sábado, 11 de janeiro de 2025

Leitura de sábado

 Leitura de Sábado: Fundo Verde encerra posição em inflação implícita longa no Brasil


Por Bruna Camargo


São Paulo, 08/01/2025 - O fundo Verde, da gestora que tem como sócio-fundador Luis Stuhlberger, fez algumas movimentações durante o mês de dezembro, como na renda fixa local, saindo da posição de inflação implícita longa, por conta do preço, enquanto manteve uma pequena posição aplicada (que aposta na queda) em juro real. Além disso, o fundo reduziu sua exposição global, segundo a carta mensal da Verde, divulgada há pouco.


"O cenário para os mercados brasileiros em dezembro continuou extremamente desafiador. A reiterada opção pelo populismo fiscal revelada em novembro cobra um preço alto, e se não fosse a forte intervenção do Banco Central no mercado cambial, teria sido maior ainda", avalia a equipe de gestão da Verde. A carta destaca ainda que, embora a sazonalidade de dezembro sempre mostre saídas cambiais, isso foi "exacerbado pelo pessimismo generalizado que se abateu sobre os agentes econômicos". "A intervenção, em grande escala, atenuou os efeitos imediatos das saídas, mas não pode ser mantida nessa toada."


Na avaliação da gestora, os impactos inflacionários da desvalorização serão sentidos ao longo de 2025 e devem forçar o Banco Central a elevar os juros para "patamares que considerávamos esquecidos". "O modelo econômico de acelerador fiscal com freio monetário segue em direção ao muro, e embora os preços de vários ativos já embutam prêmios de risco bastante significativos, continuamos a manter um posicionamento mais negativo", afirma a equipe de gestão.


Assim, a carta informa que o fundo também está liquidamente vendido (apostando na baixa) em Bolsa brasileira, além de posição vendida em real.


Já olhando para o exterior, a Verde diz que o mundo segue à espera da posse de Donald Trump nos Estados Unidos, e vários ativos já têm reagido a declarações e antecipado efeitos de potenciais medidas. "Em dezembro, o dólar se apreciou novamente, as taxas de juros longas subiram de maneira importante e os mercados acionários perderam força. É uma combinação que aperta as condições financeiras e já embute expectativas importantes sobre novas tarifas, redução de imigração e continuidade de grandes déficits fiscais americanos", descreve a gestora, destacando que, sobre China, Trump tem ficado em silêncio. "Veremos até quando isto dura."


Lá fora, a Verde informa que a posição em juro real nos Estados Unidos foi transformada em uma posição de inflação implícita. Além disso, está vendida em renminbi chinês e iniciou uma "pequena posição" vendida na rúpia indiana. Foram mantidas a alocação em cripto e a posição comprada (que aposta na alta) em petróleo.


Resultado em dezembro


Em dezembro, o Verde FIC FIM apresentou alta de 2,20%, acima do indicador de referência, o CDI, que teve alta de 0,93%. No ano, o fundo acumulou valorização de 12,10%. O resultado do mês passado se deu pelos ganhos em posições tomadas em juros, vendidas em Bolsa local e no real, em crédito e na posição short (vendida) na moeda chinesa. Já as perdas vieram de bolsa global, de uma posição de valor relativo em moedas e de juro real brasileiro.


Contato: bruna.camargo@estadao.com


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Gastos e crise

 Gastos do governo causarão a próxima crise financeira

Daniel Lacalle

As crises nunca são causadas pela construção de uma exposição excessiva a ativos de alto risco. As crises só podem acontecer quando investidores, organismos governamentais e famílias acumulam risco em ativos onde a maioria acredita que há pouco ou nenhum risco.

A crise de 2008 não ocorreu devido às hipotecas subprime. Essas foram as pontas do iceberg. Além disso, Freddie Mac e Fannie Mae, entidades estatais, garantiram os pacotes hipotecários subprime, o que levou inúmeros investidores e bancos a investir neles. Ninguém pode antecipar uma crise decorrente do potencial declínio no preço das ações da Nvidia ou no valor do Bitcoin. De facto, se a crise de 2008 tivesse sido criada pelas hipotecas subprime, teria sido absorvida e compensada em menos de duas semanas.

O único ativo que pode realmente criar uma crise é a parte dos balanços dos bancos que é considerada "sem risco" e, como tal, não requer capital para financiar as suas participações: as obrigações do Estado. Quando o preço das obrigações soberanas diminui rapidamente, o balanço dos bancos diminui rapidamente. Mesmo que os bancos centrais procedam à flexibilização quantitativa, o efeito de contágio sobre outros ativos conduz à destruição abrupta da base monetária e da concessão de empréstimos.

O colapso no preço do ativo supostamente mais seguro, os títulos públicos, ocorre quando os investidores precisam vender suas participações existentes e não comprar a nova oferta emitida pelos Estados. A inflação persistente consome os retornos reais das obrigações compradas anteriormente, conduzindo ao aparecimento de evidentes problemas de solvência.

Em resumo, uma crise financeira serve como prova da insolvência do Estado. Quando o ativo de menor risco perde valor abruptamente, toda a base de ativos dos bancos comerciais se dissolve e cai mais rapidamente do que a capacidade de emitir ações ou obrigações bancárias. De facto, os bancos são incapazes de aumentar o capital ou adicionar dívida devido à diminuição da procura de obrigações soberanas, uma vez que os bancos são vistos como uma aposta alavancada na dívida pública.

Os bancos não provocam crises financeiras. O que cria uma crise é a regulação, que considera sempre os empréstimos aos governos um investimento "sem risco", "sem necessidade de capital", mesmo quando os rácios de solvabilidade são baixos. Como a moeda e a dívida pública estão inextricavelmente ligadas, a crise financeira manifesta-se primeiro na moeda, que perde o seu poder de compra e leva a uma inflação elevada, e depois nas obrigações soberanas.

O keynesianismo e a falácia do MMT levaram a dívida pública global a níveis recordes. Além disso, o peso dos passivos não financiados é ainda maior do que os biliões (triliões na nomenclatura americana) de dólares de dívida pública emitidos. Os passivos não financiados dos Estados Unidos excedem 600% do PIB, de acordo com o Relatório Financeiro do Governo dos Estados Unidos, fevereiro de 2024. Na União Europeia, segundo o Eurostat, a França e a Alemanha acumulam, cada uma, passivos não financiados que ultrapassam os 350% do PIB.

De acordo com Claudio Borio, do Banco de Compensações Internacionais, um excesso de dívida pública pode causar uma correção no mercado de títulos que pode se espalhar para outros ativos. A Reuters relata que grandes déficits orçamentais do governo sugerem que a dívida soberana pode aumentar em um terço até 2028, aproximando-se de US$ 130 biliões (ou triliões na nomenclatura original), de acordo com o grupo comercial de serviços financeiros do Instituto de Finanças Internacionais (IIF).

Os keynesianos sempre dizem que a dívida pública não importa porque o governo pode emitir tudo o que precisa e tem poder tributário ilimitado. É simplesmente falso.

Os governos não podem emitir toda a dívida de que necessitam para financiar as suas despesas deficitárias. Têm três limites claros:

O limite económico: o aumento dos défices públicos e da dívida deixa de funcionar como supostos instrumentos para estimular o crescimento económico, tornando-se um obstáculo à produtividade e ao desenvolvimento económico. Apesar desta teoria completamente falsa, a maioria dos governos continua a apresentar-se como motores do crescimento. Hoje, isso é mais evidente do que nunca. Nos Estados Unidos, cada novo dólar de dívida traz menos de 60 centavos de crescimento nominal do PIB. Em França, a situação é particularmente alarmante, uma vez que um défice de 6% do PIB resulta numa estagnação da economia.

O limite fiscal: o aumento dos impostos gera receitas abaixo do esperado e a dívida continua a aumentar. O keynesianismo acredita no governo como motor de crescimento quando é um fardo que não cria riqueza e só consome o que foi criado pelo setor privado. Quando os impostos se tornam confiscatórios, as receitas fiscais não aumentam e a dívida sobe independentemente disso.

O limite inflacionista: mais impressão de moeda e despesa pública cria uma inflação anualizada persistente, tornando os cidadãos mais pobres e a economia real mais fraca.

Na maioria dos países desenvolvidos, os três limites foram claramente ultrapassados, mas parece que nenhum governo está disposto a reduzir seus gastos e, sem cortes de gastos, não há redução da dívida.

Governos irresponsáveis, esquecendo que o seu papel é administrar recursos escassos em vez de criar dívida, desencadearão a próxima crise. Países como o Brasil e a Índia estão a ver as suas moedas despencarem devido a preocupações com a sustentabilidade das finanças públicas e ao risco de contrair mais empréstimos enquanto a inflação permanece elevada. O euro definhou devido à combinação dos problemas fiscais da França com as exigências dos burocratas para que a Alemanha aumentasse seus gastos com déficit.

Como sempre, a próxima crise será atribuída à queda final que provoca o rompimento da barragem, mas também será causada – como sempre – pela dívida pública. A falta de preocupação dos políticos decorre do facto de os contribuintes, as famílias e as empresas suportarem o peso de todas as consequências adversas. Quando a crise da dívida surgir, keynesianos e políticos astutos argumentarão que a solução exige aumento dos gastos públicos e da dívida. Tu e eu é que vamos pagar.

Amilton Aquino

 Contradições


A semana começou com o entusiasmo em torno do prêmio de melhor atriz para Fernanda Torres. Sim, ela é uma grande atriz e, sem dúvida, mereceu a conquista. O que me incomoda, no entanto, é, primeiro, o estardalhaço em torno de algo até corriqueiro, o que revela nossa carência de ídolos. Segundo, a politização: a insistência do nosso cinema em focar sempre nos mesmos temas, especialmente no fetiche pela ditadura militar que nossa esquerda hipócrita tenta sempre posar de “defensora da democracia”, quando, na verdade, almejava implantar aqui uma ditadura socialista que provavelmente teria provocado um número ainda maior de vítimas.


Até aqui, tudo bem, deu pra relevar a enxurrada de publicações. Difícil mesmo foi engolir Fernanda Torres conversar com Lula e comemorar o fato de ter sido premiada a dois dias do “grande ato em defesa da democracia”. Dois dias depois, Lula, que não foi convidado para a posse do Maduro, mandou um representante para chancelar a ditadura escancarada. 


Ou seja, não é sobre democracia, é sobre ditadura de direita. Se for uma ditadura de esquerda, tudo é permitido: prender, matar opositores, ou provocar a maior onda de imigração de um país sem estar em guerra. Aliás, por enquanto, sem guerra. Afinal, o “democrata” que Lula apoia tem nos provocado há meses, forçando nossas Forças Armadas a deslocar contingentes para a fronteira com o vizinho problemático que agora ameaça invadir a Guiana. Haja narrativa para conciliar tamanha contradição.

E, falando em narrativa, governo, STF e boa parte da imprensa se unem novamente “no combate às fake news” após o anúncio bilionário de Zuckerberg, que pretende substituir os checadores de viés notoriamente esquerdista por notas da comunidade, como fez o X com sucesso.


Sim, Zuckerberg, até pouco tempo alinhado à esquerda, parece ter dado uma guinada à direita. Até que ponto sua mudança é genuína, não sei. Mas o fato é que a conclusão que ele diz ter alcançado é simples: a melhor forma de combater a desinformação é com mais informação, trazida pela própria comunidade, e não por meia dúzia de checadores escolhidos a dedo por seus vieses, moldando o debate público e rotulando de “extremo” qualquer um que ouse questionar a narrativa dominante da esquerda nos meios de comunicação.


É, amigos. Vivemos, de fato, uma distopia orwelliana. Nessa distopia existem bilionários, acionistas majoritários dos maiores meios de comunicação da história. Mas não são eles a ameaça à liberdade de expressão. Os verdadeiros autoritários são esquerdistas disfarçados de democratas que se ressentem da perda de controle estatal sobre o que as pessoas podem ou não falar. Nesse mundo distópico, o herdeiro do Itaú, Walter Sales, está de mãos dadas com o PT, com o STF, MTS e Maduro. Não é lindo?


E, para fechar com chave de ouro o nosso teatro do absurdo, a AGU (sim, a AGU, que agora substitui a PGR ao abrir investigações e até notificar redes sociais) colocou a PF à caça do autor de um vídeo que usou IA para fazer um meme onde Haddad aparece falando que vai criar novos impostos. Para quem não viu, o vídeo começa assim: “Nosso plano é taxar tudo, tudo, tudo. Neste ano vamos implementar o imposto do cachorrinho de estimação. É justo. Depois teremos o imposto do pré-natal. Ficou grávida, já começa a pagar imposto...”. E por aí vai. 


Quem, em sã consciência, não percebe que se trata de um meme? Só mesmo uns idiotas bolsonaristas tentando explorar a ignorância do povão. Aliás, a mesma estratégia que o PT sempre usou. No mais, a notícia é esta: a PF agora caça produtores de memes. Enquanto isso, os corruptos, réus confessos, seguem soltos, fechando novos “negócios” e recebendo de volta bilhões que confessaram ter roubado. Ao mesmo tempo, o governo corta o BPC de muitos que realmente precisam. Contradição? Nenhuma. Tudo certo, como dois e dois são cinco, como diria Caetano, que também faz parte da patota.


Enfim, apenas mais uma semana no nosso processo contínuo de normalização do absurdo. Mas não se preocupem: os checadores ainda estão por aí para nos salvar das fake news! No caso do Haddad, mostraram lado a lado, com tarja e tudo, o vídeo verdadeiro do Haddad dando uma entrevista e a “fake news” desse infeliz que resolveu fazer um meme com o Taxxad. Zuckerberg tem razão: a loucura woke, que ele mesmo abraçou por um bom tempo, já ultrapassou todos os limites do razoável. Resta saber se o nosso STF agora vai proibir o Facebook, o Instagram e o Whatsapp. Não duvidem.

Ailton Braga

  Hoje, 02/02/2026, saiu no Blog do IBRE da FGV, artigo meu em que faço análise da interação entre política fiscal e política monetária, a p...