*Leitura de Domingo: Agro reclama de margens 'corroídas' e pressão de insumos para próxima safra*
Por Gabriel Azevedo
São Paulo, 07/04/2026 - O Brasil colhe a maior safra de grãos da história, mas o produtor rural enfrenta o pico do escoamento com o diesel disparado, frete em alta e sem mecanismo para repassar esses custos ao preço da commodity. É o que reclama o setor agrícola. E o problema já começa a migrar para a cadeia de insumos, ampliando a incerteza para o planejamento da próxima temporada. "O produtor não consegue repassar esse custo. A soja é uma commodity com preço definido no mercado internacional, diferente do diesel, que sofre variações e tem seus custos rapidamente repassados pelos distribuidores, assim como acontece com o frete", diz o diretor administrativo da Aprosoja Mato Grosso, Diego Bertuol, sobre o grão que representa cerca de 50% do volume retirado do campo.
Em algumas regiões do Estado, a soja vem sendo negociada abaixo de R$ 100,00 a saca ao mesmo tempo em que o litro do diesel chegou a R$ 9,00, com alta próxima de 30% nas últimas semanas. "O produtor absorve esse prejuízo, com aumento de custos e redução de receita, comprimindo ainda mais a rentabilidade", afirmou.
O aumento do combustível eleva o custo de produção em cerca de 1,87% por hectare na soja e 1,24% no milho, segundo estimativa da Aprosoja-MT. O maior impacto, porém, está no transporte. Mato Grosso concentrou 49,8% das exportações brasileiras de soja em janeiro e fevereiro, com US$ 1,87 bilhão embarcado, segundo a Logcomex, plataforma de inteligência de dados para o comércio exterior. É também o Estado com as maiores distâncias logísticas do País e déficit de armazenagem estimado em 49%, o que obriga o produtor a escoar rapidamente, sem poder aguardar melhora de preço ou custo.
O vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), Marcelo Schunn Diniz Junqueira, chama atenção para um componente da crise que vai além da alta de preços. "A crise do diesel não foi somente uma questão de preço do petróleo, mas também de escassez, haja visto que algumas distribuidoras que importavam diesel da Rússia tiveram que encerrar a importação e, portanto, houve um gap de suprimento no mercado", disse. Para quem travou venda antecipada antes do início do conflito entre Estados Unidos e Irã, a situação é ainda mais difícil. "Em muitos casos não é possível repassar no preço das commodities, principalmente, para aqueles produtores que haviam fechado contratos de entrega de safra futura, anteriormente ao início dos conflitos no Irã", afirmou.
O choque já alcança também a cadeia de insumos agrícolas. Importadores de fertilizantes e defensivos não estão conseguindo absorver os custos adicionais de frete internacional e já repassam os valores ao produtor, segundo o gerente de Assessoria Aduaneira do Fiorde Group, Luciano Carlos Fracola. Para ele, além do preço mais alto, há risco real de desabastecimento. "Temos que levar em consideração o aumento dos insumos, uma vez que existe a demanda e estamos em risco de falta destes insumos por problemas logísticos", disse. O canal de transmissão é o frete marítimo, que responde por 70% das importações brasileiras em valor, segundo a Logcomex, e que opera sob pressão desde o fechamento do Estreito de Ormuz, passagem por onde transita cerca de 20% do petróleo negociado no mundo.
O governo anunciou nesta segunda-feira uma bateria de medidas para conter a alta dos combustíveis. Para o diesel importado, lançou subvenção de R$ 1,20 por litro, com custo de R$ 4 bilhões por dois meses, sendo R$ 2 bilhões da União e R$ 2 bilhões dos Estados, com 25 unidades da federação já confirmando adesão. Para o diesel produzido no Brasil, anunciou subvenção adicional de R$ 0,80 por litro, com custo de R$ 3 bilhões por mês arcado integralmente pelo governo federal. As duas subvenções se somam aos R$ 0,32 por litro já em vigor desde março. Mato Grosso aderiu ao programa. Mas Bertuol afirma que o benefício deve demorar para chegar à ponta. Nos distribuidores regionais de diesel, conhecidos como TRRs, e nas bombas dos postos do interior, o combustível continua sendo comercializado fora do preço de referência, conforme relatam associados da entidade. O impacto tende a ser menor para a soja, cuja safra já estava em escoamento quando o diesel disparou, e mais relevante para o milho, ainda na lavoura.
As exportações de soja somaram US$ 3,76 bilhões em janeiro e fevereiro, com preço médio de US$ 418 por tonelada, ainda 3,8% abaixo do registrado em 2024, segundo a Logcomex. O volume saiu, mas a receita não acompanhou o ritmo dos custos. Para agentes do setor, a subvenção trata o sintoma sem atacar a doença. Fracola defende a modernização do regime de drawback para insumos agrícolas, mecanismo que permite importar com isenção tributária condicionada à exportação futura. "Permitiria a importação de insumos agrícolas com alíquota zero condicionada a que ocorra exportações da propriedade", disse.
Junqueira cita juros altos e burocracia de licenciamento como entraves ao investimento em ferrovias, hidrovias e armazenagem. Com insumos mais caros chegando ao campo, a pressão sobre a rentabilidade do produtor tende a se estender para além do escoamento da safra atual.
Contato: gabriel.azevedo@estadao.com
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