domingo, 23 de fevereiro de 2025

Amilton Aquino

 Uma das coisas mais lamentáveis do mundo atual é o aumento expressivo das possibilidades de criação de narrativas. Para qualquer coisa, por mais absurda que seja, uma massa acéfala estará pronta para consumi-la e disseminá-la. E, num mundo cada dia mais complexo, cheio de nuances e contradições, basta uma meia-verdade, uma foto descontextualizada ou um material qualquer falsificado pela IA para tocar o berrante da massa ávida por reforçar suas doentias crenças.


Ver a mentira ser reproduzida por um cidadão comum já é lamentável. Agora, ver a mentira mais absurda ser repetida e normalizada pelo homem mais poderoso do mundo é de embrulhar o estômago. Se o início de fevereiro de 2025 entrou para a história como a data da cisão da cooperação militar entre os EUA e as democracias europeias, esta semana marca o triunfo da mentira de Putin — o denominador comum que une populistas de direita e de esquerda. “Zelensky iniciou a guerra!”. Não foi Putin quem invadiu a Ucrânia duas vezes em seis anos (a primeira, antes mesmo de Zelensky chegar ao poder). A culpa é do “comediante” Zelensky. Ele seria o verdadeiro ditador, que não realiza eleições, apesar de a constituição ucraniana proibir expressamente eleições em tempos de guerra. Segundo Trump, o verdadeiro democrata é Putin, que realizou eleições em tempo de guerra — ainda que eliminando seus principais opositores!


Agora ficou fácil entender por que Trump prometia acabar com a guerra em 24 horas. Ele não só planejava sentar no colo de Putin, repetindo suas mais descaradas mentiras, como agora dá um xeque-mate na Ucrânia, ao exigir metade do que for extraído de minerais raros sem sequer prometer continuar ajudando o país oprimido pelos russos.


O que resta então à Ucrânia? Desenvolver seu próprio arsenal nuclear, corrigindo o erro histórico ao assinar o Acordo de Budapeste de 1994, pelo qual se comprometeu a abrir mão de seu arsenal nuclear em troca da defesa da Otan em caso de agressão russa. Mas isso, claro, só será possível se a Europa continuar ajudando a Ucrânia, pois, do contrário, o país poderá ter o mesmo destino da Chechênia, que chegou a expulsar os russos de seu território, mas acabou voltando a ser um estado fantoche de Moscou após a cooptação de seu ditador.


Quem será o próximo? A Europa se pergunta. No novo mundo de Trump, os EUA — que lideraram a criação dos organismos internacionais responsáveis por estabelecer consensos mínimos de civilidade nas relações internacionais — agora diz não ter nada a ver ver com qualquer esforço mundial de combate à tirania.


Ou seja, a repulsa justificável aos excessos da cultura woke nos organismos internacionais está nos levando ao outro extremo: ao vale-tudo da era anterior às duas guerras mundiais, quando prevalecia o colonialismo descarado e a lei do mais forte.


E o mais lamentável de tudo é que a Rússia está muito próxima de ser derrotada militarmente, ao ponto de ter que recorrer à ajuda da Coreia do Norte e do Irã. Mais um ou dois anos de apoio à Ucrânia, e a Rússia seria forçada a se retirar do país, assim como se retirou do Afeganistão.


“Entre a desonra e a guerra, escolhestes a desonra, e terás a guerra.” A frase profética de Churchill sobre Chamberlain aplica-se também a Trump — o tigrão com os pequenos e tchutchuca com os fortões.

Reflexões pós eleição

Passados alguns dias da eleição majoritária, vitória de Lula da Silva em segundo turno, uma reflexão se faz necessária. 1) Concordo que os d...