Um libelo contra essa modinha nefasta e autoritária do politicamente correto, que quer impor sua visão de mundo equivocada e atacar quem não pensa assim.
Do prof. Deonísio Da Silva, que abono plenamente.
SUBSTITUIR ÍNDIO POR INDÍGENA É FALTA DO QUE FAZER
É modismo e a moda é sempre efêmera. Logo passará. E talvez volte um dia, como acontece com nosso modo de vestir.
Indígena veio do latim "Indigena" e designa quem é originário do lugar em que nasceu e vive, como ocorre a filhos de imigrantes nascidos onde seus pais viveram ou vivem. E não apenas aos chamados índios.
Assim, não pode substituir a palavra "índio", habitante das Índias Ocidentais, designação equivocada de Cristóvão Colombo em sua primeira carta ao rei espanhol Fernando para informar que designara São Salvador a uma terra recém-descoberta "que os índios conhecem por Guanahani".
A seguir, o astrônomo holandês Petrus Plancius (1552-1622) descobriu nova constelação à qual chamou "Indus" em homenagem a esses povos. A etimologia serve também para isso: para mostrar como as palavras mudam de significado. Em português, o habitante da Índia não é índio, é hindu. Índio mantém o significado que Colombo lhe deu e passou a designar o habitante das matas, o(s) povo(s) da floresta.
O padre Antônio Vieira, glória do barroco brasileiro, defendeu os índios brasileiros com grande poder de persuasão sem substituir sua designação por nenhuma palavra em moda. E por isso seus sermões tornaram-se peças literárias gloriosas.
Os padres José de Anchieta e Manoel da Nóbrega não substituíram índio por indígena para defender suas diversas etnias em todo o Brasil.
José de Alencar fez trabalho semelhante nos romances O Guarani e Iracema, assim como Antônio Gonçalves Dias com sua poesia inspirada nos índios. Eles e outros escritores de referência criaram inclusive um movimento literário, o indianismo. O Modernismo tampouco renegou a palavra índio para defender nossos irmãos da mata onde viviam Macunaíma, muiraquitãs, icamiabas e outras amazonas.
Os irmãos Villas Boas, o marechal Cândido Rondon, assim como Lévi-Strauss, Darcy Ribeiro e diversos antropólogos não incorreram em modismos nem macularam o português para fundar entidades de defesa do índio e estudar suas lições aos povos invasores.
Não percamos nosso tempo gastando nosso latim contra esses que compõem uma minoria insignificante que entretanto propõem didatorialmente de cima para baixo o impossível e o inexequível: que todos falem como os membros de tal minoria, que dão às palavras o significado estreito e epocal que eles nos querem impor por motivos ideológicos.
Na língua há lugar para todos, inclusive para eles, desde que não tenham, como fascistas e nazistas, a pretensão de excluir todos os que não pensam nem agem como eles.
Minha recomendação de jardineiro e botânico das palavras é: vão plantar batatas e parem de nos encher a paciência.
Do contrário, nós vamos disparar nossas flechadas verbais e ergueremos nossas paliçadas em defesa da língua portuguesa, patrimônio popular consolidado em todo o Brasil, que nos permite dar um aviso de vacina e sermos entendidos em todo o território nacional, sem excluir ninguém.
(a) Deonísio da Silva