sábado, 9 de maio de 2026

Conrado Hübner

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 *Parece normal, mas não é legal* 


Conrado Hübner Mendes


Folha de S. Paulo, 6/5/2026


Não é normal ministro do STF fazer piada homofóbica com governador de estado, nem chamar o sotaque mineiro de "dialeto próximo do português", "uma língua lá do Timor Leste". Ou chamar ex-procurador-geral da República de "bêbado" e "inimputável", ou decidir com base na frase "parlamentares da Assembleia recebiam mesada do jogo do bicho". Nem ministro do STJ, cujo filho advogado atua em tribunais superiores, dizer "Brasília está ficando difícil", "todo mundo vendendo voto por aí, Brasil afora".


Não é normal enriquecer por meio de parente-advogado especializado em azeitar movimento processual, não em formular argumento jurídico, seja para acelerar, seja para protelar o caso. E se associar a seu pai, marido ou irmão ministro para gerar receita na família, o parentesco com fins lucrativos na Justiça.


Não é normal magistrado voar em jato de advogado, empresário ou de "amigo". E chamar isso de "carona". E o advogado remover seu nome da procuração do cliente e adicionar nome de advogado parceiro quando o caso chega ao tribunal do ministro caronista. A suspeição não some pelo mal disfarçado ajuste na procuração.


Não é normal investir na obtenção de acesso exclusivo a magistrados e chamar de devido processo legal, abusar de chicanas e chamar de ampla defesa, praticar o lobby e chamar de prerrogativa da advocacia. Fraudar regras de imparcialidade do sistema de Justiça não é normal. Nem pelo magistrado, nem pelo advogado.


Não é normal ser sócio oculto de parentes em empreendimento com master-financiamento, nem frequentar master-eventos na presença de, ou patrocinado por, quem financia. E ainda tomar decisões que interessem ao financiador, apesar da master-suspeição.


Não é normal o PGR ignorar tanto indício.


Não é normal disfarçar remuneração com penduricalho, logo isento de imposto, e assim violar limite constitucional. Novos ensaios de imaginação institucional da fraude estão em curso. Não é normal o STF criar sobreteto.


Não é normal, no Estado de Direito, advogado público ser remunerado não só pelo salário, mas por honorários de sucumbência. E ainda pleitear autorização para advocacia privada nas horas livres. E buscar autonomia orçamentária.


Não é normal o STF renunciar a jurisdição, encaminhar caso para "negociação" de direitos e abrir mesa de conciliação entre violador e violado. Em vez de dizer o direito, vira cartório de acordo forçado.


Não é normal ser magistrado e atuar no comércio por empresa educacional, agrícola ou imobiliária. Em nenhum lugar é normal ministro dar palestras em bancos ou eventos de lobby, ou dar aulinhas em cursinhos sobre como advogar no seu tribunal.


Esse inventário exemplificativo de comportamentos normalizados ressalta a força normativa do normal, do repetido e rotinizado. Impõe o silogismo "normal, portanto legal", contrabando analítico com graves efeitos jurídicos.


A transmutação do normal para o legal é das operações mais insidiosas da corrupção pública. Se a normalidade ilegal suplanta a legalidade, estamos com o juízo normativo atrofiado e instituições se blindaram desse juízo em benefício próprio. Mistura de acrasia com anomia, de fraqueza da vontade com regra sem dente.


O império da normalidade pode não ser o império da lei. Quando normalidade se impõe sobre legalidade, o regime passa a ser o do mais forte."

Um nobel pela teimosia

 Uma jovem cientista húngara, o marido e a filha de dois anos embarcam num avião rumo aos Estados Unidos. Dentro de um ursinho de peluche, escondidas entre costuras improvisadas, estão 900 libras — tudo o que possuem. Dinheiro obtido ao vender o carro no mercado negro, fugindo de uma Hungria comunista que não lhes oferecia futuro.


O nome dela é Katalin Karikó. Tem 30 anos. Um doutoramento em bioquímica. E uma convicção solitária, quase teimosa: o RNA mensageiro poderia um dia ensinar as células humanas a combater doenças.


Ela ainda não sabe, mas o caminho à frente será feito de rejeições constantes, portas fechadas e quase desistência. Nem imagina que, décadas depois, o seu trabalho salvaria milhões de vidas.


Karikó começa em Temple University, na Filadélfia. Quatro anos depois, entra em conflito com o supervisor. Ele chega a denunciá-la às autoridades de imigração. Ela enfrenta o risco de deportação. Uma oportunidade em Johns Hopkins University desaparece. A carreira quase termina antes mesmo de começar.


Ela recomeça na University of Pennsylvania. Continua a insistir no RNA mensageiro. Mas ninguém quer financiar. E, na ciência, sem financiamento… você simplesmente deixa de existir.


O RNA era evitado. Instável. Frágil. Difícil de trabalhar. Experiências falhavam. Quando Karikó insistia que o problema não era a molécula, mas a forma como estava a ser manipulada, ninguém ouvia.


Em 1995, recebe um ultimato: abandonar o RNA ou aceitar uma despromoção. Ao mesmo tempo, é diagnosticada com cancro. O marido permanece preso na Hungria por problemas de visto. Tudo aquilo que construiu começa a desmoronar.


Ela aceita a despromoção.


O salário cai abaixo do da sua própria técnica. Depois, outra despromoção. E mais outra. Quatro vezes ao todo. Começa a duvidar de si mesma. Pergunta-se se não será simplesmente insuficiente. Pensa em abandonar a ciência.


Então, em 1997, algo aparentemente banal muda tudo: um encontro junto a uma fotocopiadora.


Ela conhece Drew Weissman.


Ele procura desenvolver uma vacina contra o HIV. Ela diz-lhe: “Posso produzir qualquer RNA que precisar.”

Ele escuta.


E, às vezes, tudo começa com alguém disposto a ouvir.


Durante anos, trabalham no silêncio. Sem prestígio. Sem financiamento. Sem atenção das grandes revistas científicas. Mas continuam.


Em 2005, alcançam o ponto de viragem: descobrem como modificar o RNA mensageiro para que o sistema imunitário não o destrua. Uma pequena alteração. Uma descoberta decisiva.


Submetem o artigo. A revista Nature rejeita. A Science rejeita. O estudo acaba publicado em Immunity — e quase ninguém presta atenção.


Em 2013, Karikó é afastada da universidade. Tem 58 anos. Nenhuma instituição americana a quer. Aceita um trabalho numa pequena empresa alemã: BioNTech. Durante anos, vive entre países, continua a fazer experiências, continua a acreditar.


E então chega 2020.


O mundo enfrenta uma pandemia devastadora: COVID-19. Milhões morrem. O tempo é escasso. A humanidade precisa de uma vacina — rápida, eficaz, inédita.


E a tecnologia que ninguém quis… torna-se a resposta.


As vacinas da Pfizer-BioNTech e da Moderna são construídas com base no RNA mensageiro que Karikó passou a vida a desenvolver. As primeiras vacinas de mRNA aprovadas na história. Responsáveis por salvar milhões de vidas.


Quando descobre que os testes funcionaram, ela celebra sozinha — comendo uma caixa inteira de amendoins cobertos de chocolate.


No dia 2 de outubro de 2023, Katalin Karikó e Drew Weissman recebem o Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina.


Ela nunca se tornou professora titular. Nunca seguiu o caminho que lhe disseram ser “o certo”. Foi despromovida, ignorada, desacreditada. Disseram-lhe, repetidamente, que o seu trabalho não valia nada.


Mas ela continuou.


Quando perguntam como resistiu, a resposta é desarmante:

Ela não trabalhava por reconhecimento. Sentia-se bem-sucedida por fazer aquilo em que acreditava.


A rejeição não significava que estava errada.

Significava apenas que estava adiantada ao seu tempo.


Ela não persistiu à espera de um Nobel. Persistiu porque a ciência importava.


E quando o mundo mais precisou… a sua descoberta estava pronta.


Ela carregou toda a sua vida dentro de um ursinho de peluche.

Disseram-lhe para parar.

Ela não parou.


E, por causa disso, o mundo teve uma hipótese de sobreviver.

Projetos...

  A VERDADE É SIMPLES. Todo projeto bem-sucedido começa com uma decisão poderosa: planejar antes que apareçam problemas. Pesquisas mostram q...