quarta-feira, 19 de março de 2025

BDM Riscala Matinal 1903

 Fed pode vir hawk e Copom, dove

Por Rosa Riscala e Mariana Ciscato*


[19/03/25]


… A Superquarta concentra quatro das cinco reuniões de política monetária previstas para esta semana. Já no primeiro minuto do dia saiu a decisão do BoJ japonês, que manteve o juro em 0,50%, embora continue reforçando a mensagem de que poderá voltar a subir a taxa. Às 15h será a vez do Fed, que deve deixar o juro americano estável entre 4,25% e 4,50%. Neste caso, a grande expectativa é para o gráfico de pontos e a entrevista de Powell (15h30), que devem confirmar a cautela com as incertezas sobre o impacto das tarifas de Trump para a inflação e a economia dos Estados Unidos. Aqui também, o suspense é com o comunicado do Copom (18h30), que poderá vir mais dovish, após o aumento de 100pbs da Selic, para 14,25%. No final da noite, o PBoC da China define os juros das LPRs de 1 e 5 anos.


… O BC no Brasil deve entregar hoje a nova alta da taxa Selic, contratada ainda na gestão de Roberto Campos Neto, mas a equipe liderada por Gabriel Galípolo – quase toda indicada por Lula – tem, pelo menos, três bons motivos para relaxar a guarda.


… A desaceleração da atividade a partir do 4Tri foi amplamente comprovada pelos indicadores da indústria, do comércio e dos serviços. O câmbio abandonou o pico de estresse e se valorizou. E o mercado parou de pilhar as expectativas de inflação.


… A ênfase que o comunicado dará a esses fatores pode significar uma importante luz sobre as próximas decisões do Copom.


… Ajustada à essa expectativa, a curva de juros na B3 projeta a possibilidade de a Selic terminal não chegar até 15% (leia abaixo).


… A maioria dos economistas (em levantamento do Broadcast) ainda espera um ajuste de 75pbs, com a taxa básica a 15%, mas a boa maré dos mercados domésticos, que tem bombado o Ibov e valorizado o câmbio, pode acabar favorecendo uma aposta mais otimista.


… A Warren Investimentos considera que a Selic a 14,25% já estaria em um nível bastante restritivo e que há espaço para desaceleração do ritmo a 25pbs nas reuniões de maio e junho, o que poderia fazer o Copom encerrar o ciclo de aperto monetário a 14,75%.


… As opiniões sobre o recado do Copom hoje estão divididas entre a sinalização de um ajuste de menor magnitude e a opção de deixar em aberto a trajetória futura da Selic, a depender dos próximos indicadores de inflação e da atividade (data dependent).


… Mas para todo mundo é certo que o ciclo de aperto da Selic está com os dias contados, após a rápida alta de 300pbs desde dezembro.


… Já nos EUA, não há muitas dúvidas de que o Fomc virá hoje com uma mensagem de cautela diante dos riscos de recessão da economia. É o que os dirigentes do Fed vêm repetindo em cada oportunidade, alertando para o impacto incerto das tarifas comerciais.


… Nos futuros dos Fed Funds, investidores ainda acreditam em três cortes de 25pbs do juro neste ano, mas essa é uma aposta que já mudou muito e pode mudar muito mais. Serão dois momentos importantes: a entrevista de Powell e o gráfico de pontos.


… Os investidores querem saber o que projetam para os juros os dirigentes do Fed e quanto estão preocupados com as tarifas e os riscos que podem representar. Um sinal temido é sobre a possibilidade de uma alta da taxa, se a inflação voltar a assustar.


… Além das projeções para os juros até 2027, serão divulgadas as estimativas de inflação ao consumidor, do mercado de trabalho, do PIB.


A REFORMA DA RENDA – O projeto de isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil, assinado nesta 3ªF pelo presidente Lula, foi recebido com alívio pelo mercado financeiro, já que era mais do que esperado e veio redondo, sem apresentar novidades.


… É verdade que o alerta do presidente da Câmara, Hugo Mota, de que haverá modificações na proposta, causa preocupações, sobretudo se os parlamentares não garantirem a tributação dos mais ricos para cobrir os custos da medida, piorando a situação fiscal.


… Para compensar a perda de receita, estimada em R$ 25,84 bilhões em 2026, a proposta prevê mudança de regras para rendas acima de R$ 50 mil mensais, com um imposto mínimo de 10% que incidirá de forma escalonada até as rendas acima de R$ 1,2 milhão/ano.


… A medida vai possibilitar uma ampliação de receita de R$ 25,22 bilhões, além de R$ 8,9 bilhões com a tributação de 10% na remessa de dividendos para o exterior (apenas para os brasileiros domiciliados no exterior).


… Um dos receios era de que a taxa de 10% seria única e aplicada de forma adicional sobre esses contribuintes de faixas mais altas.


… Mas o projeto não prevê isso, e isso um complemento dessa alíquota, que hoje é de apenas 2,54%. Além disso, só quem ganha acima de R$ 1,2 milhão ao ano pagará a alíquota cheia de 10%. Há uma “escadinha” para as faixas anteriores.


… Quem já paga alíquota mínima nas regras vigentes não pagará nada a mais e a tributação conjunta de empresas e pessoas físicas que recebem dividendos não pode ultrapassar 34%. Caso ultrapasse, haverá devolução do IRRF sobre dividendos.


… Um outro efeito é o impacto que essa injeção de recursos para os contribuintes isentos poderá ter sobre a inflação, já que significa mais consumo, ampliando as pressões sobre os preços, juntamente com outras medidas de expansionismo fiscal.


2026 – Na tentativa de recuperar sua popularidade e salvar a reeleição, o presidente Lula politiza o discurso da isenção do IR para as faixas de renda mais baixa, como fez na visita à fábrica da Toyota, no município de Sorocaba, interior de São Paulo.


… “Sabe quem vai pagar para que possamos dar esse benefício para 10 milhões de pessoas? Apenas 141 mil brasileiros que ganham acima de R$ 600 mil por mês. […] Estamos tirando de alguém que tem muito para as pessoas que trabalham muito e não têm nada.”


… Lula levou com ele o ministro Haddad, que citou os programas sociais reabilitados, como Minha Casa, Minha Vida, Luz para Todos, e os novos, como o Pé-de-meia, a isenção do IR para rendas até R$ 5 mil e o novo crédito consignado privado.


CESSAR-FOGO PARCIAL – A notícia de que Putin concordou em suspender os ataques a alvos de infraestrutura energética da Ucrânia por 30 dias, atendendo à proposta de Trump, foi lida como um avanço para a paz, embora seja apenas um primeiro passo.


… Zelensky disse que apoia a proposta de interromper os ataques à infraestrutura energética russa, mas disse esperar que os parceiros de Kiev não cortem a assistência vital para a Ucrânia, após Putin exigir o fim de toda a assistência militar e de inteligência ao país.


… No X, o chanceler da Alemanha, Olaf Scholz, escreveu que “o próximo passo deve ser o cessar-fogo completo e o mais rápido possível”.


… Mais tarde, em entrevista à Fox News, o presidente Donald Trump disse que “é verdade” que seu governo tem interesse em melhorar a relação com a Rússia e com a China, que “ninguém quer que a Rússia e a China fiquem juntos”.


MAIS AGENDA – BC anunciou a realização de leilões de venda de dólares com o compromisso de recompra (linha), hoje e amanhã, com o objetivo de rolar o vencimento de 2 de abril de 2025, no total de US$ 2,0 bilhões (US$ 1 bilhão em cada operação).


… Fazenda divulga Boletim Macrofiscal (9h) e Prisma Fiscal (10h). E o BC, os dados semanais do fluxo cambial (14h30).


BRASÍLIA – Câmara aprovou ontem à noite, por 347 a 114, o projeto que autoriza a liquidação de recursos orçamentários não processados inscritos a partir de 2019, com o resgate de recursos do orçamento secreto. O PL prorroga o prazo de liquidação para o final de 2026.


… Ainda ontem, o ministro Flávio Dino (STF) intimou o Congresso e a AGU a se manifestarem em até dez dias sobre a resolução aprovada na semana passada para regulamentar a execução das emendas parlamentares.


… A resolução abre espaço para que as emendas continuem sendo indicadas por líderes partidários, sem identificar seus padrinhos.


BALANÇOS – Guararapes, Minerva, Petrorecôncavo e Positivo reportam resultados do 4Tri, após o fechamento.


LÁ FORA – A zona do euro informa o CPI de fevereiro (7h), com previsão de +0,5% (de -0,3% em janeiro). O núcleo da inflação deverá ficar em 2,6% na base anual (contra 2,7% em janeiro, na mesma comparação).


… Nos EUA, saem os estoques de petróleo do DoE na semana até 14/03 (11h30).


NA ONDA DA MARÉ – O Ibovespa completou o quinto pregão consecutivo de ganhos, voltando aos 131 mil pontos, e o dólar, seis sessões de quedas, no menor valor desde o final de outubro do ano passado, batendo R$ 5,65 na mínima desta 3ªF.


… Também os juros futuros caíram nos trechos intermediários e longos, enquanto os curtos mantiveram-se perto dos ajustes às vésperas do Copom, que pode sinalizar hoje a desaceleração do ritmo de alta da Selic, após o novo aumento de 100pbs, para 14,25%.


… A expectativa de um ciclo mais curto do aperto monetário, somada aos esforços da China para estimular a sua economia e à percepção de que o Brasil não deverá ser tão afetado pela guerra tarifária de Trump, sustentam o entusiasmo do mercado doméstico.


… Em NY, a alegria das duas últimas sessões durou pouco. As bolsas entraram, de novo, em modo liquidação em meio à cautela antes do Fed. Liderando as perdas, o Nasdaq caiu 1,71%, a 17.504,2 pontos. O dia ruim para as techs puxou as outras bolsas.


… O S&P 500 recuou 1,06% (5.614,72) e o Dow Jones cedeu 0,62% (41.581,50).


… Tesla, a big tech que mais vem perdendo valor de mercado, levou um tombo de 5,34%, a US$ 225, depois de a RBC Capital Markets cortar o preço-alvo da ação de US$ 320 para US$ 120, citando aumento da concorrência. No ano, o papel acumula -44%.


… Nvidia caiu 3,4% mesmo após apresentar planos de expandir seu reinado na IA com novos robôs e sistemas para desktops.


… O dado de produção industrial (+0,7%) acima do esperado (+0,2%) em fevereiro nos EUA e o salto nas construções de moradias iniciadas no mesmo mês (+11,2%) ficaram em segundo plano.


… Ainda mais porque os dados mostrando aumento nos preços de importação de bens pelos EUA ajudaram a azedar o humor do mercado no contexto da guerra comercial sob Trump. Esses preços subiram 0,4% em fevereiro sobre janeiro, ante expectativa de +0,1%.


… O Ibov deu de ombros para NY e subiu 0,49%, aos 131.474,73 pontos, maior nível desde 16 de outubro (131.749,72) e terceira máxima de fechamento consecutiva do ano. Ainda refletindo os estímulos econômicos na China, Vale avançou 0,74% (R$ 57,52).


… Petrobras sustentou estabilidade – ON, +0,08% (R$ 39,33) e PN, também +0,08% (R$ 36,19) – em meio à queda do Brent (-0,71%; US$ 70,56), depois que Putin concordou em suspender os ataques a alvos de infraestrutura energética da Ucrânia.


… Bancos fecharam mistos: Itaú (+0,53%; R$ 32,30) e Banco do Brasil (+0,14%; R$ 28,50) subiram, enquanto Bradesco ON caiu 0,53% (R$ 11,22) e Santander perdeu 0,48% (R$ 26,70). Bradesco PN terminou o dia praticamente estável (-0,08%, R$ 12,30).


… A maior valorização foi da JBS, com um salto de 17,8% (R$ 38,61), estimulada pelo acordo entre a controladora J&F e o BNDESPar para avançar na listagem de ações da companhia em NY.


… O movimento impulsionou outros frigoríficos. BRF subiu 7,15%, a R$ 19,64, e Marfrig, teve alta de 6,68%, a R$ 15,80.


… Na outra ponta, as maiores baixas do pregão foram de CVC (-3,47%; R$ 1,95), B3 (-3,06%; R$ 12,04) e Vamos (-2,63%; R$ 4,08).


… Ajudou a bolsa o fato de o projeto de isenção do IR para salários de até R$ 5 mil não ter embutido nenhuma novidade fiscal.


… O dólar, inclusive, fez a mínima do dia (a R$ 5,6565) durante a cerimônia de apresentação da medida pelo governo. Fechou em baixa de 0,25%, a R$ 5,6721, na menor cotação desde 24 de outubro (R$ 5,6629).


… A moeda também cedeu lá fora num dia que teve aprovação de pacote de gastos na câmara baixa da Alemanha, além de melhora nas expectativas de empresários do país. O índice ZEW avançou a 51,6 em março, de 26 em fevereiro e ante expectativa de 45.


… O euro subiu 0,56%, a US$ 1,0946. A libra avançou 0,55%, a US$ 1,3006. Na véspera do BoJ, que manteve os juros nesta madrugada, o iene ficou perto da estabilidade (+0,06%), a 149,286/US$. O índice DXY caiu 0,12%, a 103,244 pontos.


… Na B3, os DIs repetiram o movimento da véspera, com queda a partir do Jan/27, seguindo a baixa do dólar e dos yields dos Treasuries.


… O Jan/27 caiu a 14,720% (de 14,485%), o Jan/29, a 14.195% (de 14,315%), o Jan/31, a 14,380% (de 14,500%) e o Jan/33 a 14,410% (de 14,520%). O Jan/26, por sua vez, ficou perto da estabilidade, em 14,725% (de 14,745% na sessão anterior).


… Nos títulos americanos, o juro da note de 2 anos caiu a 4,039% (de 4,048%) e o da note de 10 anos recuou a 4,284% (de 4,302%.


EM TEMPO… ECORODOVIAS teve lucro líquido recorrente de R$ 206,9 milhões no 4Tri (-33,3%) e Ebitda ajustado subiu 12,3% (R$ 1,2 bilhão).


FRAS-LE registrou lucro de R$ 135,1 milhões no 4Tri (+43,8%); Ebitda somou R$ 220,4 milhões (+94,8%).


ENERGISA. Lucro líquido aos controladores aumenta 254,1% no 4Tri, para R$ 1,828 bilhão, enquanto a receita cresce 13,3% ante o 4Tri/24 e o Ebtida ajustado tem queda de 7,9% na mesma base de comparação, somando R$ 1,905 bilhão.


AZZAS (Arezzo e Grupo Soma) negou qualquer discussão sobre compra de participação, cisão ou segregação de negócios da companhia, em resposta aos rumores em torno de supostas divergências envolvendo os acionistas Alexandre Birman e Roberto Jatahy.


HYPERA foi comunicada pelos acionistas João Alves de Queiroz Filho, Maiorem e Votorantim sobre a celebração de acordo de voto para a AGO de 25/4, exclusivamente em deliberações relativas à eleição de membros do Conselho de Administração.


PRIO. Goldman Sachs passou a deter 5,06% do capital social da empresa; volume de 45.316.832 foi atingido por meio de operações de derivativos com liquidação financeira…


… Participação é um incremento sobre os 4,96% atingidos nesta 2ªF (17), cujo valor representava redução de sua antiga participação, de 5,05%.


CYRELA. BlackRock reduziu participação acionária na construtora para menos de 5%; empresa não informou valor que a gestora passou a deter; anteriormente, a BlackRock detinha 6,38% dos papéis da Cyrela, equivalente a 24.496.745 de ações.


MULTIPLAN aprovou cancelamento de 6 milhões de ações ON atualmente mantidas em tesouraria, sem redução do capital social; assim, capital social da companhia passou a ser composto por 513.163.701 de ações ON…


… Companhia aprovou a distribuição de R$ 90 milhões em JCP, o equivalente a R$ 0,1548, com pagamento em 24/3; ex desde 5/4/24.


TOTVS aprovou a distribuição de R$ 82 milhões em JCP, o equivalente a R$ 0,14 por ação, com pagamento em 4/4; ex em 25/3.


WEG aprovou a distribuição de R$ 338,6 milhões em JCP, o equivalente a R$ 0,0807 por ação, com pagamento em 13/8; ex em 24/3.


ASSAÍ aprovou programa de recompra de até 8.000.100 de ações ON, representativas de 0,59% do total em circulação.


AOS ASSINANTES DO BDM, BOM DIA E BONS NEGÓCIOS!

STF 2

 https://www.estadao.com.br/opiniao/o-sexto-aniversario-do-inquerito-sem-fim/


"*O sexto aniversário do inquérito sem fim*


_O inquérito das ‘fake news’ chega a seis anos sem que haja qualquer perspectiva de conclusão, o que autoriza a suspeita de que se tornou um instrumento de exercício arbitrário de poder_


O Inquérito 4.781, conhecido como “inquérito das fake news”, completou seis anos de tramitação na sexta-feira passada. Instaurado em 14 de março de 2019 pelo então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, o inquérito tinha como objetivo inicial apurar “fatos e infrações relativas a notícias fraudulentas (fake news) e ameaças veiculadas na internet que têm como alvo a Corte, seus ministros e familiares”. De lá para cá, como restou notório, uma investigação legítima foi transformada em um instrumento ilegítimo de exercício de poder monocrático pelo ministro designado relator, Alexandre de Moraes, em afronta aos mais comezinhos princípios do Estado Democrático de Direito que o mesmo STF diz defender.


Este jornal é insuspeito para fazer as críticas que tem feito à duração e, principalmente, ao sigilo imposto pelo sr. Moraes ao inquérito. O Estadão foi o primeiro veículo da chamada grande imprensa a apoiar a decisão de ofício do ministro Dias Toffoli. Afirmamos nesta página que, na condição de presidente da Corte, era dever de Dias Toffoli defender a instituição, pois “velar pelas prerrogativas do Tribunal” é uma das principais atribuições de seu presidente. E “não há dúvida”, sublinhamos, “de que ameaças a seus ministros e familiares são uma tentativa de subjugar a independência do STF” (ver editorial O sigilo do STF, 16/3/2019).


O fato de ainda termos de fazer essa memória, malgrado o ministro presidente do STF, Luís Roberto Barroso, ter reconhecido, no início de dezembro de 2024, que a conclusão do Inquérito 4.781 “está demorando” porque “os fatos se multiplicaram ao longo do tempo”, diz muito sobre a amplitude de uma investigação que, ao que parece, tem sido conduzida justamente para não ter fim – vale dizer, para ser instrumentalizada como um mecanismo de concentração de poder nas mãos de seu relator, algo que não se coaduna com a mera ideia de uma república democrática. “Fake news” e “desinformação” passaram a ser o que o sr. Moraes acha que é.


Decorrido tanto tempo, convém relembrar por que, afinal, o Inquérito 4.781 foi instaurado de ofício. O STF sofria uma onda de ataques articulados por apoiadores do então presidente Jair Bolsonaro. Sob o beneplácito, quando não incentivo, do Palácio do Planalto, os ministros do STF e seus familiares passaram a ser atacados e ameaçados pelas hostes bolsonaristas como forma de tolher a independência funcional da Corte e, assim, evitar – pensavam os radicais – a interposição de barreiras legais aos desígnios liberticidas de Bolsonaro, que, à época, ainda em início de mandato, já demonstrava claramente seu inconformismo com as contenções ao exercício do poder que caracteriza qualquer democracia digna do nome.


Mas não demorou para que o STF enxergasse no Inquérito 4.781 um meio de controlar, de forma inconstitucional, o que pode ou não ser publicado na imprensa profissional e nas redes sociais sobre os ministros ou a própria Corte. Em português cristalino: por meio do Inquérito 4.781, o STF, garantidor maior das liberdades constitucionais, tornou-se um órgão de censura. Um mês depois da abertura do inquérito, o ministro relator já impunha censura ao site O Antagonista e à revista Crusoé porque os veículos publicaram uma reportagem, intitulada O amigo do amigo de meu pai, que implicava Dias Toffoli no acordo de colaboração premiada firmado pelo empreiteiro Marcelo Odebrecht. Para lhe fazer justiça, Moraes logo reconheceu seu erro e revogou a censura aos veículos, mas o gênio já havia saído da garrafa.


E assim, de abuso em abuso, de censura em censura, chega-se a quase 2,2 mil dias de uma investigação que, a despeito de sua legitimidade inicial, há muito já deveria ter sido encerrada com o indiciamento de suspeitos sobre os quais recaiam indícios de autoria e materialidade de crimes ou o arquivamento. É inaceitável, a menos que não estejamos mais sob a égide da ordem constitucional democrática, que um inquérito perdure indefinidamente – seja por sua inconsistência material, seja pela conveniência de seu relator."

STF

 https://www.estadao.com.br/opiniao/carlos-alberto-di-franco/a-nefasta-hipertrofia-do-stf/


*A nefasta hipertrofia do STF*


_Quando a Suprema Corte age como polícia, promotoria e tribunal, o risco de abuso de poder se torna evidente_


Por Carlos Alberto Di Franco  17/03/2025


"O Brasil vive tempos inquietantes. A democracia, que deveria se firmar sobre o equilíbrio entre os Poderes, vê-se ameaçada por um protagonismo exacerbado do Supremo Tribunal Federal (STF). Não se trata aqui de uma análise política, mas de um alerta institucional de quem tem consciência da enorme importância e responsabilidade da Corte Suprema.


O tribunal, que deveria ser o guardião da Constituição, tornou-se, na prática, um superpoder, extrapolando suas funções e avançando sobre as prerrogativas do Legislativo e do Executivo. A invasão de competências, longe de fortalecer a Justiça, gera insegurança jurídica e fragiliza a democracia. A liberdade de expressão, pedra angular de qualquer democracia sólida, tem sido relativizada em nome de uma suposta defesa da ordem democrática.


A censura disfarçada, sob o pretexto de “combate à desinformação”, tornou-se prática recorrente. Perfis são derrubados, jornalistas são silenciados, cidadãos são intimados sem amplo direito de defesa. O devido processo legal, princípio sagrado em qualquer nação civilizada, parece ser um detalhe incômodo diante da síndrome persecutória de um Judiciário que se transformou em ator político.


O artigo 5º da Constituição Federal estabelece, de forma cristalina, que ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal. No entanto, decisões monocráticas do ministro Alexandre de Moraes têm ignorado essa garantia, impondo bloqueios financeiros, prisões arbitrárias e sanções sem a devida tramitação judicial. O inquérito das fake news, do qual o ministro é vítima, investigador e juiz, é um tiro de morte no princípio da imparcialidade, base elementar da Justiça.


O inquérito não apenas atropela o Ministério Público, que constitucionalmente tem a prerrogativa de conduzir investigações, mas também viola direitos fundamentais, impondo censura prévia e restringindo a liberdade de expressão sob justificativas nebulosas. A falta de transparência e de critérios objetivos no processo torna a perseguição política uma ameaça real. Quando a Suprema Corte age como polícia, promotoria e tribunal, o risco de abuso de poder se torna evidente.


Um dos pilares do Estado de Direito é a previsibilidade jurídica. No entanto, o STF tem reiteradamente modificado entendimentos sobre o foro privilegiado sem qualquer respaldo legislativo. A Constituição estabelece regras claras sobre o foro especial para determinadas autoridades, mas o Tribunal, apoiado em crescente politização, reconfigura o ordenamento jurídico sem o devido processo legislativo. Lula, ex-presidente, foi, corretamente, julgado em primeira instância. Agora, Bolsonaro, também ex-presidente e sem foro privilegiado, será julgado pelo STF. Como salientou o ex-ministro Marco Aurélio Mello, o STF, pior do que acontecia na época do regime de exceção, se declarou competente para as ações penais relativas ao 8 de Janeiro. E, até o momento, não existe detentor da prerrogativa de ser julgado criminalmente pelo STF. Decisão extravagante que, mais uma vez, corrói a credibilidade da Corte.


Ao atropelar competências do Congresso Nacional e reinterpretar dispositivos constitucionais conforme interesses momentâneos, o STF age como legislador e compromete a harmonia institucional. O império das leis cede espaço ao império das vontades.


Outro ponto que revela o ativismo preocupante do STF é a sequência de decisões que favorecem a impunidade. A Operação Lava Jato, responsável por revelar esquemas bilionários de corrupção, sofreu sucessivos golpes vindos da Corte. Decisões anulando condenações, reinterpretando prazos prescricionais e desqualificando colaborações premiadas desmontaram a maior iniciativa anticorrupção da história do País.


O mais emblemático desses retrocessos veio com as decisões do ministro Dias Toffoli, que reescreveram a história recente ao declarar nulos processos inteiros, sob a justificativa de supostas irregularidades.


A Transparência Internacional denunciou recentemente à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA) o que classificou como um “desmonte das políticas de combate à corrupção” no Brasil.


Réu confesso, Antonio Palocci fechou acordo de colaboração premiada e delatou propinas de R$ 333,59 milhões supostamente arrecadas e repassadas por empresas, bancos e indústrias a políticos de diferentes partidos durante os governos de Lula e Dilma. Pois bem, os crimes foram apagados por uma canetada de Dias Toffoli. Com uma ponta de compreensível melancolia, a Transparência Internacional encerra sua denúncia com a seguinte constatação: “Se o Brasil antes exportava corrupção, agora exporta impunidade”.


É imperativo que o Congresso Nacional retome seu protagonismo e que a sociedade civil esteja atenta. O Brasil precisa de um STF forte, mas dentro dos limites institucionais que a Constituição impõe. A Justiça só cumpre seu papel quando é imparcial e previsível. Quando o arbítrio se traveste de legalidade, a liberdade se torna refém da força. O Brasil precisa despertar. Ainda há tempo."

Bankinter Portugal Matinal 1903

 Análise Bankinter Portugal


SESSÃO: Ontem, Europa conseguiu subir +0,7%, apesar das quedas nos EUA (-1,1%), graças à aprovação por parte do Congresso alemão (Bundestag) da flexibilização do limite da dívida, que abre a porta a um aumento de investimento em defesa e a um plano de infraestruturas de até 500.000M€ a 10 anos. O otimismo gerado por estas medidas vê-se também refletido no ZEW alemão, que melhorou em março até se situar próximo a níveis pré-guerra da Ucrânia (51,6 desde 26,0 ant.). 


Hoje, a atenção está na Fed (18 h). É praticamente certo que manterá taxas de juros no intervalo 4,25%/4,50%, mas o realmente importante será a revisão do quadro macro, num momento em que a preocupação se foca no impacto das medidas alfandegárias de Trump sobre o crescimento. O mais provável é que reveja em baixa o crescimento, desde +2,1% estimado na última revisão para 2025, e em alta a inflação, desde +2,5% anterior. Isto permitirá a Powell manter o tom hawkish das suas últimas comparências. Também em bancos centrais, conhecemos esta madrugada a decisão de taxas de juros do BoJ, que as manteve sem alterações em +0,50% (em linha com o esperado), com uma mensagem cautelosa apesar de uma inflação que se situa em +4% em janeiro. Outro banco central que prefere esperar para ver as consequências das políticas alfandegárias antes de dar os próximos passos. Este será o tom geral a partir de agora entre os principais bancos centrais.


O mais provável é que as bolsas retrocedam hoje. Num contexto de menor crescimento económico, taxas de juros altas durante mais tempo e prémios de risco ainda elevados, há poucos argumentos para que as bolsas subam.


S&P500 -1,1% Nq100 -1,7% SOX -1,6% ES-50 +0,7% VIX 21,7% +1,19pb. Bund 2,82%. T-Note 4,28%. Spread 2A-10A USA=+24,0pb B10A: ESP 3,43% ITA 3,86%. Euribor 12m 2,42% (fut.12m 2,3%). USD 1,091. JPY 163,2. Ouro 3.035$. Brent 70,1$. WTI 67,5$. Bitcoin -2,3% (82.014$). Ether -1,6% (1.905$).


FIM

Ailton Braga

  Hoje, 02/02/2026, saiu no Blog do IBRE da FGV, artigo meu em que faço análise da interação entre política fiscal e política monetária, a p...