sábado, 14 de março de 2026

Thais Oyama

 A íntegra: 

Por Thaís Oyama, O Globo, 14/3/2026.

Malu Gaspar é até aqui a jornalista responsável pelas revelações mais relevantes sobre o escândalo do Banco Master. Desde que passou a expor no GLOBO as ligações do ministro do STF Alexandre de Moraes e de sua família com o ex-dono do banco, Daniel Vorcaro, tornou-se alvo de ataques abjetos, maciços e incessantes nas redes sociais.

Pelo exercício de seu ofício, vem recebendo ameaças e insultos que tentam constrangê-la e humilhá-la, muitas vezes com base em referências a sua condição de mulher. Tais ataques configuram precisamente o que grupos feministas chamam de “violência política de gênero”. Ainda assim, nenhum desses grupos veio a público defendê-la. Nenhuma nota ou carta aberta — nem mesmo um reles vídeo no TikTok.

Trata-se de silêncio que não se observou quando outras igualmente valorosas profissionais da imprensa expuseram malfeitos de bolsonaristas e foram por eles atacadas. Nesses casos, as jornalistas receberam um uníssono coro de solidariedade vindo de coletivos feministas e organizações de mulheres que não soltam a mão de ninguém e consideram um ataque a uma jornalista mulher como ataque a todas as jornalistas mulheres. Desta vez — em que o foco das reportagens é não um presidente de direita, mas um juiz eleito herói da resistência pela esquerda —, porém, nenhum desses grupos encontrou algo para dizer em defesa de Malu Gaspar.

Mais que não ser defendida, ela vem sendo atacada por setores da esquerda. Militantes petistas pedem abertamente sua demissão, e sites de esquerda estimulam a perseguição a ela (não por coincidência, alguns desses sites figuram nos autos do inquérito Master como fregueses da generosidade suspeita de Vorcaro, mas essa já é uma conversa que transcende a hipocrisia ideológica — é assunto de polícia).

Dos teclados desses militantes saem as mais sórdidas fake news — e também as mais hilariantes desculpas para o indesculpável (o troféu cara de pau fica com a feminista que invocou o imperativo do respeito à “independência profissional das mulheres” para justificar o contrato milionário de Viviane de Moraes com Vorcaro, numa mostra de que, ao contrário de quase tudo na vida, o cinismo e a capacidade de autoengano não conhecem limites).

Nada disso chega a surpreender. Historicamente, a esquerda fundamentalista, sempre indulgente com modelos totalitários, não se vexa em trocar seus alegados princípios pela proteção de seus vilões preferidos — como podem confirmar, das profundezas do inferno, camaradas de mãos ensanguentadas e um punhado de aiatolás recém-chegados. A mesma condescendência, essa esquerda dedica a seus suspeitos de estimação.

Um ministro do STF tinha encontros recreativos com um banqueiro adepto de práticas financeiras heterodoxas? Foi flagrado pela Polícia Federal trocando mensagens com esse banqueiro no dia de sua prisão? Respondeu com mensagem de visualização única à pergunta “Conseguiu ter notícias ou bloquear”? Sua mulher tinha um contrato de R$ 130 milhões com o agora ex-banqueiro-presidiário? Não tem importância. Salvo-conduto moral para os heróis da turma, e que ardam nas redes aqueles que ousarem colocá-los sob má luz.

Foi o que fez Malu Gaspar como consequência de uma apuração profissional rigorosa. A jornalista não precisa que ninguém a defenda — sua trajetória e reputação cumprem com sobra esse papel. Mas é desolador constatar que, para os fundamentalistas da esquerda brasileira, nas revoluções como nos escândalos, princípios só valem quando servem para atacar o inimigo; é lícito e legítimo linchar quem aponta o dedo para um aliado; e todos os fatos merecem ser revelados, à exceção dos inconvenientes.

Ataques a Malu Gaspar são o que grupos feministas chamam de ‘violência política de gênero’, e nenhum desses grupos a defendeu.

Agente Secreto

 https://www1.folha.uol.com.br/amp/colunas/gustavo-alonso/2026/03/kleber-mendonca-filho-nao-tem-amigos-mas-bajuladores.shtml


" Cineasta pernambucano é um grande diretor, mas não um bom roteirista 


" O Agente Secreto" é longo demais e tem histórias paralelas completamente supérfluas 


"Toda vez que assisto a um filme ruim, me espanto quando vejo os letreiros subindo na tela.. É sempre admirável a quantidade de profissionais que trabalham em conjunto para um produto final que pode ser genial, medíocre ou ruim mesmo.


Sou escritor, não cineasta. É muito fácil escrever um livro ruim. Basta sentar a bunda na cadeira e escrever o que lhe vier à cabeça, sem filtro. Depois convença um editor de que sua obra pode ter algum valor. Basta uma pessoa para que seu livro seja publicado.


A cadeia de produção de um livro não chega nem perto da cadeia de produção de um filme. Não passa de dez o número de pessoas subordinadas a um editor para que um livro possa ser publicado por uma grande editora. No cinema, embora também haja hierarquias internas, o número de trabalhadores passa facilmente das duas centenas num filme grande como "O Agente Secreto".


Digo isso porque toda vez que vejo um filme do incensado diretor Kleber Mendonça Filho me pergunto se ele tem algum amigo de verdade. Um amigo que pegue no braço e fale ao ouvido: "Cara, isso não tá legal."


Vivemos tempos em que o bairrismo cinematográfico legitima qualquer filme meia-boca. Em Pernambuco, onde moro, muitos parecem intoxicados por se verem representados na grande tela. Empolgados com a possibilidade do Oscar, se seduzem pelo reconhecimento internacional. E o diretor alimenta tal perspectiva, querendo associar "lugar de fala" ao cinema, como se isso permitisse qualquer bobeira artística. Kleber não tem amigos, só bajuladores, em seu estado natal.


A verdade é que "O Agente Secreto" repete vários problemas dos filmes dramáticos anteriores do diretor pernambucano. Muito já foi apontado pela crítica, afinal o filme não é consenso fora de Pernambuco, como gostariam aqueles que acusam de "sudestino" qualquer um que discorde esteticamente da película.


Os personagens de Kleber são pobres, pouco mudam durante a esquemática encenação dramática. Em seus filmes há sempre bonzinhos de esquerda e os vilões, obviamente, de direita, claro.


E os diálogos? Chegam a dar vergonha alheia de tão amadores e forçados. Virou piada na internet um diálogo de "Aquarius", um dos filmes mais louvados do diretor, em que a personagem de Sônia Braga fala para o sobrinho, para que este agrade a namorada: "Toca Maria Bethânia para ela. Mostra que tu é intenso". Mesmo com bons atores, como é o caso de Wagner Moura neste último filme, as atuações ficam comprometidas com o primarismo verbal.


Tudo isso é culpa dos roteiros de Kleber que, além da direção, assina pelo argumento de seus filmes. Seus roteiros querem abraçar o mundo e perdem o foco narrativo.


Em "O Agente Secreto" há histórias paralelas como a da autópsia do tubarão, a do alemão no cinema e a do casal de angolanos refugiados, que são completamente supérfluas. Mesmo a bela cena inicial, muito louvada, não diz nada que outras cenas seguintes também não digam sobre a violência da sociedade brasileira no ano de 1977, quando se passa o filme. Fica parecendo um colecionismo de boas filmagens sem conexão com a história que se quer narrar. Mero virtuosismo masturbatório de fazer cinema.


É sobretudo em relação à duração dos roteiros que falta um amigo a Kleber Mendonça Filho. Se "O Agente Secreto" tivesse 50 minutos a menos daria até um filme OK. Entre as centenas de pessoas que trabalham com o pernambucano, não há uma alma para dizer que o fato de ele ser um bom diretor não o faz ser um bom roteirista?


É importante reconhecer: Kleber Mendonça Filho é um grande diretor de cinema. Não há dúvida. Seus filmes têm tensão, é um grande articulador de profissionais, reconstitui a época com maestria, emula eficientemente suas referências cinematográficas, faz milagre com um roteiro tão pobre. Tecnicamente "O Agente Secreto" é perfeito. O lamentável, como em quase todos os filmes dramáticos de Kleber, é o roteiro esquemático, a vontade de fazer do cinema um baluarte infantil de plataformas políticas.


Pode ser que "O Agente Secreto" ganhe o Oscar de melhor filme? Se chegou até lá, tudo é possível. Mas há um forte concorrente: "Pecadores", o grande favorito, com 16 indicações. Se Kleber perder para este filme, não deve ficar triste. Afinal, "Pecadores" é uma espécie de "Bacurau" que se passa no sul dos Estados Unidos. Tão ruim e bobo quanto o original brasileiro.


Quem sabe quando Kleber estiver no domingo (15) no Dolby Theatre, em Los Angeles, esperando a estatueta, algum agente secreto cochiche em seu ouvido: "Meu compadre, a gente não pode ser bom em tudo! Filme um roteiro que não seja seu! Escolha uma boa história de verdade e use todo seu grande potencial como bom diretor já comprovado. Vai nessa que vai ser melhor!".

Cristóvão Buarque

 Rombo na esperança

                Cristovam Buarque

Correio Braziliense, quarta-feira, 4 de março de 2026

O maior de todos os rombos do caso do Banco Master é o rombo na democracia que mostra uma cara de ineficiência, irresponsabilidade, corrupção, desprezo à população e conivência dos eleitos e seus eleitores


Existe um conto na literatura fantástica, do tipo Jorge Luis Borges, em que "um certo homem assalta um banco e corre para um cassino, onde joga todo o dinheiro roubado. Ao perder tudo que conseguiu com o assalto, decide vender o patrimônio do próprio dono do banco assaltado, com o argumento de que usará o dinheiro para salvar a instituição". Parece confuso, mas é como ocorre na literatura fantástica. E no Distrito Federal essa literatura fantástica parece estar virando realidade. 


O governo desviou bilhões de reais do Banco de Brasília, o BRB, um banco público e sólido, na tentativa de salvar o Banco Master, uma instituição privada, que oferecia juros de agiota, como se fosse um cassino. Como acontece com todo banco ou cassino sem credibilidade, ao perceberem os riscos, os apostadores se afastaram, e o banco-cassino, começava a dar sinais de que quebraria.


Diante do rombo na transparência que foi imposto pelo sigilo nas investigações, até hoje não se sabe a razão que levou àquela decisão: vontade de ajudar um amigo banqueiro ou algum outro interesse escuso. Quando o Banco Central do Brasil impediu essa tentativa, o governo que depredou o Banco de Brasília apresentou a proposta de vender patrimônio de seus próprios donos, o povo do Distrito Federal, como forma de cobrir o rombo. Parece literatura fantástica, mas há maioria na Câmara Legislativa para aprovar a legislação que vai permitir cobrir um rombo com outro.

Mas, para conseguir os votos necessários, comete-se mais um rombo, nas finanças públicas: aumentar os gastos para empregar pessoas indicadas pelos deputados distritais. 


Esse círculo vicioso de rombos provoca mais outro: a vergonha que a população do Distrito Federal passa diante do resto do Brasil. A culpa dessas sucessivas irresponsabilidades no uso do dinheiro e do patrimônio públicos é jogada na omissão dos líderes políticos, intelectuais, empresariais, e por ação espúria de seus deputados distritais. Essa vergonha não é medida em bilhões de reais, mas não é menos grave do que os outros rombos mencionados. 


Para completar a fantasia tornada real, a população do Distrito Federal pode reeleger os deputados distritais que acobertaram os sucessivos rombos e eleger para novo cargo o responsável pelo primeiro rombo. Parece absurdo que eles votem para esconder um rombo arrombando mais. Também é absurda a hipótese de que, depois disso tudo, eles possam ser reeleitos por eleitores que sabem que seus deputados distritais são arrombadores, mesmo com a patética desculpa de que arrombam o patrimônio do povo para dar recursos ao governo para salvar o banco arrombado pelo próprio governo.

Como toda literatura fantástica, seu enredo fica difícil de ser entendido. Por isso, é bom relembrar os rombos que os brasilienses estão sofrendo: no BRB para tentar salvar o Master; no patrimônio do Distrito Federal para salvar o Banco de Brasília; rombo na transparência pelo sigilo imposto às investigações; nas finanças do governo do Distrito Federal para comprar com cargos os votos dos deputados distritais; o rombo na dignidade da população do Distrito Federal, vista como conivente com essa sucessão de malfeitos; o rombo na democracia, ao eleger o responsável pelos rombos e ao reeleger os deputados do arrombamento.


Cada um desses rombos tem consequências negativas sobre as finanças e o patrimônio do povo do Distrito Federal, e o maior de todos é o rombo na democracia que mostra uma cara de ineficiência, irresponsabilidade, corrupção, desprezo à população e conivência dos eleitos e seus eleitores. Nossas crianças e os jovens pagarão esses rombos com sacrifícios nos serviços oferecidos pelo governo do Distrito Federal, mas, sobretudo, serão afetados pelo rombo na esperança: na credibilidade do processo de escolha de nossos dirigentes.

*Cristovam Buarque — professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

O que a Folha pensa

 *”O que a folha pensa”Moraes usa o arbítrio para proteger o colega Dino*


Operação policial contra jornalista determinada pelo ministro afronta a liberdade de expressão Quaisquer que sejam os méritos ou deméritos da reportagem, é absurdo qualificar como crime de perseguição o que é apuração jornalística


13.mar.2026 às 22h00


Homem careca veste terno cinza, camisa azul clara e gravata azul com padrão, com capa preta sobre os ombros, em ambiente interno com fundo desfocado.


Ímpeto censório e corporativismo se combinam de modo abominável na determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que levou a Polícia Federal a cumprir na terça-feira (10) mandados de busca e apreensão contra o jornalista Luís Pablo Conceição Almeida, de São Luís (MA), autor do Blog do Luís Pablo.


Sob o manto do infindável inquérito das fake news, iniciado de forma heterodoxa em 2019 para investigar ameaças e ataques do bolsonarismo à corte, a ação apreendeu celulares e computadores do profissional.

Luís Pablo publicou, em novembro de 2025, relatos sobre o suposto uso pelo ministro Flávio Dino, colega de Moraes no Supremo, e por sua família de um carro custeado pelo Tribunal de Justiça do Maranhão.


Quaisquer que sejam os méritos ou deméritos da reportagem, não passa de puro arbítrio qualificar como possível crime de perseguição —em razão da identificação de veículos de autoridades e a pretexto de preocupações com a segurança delas— o que é apuração jornalística e escrutínio do poder protegido nas democracias pela liberdade de imprensa.


Caberia aos envolvidos desmentir, se assim quisessem e pudessem, as informações publicadas e buscar a devida reparação, se fosse o caso. O que se fez foi uma tentativa de intimidação.


Corretamente, a medida foi alvo de críticas por parte de associações de imprensa, entre elas a Associação Nacional de Jornais (ANJ), a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) e a Associação Nacional de Editoras de Revistas (Aner), além da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e o Sindicato dos Jornalistas do Maranhão.


O papel louvável do Supremo e do próprio Moraes na preservação do Estado de Direito e no enfrentamento do golpismo patrocinado por Jair Bolsonaro (PL) não autoriza seus ministros a se pretenderem imunes a críticas e questionamentos —e nem se fala aqui das graves suspeitas relacionadas ao caso Master.


A fiscalização pela imprensa e pela sociedade de atos dos magistrados não prejudica a corte, antes pelo contrário.


O que compromete sua imagem é o caráter sigiloso do processo contra o jornalista, bem como a falta de clareza sobre os parâmetros usados para separar a atividade jornalística de eventuais abusos em publicações de dados sensíveis de autoridades. A ambiguidade dá margem à intimidação e à censura.


A Constituição brasileira, que o Supremo Tribunal deveria aplicar e proteger, dispõe que é "livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença


https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2026/03/moraes-usa-o-arbitrio-para-proteger-o-colega-dino.shtml

Fernando Cavalcante

 MORREU LO PRETE (ou COISA DE VELHO) Refleti sobre se escreveria ou não esta crônica. Pois, como sempre apreciei e tenho amigos mais velhos,...