Papo de Economista
Sou Economista com dois mestrados, cursos de especialização e em Doutoramento. Meu objetivo é analisar a economia, no Brasil e no Mundo, tentar opinar sobre os principais debates da atualidade e manter sempre, na minha opinião essencial, a independência. Não pretendo me esconder em nenhum grupo teórico específico. Meu objetivo é discorrer sobre varios temas, buscando sempre ser realista.
quarta-feira, 28 de outubro de 2026
Jorge Mitre
*Disputa por herança bilionária de Jorge Mitre divide família e pode pôr credores em risco*
Parte da família questiona transferência de fazendas que foram dadas em garantia a CRA e incluídas em unidade produtiva isolada em recuperação judicial da Elisa Agro; outra ala, diz que há tentativas de manipulação da Justiça para obter vantagens na partilha de bens
Cristiane Barbieri
O espólio de Jorge Mitre, que ergueu a construtora e incorporadora Mitre Realty, diversas outras empresas e um patrimônio bilionário, está no centro de uma intensa disputa familiar. Ela envolve alegações de fraudes, inquéritos policiais e travamento de ativos, que colocaram companhias ligadas ao grupo em dificuldades. Em jogo, está um patrimônio superior a R$ 1 bilhão e uma família dividida.
Os desentendimentos começaram antes mesmo da morte do patriarca, em 17 de junho de 2022, vítima de câncer. Registros do inventário mostram que Jorge Mitre, médico de formação, demonstrava incômodo com cobranças prematuras para a divisão do patrimônio.
Uma série de atos e um testamento foram feitos, mas não impediram a contestação em diferentes frentes, bem como a divisão da família. De um lado, ficaram a matriarca Maria Elisa Marcondes Mitre e seu filho e CEO da Mitre Empreendimentos e Participações, Fabrício Mitre. Na frente oposta, os outros dois filhos do casal, Julio e Juliana, ligados à área de saúde do grupo, que questionam no processo vários negócios praticados.
Procurada, a defesa dos familiares Maria Elisa e Fabrício Mitre disse lamentar a postura dos demais herdeiros e chama suas iniciativas de “tentativas de manipulação da Justiça para obter vantagens na partilha de bens”. Os advogados negam existir risco aos credores da Elisa Agro e do CRA.
Já a defesa de Julio Mitre afirma que seu cliente defende que os bens sejam partilhados de acordo com a estrutura negocial que Jorge Mitre adotou ao longo da vida, sem favorecimento de qualquer herdeiro em prejuízo dos demais. Juliana Mitre Felício disse, por meio de seus advogados, que quer proteger o patrimônio deixado por Jorge Mitre por meio da anulação de diversos negócios jurídicos celebrados de forma suspeita nos meses finais de sua vida (leia os posicionamentos completos no fim do texto).
*Disputa se dá em várias frentes de negócios*
A disputa é marcada por múltiplas acusações e processos, em algumas frentes de negócios nas quais a família atua. A rede Hospital de Olhos de São Paulo (Hosp), por exemplo, é uma delas. Em dificuldades, enfrenta endividamento pesado e estrangulamento de fluxo de caixa. Com suspeita de desvios de recursos dessa unidade de negócios, familiares dos dois blocos em disputa foram afastados da gestão e foi nomeado um interventor judicial.
A Mitre Realty, que tem capital aberto, não foi afetada pela disputa familiar.
A principal contestação, porém, pode colocar em risco credores de um Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) de R$ 293 milhões e da Elisa Agro Sustentável, a antiga Mitre Agro. Uma das maiores produtoras de feijão carioca do País, especializada em agricultura irrigada, a empresa entrou em recuperação judicial em fevereiro de 2024, com dívidas superiores a R$ 600 milhões.
No cerne desse litígio está a transferência de três fazendas que eram de Jorge e Maria Elisa, como pessoas físicas, para a MTR Agro, empresa criada para receber os bens com fins tributários e patrimoniais. Julio e Juliana Mitre entraram com um pedido de anulação dessa transferência, por entenderem que houve falsificação da assinatura e uso do certificado digital de Jorge, que se encontrava na UTI quando ela foi feita.
A veracidade da assinatura de Jorge em documentos embasa toda a disputa. Uma delas, manuscrita, foi feita em 8 de abril de 2022, em um memorando de entendimentos que reorganizava a estrutura da frente de agronegócios, com Fabrício tornando-se dono de quase 70% da operação. Outra assinatura, digital, feita em 24 de maio de 2022, quando ele estava internado e a menos de um mês de sua morte, transferiu as três fazendas à MTR Agro.
A parte da família que contesta ambas assinaturas tem um laudo do Instituto de Criminalística da Polícia Técnico-Científica de São Paulo que afirma que a assinatura física foi falsificada. Também alegam que a assinatura digital de Jorge foi feita na sede da Mitre Realty, a quilômetros de distância do hospital no qual ele estava internado.
Os outros herdeiros, porém, têm outros dois laudos de instituições privadas dizendo que a assinatura física é verdadeira. Também afirmam ser prática comum no grupo que o certificado digital fosse acessado por pessoas de confiança e que Jorge estava lúcido durante o ato.
O mérito sobre as acusações de falsificação de assinaturas ainda vai ser julgado pela Justiça. As acusações levaram à abertura de um inquérito policial, posteriormente arquivado. Isso porque não foi possível identificar ou vincular quem cometeu a eventual falsidade no caso da assinatura digital. Também pelo fato de que a disputa é de natureza patrimonial e familiar, e o Ministério Público entendeu que essa discussão deveria acontecer na esfera cível e não criminal. O MP deixa claro em sua decisão que o arquivamento penal não valida os atos nem impede o julgamento cível.
*Irmãos contestam inclusão de fazenda sem passivo na RJ*
Outra ação anulatória dos irmãos Julio e Juliana pede que a MTR Agro não seja incluída na recuperação judicial da Elisa Agro. Isso porque a empresa que detém as fazendas tinha um passivo irrisório e foi incluída na recuperação de um grupo endividado em mais de R$ 600 milhões. A contestação alega que a MTR Agro foi usada apenas como “empresa de fachada/veículo” para liquidar bens da herança.
O que tem potencial para impactar o grupo de credores — formado principalmente por bancos — é que o plano de recuperação judicial baseia-se na criação da Unidade Produtiva Isolada (UPI, avaliada em R$ 236 milhões) da Elisa Agro, que abriga exatamente essas fazendas. O objetivo é levá-la a leilão para pagar os credores. Se a Justiça declarar a nulidade da transferência, os imóveis saem do ativo da MTR Agro e retornam ao espólio.
Decisões do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) já alertaram para o risco de “dano reverso”: sem as fazendas, o plano de recuperação perde seu principal ativo, o que pode provocar a convolação da RJ em falência e deixar os credores sem o recebimento previsto. Esse foi um dos principais motivos da negação a liminares que pediam urgência na anulação da transferência das fazendas.
Há ainda denúncias de vendas de máquinas e tratores que pertenceriam ao espólio, no âmbito da recuperação judicial. Também de desvio de finalidade no uso dos recursos captados pelo CRA, que deveriam ser aplicados exclusivamente no custeio de insumos e atividades agrícolas.
A defesa de Maria Elisa e Fabrício afirma que a ação anulatória de transferência das fazendas, seja para a MTR Agro ou para a UPI, não deve ser bem-sucedida. Entre outros motivos, dizem que Maria Elisa tinha uma procuração com amplos poderes, que a permitia levar adiante a incorporação das propriedades à MTR Agro. Também diz que a parte dos irmãos na fazenda é pequena em relação à dívida total. E que a Justiça negou liminar, em primeira e segunda instâncias, que pedia urgência na anulação da transferência das fazendas por entender o dano em risco.
A negativa da liminar se deu para evitar o colapso da recuperação judicial, mas também porque a Justiça não enxergou urgência, já que os herdeiros demoraram para fazer esse pedido. A Justiça também viu necessidade de maior prazo para recolhimento de provas. Porém, o mérito da causa ainda não foi julgado.
Os herdeiros Julio e Juliana contestam as alegações da mãe e do irmão. Eles questionam o fato de a procuração de Maria Elisa não ter sido usada no negócio. Dizem, no processo, que esse documento só passou a ser invocado após a descoberta de que a assinatura digital de Jorge partiu de um IP na Mitre Realty, enquanto ele estava internado na UTI.
Argumentam ainda que, pelo fato de se tratar de uma procuração genérica de administração, o Código Civil exige poderes especiais e expressos para alienar ou conferir imóveis de grande valor em benefício próprio ou de terceiros. Também que sua participação nas fazendas foi diluída e que bens como tratores foram vendidos sem autorização do juiz do inventário. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) e a 9.ª Vara de Família de SP emitiram ordens cautelares determinando a imediata suspensão de todo e qualquer ato de alienação, arrendamento ou disposição patrimonial desses ativos sem o aval do juiz do inventário.
Jorge Mitre não era apenas dono das terras, mas figurava como fiador e avalista solidário da quase totalidade das Cédulas de Crédito Bancário e do CRA do Grupo Elisa Agro. Caso a ação anulatória retire as fazendas da MTR e invalide o plano de recuperação judicial, os credores fiduciários e bancos poderiam tentar executar diretamente o patrimônio geral do espólio.
*Leia abaixo o posicionamento completo das defesas:*
*Maria Elisa e Fabrício Mitre:*
“A defesa de Fabrício Mitre e Maria Elisa Mitre lamenta a postura dos herdeiros Juliana e Julio Mitre de tentar manipular a Justiça e os órgãos de persecução penal reiteradamente desde o falecimento do pai, o empresário e médico Jorge Mitre, há mais de quatro anos. Na tentativa de obter vantagens na partilha dos bens da família, os irmãos têm provocado sucessivas ações nas mais diversas esferas jurídicas (varas de família, criminal e cível) com narrativas mentirosas sobre desvio de patrimônio e falsificação de assinatura — algo jamais comprovado. Tanto que todas as sentenças em todas as esferas e instâncias até hoje confirmaram a lisura e validade dos atos praticados por Jorge Mitre em vida, bem como a validade de seu testamento.
A decisão de Jorge e Elisa de integralizar três imóveis rurais, dos quais eram os únicos donos, na empresa MTR Agro fez parte de um planejamento sucessório e tributário, seguindo as melhores práticas de mercado. A Justiça, inclusive, já reconheceu que Jorge gozava de suas plenas faculdades mentais no momento em que a operação foi realizada, tendo negado o pedido dos herdeiros Julio e Juliana para anulação do ato.
Importante ressaltar que, mesmo antes de serem integralizados sob a MTR, tais imóveis rurais já haviam sido disponibilizados como garantia, por Jorge e Elisa na pessoa física, aos credores dos CRAs e também da Elisa Agro há décadas. Portanto, a integralização não afeta em nada a situação dos credores, que já tinham garantia precedente.
Em relação às acusações de desvio patrimonial e falsificação da assinatura de Jorge, o Ministério Público já investigou e arquivou o inquérito, bem como tentativas de reabertura subsequentes, uma vez que não foi identificado qualquer ato ilícito praticado por Fabrício ou Maria Elisa. O mesmo, porém, não foi constatado em relação à Juliana, que chegou a ser indiciada pela Polícia Civil de São Paulo por extorsão e desvio de recursos da conta bancária do pai. Também fez um acordo penal com pagamento de multa por fraude processual e foi excluída judicialmente de duas sociedades de empresas da área médica da família, por faltas e desvios considerados graves.
Importante esclarecer que Julio e Juliana jamais participaram da gestão de qualquer empresa do Grupo Mitre e desconhecem profundamente as operações. Ressalte-se ainda que a disputa em torno da herança não tem nenhum impacto na Mitre Realty, companhia da qual Fabrício Mitre é controlador e CEO e completamente segregada de tais controvérsias, restritas aos bens de Jorge Mitre."
*Julio Mitre:*
“Julio defende que os bens que devem ser partilhados no inventário do Dr. Jorge Mitre sejam aqueles condizentes com a estrutura negocial que ele fez ao longo da vida, que não se harmoniza com determinadas medidas adotadas nos negócios no período próximo que antecedeu seu falecimento, alterando substancialmente a composição do patrimônio a ser partilhado − o que foi objeto de impugnação e laudo do Instituto de Criminalística da Polícia Científica de SP, no qual se constatou que a assinatura atribuída ao Dr. Jorge Mitre no Memorando de Entendimentos (MoU) não foi realizada por ele.
Busca-se, assim, preservar o legado de vida deixado pelo Dr. Jorge Mitre e evitar que qualquer dos herdeiros seja favorecido em prejuízo dos demais.
Julio também permanece aberto a tratativas de acordo que observem essas premissas."
*Juliana Mitre Felício:*
“As ações propostas por Juliana Mitre Felício buscam proteger o patrimônio deixado por Jorge Mitre diante da confirmação de que diversos negócios jurídicos — que versam sobre alterações de contratos sociais de empresas, transferências de ativos e prestação de aval para emissão de CRA — foram celebrados de forma suspeita, nos meses finais de sua vida, por terceiros não identificados, através de assinaturas digitais realizadas com a utilização de seu token pessoal.
Juliana busca a declaração de nulidade desses atos controvertidos, uma vez que há comprovação de que as assinaturas digitais de Jorge foram efetuadas com o seu token pessoal por terceiros, os quais não foram identificados até a presente data, e sem que houvesse prova de autorização específica para tais assinaturas.
Em síntese, a principal tese defensiva dos principais beneficiados pelos atos suspeitos (Fabrício Mitre e Maria Elisa) resume-se às alegações de que ‘a utilização do token pessoal por terceiros era comum’, ‘Jorge tinha a intenção de praticar os atos questionados’ e, em alguns casos, ‘houve a sua autorização verbal’.
Todavia, as alegações e os elementos probatórios produzidos não conseguiram demonstrar quem teria utilizado o token pessoal de Jorge e sequer que ele tenha tomado ciência das minutas prévias ou finais que versavam sobre os atos impugnados.
Ademais, embora Fabrício e Maria Elisa aleguem que um Memorando de Entendimentos — apresentado pelo primeiro no bojo de uma investigação criminal e que teria sido celebrado em abril de 2022 — confirma a intenção de Jorge para a prática de alguns atos impugnados, a perícia oficial realizada pelo órgão técnico da Polícia Civil de São Paulo concluiu que a assinatura física presente em tal documento e atribuída a Jorge Mitre é falsa, pois não teria sido realizada por ele.
A relevância do caso se acentua diante da suspensão da execução contra o Grupo Elisa Agro em decorrência de sua recuperação judicial. Existem tentativas de direcionar ao espólio a cobrança de débitos que ultrapassam R$ 500 milhões, sob o argumento de uma prestação de fiança firmada em documento digital. Contudo, laudos apontam que tal validação não foi realizada por Jorge Mitre, mas sim por um terceiro não identificado que fez uso de seu token pessoal.
Juliana reconhece a importância dos interesses dos credores de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e do processo de recuperação judicial. Ela esclarece que suas medidas jurídicas não visam impedir o pagamento de dívidas legítimas, mas garantir que o patrimônio de seu pai responda apenas por obrigações efetivamente assumidas por ele e que possam ser legalmente exigidas do espólio.
Vale registrar que a atuação de Juliana não se resume à qualidade de herdeira de Jorge Mitre. Casada e mãe de três filhos menores, ela tem uma sólida trajetória profissional: é empresária e atua como médica há mais de 30 anos, com destaque para sua liderança no Grupo Hosp, instituição da qual é sócia e onde atuou como Responsável Técnica e coadministradora por longo período.
Até que realizasse a contestação de atos supostamente fraudulentos que beneficiavam Maria Elisa e Fabrício Mitre, Juliana jamais havia respondido a qualquer processo cível ou criminal que pudesse desabonar sua integridade pessoal ou profissional.
Não obstante, após tais impugnações, Juliana passou a ser alvo de um severo sufocamento financeiro, violência processual e diversas representações criminais temerárias, além de supostos atos de monitoramento clandestino e violência doméstica.
Por fim, Juliana esclarece que jamais sofreu qualquer condenação criminal e reitera a sua confiança na Justiça, desejando que as controvérsias sejam solucionadas com brevidade, de modo a preservar não apenas seus direitos sucessórios, mas também os direitos legítimos de terceiros afetados pelo imbróglio sob investigação."
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terça-feira, 27 de outubro de 2026
Menos interesse, mais Brasil
MENOS INTERESSES, MAIS BRASIL
Carlos Alberto Di Franco
No Estadão, em 26/10/2026
A eleição terminou. A responsabilidade permanece. Que os vencedores tenham grandeza, que os derrotados tenham espírito público e que todos saibamos cobrar resultados
Encerrada a eleição presidencial, o Brasil precisa reencontrar o Brasil. As urnas definiram quem governará. Não deram a ninguém a propriedade do País nem autorizaram a perpetuação dos palanques. A vitória impõe responsabilidades. A derrota exige maturidade. Acima das duas está uma nação que precisa trabalhar, crescer e oferecer um horizonte aos seus filhos.
É hora de baixar a voz e elevar a qualidade da política. O cidadão não pode continuar refém de uma disputa que invade a vida cotidiana, rompe amizades e transforma divergências em hostilidade. O adversário não é um inimigo a ser eliminado. É um brasileiro com quem será necessário conviver e construir soluções.
O País não carece de recursos naturais, inteligência ou capacidade empreendedora. Carece de liderança com autoridade moral, consciência histórica e espírito público. Carece de homens e mulheres capazes de subordinar suas conveniências ao interesse nacional. Há muita gente pensando na próxima eleição. Precisamos de gente pensando na próxima geração.
A pergunta decisiva já não é quem venceu. É o que faremos com o mandato recebido e com a responsabilidade que cabe a cada um. Que Brasil queremos entregar aos jovens? Um país prisioneiro de ressentimentos ou uma sociedade que transforme suas possibilidades em oportunidades reais? A resposta virá das decisões.
O cenário mundial evidenciou o valor estratégico dos alimentos, da energia e dos minerais. O Brasil tem condições para participar desse movimento. Temos água, terras, fontes de energia, empresas, agricultura produtiva e um povo trabalhador. Mas riqueza potencial não põe comida na mesa. Precisa transformar-se em investimento, produtividade e trabalho.
Enquanto discutimos pessoas, grupos e facções, projetos se arrastam, obras encarecem e oportunidades desaparecem. A burocracia sufoca quem empreende. A insegurança jurídica afasta investimentos. A instabilidade das regras pune quem planeja. O preço dessa paralisia não é pago apenas pelas empresas. É pago, sobretudo, por quem espera um emprego e por quem depende de serviços públicos precários.
Destravar o desenvolvimento deve ser prioridade nacional. Integrar o território, modernizar portos e ferrovias, melhorar a educação e estimular a inovação são tarefas que exigem continuidade. Um projeto necessário não pode ser abandonado porque nasceu em outro governo. O dinheiro público não pertence ao governante da vez. Pertence ao contribuinte, que merece respeito.
Preservação ambiental e desenvolvimento não são coisas contraditórias. Exigem decisões responsáveis, apoiadas na ciência, na proteção das comunidades e em regras claras. Mas a defesa do ambiente tampouco pode servir de justificativa para condenar populações inteiras à pobreza. O Brasil precisa recuperar seu território. Não pode admitir que organizações não governamentais, atreladas a interesses externos, decidam o nosso futuro. Governar exige conciliar direitos, avaliar consequências e decidir.
Também é preciso desfazer uma confusão persistente: desenvolvimento não se fabrica com descontrole fiscal, favores a grupos influentes ou promessas sem financiamento. O Estado precisa gastar melhor, combater desperdícios e priorizar o que muda a vida das pessoas. Inflação, dívida e improvisação cobram sua conta. Os mais pobres costumam pagá-la primeiro.
Combater a corrupção faz parte desse compromisso. Não há corrupção aceitável quando beneficia os nossos e intolerável quando favorece os outros. O dinheiro desviado falta na escola, no hospital e na segurança. A honestidade não pode ser uma bandeira recolhida depois da posse. Precisa orientar a administração e a conduta dos Poderes.
Ao presidente eleito cabe uma obrigação especial: governar para o conjunto da sociedade. Ouvir além do próprio círculo, escolher pessoas competentes e aceitar a fiscalização são sinais de grandeza. À oposição cabe exercer o controle com firmeza, apresentar alternativas e apoiar o que servir ao País. O fracasso do governo não pode ser desejado quando significa o sofrimento dos brasileiros.
Ao Congresso, ao Judiciário, aos empresários, aos sindicatos e à imprensa cabe rever prioridades. Toda instituição deve prestar contas. Nenhum setor pode exigir sacrifícios coletivos enquanto protege seus privilégios. A reconstrução da confiança começa quando o discurso encontra correspondência no comportamento.
Pacificar exige verdade, respeito à lei e disposição para o diálogo. Exige abandonar a exploração permanente do medo e da raiva. Não significa renunciar a convicções ou suspender a crítica. Significa compreender que a divergência democrática precisa produzir caminhos, e não um estado interminável de guerra.
O Brasil é maior do que qualquer biografia, partido ou projeto de poder. Não pode continuar sendo tratado como instrumento de ambições particulares. A eleição terminou. A responsabilidade permanece. Que os vencedores tenham grandeza, que os derrotados tenham espírito público e que todos saibamos cobrar resultados. Menos vaidade, menos revanche, menos interesses pessoais. Mais trabalho, mais responsabilidade, mais Brasil.
segunda-feira, 26 de outubro de 2026
Gabriel Cesar
Opinião impopular (com números):
1- Não houve fraude.
2- A campanha do Flávio foi muito bem.
Classes C, D e E foram diariamente aterrorizadas com:
-fim do bolsa família,
-congelamento de salários e aposentadorias,
-revogação do fim da escala 6x1,
-corte de R$ 200bi de programas sociais,
O brasileiro mais vulnerável quer mais gastos sociais e confia que Lula é o nome para fazer isso. Não adianta Flávio dizer que vai triplicar o Bolsa Família… Numa disputa pra ver quem dá mais benefícios, esse eleitor confia que Lula dará mais mais a ele. Vamos aos números.
Em Carnaubeira da Penha (PE), 83% da população municipal é beneficiária do Bolsa Família. Foi a cidade com maior votação proporcional do Lula, 88,33% no 1° turno e 92,34% no 2°.
Quando a campanha de ameaça de corte de programas sociais convence o eleitor indeciso, isso vira rejeição a Flávio. Ou seja, aquele eleitor está disposto a votar em qualquer um, menos no Flávio. O voto por rejeição também explica o erro das pesquisas, que têm dificuldade de captar esse voto enrustido.
O voto enrustido é justamente parte do voto desses 10 milhões que não votaram no 1° turno em Lula - mas foram convencidos a ter mais medo do Flávio. Essa parcela foi convencida de que Lula seria o “mal menor”. Ela ainda achava Lula ruim o suficiente para ter vergonha de respondê-lo na pesquisa, mas no escurinho da urna votaram 13 contra os “cortes”.
Não vou nem adentrar na teoria da fraude, pois a redução da abstenção total (3M) foi menor que a diferença total da eleição (4.4M). Ou seja, mesmo se 100% dos votos de redução de abstenção tiverem sidos roubados pelo mesário (o que é impossível), isso não mudaria o resultado.
O erro da teoria da fraude é achar que todos os votos adicionais de Lula precisam vir dos 14 milhões que não votaram nem Lula e nem Flávio no 1° turno. Essa premissa é que força a conclusão de que Lula precisaria levar 70% dos votos em disputa. Isso é muito difícil.
O mais provável? Mais votos estavam em disputa do que estes 14M: parte dos votos de Flávio virou, em especial os das classes C, D e E, bombardeadas pela campanha de cortes/congelamentos de programas sociais. Enquanto Flávio falava de proposta, Lula falava do risco do eleitor perder o sustento. Prevaleceu o medo. E é aqui que acho que Flávio foi bem.
Lula ganhou 10 milhões de votos a mais, mas terminou só 4.4 na frente. Como?
Flavio manteve a vantagem de 2.2M no saldo de votos do 1° turno.
E ainda agregou mais 3.4M.
Vocês acham que isso é pouca coisa? Que a campanha de Lula não fariam essa mesma campanha de terrorismo eleitoral contra Tarcísio, Cury, Caiado? É só olhar pro passado: Flavio perdeu por 3,6%. José Serra e Alckmin perderam de 19% e 12% de diferença pro PT mesmo com Mensalão. Aécio perdeu por margem de 3,2% mesmo no meio do Petrolão. Nenhum deles tinha Bolsonaro no sobrenome e isso não os impediu de sofrer o terrorismo eleitoral do PT.
O que fica de lição?
Lula herdará um déficit gigantesco do seu próprio governo, ele contratou a própria crise.
A oposição precisa decidir se cai na armadilha de brigar com o resultado ou se aproveita essa oportunidade para salvar o Brasil. O Lula de 2026 é muito parecido com a Dilma de 2014: assume com vitória apertada, sem maioria no Congresso e com crise contratada. Todos sabemos como terminou aquele governo.
Com uma boa gestão de oposição, temos uma oportunidade de mostrar um caminho diferente ao Brasil: defesa de reformas (PEC não vai à sanção ou veto), impeachment de ministros que cometeram crime de responsabilidade (outra que não passa pelo presidente), um Congresso de fato atuante.
Precisaremos de uma oposição forte e ativa. Dobrar a aposta na teoria da fraude é algo que tem tudo para censurar a oposição com zero ou pouca chance de retorno concreto.
Entendo os indignados, eu trabalhei muito por um resultado diferente... Por isso, digo que precisamos de SABEDORIA para superar as turbulências e aproveitar as oportunidades que virão. Ao trabalho. Haverá muito.
Thomas Conti
quinta-feira, 22 de outubro de 2026
Um possível governo Flávio Bolsonaro
PREVISÕES SOBRE O (PROVAVEL)
GOVERNO FLÁVIO BOLSONARO
Por Hugo Studart
O imperador romano Marco Aurélio registrou em seus Pensamentos que o poder não alteraria a natureza dos homens, mas apenas revelaria a matéria bruta de que seriam feitos. Na política, a transição de poder operaria como o desnudamento das ilusões retóricas em favor da crueza das forças institucionais.
Isto posto, extraindo-se os discursos e narrativas eleitorais, os indícios apontam que a provável gestão de Flávio Bolsonaro não deve repetir as comoções ideológicas do mandato do pai Jair Messias. Todos os sinais apontam para um governo muito parecido com o de Michel Temer. A prioridade seria consertar a economia, fazendo uso da maioria no Congresso para implementar reformas necessárias, a começar pela do Judiciário, em um modelo fisiológico e liberal de governabilidade. Examinemos os principais pontos do debate:
SUPREMO - A pressão sobre o Poder Judiciário figura como o nó cego da governabilidade, com a composição de forças no Senado a projetar a abertura de processos de impeachment contra integrantes do Supremo por impulso da base
política do presidente eleito. As movimentações apontam prioritariamente para a cassação dos ministros Alexandre de Moraes e Kassio Nunes Marques, em um desenho de liquidação bilateral de passivos, enquanto a base aliada exigiria ainda as inclusões de Flávio Dino e Gilmar Mendes. Por sua vez, a tentativa de mediação patrocinada por Gilmar sob a premissa da "estabilidade institucional" encontraria forte resistência na base partidária, a restringir a margem de conciliação do Executivo a um ponto intermediário.
DEMOCRACIA OU GOLPE? - Flávio nasceu e cresceu na política da negociação, e se até o pai jogou "dentro das quatro linhas" quase todo seu mandato, não haveria razão para dar golpe de Estado sob a vigilância dos EUA de Donald Trump, como tanto aponta as esquerdas e o PT do presidente Lula. Ora, Exército brasileiro não aceitou as propostas de Dilma Rousseff de implementar o Estado de Emergência; não aceitou nem mesmo a proposta de Jair Bolsonaro. Ademais, a 8 de janeiro o Exército saiu dos quartéis para prender os manisfestantes, não para dar um golpe. Não haveria razão para esse mesmo Exército, nos quartéis há 40 anos, desde
1985, patrocinar um golpe de Flávio. Golpe por qual razão, se ele tem cerca de 75% do Congresso e, se implementar o impeachment de alguns ministros do Supremo, consegue restaurar o Estado Democrático de Direito que vem sendo
vilipendiado por Suas Supremas Sapiências. Essa história de golpe é exatamente isso, história, narrativa eleitoral.
PRIVATIZAÇÕES - Uma das peças de campanha de Lula acusa Flávio de querer privatizar tudo e mais alguma coisa, incluindo instituições estratégicas como Banco do Brasil e Petrobras. De fato, há um debate interno entre os formuladores do Programa de Governo. Um dos membros da equipe que elabora o Plano Econômico, Marcelo Kayat, defende uma privatização radical, inspirado no
modelo que Paulo Guedes gostaria de ter implementado. Contudo, os dois maestros da equipe, Adolfo Sachsida e Daniella Marques, defendem vender as estatais desnecessárias, "cabides de emprego", como já acusou Flávio, e valorizar as estatais estratégicas, como a Caixa Econômica Federal. Um modelo de gestão
liberal moderada semelhante à de Henrique Meirelles no governo Temer. As declarações públicas de Flávio apontam que já se decidiu por Danielle e Sachsida.
RELAÇÕES EXTERIORES - Tudo indica que o Itamaraty foi entregue à senadora Tereza Cristina, que já anunciou que pretende priorizar a diplomacia comercial. Ela também se lançou candidata à Presidencia do Senado; nesse caso, indicaria um embaixador de sua confiança para o cargo. Eduardo Bolsonaro ja foi informado que descartado da formulação direta. Descartado até mesmo como embaixador na América de Trump, seu sonho de consumo.
ALINHAMENTO COM TRUMP - Sim, tudo indica que vai acontecer. Mas qual o real entrave? A gestão Lula alinhou o Brasil ao regime imperialista e predatório da China, entregando nossos recursos naturais aos chineses como faziam as velhas repúblicas de bananas com os americanos. O Brasil republicano nasceu sob inspiração do primo rico do Norte; nossas instituições foram espelhadas na maior democracia do mundo e há dois séculos orbitamos sob a zona de influência
econômica e cultural norte-americana. Trocar esse eixo pela China não tem lógica. Argumentam que Trump é de direita, histriônico e inconsequente — verdade, mas é passageiro. Houve sobrenatural incômodo na aliança histórica com os Estados Unidos sob Carter, Clinton, Obama ou Biden? Suportem Trump por mais dois anos e o sobressalto passa. Mas o alinhamento de Estado permanece.
CÉREBRO PENSANTE - No governo do pai Jair, o epicentro das decisões era ocupado pelos três filhos: Flávio 01, Carlos 02 e Eduardo 03. Muitos militares e alguns políticos tentavam influir; Paulo Guedes até conseguia nas questões econômicas. Contudo, ao fim e ao cabo, tudo passava por eles. Já na futura gestão de Flávio, o centro pensante passa a ser o senador Rogério Marinho, coordenador geral da campanha presidencial. Racional, pragmático e executivo, há duas opções para Marinho: a Casa Civil ou a Presidência do Senado, opçãomais provável. Afinal, no início do mandato, boa parte do poder deve se deslocar
para o Senado, onde vão ocorrer os impedimentos e de onde vão sair as reformas, como a do Judiciário. Na Câmara, a articulação aponta para o retorno de Arthur Lira.
EDUCAÇÃO, CULTURA, MEIO AMBIENTE - No governo do pai Jair, as três pastas foram entregues a gestões ideológicas. No caso da Educação e da Cultura, cada pasta acumulou a marca impressionante de cinco ministros em quatro anos. Sob a provável gestão de Flávio, contudo, a Educação deve ser exigida pelo Centrão. A grande novidade é a provável transferência das universidades federais para a
estrutura do Ministério da Ciência e Tecnologia. Já a Cultura permanece como uma incógnita: existe a hipótese de o irmão Carlos Bolsonaro, senador eleito, reivindicar a área para implementar seu próprio projeto ideológico. Por fim, no Meio Ambiente — outro setor turbulento sob o pai —, ganha força a entrega da pauta ao ex-comunista Aldo Rebelo, mantendo distância tanto do negacionismo de Jair quanto da devastação observada no governo Lula.
SEGURANÇA PÚBLICA - Uma de suas promessas prioritárias de campanha. A tendência é a de que Flávio inicie seu governo com uma gestão de impacto, recriando o Ministério da Segurança Pública e colocando um homem forte no comando, como Ronaldo Caiado. Deltan Dallagnol, símbolo da Lava Jato, deve ganhar ministério se não conquistar o mandato de senador.
DINASTIA BOLSONARO - Se dependesse do exilado Eduardo Bolsonaro, haveria monarquia autocrática com dinastia — filho sucedendo pai, irmão passando o bastão para outro irmão. Mas essa hipótese está descartada. Flávio já negociou com a Faria Lima apoiar Tarcísio de Freitas na próxima eleição presidencial. Nesta, Tarcísio cumpre a sua parte. As dúvidas recaem sobre a extensão do mandato de Flávio: se de quatro ou oito anos, ou se ele vai mesmo propor uma PEC alterando o sistema para mandato único de cinco anos.
MILÍCIAS - Uma das grandes restrições a Flávio é seu passado de amizades com políticos e policiais acusados de ligações com as milícias do Rio de Janeiro. Nesse ponto, não difere muito das suspeitas de ligações entre o PCC e alguns deputados do PT de São Paulo. É bem possível que aliados do Rio ligados às milícias ganhem
cargos em Brasília na área de segurança. Será péssimo. Mas as nomeações não devem resistir a três dias de noticiário.
PODER DO PRAGMATISMO - A história das instituições republicanas demonstra que a euforia das urnas se dobra à rigidez dos orçamentos e à aritmética do Congresso. O governo Flávio Bolsonaro se desenha não como revolução ideológica, mas como um exercício de sobrevivência política centrado na recomposição das contas públicas. O poder cobra o seu preço em pragmatismo.
Um cidadão indignado
Visto e lido por aí....
"Sou brasileira e como estou cansada de dizer, vivo em Portugal há 20 anos e, ao longo desse tempo, aprendi que viver num país diferente daquele onde nascemos exige adaptação, respeito pelas leis, pelos costumes e pela maneira como aquela sociedade funciona.
Ao acompanhar as notícias sobre as manifestações pela habitação em Lisboa, especialmente a participação de uma brasileira como porta-voz de um movimento que acabou com acampamentos desmontados, dezenas de detenções e atos de vandalismo, confesso que fiquei bastante incomodada.
Não sou contra manifestações, muito menos contra o direito à habitação. Sei que Portugal atravessa uma crise habitacional grave, que os salários não acompanham o custo de vida e que muitas famílias enfrentam enormes dificuldades. São problemas reais que precisam de soluções sérias.
Mas uma coisa é reivindicar melhores condições de vida, outra é transformar um protesto numa situação de desordem. E quando vejo notícias de vandalização de monumentos históricos, como aconteceu com a estátua de D. Pedro IV, no Rossio, a minha indignação é ainda maior. Estamos a falar de património histórico e cultural português, que pertence a todos e merece ser preservado. Não consigo compreender como alguém pretende defender uma causa legítima desrespeitando aquilo que faz parte da história de um país.
O que também me incomoda é ver uma imigrante brasileira assumir uma posição de destaque num protesto com estas características. Não por ser brasileira, porque eu também sou, mas porque acredito que, quando escolhemos viver noutro país, precisamos de compreender e respeitar a sociedade que nos acolhe. Isso não significa aceitar injustiças em silêncio, mas também não significa querer fazer tudo à nossa maneira.
O Brasil vive há anos uma polarização política que, na minha opinião, se tornou insuportável. Ou se é de direita ou se é de esquerda, e parece que já não existe espaço para o bom senso. Tudo vira uma guerra ideológica. E sinceramente, não gostaria de ver essa mesma mentalidade transportada para Portugal. Saímos do Brasil, mas parece que, em alguns casos, o Brasil não sai de nós.
Nestes 20 anos, procurei adaptar-me à vida portuguesa sem deixar de ser brasileira. Nunca senti necessidade de impor os meus costumes ou a minha maneira de pensar. E tenho uma opinião que pode não agradar a todos: quem decide emigrar precisa de estar preparado para enfrentar dificuldades. Se não consegue manter-se ou não se identifica com a realidade do país que escolheu, regressar ao país de origem também é uma opção. Não podemos esperar que o país de acolhimento se transforme naquilo que gostaríamos que fosse.
Quanto à intervenção policial, se houve excessos, devem ser investigados. Mas também não podemos assumir automaticamente que toda a ação da polícia perante uma manifestação seja repressão, principalmente quando existem situações de desobediência e danos ao património público.
Portugal tem os seus problemas, muitos deles graves, e precisa de soluções. Mas não acredito que importar a radicalização e os confrontos políticos que tanto desgastaram o Brasil seja o caminho.
Até alguns anos atrás, tinha orgulho de ser brasileira, mas acho que o brasileiro de hoje deixa - e não é pouco - á desejar. Também tenho um enorme respeito pelo país onde escolhi construir a minha vida. Para mim, adaptar-me a Portugal nunca significou perder as minhas raízes, mas compreender que viver aqui não é tentar transformar este país numa cópia daquele que deixei para trás.
Reivindicar direitos é legítimo. Desrespeitar a história, as leis e o património de um país não deveria fazer parte de nenhuma reivindicação.
Ser Imigrante Também É Saber Respeitar O País Que Nos Acolhe"
Hugo Studart
COMO BRIZOLA FORJOU LEONEL
Poucos sabem, mas o líder político Leonel Brizola não se chamava Leonel. Nasceu Itagiba. Em 1923, quando tinha 1 ano, seu pai morreu degolado em uma daquelas revoltas armadas que sempre assolaram os pampas. Fazia parte das tropas de um caudilho maragato, o general Leonel Rocha. Itagiba passou a infância brincando de peleias; ele sempre era, com muito orgulho, o general Leonel. Aos 13 anos, quando foi para a cidade aprender a ler e escrever, teve que se registrar. Quando o escrivão lhe perguntou o nome, não tergiversou: Leonel de Moura Brizola.
Acabo de ler a primeira referência a Leonel, o ídolo de Itagiba. A história se passa no conturbado governo de Artur Bernardes (1922-1926), quando explodiram revoltas armadas contra as oligarquias da Velha República para todo lado: Rio de Janeiro, com os 18 do Forte, Rio Grande do Sul e São Paulo, desencadeando a coluna de "revoltosos" liderada pelo general Isidoro Dias Lopes, chefiada pelo major Miguel Costa e tendo como seu adjunto o capitão Luiz Carlos Prestes (movimento este que restou registrado pela História como Coluna Prestes)
A revolta dos pampas foi a pior, uma verdadeira guerra civil, desencadeada quando o caudilho Borges de Medeiros consegue se reeleger, na esteira de Bernardes, para o sexto mandato como presidente do Rio Grande. A guerra civil, iniciada em janeiro de 1923, espalha-se pelo Estado, da Serra Gaúcha até a fronteira com a Argentina. Foram 13 batalhas, quase todas lideradas pelo general Honório Lemes. Leonel Rocha era um dos comandantes "revolucionários", que liderou uma batalha na região de Carazinho, onde nasceu Brizola.
Em dezembro de 1923 o presidente Bernardes conseguiu negociar um acordo, com armistício e anistia, no qual a Constituição gaúcha fora alterada para impedir a reeleição de Borges de Medeiros (com a vitória politica dos rebelados, abriu-se caminho para que em 1927, em conluio oligarquico e fraude nas urnas, escolhessem governador o jovem ministro da Fazenda, um tal de Getúlio Vargas).
Mas muitos já haviam sucumbido com a revolução de 1923, dentre eles Brizola-pai. Contudo, naquela "revolução" seria forjada, ainda criança, um dos mais relevantes líderes políticos da história brasileira.
Votei em Brizola, sempre no primeiro turno, em 1989 e 1994. Hoje lamento o legado de caos que deixou em sua passagem pelo Rio de Janeiro. Foi ele quem permitiu que o tráfico tomasse conta dos morros cariocas. Um mal até hoje não consertado.
Hugo Studart
Das lembranças de há 6 anos)
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