domingo, 6 de abril de 2025

Quem é quem...

 Quem é quem na negociação do Banco Master: de Vorcaro a Esteves


Nomes à frente de dois bancos privados e um controlado por um governo estadual estão entre os personagens que concentram as atenções em um movimento observado pelo mercado financeiro


Anunciada ao anoitecer da última sexta-feira de março, a compra de uma fatia relevante do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB) é, desde então, um dos assuntos mais comentados do mercado financeiro. A aquisição, que ainda depende de aprovação do Banco Central (BC), tem detalhes que despertam discussões, entre eles o fato de o comprador ser um banco estatal.


Outro ponto é o modelo de negócio do banco cuja fatia está à venda, que teve crescimento acelerado com a oferta de CDBs com rentabilidade de 140% sobre o CDI com proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Esse debate concentra alguns personagens principais. Conheça quem é quem:


O mineiro de 41 anos assumiu em janeiro de 2018 o comando da Máxima, fundada em 1974 como corretora de valores e títulos mobiliários. Além de mudar o nome da companhia para Banco Master, Daniel Vorcaro expandiu os negócios com a compra do Banco Vipal, o crescimento da carteira de crédito e consignado, o lançamento da Kovr Seguradora e a aquisição do controle da fintech will bank, entre outros movimentos.


Em três anos, entre junho de 2021 e de 2024, o patrimônio líquido saltou 7,5 vezes: de R$ 556 milhões para R$ 4,2 bilhões. Esse crescimento teve com motores a oferta de CDBs com retorno de 140% sobre o CDI — bem acima do mercado, que em geral oferece 100% —, com a facilidade de ser assegurado até o valor de R$ 250 mil, em caso de quebra do banco, pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mantido por todo o sistema financeiro.


Banqueiro com perfil que chama a atenção em colunas sociais, é investidor da Sociedade Anônima de Futebol (SAF) do Clube Atlético Mineiro, já afirmou ter comprado o Fasano Itaim, na capital paulista.


Ao anoitecer da sexta-feira, 28, formalizou um acordo de venda de 49% das ações ordinárias (com direito a voto) e de 100% das preferenciais (sem direito a voto) para o Banco de Brasília (BRB), banco estatal do Distrito Federal. Pelo acordo, continuaria como controlador do Master, que se tornaria BRB Banco de Investimentos, com 51% de participação com direito a voto, embora o BRB tendo poder de veto em determinados temas.


Antes de tomar posse no Banco de Brasília (BRB), em 31 de janeiro de 2019, Paulo Henrique Costa fez uma carreira de quase duas décadas na Caixa Econômica Federal, entre 2001 e 2018. Deixou o cargo de vice-presidente de Clientes, Negócios e Transformação Digital da Caixa para assumir a presidência do banco controlado pelo governo do Distrito Federal.


Costa anunciou na noite de sexta-feira, 28, a compra, pelo BRB, de 49% das ações ordinárias (com direito a voto) e de 100% das ações preferenciais (sem direito a voto) do Banco Master, por cerca de R$ 2 bilhões.


Diante dos questionamentos que se seguiram ao anúncio da aquisição — ainda dependente de aprovação pelo Banco Central e pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) —, Costa afirmou que a análise foi técnica, com o início de compras de carteiras do Master em meados de 2024 e dentro da lógica de expansão do BRB para outras localidades do País.


Ele também afirmou que R$ 23 bilhões em ativos do Master ficariam excluídos do negócio, como a carteira de precatórios, de direitos creditórios, de ações judiciais, de fundos de investimento em ações de empresas. “Para que a gente possa entrar, vai sair o Voiter, vai sair a Cover, vai sair o Banco Master BI”, exemplificou, em entrevista ao Estadão. Na venda, entrariam apenas o banco múltiplo, a fintech will bank e a securitizadora Maximainvest.


Ele afirmou que “todos os CDBs que já estão emitidos serão honrados pelas condições e pelas taxas de juros em que eles foram adquiridos”.


O BRB, autor da oferta de compra de parte do Banco Master, é controlado pelo governo do Distrito Federal. Logo depois do anúncio do negócio, o governador, Ibaneis Rocha (MDB), estimou em entrevista ao Valor Econômico que a aquisição da fatia do Master pelo elevaria os dividendos pagos ao governo do Distrito Federal, em cinco vezes, de R$ 200 milhões para R$ 1 bilhão em 2025.


O governador, no cargo desde janeiro de 2019, disse também que, embora não tivesse participado diretamente das negociações técnicas, a aquisição estava sendo analisada havia seis meses.


Uma das primeiras reações com que o governo do Distrito Federal eventualmente terá de lidar vem do Sindicato dos Bancários de Brasília (Bancários-DF). A entidade afirmou que pedirá ao Banco Central e ao Cade que rejeitem a compra do Banco Master pelo BRB. A informação foi adiantada ao Estadão/Broadcast pelo presidente da entidade, Eduardo Araújo.


O sindicato também não descarta acionar o BRB por vias judiciais. No último sábado, 30, o Bancários-DF afirmou em nota que a compra do Banco Master poderia caracterizar uma possível gestão temerária da diretoria do BRB. A ideia é apresentar uma representação ao BC já nesta quarta-feira, 2, se possível, para demarcar a posição.


Presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, 42 anos, tem um papel-chave para o destino do negócio entre o Banco Master e o BRB. A instituição tem até 360 dias para analisar o processo. O prazo foi criado pela resolução número 108, de 2021, e é válido para a transferência de controle societário ou qualquer alteração no grupo de controle da sociedade, de forma direta ou indireta.


Para a tarefa, conforme apurou o Estadão, o comando do BC mobilizou, internamente, alguns dos chamados “cabeças brancas” — servidores com experiência e que já acompanharam outros casos de fusão, intervenção e saneamento no setor — para participar dos testes de estresse que serão rodados sobre o BRB.


Esses servidores acompanharam casos como liquidações do Econômico, Bamerindus, Nacional e Cruzeiro do Sul, que enfrentaram crise no passado. O objetivo agora é tentar antecipar problemas que possam impactar o sistema financeiro.


Diretores e servidores que passaram pelo mercado financeiro também vão participar do processo de análise, para compor um olhar mais amplo, que incorpore também a expertise da Faria Lima.


Na segunda-feira, 31, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, teve uma reunião com o presidente do conselho de administração e sócio-sênior do banco BTG Pactual, André Esteves. Na pauta, a busca de uma saída alternativa para a compra do Banco Master pelo BRB, e uma das possibilidades que entraram na mesa de avaliações seria por meio de incluir na operação o BTG Pactual, maior banco de investimentos da América Latina.


Antes do acerto anunciado pelo BRB, Esteves chegou a analisar os ativos do Master, mas não levou a oferta adiante. O Estadão apurou que o BTG já teria iniciado conversas com o Master, desde o fim do ano passado, mas há dúvidas ainda sobre a cobertura da operação — que poderia prever o uso do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para lastrear algum problema com a instituição.



https://www.estadao.com.br/amp/economia/quem-e-quem-na-negociacao-do-banco-master-de-vorcaro-a-esteves/

60 anos....

 SESSENTINHA DO BC

E essa semana comemoramos os 60 anos de nada mais, nada menos, do que o Banco Central do Brasil. Se fosse uma pessoa, estaria perto da aposentadoria, mas, ironicamente, segue firme ditando o ritmo da sua vida econômica (e do seus boletos também).


O Banco Central do Brasil foi criado legalmente em 1964, com a promulgação da Lei nº 4.595, que reorganizou todo o sistema financeiro nacional em meio ao início do regime militar. Sua fundação oficial ocorreu em 31 de março de 1965, data em que passou a operar como autoridade monetária, assumindo funções que até então eram do Banco do Brasil — como o controle da política monetária e da inflação.


Ao longo das décadas seguintes, o BC teve papel central em todas as grandes mudanças da economia brasileira. Em 1986, participou ativamente da implementação do Plano Cruzado, uma tentativa ambiciosa de estabilização monetária e controle da inflação, que infelizmente falhou. Esse foi apenas o primeiro de vários planos econômicos de emergência que marcaram a década de 1980, período de hiperinflação e instabilidade crônica.


Em 1994, o Banco Central teve atuação decisiva na transição para o Plano Real. Coube à instituição gerenciar a política cambial e assegurar o controle dos preços em meio à adoção de uma nova moeda — o Real — que viria a substituir décadas de inflação galopante por um novo padrão de estabilidade.


Cinco anos depois, em 1999, o país enfrentou uma severa crise cambial que levou à adoção do regime de metas de inflação. Foi nesse momento que o Banco Central passou a perseguir metas claras para os índices de preços, com a taxa Selic como principal instrumento de política monetária. Essa mudança representou a modernização da atuação do BC, conferindo maior previsibilidade às suas decisões.


Em 2002, a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva gerou forte volatilidade nos mercados. Diante da crise de confiança, o Banco Central agiu rapidamente com aumento dos juros e uso das reservas cambiais para conter a desvalorização do real, ajudando a evitar um colapso financeiro maior.


Durante a crise financeira global de 2008, o BC teve novamente papel essencial ao implementar medidas de liquidez que garantiram o funcionamento do sistema bancário brasileiro. Enquanto bancos de diversos países quebravam, o Brasil atravessou a turbulência com relativo controle, fruto de uma regulação sólida e atuação firme da autoridade monetária.


A partir de 2013, o BC começou a se reinventar tecnologicamente, com a criação de bases para o que viria a ser o Sistema Financeiro Nacional Digital. Foi uma resposta às fintechs, ao mobile banking e à necessidade crescente de inclusão financeira por meios digitais.


Em 2020, diante da pandemia de Covid-19, o Banco Central reduziu a Selic ao menor nível da história, 2%, e lançou o Pix — um divisor de águas nos pagamentos instantâneos. O sistema se tornou rapidamente um dos mais usados do mundo, transformando radicalmente a forma como brasileiros pagam, transferem e recebem dinheiro.


No ano seguinte, 2021, o Congresso aprovou a autonomia formal do Banco Central, com mandatos fixos para seus dirigentes, não coincidentes com os do Presidente da República. A autonomia buscava blindar a política monetária de pressões políticas e reforçar a credibilidade da instituição.


Em 2022, outra inovação foi colocada de pé: o Open Finance. Coordenado pelo BC, esse sistema permitiu o compartilhamento e a portabilidade de dados financeiros com consentimento do usuário, abrindo espaço para mais concorrência e personalização de serviços no mercado bancário.


Já em 2024, o Banco Central lançou o projeto piloto do Drex — o real digital —, testando a integração entre tecnologia blockchain, finanças públicas e criptoativos de forma regulada, segura e em linha com as tendências internacionais.


Finalmente, em 2025, o Banco Central do Brasil completa 60 anos com um histórico de protagonismo. Da hiperinflação ao controle de preços, do papel regulador à inovação financeira, o BC se tornou uma das instituições mais respeitadas do país. Com a autonomia conquistada, tecnologia de ponta à disposição e novos desafios no horizonte, o BC chega à terceira idade como guardião da estabilidade, catalisador da inovação e peça-chave do futuro da economia brasileira.


Desde a sua fundação em 1965 até abril de 2025, o Banco Central do Brasil (BCB) teve 28 presidentes oficiais. Essa contagem inclui todos os que ocuparam o cargo, considerando também aqueles que exerceram a função de forma interina. E estar nessa cadeira exige não apenas conhecimento técnico, mas nervos de aço para lidar com o vai-e-vem do câmbio, da inflação e, principalmente, das alfinetadas vindas dos políticos.

Luiz César Fernandes

 https://www.youtube.com/watch?v=m_tbJGJdTHQ

Amilton Aquino

 Para cada problema complexo, existe uma solução simples… e estúpida, já dizia o jornalista norte-americano H. L. Mencken. E foi exatamente isso que Trump fez nesta semana. O mercado relutou em acreditar, até o último minuto, que algo tão estúpido realmente aconteceria. Mas aconteceu. As bolsas norte-americanas, obviamente, despencaram, arrastando consigo os mercados do mundo todo.


E qual foi a fórmula encontrada por Trump para justificar tais aumentos de tarifas? Simples: ele listou os países com maior superávit percentual com os EUA e aplicou categorias de taxação. As mais altas, como no caso do pobre Camboja, que sofreu uma tarifa de 49%, até as mais baixas, como a de 10% imposta ao Brasil — um dos poucos países com o qual os EUA ainda têm leve superávit comercial.


Genial! Os EUA adotando a fórmula brasileira de industrialização. A economia mais aberta do mundo, com um dos melhores índices de produtividade, imitando uma das mais fechadas, com produtividade estagnada há décadas. Quem diria!


O mundo está mesmo de pernas para o ar. De repente, os EUA — bastião do capitalismo mundial, acusados no passado pela nossa esquerda de querer impor a ALCA à América Latina, defensores do livre mercado e da globalização — seguem hoje na direção oposta. Enquanto isso, a “comunista” China recorre à OMC (organização criada e bancada pelos próprios EUA para promover o comércio global), reclamando do protecionismo norte-americano!


Como chegamos a este ponto?


Basicamente, os orientais aprenderam a criar riqueza como nunca, usando a própria fórmula do liberalismo: produzir mais barato para as massas, com mão de obra e matéria-prima acessíveis. Com os lucros advindos do ganho de escala, investiram em tecnologia e tornaram-se também produtores de inovação.


E o que Trump propõe? Justamente o contrário, atacando os dois pilares da competitividade asiática. Vejamos: ao aumentar as tarifas de importação, ele encarece a matéria-prima utilizada pela própria indústria para gerar produtos de maior valor agregado. E, ao deportar imigrantes, torna a mão de obra ainda mais cara. Ou seja, Trump está criando as condições para o pior dos mundos: a estagflação, a combinação de inflação com estagnação.


Mas voltemos aos asiáticos. Sim, os EUA têm motivos para se sentirem lesados por “financiar” o enriquecimento de seus principais concorrentes — algo que ocorre desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Começando pelo Japão, que recebeu pesados investimentos norte-americanos para contrabalançar a ascensão comunista da China. O Japão aproveitou bem o impulso e se tornou, nos anos 1980, a segunda maior economia do mundo — até que cedeu às pressões dos EUA para reduzir os desequilíbrios e estagnou.


Depois vieram os Tigres Asiáticos: Coreia do Sul, Cingapura, Taiwan e Hong Kong — este último, colônia britânica devolvida à China em 1997. Taiwan já está na fila.


Por fim, a China. Um colosso de 1,4 bilhão de habitantes, rica em recursos naturais e com uma cultura milenar, disciplinada e hierarquizada — ingredientes perfeitos para ascender como potência ao adotar a máquina capitalista de produção de riquezas. E, pasmem, também com ajuda americana!


Inicialmente, copiavam tudo o que o Ocidente produzia de melhor. A qualidade inferior era compensada por preços baixíssimos, resultado de fatores como fretes baratos, controle de câmbio e práticas de dumping.


Enquanto o Ocidente se burocratizava, multiplicando leis, regulações, direitos e restrições ambientais, os chineses nadavam de braçada, tomando mercados e estendendo seus tentáculos em todos os continentes.


Mas não é só a China que lucra com o desequilíbrio global. Há outros emergentes asiáticos, mas quatro grandes economias se destacam no modelo exportador de produtos de alto valor agregado: China, Coreia do Sul, Japão e Alemanha. Em contrapartida, quatro países anglo-saxões — EUA, Reino Unido, Canadá e Austrália — tornaram-se os principais destinos desses produtos, com parte de suas indústrias migrando para os concorrentes.


Como corrigir essas distorções? Eis a questão.


O primeiro passo é refletir sobre os gastos dos próprios EUA. De fato, os americanos não podem continuar se endividando infinitamente. O que fazer, então, para conter os gastos? Nesse ponto, o governo Trump acerta com o chamado DOGE — Departamento de Eficiência Governamental. Não dá mais para continuar bancando a polícia do mundo nem ser, de longe, o maior financiador de organismos internacionais e ONGs que, há décadas, agem contra os próprios interesses dos EUA.


Sim, os EUA têm razão em cobrar maior investimento dos europeus em defesa. Têm razão em criticar a burocracia e as barreiras alfandegárias europeias. No entanto, Trump joga no lixo décadas de esforço para construir uma ordem internacional que garantiu as décadas mais pacíficas e prósperas da história da humanidade. E, de quebra, empurra antigos aliados para os braços da China, ao tratá-los como inimigos da noite para o dia.


Todo mundo sabe que o principal rival é a China. Então, por que taxar todos ao mesmo tempo? Por que comprar briga com todos?


Certamente Trump tenta seguir o conselho de Maquiavel: fazer o bem aos poucos e o mal de uma só vez. Politicamente, até faz sentido. Mas, economicamente, ele está quebrando as cadeias comerciais globais, gerando um nível de incerteza que pode levar o mundo à recessão.


O caminho mais inteligente seria estreitar os laços com aliados históricos, reduzir as disparidades tarifárias e unir forças contra a China — a maior beneficiária da ordem liberal criada pelos EUA e, hoje, uma de suas principais sabotoras, ao lado de Rússia, Irã e Coreia do Norte.


E por falar na Rússia, eis que Trump a isenta do tarifaço. É muito xadrez 4D.


Em meio a toda essa confusão, o Brasil sai bem na foto. Além de receber a menor tarifa, pode até ganhar espaço no mercado global de commodities com as retaliações às exportações norte-americanas. Mas isso nem é o mais importante. O enfraquecimento da economia dos EUA pode antecipar a queda dos juros. Não por acaso, os mercados futuros no Brasil recuaram, reduzindo a pressão sobre o Banco Central para elevar a Selic para os 15% que já estavam precificados. De quebra, provocou uma queda expressiva no preço do petróleo. Um presentão de Trump para Lula!


Enfim, em pouco mais de dois meses, Trump não só feriu de morte a OTAN como desmontou a ordem mundial construída por décadas com base no soft power norte-americano — e está prestes a jogar o mundo em recessão. A esquerda anti-capitalista, anti-globalização e anti-livre mercado deve estar comemorando, de mãos dadas com os reacionários trumpistas que sonham com o retorno à era colonial, a era dos fortões.

Ailton Braga

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