que fez, falou, escreveu e quem foi. Sei também o que é escolher o que uma criança dessa idade pode ler. Adaptei para as duas um livro de histórias de filósofos: na versão da mais nova, de seis anos, a morte de Sócrates fica de fora; na da mais velha, de treze, ele bebe a cicuta. Nessa idade, pode-se omitir. O que um livro para crianças não pode é afirmar o que as fontes negam — e este afirma que em Cuba ninguém passa fome, em um país que distribui comida por caderneta de racionamento desde 1962.




Proponho um teste. A escola indicaria a uma criança de sete anos uma biografia ilustrada e elogiosa de Augusto Pinochet, ou de um general da ditadura brasileira, que o apresentasse como herói de alma livre? Imagino que não, e com razão. Qual é, então, o critério que admite Che Guevara? O padre Paul-Eugène Charbonneau, que a própria escola trata como formador da sua identidade pedagógica, aplicava a mesma régua à esquerda e à direita. Em Cristianismo, sociedade e revolução, dizia estar à esquerda no que ela tem de justiça social e recusava a esquerda que troca a democracia por uma ditadura de tipo soviético, com um aparato policial que destrói as liberdades.




Em junho de 1961, o regime que Che ajudou a construir nacionalizou o ensino em Cuba e tomou cerca de 350 escolas católicas. Três meses depois, deportou 131 padres no navio Covadonga, entre eles canadenses, como os fundadores do Santa Cruz. Em Cuba, escolas como esta não passaram de 1961.




Sei qual será a resposta: ele lutou contra uma ditadura, e era uma guerra. O argumento prova demais. Se a guerra justifica os fuzilamentos de La Cabaña, justifica também os crimes pelos quais os policiais e militares de Batista foram fuzilados. E o projeto do Santa Cruz, lido nos seus próprios documentos, recusa que os fins autorizem os meios.




Peço à Direção quatro providências:




i. que explique por qual critério pedagógico o livro foi indicado a um aluno do 1º ano e se a indicação passou pela coordenação;

ii. que retire o título das leituras dessa faixa etária;

iii. que torne público o critério para biografias de figuras políticas na Educação Infantil e no Ensino Fundamental 1; e,

iv. que responda às famílias por escrito.




Minha filha continua no Santa Cruz porque confio na escola que o Plano Diretor descreve, e é a essa escola que escrevo. Um aluno de sete anos levou para casa um livro que diz que Che Guevara era corajoso, sonhador e de alma livre. Quem o indicou tinha a obrigação de conhecer o resto.




Atenciosamente,




Daniel Caldeira

Pai de uma aluna da Educação Infantil do Colégio Santa Cruz

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