domingo, 10 de maio de 2026

Gestao de recursos

 *Leitura de Domingo: IA ajuda gestão de patrimônio, mas conversa com humano continua fundamental*


Por Eduardo Puccioni


São Paulo, 06/05/2026 - A inteligência artificial (IA) chegou para mudar a indústria de investimentos. Fabio Kokumai, diretor de contas da Salesforce, destaca que "a tendência é clara". "Há transição tecnológica relevante na indústria. A IA ajuda muito o advisor a administrar ainda mais as carteiras, ajudando a enriquecer o dia a dia com informações sobre os clientes", disse Kokumai em painel durante a 3ª edição do Gorila Wealth Trends em São Paulo.


Embora a tecnologia tenha substituído o trabalho do profissional, um ponto é claro para o diretor da Salesforce. O assessoramento do investidor carece de contato humano. "O relacionamento pessoal ainda segue sendo o mais importante entre advisory e cliente", diz o executivo da empresa de tecnologia.


Gustavo Torres, responsável pela área de inovação e experiência do C6 Bank, tem o mesmo entendimento. Ele diz que a relação entre o advisory e o cliente é fundamental para o profissional saber detalhes e ter maior conhecimento sobre as demandas. "Hoje já temos o C6 Assistant, que realiza operações mais comuns. O cliente recebe um pedido de PIX por Whatsapp, tirando um print da tela e colocando no aplicativo do banco ele faz o PIX automático. Essa é uma operação simples, a questão são as operações mais elaboradas", afirma Torres, em palestra durante o evento Gorila Wealth Trends.


Guilherme Assis, CEO do Gorila, destaca a facilidade e otimização de tempo do advisory com tarefas do dia a dia feitas por IA, como uma transcrição de uma reunião, unificação de dados dos clientes e consolidação de carteiras. "A IA tem beneficiado o mercado e trazido ganho de escala para investidores que podem ser atendidos por uma máquina, onde não há profissionais suficientes para atendê-los [investidores de menor renda, que geralmente são atendidos por bancos tradicionais]."


Torres, do C6, lembra ainda que a tecnologia traz uma mudança de comportamento que precisa ser adaptada pelo advisory, pois os clientes vão chegar cada vez mais munidos de informações. "Toda tecnologia gera uma mudança de comportamento. Neste momento, o importante é saber qual será a mudança de comportamento com a chegada da IA. No dia a dia, temos utilizado a IA para nos munir de informações. Antes de ir à uma consulta médica, costumo consultar a IA para saber qual problema posso ter. Esse é um exemplo de como as pessoas estão se munindo de informações antes de conversar com um profissional", explica Torres.


Contato: eduardo.puccioni@estadao.comm


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Influência de Vorcaro

 *PF apura influência de Vorcaro em projetos no Congresso para beneficiar negócios que vão de energia a crédito de carbono*

A suspeita dos investigadores é que dono do Master tenha atuado para modificar os projetos enquanto ainda eram discutidos


Por Victoria Azevedo , Eduardo Gonçalves e Thiago Faria — Brasília 10/05/2026 03h30 Atualizado há 4 horas


Foco da operação deflagrada na semana passada pela Polícia Federal (PF), a influência do ex-banqueiro Daniel Vorcaro no Congresso tinha como pano de fundo, de acordo com as investigações, o interesse em projetos que poderiam impactar seus negócios. A apuração identificou que a agenda legislativa do fundador do Banco Master incluía uma proposta que regulamentou o mercado de carbono no Brasil, área em que Vorcaro possuía investimentos, e outra que tratava sobre transição energética.


Ao autorizar buscas em endereços do senador Ciro Nogueira (PP-PI), o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), também cita uma emenda apresentada pelo parlamentar para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) a investidores. A medida, que não chegou a ser aprovada, beneficiaria o Master, que tinha a garantia do fundo como uma das principais estratégias de negócio para alavancar investimentos em seus Certificados de Depósitos Bancários (CDBs). Em sua decisão, porém, Mendonça faz a ressalva de que “não teria sido um episódio isolado”, ao mencionar essas outras duas propostas.


A suspeita dos investigadores é que Vorcaro também tenha atuado para modificar os projetos enquanto ainda eram discutidos no Congresso. A PF aponta que, em novembro de 2023, o ex-dono do Master ordenou a retirada, na casa de Nogueira, de envelopes com minutas de projetos de lei para que fossem revisados e, posteriormente, devolvidos a um servidor vinculado ao parlamentar. O senador do PP, contudo, não chegou a apresentar emendas nesses projetos. Procurado, ele também negou ter feito qualquer pedido em relação aos textos. A defesa de Daniel Vorcaro, disse que não iria comentar.


*Emenda de Motta*


No caso do projeto sobre mercado de carbono, as suspeitas de autoridades recaem sobre uma emenda apresentada pelo atual presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), em dezembro de 2023, quando ainda não havia assumido o cargo. O deputado é próximo de Nogueira, que trabalhou para que o aliado fosse escolhido como sucessor de Arthur Lira (PP-AL) no comando da Casa.


Motta nega ter tratado do assunto com Nogueira. Ele diz que a emenda apresentada foi “resultado de um acordo partidário” e destacou que “o ato de legislar não é crime”. “A emenda apresentada garante que parte do faturamento do setor de seguros seja voltada para a compra de crédito de carbono como forma de assegurar a aplicação de recursos na sustentabilidade ambiental, principalmente quando se trata de atividades poluidoras. Ao aprovar a emenda, o Legislativo considerou que ela cumpre os critérios constitucionais”, diz, em nota.


O mercado de carbono é um instrumento usado por empresas para compensar suas emissões de gases de efeito estufa. Elas podem comprar títulos lastreados em projetos que reduzem emissões ou capturam carbono da atmosfera, os chamados créditos de carbono. O mecanismo é considerado essencial para estimular medidas de combate ao aquecimento global.


A emenda apresentada por Motta, e que foi incorporada à versão final da lei, obriga entidades de previdência privada, sociedades de capitalização e resseguradoras a investir um percentual mínimo de suas reservas em créditos de carbono ou em fundos ligados a esses ativos. Na prática, a medida criou um mercado cativo, beneficiando empresas que atuam no setor.


Uma dessas empresas é a Golden Green Participações, criada para operar no mercado de carbono, e que, segundo a PF, tinha conexões com a teia de fundos do Banco Master. A Golden Green recebia recursos do fundo Jade, abastecido com aportes que tinham o banco de Vorcaro como origem. A movimentação de recursos por fundos é vista por investigadores como uma forma de dificultar a identificação dos cotistas dos fundos.


Além da Golden Green, outra empresa que atua no setor, a Global Carbon, possuía investimentos de fundos ligados à rede de Vorcaro. Esses fundos eram administrados pela Reag, que teve sua liquidação determinada pelo Banco Central por suspeita de fraude financeira.


Após a sanção da lei, a emenda apresentada por Motta foi questionada judicialmente pela Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capitalização (CNseg). Em ação no STF, a entidade pede a suspensão imediata do dispositivo e prevê que a obrigação imposta a empresas do setor injetará até R$ 9 bilhões ao ano, valor maior do que o mercado de carbono conseguiria absorver.


Shigueo Watanabe Jr., pesquisador do Climainfo, diz que a emenda, tal qual foi redigida, faz com que as seguradoras, que “não têm nada que ver com mercado de carbono, porque não têm emissão para reduzir”, terão de reservar esses valores, já que cria um mercado cativo.


— Não existe nada mais capitalista do que ter mercado cativo, é o sonho dourado de toda empresa. Todo mercado de carbono funciona para que as indústrias possam ir calibrando que horas elas vão mudar de patamar e parar de queimar combustíveis fósseis e não ter mais que comprar crédito de carbono. Do jeito que está, as seguradoras nunca vão conseguir se livrar disso — disse ele.


*Transição energética*



Outro projeto de lei que a PF cita como fruto de interesse de Vorcaro é o que criou o Programa de Aceleração da Transição Energética (Paten). A proposta prevê a criação do chamado Fundo Verde, administrado pelo BNDES, para financiar iniciativas ligadas à transição ecológica.


Na prática, o fundo permitirá que as empresas usem créditos que têm a receber da União — valores muitas vezes parados em disputas ou compensações tributárias — como uma espécie de garantia para obterem linhas de financiamento em instituições financeiras, desde que os projetos estejam ligados a agendas e iniciativas ambientais.


Já no caso da emenda que ampliava a proteção do FGC a investidores, a Polícia Federal aponta que o conteúdo foi redigido pela assessoria do Banco Master, e “reproduzida de forma integral” por Ciro Nogueira ao apresentar a proposta. A medida, que não chegou a ser aprovada, ampliava de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura de investimentos garantidos pelo fundo.


Mensagem obtida pela PF aponta que Vorcaro chegou a comemorar a publicação da proposta de emenda: “Saiu exatamente como mandei”, escreveu o dono do Master, de acordo com as investigações.


https://oglobo.globo.com/google/amp/politica/noticia/2026/05/10/pf-apura-influencia-de-vorcaro-em-projetos-no-congresso-para-beneficiar-negocios-que-vao-de-energia-a-credito-de-carbono.ghtml

Omissão sistêmica

 *Vorcaro soube usar 'omissão sistêmica' em favor do Master*


Para especialistas, servidores não têm devida blindagem para atuar preventivamente contra riscos de fraudes Nos EUA, incentivo a denúncias é tão estruturado que oferece até prêmio em dinheiro para quem apontar irregularidades


9.mai.2026 às 12h01


Na semana passada, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Flávio Dino expressou a dúvida que acomete a todos quando se trata das irregularidades do Banco Master: "Como ninguém viu? O elefante é grande, está pintado de azul, desfilando na frente de todo mundo."


Especialistas divergem sobre quais mecanismos alimentaram essa cegueira em tantas instituições públicas e privadas, por tanto tempo, até o escândalo se tornar público com a liquidação do Master e a prisão de Daniel Vorcaro em novembro do ano passado.


No entanto, concordam num ponto: Vorcaro e seus companheiros não inventaram nada novo e souberam usar a favor do Master os sistemas regulatório, político e jurídico que incentivam a omissão, não a denúncia, abrindo espaço para a fraude bancária mais custosa da história do país.


As estimativas apontam prejuízos de R$ 60 bilhões. A título de comparação, superam as principais crises bancárias dos últimos 20 anos e até as perdas apuradas pela Lava Jato, que ficaram entre R$ 29 bilhões, segundo o TCU (Tribunal de Contas da União) e R$ 42 bilhões, pelas estimativas de PF (Polícia Federal).


O advogado José Andrés Lopes da Costa, especialista em regulação bancária, acompanhou as crises de instituições como Santos, Panamericano e Cruzeiro do Sul. Ele conta que, apesar de o Brasil ter leis robustas e profissionais competentes, a dinâmica da omissão foi contaminando as estruturas de regulação e fiscalização nos últimos anos, produzindo distorções cada vez maiores.


Nesse contexto, ele apresenta duas leituras possíveis para explicar como o caso Master escalou.


"A primeira é a do escândalo. Houve gente que deveria ter visto e não viu, ou que viu e tapou os olhos, ou que, tendo visto, preferiu nada dizer. Essa é a leitura da falha individual, do conluio, que oferece vilões ao público, permite que se troquem nomes e a história prossiga, mantendo intactas as estruturas que geraram a crise", afirma o advogado.


"A segunda leitura é mais técnica e incômoda. Os sistemas regulatório, político e jurídico, incluindo o do funcionalismo público de carreira, não oferecem incentivos à reação. Isso faz com que cada agente, ao ponderar seus próprios riscos e ganhos, perceba que tem mais a perder vendo do que não vendo."


O próprio caso Master produziu exemplos dessa dinâmica.


Em 2024, três gestores da Caixa Asset, braço de investimentos da Caixa Econômica Federal, redigiram um relatório contra a compra de R$ 500 milhões em letras financeiras do banco de Daniel Vorcaro. A operação foi considerada arriscada e suspeita. O trio foi afastado de suas funções.


Em 2025, a diretoria da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) julgou um polêmico caso da Ambipar, envolvendo o Master e o empresário Nelson Tanure numa suspeita de manipulação de mercado. O então presidente da autarquia, João Pedro Nascimento, votou contra o pleito das empresas e, nove dias depois, renunciou.


O interino que assumiu na sequência, Otto Lobo, reverteu o voto, dando ganho de causa às empresas. Em janeiro deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva indicou Lobo para ficar em definitivo na presidência da CVM.


"O Brasil precisa redesenhar a estrutura de prêmios e punições da burocracia regulatória, blindar institucionalmente o agente que reporta irregularidades, criar caminhos de progressão de carreira que premiem a coragem em vez de penalizá-la, alterar os mecanismos de financiamento político que tornam a omissão racionalmente preferível ao testemunho. É trabalho de décadas", afirma Costa.


O economista e colunista da Folha Marcos Lisboa chama a atenção para dois outros componentes que incentivam a letargia do sistema.


O primeiro é o risco de sanções para quem tenta evitar a crise antes que ela tenha espalhado prejuízos e feito número suficiente de vítimas para se tornar incontestável. "Servidores que ousem atuar preventivamente, na tentativa de evitar uma fraude, podem ser acionados na Justiça, em processos que se prolongam por anos, ou enfrentarem questionamentos do TCU", diz.


Há também exemplo desse risco. O TCU questionou o Banco Central sobre a liquidação do Master. O ministro Jhonathan de Jesus apurou possível "precipitação" e exigiu explicações.


Os Estados Unidos oferecem o ambiente oposto. Quem faz um alerta preventivo não sofre penalidades caso não se confirme, e quem dá dica certeira pode até receber prêmio em dinheiro. Lá existe a figura do "whistleblower", o tocador de apito.


A False Claims Act, de 1863 e reformada em 1986, autoriza qualquer cidadão a propor ação civil em nome do governo federal contra fraudadores e garante ao denunciante de 15% a 30% dos valores recuperados. O Dodd-Frank Act, de 2010, em resposta à crise de 2008, criou o programa de whistleblowers na SEC (Securities and Exchange Commission, a agência regulatória do mercado de capitais). O denunciante recebe de 10% a 30% das sanções acima de US$ 1 milhão (R$ 5 milhões) quando a informação leva a uma ação bem-sucedida.


Outro problema, diz Marcos Lisboa, está na esfera privada: o tratamento difuso dado à responsabilidade solidária no mercado financeiro. Segundo o Código de Defesa do Consumidor, todos os integrantes da cadeia de fornecimento —fabricante, distribuidor, comerciante— respondem por um produto.


"Assim como um supermercado é responsável pelo molho de tomate que vende, ainda que não o tenha fabricado, as corretoras são responsáveis pelos produtos financeiros que oferecem e devem alertar os investidores. Bastava ler os balanços do Master para ver o tamanho do risco de seus CDBs, por exemplo."


As demonstrações financeiras de 2020 e 2021, por exemplo, mostravam que o Master já concentrava parcela elevada de seus ativos em precatórios e direitos creditórios federais, que têm liquidez incerta e difícil precificação. Em 2023, cerca de 80% da carteira de títulos do banco era composta por fundos ligados a ativos de baixa liquidez e avaliados principalmente por modelos internos, e não por preços transparentes de mercado.


Em 2024, o balanço trouxe sinais de fragilidade financeira. Dos R$ 18,4 bilhões registrados como depósitos interfinanceiros —operações entre instituições— R$ 17,9 bilhões vinham de partes relacionadas. Isso indicava forte dependência de recursos ligados ao próprio grupo econômico, e falta de apoio do mercado interbancário tradicional.


O economista Roberto Teixeira da Costa, um decano com 50 anos de atuação no mercado de capitais e autor do livro "Crises Financeiras - Brasil e Mundo (1929-2023)", diz que era possível identificar a fragilidade do Master até de forma intuitiva. Segundo ele, se um CDB paga muito acima do mercado, por si só, já é um alerta.


"Jamais aplicaria naquilo. Então, entrou aí o componente ganância. Houve pagamentos de comissões altas para a distribuição do papel, e muitas pessoas sacrificaram o raciocínio lógico à espera de ganhos um pouco maiores", afirma.


Teixeira da Costa lembra que a proteção do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) ajudou a sustentar a estratégia de captação agressiva do Master. Como os CDBs têm cobertura de até R$ 250 mil por CPF e por instituição, muitos investidores aceitavam taxas elevadas sem considerar o risco. Por isso, defende que o instrumento seja recalibrado.


"O FGC foi uma criação importante, porque permitiu que os títulos emitidos por bancos de menor porte pudessem ter acolhida, mas não se previu abusos. Agora, acho que deveriam revê-lo para reembolsar, vamos dizer, 75% do valor investido. Isso obrigaria as pessoas a avaliarem se querem assumir riscos."


O advogado Guilherme France, da Transparência Internacional, chama a atenção para um grande diferencial da fraude do Master que promove a dissuasão indiretamente: a presença de altas autoridades na rede de influência criada por Daniel Vorcaro.


"Essa rede, pelo que estamos constatando, reuniu representantes nos três Poderes —desde parlamentares em altas posições do Congresso Nacional, ministros do Supremo, pessoas no Executivo em cargos de ministério", afirma France.


Na avaliação dele, mesmo que passivamente, essa rede serve para intimidar.


"Se há proximidade de ministros do Supremo, qual o incentivo para um procurador da República em São Paulo investigar o dono deste banco? Qual o incentivo para um analista da CVM apontar uma irregularidade? A gente já viu fraudes bancárias maiores em outros países, mas tal captura dos Poderes da República para evitar responsabilização é inédita. Vorcaro inaugurou aí um novo patamar."


https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/05/vorcaro-soube-usar-omissao-sistemica-em-favor-do-master.shtml

Dinheiro, direito e política

 Dinheiro, direito e política


Pedro S. Malan ECONOMISTA, FOI MINISTRO DA FAZENDA


Toda sociedade produz hierarquias, desigualdades e conflitos de razão e interesse. Mas democracias dignas deste nome procuram combater excessos


A oligarquia dos Poderes e a crise da democracia é o título do livro de Joaquim Falcão, prestes a ser publicado. Foi Falcão quem me presenteou, anos atrás, com How Democratic is the American Constitution?, livro de Robert Dahl, um dos mais influentes cientistas políticos norte-americanos no século 20, falecido em 2014. Nessa obra, Dahl formula uma pergunta que considera tão relevante quanto assustadora: “Será que os Poderes constitucionais dos Estados, do governo federal e dos três ramos principais deste último são apropriados para as nossas necessidades e valores democráticos de hoje?”


Dahl lembra que direitos implicam deveres e também oportunidades: o que significaria liberdade de expressão se não houvesse oportunidade de se manifestar livremente? E acrescenta um quarto elemento: os recursos para o exercício de direitos e oportunidades (e deveres), cujo caráter indispensável o autor ilustra ao auxílio de cenário ficcional.


Trata-se de uma reunião com alto número de participantes e que deve alcançar importante decisão. O moderador anuncia que, para assegurar a todos a liberdade de expressão, o uso da palavra estaria limitado a dois minutos. Até aí tudo parece razoável. Deixa de sê-lo quando acrescenta: “Depois que todos que quiserem falar tiverem exercido esse direito, cada minuto adicional será leiloado para quem der o lance mais alto”. A grita dos cidadãos reunidos seria imediata e contundente. Mas prossegue Dahl: “No entanto, essa foi a decisão da Corte Suprema dos EUA no famoso caso Buckley versus Valeo (1976).” A Corte decidiu que a garantia de liberdade de expressão da Primeira Emenda da Constituição dos EUA restava violada pela legislação eleitoral por força da imposição de limites de gastos a candidatos ou seus simpatizantes. Gastar dinheiro para difundir mensagens políticas constitui, no entendimento da Corte, forma de expressão protegida pela Constituição. Tendo reconhecido a complexidade da discussão, Dahl conclui que “existem falhas profundas numa constituição se a mais alta corte judiciária do país pode interpretá-la de modo a impor barreira intransponível à obtenção de grau satisfatório de igualdade política entre seus cidadãos”.


Passadas duas décadas dessa pertinente reflexão, o aumento expressivo da concentração de riqueza observado desde então tornou ainda mais relevante e oportuna a preocupação com o poder do dinheiro nas eleições. Em particular, por meio dos chamados super PACs (“political action committees”), que não podem doar diretamente a campanhas, mas podem gastar sem limites em propaganda política (nas redes sociais, internet, televisão) e que constituem o veículo por excelência de apoio financeiro de megadoadores.


Em janeiro de 1961, em seu pronunciamento de despedida da Presidência dos EUA, Dwight Eisenhower utilizou publicamente pela primeira vez a expressão “Complexo Industrial Militar”. No discurso, alertou para o crescente poder da aliança entre as Forças Armadas, a indústria de armamentos e interesses políticos associados. A expressão teve enorme repercussão à época porque Eisenhower havia sido presidente por dois mandatos e comandante supremo das forças aliadas na Europa. Não lhe faltavam, portanto, credenciais para alertar contra o risco de pressão pela agudização de conflitos, levando a um estado permanente de mobilização para a guerra.


Nos dias atuais, a expressão mais apropriada talvez fosse “complexo digital-industrial-militar”, dado o peso crescente das grandes empresas de tecnologia e o inexorável uso da inteligência artificial na indústria de armamentos. A propósito, Trump encaminhou ao Congresso norte-americano pedido de aumento do orçamento de Defesa para US$ 1,5 trilhão no ano fiscal que começa em 1.º de setembro deste ano. O orçamento para o ano fiscal 2025/2026 já havia sido 20% maior do que o do ano anterior. Estamos no quarto ano da guerra na Ucrânia. Estamos também no terceiro mês da guerra no Oriente Médio, e sem perspectiva de solução duradoura à vista.


Exatos cem anos atrás, Whitehead escreveu: “It is the business of the future to be dangerous.” A continuação dessa frase é igualmente importante: “And it is among the merits of science to equip the future for its duties” (e está dentre os méritos da ciência o de equipar o futuro para suas tarefas). A tecnologia pode prestar enormes serviços para o progresso da humanidade nas áreas de saúde, educação, energia, clima e meio ambiente, mas também, infelizmente, para a violência e o conflito. E, se é verdade que a guerra, a violência e o conflito têm um longo passado, também é verdade que parecem ter um longo futuro.


Toda sociedade produz hierarquias, desigualdades e conflitos de razão e interesse. Mas democracias dignas deste nome procuram combater excessos de velhas e novas formas de desigualdades, conter inclinações autoritárias e lidar com conflitos sem recurso à violência ou apelos a pretensos “salvadores da pátria”. A exemplo da obra de Dahl, o livro de Falcão também faz perguntas assustadoras que têm relevância e importância, e avalia como estamos nesse processo no Brasil de hoje.

Mães, feliz dia! 

Brasil na moda de novo...

 https://oglobo.globo.com/economia/tony-volpon/coluna/2026/05/brasil-na-moda-de-novoagora-vai.ghtml *Brasil na moda de novo…agora vai?*   _T...