sábado, 2 de maio de 2026

Elio Gaspari

MARAVILHA: ALGUMA COISA ACONTECE NO MEU CORAÇAO...


Elio Gaspari

Imitar Times Square é inútil para revitalizar Centro de São Paulo

Revitalização é uma coisa, macaquice é outra

29/04/2026 00h05  


De uma hora para outra, São Paulo foi levada a crer que a esquina das avenidas Ipiranga e São João pode virar uma Times Square, aquele magnífico pedaço de Manhattan. Tomara, mas a iniciativa está com forte cheiro de macaquice, supondo que foram os luminosos que revitalizaram a região.


Até o fim do século passado, o entorno da esquina da Broadway com a Rua 42 passou por uma inédita decadência, tomado por cinemas pornô, drogas, prostituição e batedores de carteira. O cartão-postal da cidade parecia irremediavelmente perdido. Comparada à Times Square de então, a esquina de Ipiranga com São João era um brinco.


Então surgiu o prefeito Edward Koch. Vitriólico e incansável, ele criou um escritório para revitalizar a região. Pensou-se nos grandes letreiros, mas esse foi apenas um asterisco. O Estado de Nova York assumiu casas de espetáculos, a prefeitura deu incentivos e, acima de tudo, o coração do pedaço foi presenteado aos pedestres.


Pensou-se na população. Os letreiros luminosos continuaram a ser um detalhe tradicional. A revitalização da Times Square resistiu a duas recessões, e o triunfo de Ed Koch foi completo. Conhecido por ter ideias malucas, foi ele quem ensinou os donos de cachorros a recolher o cocô dos pets. Hoje, esse hábito está disseminado no mundo.


A ideia de que basta um luminoso LED para revitalizar uma região central é pobre. Precisa-se de muito mais, e a renovação do Centro de São Paulo está à espera de um Ed Koch. O governador Tarcísio de Freitas quer levar a administração do estado para o Centro. A ideia é boa, mas falta o sopro de arquitetos audaciosos, meio malucos, enfim.


Um dia, um governador ou prefeito de São Paulo transformará a Biblioteca Mário de Andrade num novo e arrojado prédio (como o francês François Mitterrand fez com a Biblioteca Nacional da França). Revitalizar o Centro ouvindo só empresários é tão arriscado quanto lançar projetos sem ouvi-los. A Times Square mudou de rosto graças à mão pesada da iniciativa privada.


Se luminosos bastassem, as cidades japonesas estariam entre as mais bonitas do mundo. São as mais iluminadas, pouco mais. (A prefeitura de Roma ilumina exageradamente o Coliseu, transformando-o num anúncio de sabonete.)


A única virtude de uma São João iluminada é que, em tese, ela nada custará à Viúva. A beleza de São Paulo deve alguma coisa à sua desordem.


Logo ali fica o Rio de Janeiro. Lá, continua-se a investir no crescimento da cidade na direção de São Cristóvão. Teimosa, ela cresce na direção oposta. (O primeiro projeto da Cidade Nova, unindo o Paço, atual Praça XV, à Quinta da Boa Vista é do tempo de Dom João VI.) O projeto do Porto Maravilha tornou-se um estudo de caso de fracasso. Quando o novo porto oferecer moradias baratas aos tradicionais moradores da região, ela virará uma maravilha.


Quando o Centro de São Paulo for revitalizado, com ou sem luminosos, ecoará o canto de Caetano Veloso: Alguma coisa acontece no meu coração/Que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João.

Israel, histórico

 Israel em Dez Dimensões


Poucas nações são julgadas menos pelo que são do que pelo que outros projetam sobre elas. Israel costuma ser debatido por meio de slogans, ressentimentos ou abstrações desligadas da realidade. Uma avaliação séria exige primeiros princípios: fatos, história, filosofia moral, teoria política e os critérios pelos quais se mede o florescimento humano. Quando examinado por essas lentes, Israel surge não como uma anomalia, mas como uma das realizações mais notáveis do mundo moderno.


1. História: O Retorno de uma Nação Antiga


Israel não é uma invenção colonial do século XX. A ligação judaica com aquela terra antecede a maioria dos Estados existentes em milênios. Os reinos de Israel e Judá, Jerusalém como capital judaica, a língua hebraica, a lei judaica, os ritos religiosos e a presença contínua na região são fatos históricos sustentados por arqueologia e documentação textual.


O Estado moderno fundado em 1948 não criou um povo sem raízes; restaurou politicamente uma nação antiga após conquistas, exílio, perseguições e dispersão.


2. Fatos e Epistemologia: Realidade Acima da Narrativa


Um julgamento político adequado começa pela epistemologia: como sabemos o que é verdadeiro?


Não por gritos. Não por propaganda. Não por números isolados do contexto. A verdade exige evidência, explicação causal e identificação entre agressor e defensor.


Israel não inventou as guerras travadas contra si em 1948, 1967 e 1973, nem as ondas de terrorismo posteriores. Israel não criou a carta ideológica do Hamas, o modelo miliciano do Hezbollah ou o eliminacionismo explícito do Irã. Para compreender a região, é preciso rejeitar narrativas emocionais coletivistas e insistir nos fatos.


A realidade é primária. A narrativa é secundária.


3. Secularismo: Um Estado Onde a Religião Não Governa Tudo


Israel frequentemente é descrito apenas como “Estado judeu”, mas politicamente funciona como uma democracia moderna, com instituições seculares, eleições, imprensa livre, universidades, Judiciário independente e sociedade civil vibrante.


Ao contrário de regimes teocráticos da região, Israel abriga intenso pluralismo interno: judeus seculares, judeus religiosos, muçulmanos, cristãos, drusos, ateus, liberais, conservadores, socialistas, capitalistas, árabes no parlamento, mulheres em posições públicas e cidadãos LGBTQ com liberdades concretas.


É imperfeito — como toda sociedade livre. Mas não é regido por absolutismo clerical.


4. Ética: O Direito à Autodefesa


O primeiro princípio ético da vida política é que seres humanos inocentes têm direito de viver.


Disso decorre a legitimidade moral da autodefesa. Uma nação cujos civis são alvo de foguetes, sequestros, massacres ou túneis terroristas não tem dever de submissão. Tem dever de proteger seus cidadãos.


A inversão frequentemente imposta a Israel é esta: exigir que o atacado lute sob padrões impossíveis, enquanto quem glorifica assassinato recebe o rótulo de “resistência”.


Isso não é ética. É corrupção moral.


5. Individualismo: Cidadãos, Não Massas Tribais


Talvez a maior virtude moral de Israel seja tratar seres humanos fundamentalmente como indivíduos dentro de uma ordem baseada em direitos.


Sua sociedade é barulhenta, argumentativa, empreendedora, dissidente, autocrítica e descentralizada. Cidadãos processam o Estado, criticam líderes, criam empresas, formam partidos, protestam livremente, escrevem sem censura e desafiam autoridades.


É assim que se parece uma cultura individualista: não harmonia artificial, mas liberdade.


Sistemas coletivistas exigem obediência. Sistemas individualistas toleram conflito porque respeitam pessoas.


6. Política: Democracia Sob Cerco


Israel é uma das poucas democracias liberais duráveis de sua região. Governos mudam por eleições, líderes podem ser processados, partidos de oposição disputam poder e transições ocorrem sem golpes.


Isso importa. Instituições não são ornamentos. São a maquinaria que protege vida e liberdade.


Comparar Israel politicamente com ditaduras vizinhas, monarquias absolutas, Estados milicianos ou estruturas de partido único é comparar governo responsável com formas coercitivas de poder.


7. Capitalismo: Energia Humana Liberada


Israel transformou escassez em abundância. Com pouca água, poucos recursos naturais, vizinhos hostis e pesado custo de defesa, construiu uma economia inovadora admirada globalmente.


Agrotecnologia, cibersegurança, dispositivos médicos, software, dessalinização, irrigação, biotecnologia e ecossistemas de venture capital surgiram não do planejamento central, mas de direitos de propriedade, educação, comércio, iniciativa e liberdade para criar.


O capitalismo não garante utopia. Faz algo melhor: permite que inteligência e esforço se convertam em valor produtivo.


8. Sentido de Vida: Uma Cultura de Resiliência


Toda civilização irradia um sentido de vida — uma estimativa emocional profunda sobre a existência.


Algumas culturas ensinam fatalismo, martírio, ressentimento e culto tribal. Outras ensinam possibilidade, memória, alegria, reconstrução, continuidade familiar e realização.


O sentido de vida israelense é impressionante: após pogroms, expulsões e genocídio, construiu universidades, orquestras, fazendas, startups, hospitais, literatura e futuros para seus filhos.


Isso não é mera sobrevivência. É afirmação da vida.


9. Busca da Felicidade: A Vida como Fim em Si Mesma


O propósito moral da política não é o sacrifício. É assegurar as condições para que indivíduos busquem a felicidade.


Israelenses vivem aspirações humanas comuns: amar, trabalhar, criar filhos, estudar, abrir negócios, produzir arte, discutir política, aproveitar praias, celebrar feriados e planejar o amanhã.


Essa normalidade é profunda. É exatamente isso que o terrorismo busca destruir: a felicidade tranquila de pessoas livres.


10. O Conflito Mais Profundo: Civilização versus Niilismo


No fundo, o conflito não é apenas territorial. É filosófico.


Um lado, ainda que imperfeitamente, afirma lei, ciência, comércio, vida, memória, debate e futuro. O outro, em suas facções militantes dominantes, glorifica a morte, apaga fatos, instrumentaliza o vitimismo e subordina o indivíduo à tribo ou ao credo.


Quando observadores se recusam a nomear essa diferença, abandonam a própria razão.


Conclusão


Israel não deve ser julgado por padrões utópicos nem pelos preconceitos de seus inimigos. Deve ser julgado como qualquer nação deveria ser: por seu compromisso com vida, liberdade, verdade, produtividade, pluralismo e direitos individuais.


Por esses critérios, Israel não é apenas legítimo.


É admirável.

Alessandro Vieira

 Ontem, postei aqui a coluna do jornalista William Waack sobre a rejeição do nome de Jorge Messias para a cadeira de ministro do Supremo. Destaquei a parte em que Waack cita o aplauso que o senador Alessandro Vieira recebeu ao descrever as investidas da Corte à autonomia do Legislativo. Esta seria uma evidência, segundo o colunista, de que a gongada de Messias tinha a ver, também, com uma insatisfação profunda com a atuação do STF.


Surpreendentemente, vários leitores dessa página apontaram uma suposta contradição do senador Vieira, pois ele teria anunciado o voto favorável a Jorge Messias, o que seria contraditório com a defesa que ele faz do impeachment de ministros do Supremo. Essa observação não tem muito a ver com o objeto da coluna de Waack e com o post, dado que não se tratava de uma análise sobre o senador, mas sobre o Supremo. Mesmo assim, fui pesquisar a respeito.


Eu particularmente não sabia que o senador Alessandro Vieira havia aberto o seu voto, e muito menos que havia votado pela aprovação de Jorge Messias. Fui, como sempre, às fontes, para entender melhor essa aparente contradição. Há uma postagem do senador no Instagram (a última, no momento em que consultei) com o seu discurso anunciando o seu voto. Na verdade, trata-se de um trecho longo, em que o voto é anunciado apenas no final.


Discordo da posição do senador quando disse que Jorge Messias preenchia os requisitos para ocupar o posto de ministro do Supremo. Assim como discordo da aprovação de André Mendonça e de Cristiano Zanin, ministros que o senador também apoiou. Por outro lado, Vieira votou contra Kassio Marques e Flávio Dino. Só essa seleção de votos demonstra que o senador não pauta suas decisões por linhas ideológicas ou políticas, mas pelo que sua consciência indica. Posso não concordar, como efetivamente não concordo, mas não há como negar que Alessandro Vieira não tem medo de parecer impopular. Caso contrário, não abriria o seu voto.


Além disso, Vieira chama a atenção para um ponto importante: a votação contra Messias seria uma espécie de "impeachment possível". Essa expressão foi também usada pelo editorial do Estadão no dia seguinte à votação. Na incapacidade (Vieira chama de "falta de envergadura moral") do Senado de levar adiante o impeachment de ministros enrolados, estaria descontando a sua frustração "passando recado" para a Corte com a rejeição de Messias. Trata-se, na visão do senador, de uma forma pobre e covarde de fazer política. Tendo a concordar com ele.


Por fim, poder-se-ia dizer que o voto de Alessandro Vieira tivesse a ver com a postura de alguns ministros do Supremo, incluindo Alexandre de Moraes, que estariam trabalhando abertamente pela rejeição de Messias (ele fala, em seu discurso, de "cabala de votos" no Senado por parte de ministros do Supremo). Não sei se esse era o ânimo de Vieira, que fala apenas de "requisitos jurídicos" para a aprovação de Messias, mas a política nunca é preto no branco, um campo com trincheiras bem definidas. A derrota de Lula foi uma vitória do milionário ministro e, a essa altura do campeonato, não sei, sinceramente, o que é pior.


Não tenho procuração para defender o senador Alessandro Vieira, nem tampouco, como disse acima, concordo com seu voto. Mas não posso deixar de admirar sua coragem e determinação em defender aquilo que acha certo. E Vieira, hoje, luta praticamente sozinho contra o que considero o maior cancro das instituições brasileiras, um Supremo que se acha acima do bem e do mal. Só por isso, merece meu apoio e admiração. Se eu fosse sergipano, votaria pela sua recondução ao cargo.

Tesouro reserva

  https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/06/tesouro-reserva-pode-render-r-1735-a-mais-que-poupanca-em-dois-anos-veja-simulacoes.shtml