sábado, 10 de janeiro de 2026

Leitura de sábado

 *Leitura de Sábado: Privatizações e gestões pró-mercado impulsionam estatais estaduais em 2025*


Por Camila Vech


São Paulo, 07/01/2026 - O ano de 2025 trouxe sinais opostos para as estatais: enquanto a pressão sobre commodities e crédito penalizou as federais Petrobras e Banco do Brasil, o quadro regulatório favorável, governadores alinhados ao mercado e a expectativa de privatizações impulsionaram as estaduais como a Copasa, a Sanepar, a Cemig e o Banrisul.


Para especialistas ouvidos pela Broadcast, a disparada tem menos relação com o controlador e mais com o vento setorial positivo, em especial no segmento de saneamento.


"Os governos estaduais podem ser responsáveis por uma parte relevante da explicação da alta de Sanepar e Copasa, não 100%, mas talvez 50%", diz Daniel Utsch, gestor da Nero Capital.


A ação Unit da Sanepar disparou 53% e o papel ON da Copasa saltou 125% no ano passado. Segundo Utsch, o ganho decorre tanto da expectativa por desestatizações quanto dos resultados já obtidos após privatizações bem-sucedidas no setor, como a da Sabesp.


A desestatização da companhia paulista é vista como uma referência no setor e o exemplo máximo de como o Marco do Saneamento é capaz de destravar investimentos bilionários.


A Copasa está na fila da privatização, com projeto aprovado na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) e expectativa de conclusão da operação ainda no primeiro trimestre de 2026.


A Sanepar também é mencionada pelo mercado como uma potencial privatização. O governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), já negou a alienação da companhia, embora tenha adotado uma série de medidas rumo à desestatização, na leitura do mercado.


"A corrida para o governo estadual pode levar os investidores a esperar que a empresa se torne mais eficiente ou tome medidas para a privatização", diz o BTG Pactual, que incluiu a empresa na primeira carteira de recomendação de ações small caps do ano.


"Para Copasa e Sanepar, a visão é de que, privatizando, a probabilidade de ter um benefício grande é muito maior. A Sabesp é uma das grandes contribuições positivas de retorno do Ibovespa. O sucesso da privatização, somado ao novo marco legal de saneamento, fez com que o investimento privado resultasse em ganho de eficiência e aumento de penetração", explica Utsch. Desde a privatização, a Sabesp valorizou 60%.


O gestor da Nero cita Axia (ex-Eletrobras, desestatizada no governo de Jair Bolsonaro, em 2022) e Copel (privatizada em 2023 por Ratinho Junior) como outros exemplos positivos de privatização recente.


Mas mesmo empresas estaduais distantes da privatização tiveram boa performance na Bolsa em 2025.


No caso da mineira Cemig, a ideia de privatização encontrou um clima político desfavorável. Assim, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), propôs sua federalização para abater parte da dívida do Estado com a União. Há, contudo, resistência da ALMG.


O estrategista Ygor Araújo, da Genial, lembra que havia a chance de federalização também da Copasa, o que não se concretizou. "O mercado colocava esse risco no preço. Como não ocorreu com a Copasa, a privatização como solução para a dívida agradou o mercado", diz.


Mesmo assim, os papéis PN da Cemig, mais líquidos, subiram 18,5% em 2025. O racional por trás é que, apesar da frustração com a privatização, a companhia entrega uma boa gestão.


"Operacionalmente, as duas se comportam como empresas privadas: Copasa entrega metas de forma consistente e Cemig reforça governança com gestão técnica", observa Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.


Também longe de uma desestatização, o Banrisul subiu 63% em 2025, numa virada de chave após um 2024 marcado pela tragédia das enchentes no Rio Grande do Sul.


A melhora conjuntural em 2025 já aparece nos números e, segundo os analistas, o banco deveria valer mais quando comparado aos pares. "O Banrisul tem gestão pró-mercado e fundamentos comparáveis. Quando olhamos esse ativo barato, a tendência é investir. Foi o que fizeram fundos de pensão, que trocaram Banco do Brasil por Banrisul", explica Lima, da Ouro Preto. O fluxo comprador também vem de investidores institucionais de olho no caixa e nos dividendos que devem crescer nos próximos anos, dado o valuation descontado.


Ano ruim para as federais


Enquanto as estatais estaduais tiveram um ano de destaque na Bolsa, as duas principais empresas listadas de controle da União amargaram perdas em 2025. A ação ON da Petrobras caiu 9,5%, enquanto a PN recuou 5,6%. O papel ON do Banco do Brasil cedeu 5,3%.


Mas Lima, da Ouro Preto, rejeita a tese de que o simples fato de serem estatais federais explique o mau desempenho de Petrobras e BB. Ele calcula que cerca de "80% da variação negativa de preço" desses papéis em 2025 resulta de fatores conjunturais, como petróleo barato e crise de crédito no agro.


A Petrobras sentiu o impacto da queda internacional do petróleo para a faixa de US$ 60, além de atuar em uma atividade totalmente dolarizada, o que testou a resiliência da petroleira.


O analista da Ouro Preto Investimentos diz que a petroleira historicamente está sujeita a três vetores de volatilidade: grau de interferência política, disciplina de capital e governança. "Mas nestes pontos, a Petrobras trouxe uma clareza maior", avalia.


Para Utsch, da Nero Capital, a empresa segue "operacionalmente eficiente, considerada uma das melhores do mundo" na extração offshore e já está desalavancada. "Interferências políticas, como manter o combustível no limite inferior da banda factível, e eventuais projetos de investimento considerados pouco rentáveis, teriam afetado o preço de forma muito comedida", avalia.


No caso do BB, o impacto nas ações decorre mais da conjuntura nacional de juros altos. A disparada da inadimplência entre pequenos e médios produtores rurais, após a flexibilização das regras de recuperação judicial, contaminou o balanço do banco, especialmente no Sul, elevando provisões e reforçando o peso das judicializações no agronegócio.


Somada a rumores sobre dividendos, Selic elevada e câmbio pressionado, a combinação derrubou as cotações, apesar da percepção do mercado de que a instituição tem menor interferência de Estado do que a Caixa Econômica Federal, por exemplo.


Contato: camila.vech@estadao.com


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