sexta-feira, 9 de outubro de 2026

OESP

 “Desnorteado depois da pancada nas urnas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu um salve "urgente" nas redes sociais com três "recados" à militância petista. Primeiro, que tenham "humildade" e "não falem mal do eleitor que não votou na gente". Depois, que sua candidatura é "a única antissistema" e que a "promiscuidade" do Supremo Tribunal Federal (STF) foi jogada nas suas "costas". Por fim, que o crime organizado atua como uma "multinacional" e que lugar de bandido é na "cadeia". Ou seja, Lula quer que o eleitor esqueça quem ele sempre foi: arrogante, não humilde; associado ao "sistema", sobretudo ao STF; e leniente com o crime organizado.


Recorde-se que o PT "antissistema" que Lula acaba de inventar recebeu cinco dos últimos seis mandatos presidenciais. Por 18 anos, negociou orçamentos, costurou coalizões, manuseou estatais, distribuiu subsídios e aparelhou gabinetes por toda a República. Nos bastidores, engendrou grossos esquemas de corrupção, como o mensalão e o petrolão. O Congresso, que até outro dia era xingado de "inimigo do povo" pelos petistas, hoje é amigo do PT, embrulhando no atropelo, pelas mãos dos aliados de Lula nas presidências da Câmara e do Senado, pacotes eleitoreiros bancados pelo contribuinte. Uma legenda assim pode reivindicar muita coisa, exceto a credencial de rebelde em Brasília.


O governo escandalizado com a "promiscuidade" do STF passou quatro anos recorrendo a ele ora como polícia da democracia, para perseguir adversários, ora como terceira casa legislativa, para abater legislações que o desagradavam e empurrar goela abaixo as que o interessavam. Na campanha, suas tropas de choque togadas meteram todos os dedos na balança eleitoral. O presidente que agora se diz preocupado com o "critério" de indicação ao STF é o mesmo que indicou seu advogado pessoal.


Em 2022, Lula declarou que a vitória da tal "frente ampla", que o colocou na Presidência, não era sua nem do PT, mas de um "imenso movimento democrático" contra o bolsonarismo. Tão logo se aboletou no Planalto, o hoje "humilde" Lula escanteou aliados, governou só com o PT e deu as costas a eleitores centristas, abraçando as pautas da esquerda antediluviana. Quatro anos depois, roga aos seus bate-paus que tratem com carinho os independentes de cujos votos agora precisa desesperadamente.


Chega a ser um insulto à inteligência e à memória. Em 2013, quando o PT vivia o auge do poder e da arrogância, a musa intelectual das esquerdas, Marilena Chauí, explicou num evento com caciques petistas, entre palmas da plateia e risos de Lula, que "odeia a classe média", porque ela é um "atraso de vida", "petulante" e "terrorista"; uma "abominação cognitiva", "ética" e "política", "porque ela é fascista". Eis a velha pedagogia petista: quem vota no PT é esclarecido; quem não vota é "fascista". Pior: se for pobre, é ingrato, razão pela qual o "pobre de direita", que não vota no PT, já virou personagem folclórico nos tratados da intelligentsia petista.


Tal como o milagre da recente conversão em massa dos petistas à religiosidade popular, a autocrítica tem hora marcada: a das eleições. Mas São Lula está há tanto tempo embriagado de si mesmo que nem sequer sabe o que é humildade. A mesma postagem que a cobra da militância afirma que "não temos que procurar defeito entre nós". Talvez porque, na sua cabeça, não há o que procurar.


O chefão petista pede agora três semanas de amnésia coletiva. A respeito da segurança pública, por exemplo, quer que o País inteiro esqueça que seus governos nada fizeram contra as organizações criminosas e que a militância lopetista continua a glamourizar bandidos como heróis da luta de classes ou a retratá-los como subproduto das injustiças sociais. Tudo para tentar conquistar um eleitor já vacinado contra as imposturas de Lula.


O nome elegante dessa estratégia é "reposicionamento". O vulgar é oportunismo. Lula pode trocar de discurso, de aliados, de inimigos, de princípios e até de biografia como quem troca de roupa. Mas não pode trocar de povo, e o recado das urnas ao presidente é que o brasileiro está farto de ser tratado como trouxa. Assim como a humildade dos petistas, a paciência do eleitor também tem prazo de validade.”


- Editorial Estadão

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Sergio Garschagem

 Fiquei impressionado - sério! - com a repercussão das minhas experiências nos EUA, entre os anos de 1973/74. Motivou comentários mil. 

Observo que há muitos amigos que viveram nos EUA, no Canadá ou em países europeus, e que foram para lá como adeptos do socialismo, parece que nada apreenderam destas suas experiências. Alguns destes amigos e conhecidos fizeram mestrados e doutorados em países democráticos mas retornaram ainda com as velhas ideias socialistas mofadas.

Tenho um amigo de longa data com três doutorados em diferentes países democráticos e de economias abertas mas que, em recente depoimento na  internet declarou voto ao Lisinácio. Este presidente engana quando afirma ter criado 15 universidades. Aqui em Curitiba ele mudou para Universidade o nome do Instituto Tecnológico, que funcionava há décadas. Fácil criar universidades mudando nomes.

Em meu mestrado em Ciência Política, na Unieuro em Brasília, apenas um dos professores era adepto da economia de mercado, com doutorado na Universidade de Chicago. Li todos os livros indicados por eles e os que mais me fizeram a cabeça eram os aconselhados pelo mestre formado em Chicago, famosa pela formação de profissionais com ideias liberalizantes.

Um dos professores ficou muito chocado quando descobriu que eu não era socialista, Ele não conseguia entender o que lhe parecia ser uma incongruência. Respondia a ele que incongruente era trabalhar em um jornal econômico, mantido por empresários, sendo um verdadeiro socialista. 

O próprio Roberto Marinho empregava repórteres socialistas. "Deixe os meus comunistas em paz", disse ao ex-presidente Médici. O dono de O Globo explicava que se abrisse o jornal para jornalistas de direita corria o risco de perder o poder. 

No Brasil os governos se intrometem em tudo. O Estado é mastodôntico. Basta lembrar que 75% das notícias publicadas diariamente na nossa imprensa têm origem nos Três Poderes, em Brasília. O percentual indica a dependência do país ao governo, quando deveria ser ao contrário. O governo atendendo os interesses de quem trabalha e gera impostos.

É comum lermos os depoimentos de criadores tecnológicos norte-americanos, como Steve Jobs e outros, de que começaram as suas empresas milionárias nas garagens de suas casas. 

Isso seria impossível  no Brasil. Digo por experiência própria. Anos atrás fui convidado para trabalhar como assessor de imprensa de uma Associação federal. Salário muito bom para a época, mas sem carteira de trabalho assinada. Teria de me tornar um MEI (Micro Empresário Individual) para ter nota fiscal ao receber os meus proventos mensais. 

Enfrentei sozinho a enorme burocracia, o que me levou a contratar um contador especializado, que me cobrou R$ 800,00 para providenciar a papelada. Uma boa grana na época.

Coloquei como endereço comercial, a nossa casa em um condomínio rural. Afinal, apesar de micro empreendedor em assessoria de imprensa, só tinha mesmo um chefe e empregador, com quem deveria trabalhar diariamente, em sala a mim destinada.

Tudo correu bem no primeiro mês. Recebi meus proventos, entreguei a NF ao empregador e... recebi uma multa de R$ 800 porque não poderia cadastrar a minha microempresa em um endereço residencial, mesmo que rural. A MEI deveria ter, obrigatoriamente, um endereço comercial, para não incomodar os vizinhos. 

Aleguei ao fiscal que trabalhava redigindo textos em computador, que era - e ainda é - um equipamento silencioso. Aleguei ainda que os meus vizinhos também usavam computadores e trabalhavam em suas casas. 

- Então, por que não posso ter em minha casa, ou em minha garagem, como os americanos, o meu endereço comercial?.

Repetiu o tal fiscal, no mesmo tom professoral, que eu deveria alugar uma sala  em área comercial, e que, como ele bem sabia, ficaria vazia. Aleguei também que ele iria lá e, como a sala estava sempre vazia, deixaria ouras multas por baixo da porta. Sem contar que teria de pagar, além do aluguel, as taxas de condomínio, de água e luz. Nem assim o homem amoleceu a sua alma dura, burocrática e fiscalizadora.

Mas, como todos nós sabemos, a burocracia brasileira se apega a detalhes de somenos importância. Como esta de que não se pode abrir uma empresa na garagem de casa, se não morarmos em uma área comercial.

Ah! Uma boa amiga, arquiteta, solidária com estes meus perrengues fiscais, me emprestou o endereço de sua sala e estúdio, em área comercial. Mas se esqueceu de informar o empréstimo do endereço à recepcionista. O fiscal, claro, foi lá bisbilhotar. A pobre recepcioonista, claro, disse ao fiscal do trabalho que eu não trabalhava naquele endereço. Outra multa de R$ 800. 

Bem, ainda bem que os tais fiscais do trabalho pararam de me perseguir e pude trabalhar em paz pelo prazo de um ano de vigência do tal contrato, sem qualquer endereço registrado. 

Bem, o tal contrato foi suspenso na data aprazada, coincidentemente quando alguém alegou ao presidente da tal Associação que pegaria mal e teria manchetes negativas caso a imprensa descobrisse que, em um dos Três Poderes, havia funcionários que trabalhavam sem a carteira de trabalho assinada. Nem eu, talvez por ser parte interessada, tinha pensado nesta hipótese.

Bem, como o presidente não assinou a minha carteira, corri e contratei o mesmo contador para dar baixa na tal microempresa individual, o que me custou outros mil reais (inflação!) e uma promessa: jurei a mim mesmo que nunca mais abriria outra MEI.

Lulo-petismo e o banco Master

 *Áudios de advogado a Vorcaro mostram insistência para que Mantega defendesse Master a Lula; ouça*

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Banqueiro buscou presidente para defender interesses do Master, citou que era necessário acionar ‘Alexandre’ e disse que Hugo Motta repassou informações de Galípolo. Planalto afirmou que Lula só se encontrou uma vez com Vorcaro e negou favorecimento; outros citados negam irregularidades


BRASÍLIA E SÃO PAULO- Mensagens de áudio do celular de Daniel Vorcaro, obtidas pelo Estadão, mostram que o banqueiro e seu então advogado Walfrido Warde insistiram em 2025 com o ex-ministro Guido Mantega para que se encontrasse pessoalmente com o presidente Lula. O objetivo do encontro seria defender o Banco Master em relação aos questionamentos que o banco já enfrentava no Banco Central.


Lula e Vorcaro se encontraram em dezembro de 2024. Os diálogos mostram que o banqueiro tentou com insistência fazer seus intermediários chegarem a Lula no ano seguinte. O BC vetou a venda do Master ao BRB em setembro de 2025 e, posteriormente, decretou a liquidação do banco de Vorcaro em novembro,


Guido Mantega foi contratado por Vorcaro como consultor por R$ 14 milhões para tratar de assuntos ligados ao governo federal. Segundo apurou o Estadão, o ponto de honra do banqueiro seria tentar fazer chegar a Lula e a outros integrantes do governo que o banco estava sendo injustiçado pelo BC e que as carteiras de crédito repassadas ao Banco Regional de Brasília (BRB) tinham o valor declarado pelo Master. Vorcaro acabaria preso no mesmo ano sob suspeita de fraude nesses ativos.


Procurado, o Planalto afirmou em nota que o presidente se reuniu apenas uma vez com Vorcaro, mas não respondeu se houve conversas com Mantega ou Warde sobre o Banco Master 


Nas conversas, Vorcaro também mencionou que considerava ter o apoio do Supremo Tribunal Federal (STF), do presidente Lula, da Câmara dos Deputados e do Senado para conseguir aprovar no Banco Central a venda do Banco Master ao BRB. Por isso, ele afirmou que um diretor do BC contrário ao negócio estava “indo contra” essas quatro instituições.


As conversas mostram como Vorcaro tentou mobilizar integrantes dos Três Poderes para pressionar o BC a aprovar a operação envolvendo o Banco Master.


Nos diálogos, Vorcaro e Warde tratam de viabilizar encontros de Guido Mantega com o presidente Lula para defender os interesses do Banco Master.


Em 23 de julho de 2025, Warde tentou telefonar para Vorcaro e menciona ao banqueiro que estava com o então chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro. “Preciso falar. Atende. To com Marcola”, escreveu. Após um desencontro, Warde enviou um áudio a Vorcaro dizendo que Mantega estava em viagem ao exterior mas que seria importante o banqueiro enviar um avião para buscá-lo para conversar com Lula.


“Irmão, deixa te falar, o Guido está em Londres. Só daqui dez dias, mas eu acho que seria o caso de você mandar teu avião lá buscar ele e trazer ele pra encontrar o presidente, veja aí o que você consegue fazer, conversa com ele”, afirmou Warde. Ouça o áudio:


Pouco depois, Warde encaminha ao banqueiro duas outras mensagens, sem identificar o autor. “Descobri o seguinte aqui: o pr falou com guido ontem por telefone, guido informou que esta em londres”, afirma a primeira. “Pr disse que vai chamar assim que retornar”, completa. Trechos dessas mensagens foram divulgados pelo jornal O Globo.


Dois dias depois, Warde enviou outro áudio para Vorcaro dizendo que precisa fazer uma videoconferência deles dois com Guido Mantega para orientar o ex-ministro sobre o Banco Master. Sem mencionar nominalmente Lula, Warde disse: “É urgente, ele vai falar com você sabe quem no domingo”. Ouça o áudio:


*Às 14h18, ele insiste: “Vc pode em 10 minutos falar comigo e Guido?”.*


*Uma hora depois, eles fazem uma conversa telefônica de 23 minutos de duração. “Parabéns. Importante call. Vai dar certo”, escreveu Warde após a ligação. “Muito obrigado”, respondeu Vorcaro.*


Além de acionarem Guido Mantega, Vorcaro também insistiu para que o próprio Walfrido tentasse falar pessoalmente com Lula. No dia 31 de julho, escreveu ao advogado. “Você precisa conversar com o chefe. Única chance nossa”, afirmou.


*Warde mencionou que estava tentando falar com Marcola, o então chefe de gabinete de Lula. “To indo. Marcola em reunião. Já lhe dou notícias”, escreveu. “Ele precisa escutar da sua boca. Que não tem problema nenhum e que o dano que estão causando é irreversível”, disse Vorcaro. “Vou resolver. Vamos desarmar tudo isso”, respondeu Warde.*


*Vorcaro sugere acionar ‘Alexandre’ e cita informações recebidas de Hugo Motta*



Nas conversas durante o período de análise do negócio no BC, Vorcaro mencionou ao advogado Walfrido Warde por diversas vezes a necessidade de obter a interferência de Lula em seu favor. No diálogo de 23 de julho de 2025, diante da dificuldade em viabilizar um encontro do ex-ministro Guido Mantega com Lula para tratar do assunto, Vorcaro sugeriu acionar uma outra pessoa para entrar em campo. “Alexandre”, escreveu a Warde, sem deixar claro se era uma referência ao ministro do STF Alexandre de Moraes. Trechos dessas conversas foram divulgados anteriormente pelo jornal O Globo.


Vorcaro também relatou ter recebido informações do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), sobre uma conversa com o presidente do BC, Gabriel Galípolo. No diálogo de Vorcaro com Motta, o presidente da Câmara afirma que Galípolo iria à casa do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), após uma reunião que tratava do Master no dia 17 de julho de 2025. O diálogo não deixa claro se Motta também participou dessa conversa. “Galípolo ficou de ir lá pra casa de Davi quando encerrasse a reunião”, escreveu Motta a Vorcaro, às 20h56. Às 21h55, Motta telefona a Vorcaro e conversa com ele por dois minutos.


Às 22h14, Vorcaro repassou a Warde as informações recebidas. “Galípolo acabou reunião agora. Inventou nova desculpa. Que agora tem erros contábeis. Falou pro Hugo. Não dá mais. Eles não vão fazer”, disse o banqueiro, em uma sequência de mensagens. Depois disso, Vorcaro disse a Warde que deveriam ir para o embate com o BC e pede que o advogado avise Lula. “Avise presidente amanhã e vamos pra guerra”, escreveu Vorcaro. “Vou levar a conhecimento do presidente”, respondeu Warde.


Mais tarde nesse mesmo dia, às 23h16, Vorcaro passou a criticar a atuação do então diretor do BC Renato Gomes, que se posicionou contra a venda do Master ao BRB. Ele sugeriu a Warde que solicitassem a “suspeição” de Renato Gomes. Foi nesse momento que o banqueiro disse que o representante da autoridade monetária estava “*indo contra*” o apoio que ele tinha no STF, no Congresso Nacional e na Presidência da República.


Em 23 de julho de 2025, *Warde conversou com Vorcaro sobre a necessidade de mobilizar Guido Mantega para conversar com Lula, mas passou a discutir um plano alternativo após saber que o ex-ministro estava no exterior. “*Vamos dar um jeito*”, escreveu às 15h49. Vorcaro responde às 15h51 com um nome: “*Alexandre*”. O banqueiro não deixa claro se era uma referência ao ministro Alexandre de Moraes. Warde apenas respondeu: “*Sim. Vou pavimentar*”.


Procurado, Hugo Motta afirmou por meio de sua assessoria, que sua atuação no caso foi dentro da atividade parlamentar. “O contato com o empresariado e representantes da sociedade brasileira é inerente ao exercício da atividade de qualquer parlamentar. Os diálogos publicados não exteriorizam, portanto, qualquer tipo de mácula à minha atuação parlamentar, sendo certo que todos os meus contatos mantidos com integrantes do setor privado sempre foram pautados pela institucionalidade e pela probidade. Confio nos órgãos responsáveis pelas investigações, a quem cabe responder pelas apurações.” A assessoria de Alcolumbre não se manifestou. Moraes também foi procurado por meio da assessoria do STF, mas não se manifestou.


*Posicionamento do Palácio do Planalto*


Conforme já amplamente noticiado, o presidente Lula encontrou-se uma única vez com Daniel Vorcaro, em 4 de dezembro de 2024. Vorcaro havia ido ao Palácio do Planalto acompanhado do ex-ministro Guido Mantega e o encontro com o presidente não estava previamente agendado. Da conversa também participaram o ministro da Casa Civil, Rui Costa, e Gabriel Galípolo, então diretor de Política Monetária e atual presidente do Banco Central. Na ocasião, Vorcaro afirmou sentir-se alvo de perseguições, e o presidente respondeu que eventuais denúncias deveriam ser analisadas tecnicamente pelo Banco Central. Não houve nenhum outro contato entre o presidente e Daniel Vorcaro. Cabe lembrar ainda que foi durante o atual governo que o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master e Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no âmbito das investigações sobre a instituição.


https://www.estadao.com.br/politica/audios-de-advogado-a-vorcaro-mostram-insistencia-para-que-mantega-defendesse-master-a-lula-ouca/

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Daniella Marques

Daniella Marques leva o legado de Paulo Guedes à campanha de Flávio Bolsonaro.

Edilson Salgueiro para a Oeste:

Aos 13 anos, ainda longe da Faria Lima e mais longe ainda de Brasília, Daniella Marques tinha o hábito de pôr os planos no papel. A menina nascida em Barra Mansa, município localizado no sul do Rio de Janeiro, não economizava nas metas. “Quero ter US$ 1 milhão”, escrevia frequentemente no diário. Conseguiu. A ambição vinha de uma família de classe média. O pai construiu carreira no Banco do Brasil, onde começou como escriturário. A mãe era professora da rede estadual.

Daniella nasceu em 16 de outubro de 1979. Formou-se em Administração pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, concluiu pós-graduação em Finanças no Ibmec e entrou no mercado financeiro. Antes dos 30 anos, já havia feito fortuna. Passou oito anos na Mercatto Asset, uma das principais gestoras de recursos do país, da qual se tornou sócia e chefe do setor de renda variável. Em 2013, a Mercatto se uniu a outras duas empresas do setor: a BR Investimentos, fundada por Paulo Guedes, e a Trapezus Asset Management. Essa operação deu origem à Bozano Investimentos. Daniella tornou-se sócia do futuro ministro da Economia e passou a responder pelas áreas de risco, compliance e operações.

A relação profissional entre os dois se estendeu até 2018. Na época, Daniella estava no topo da carreira. Tinha rendimentos anuais na casa dos milhões de reais, carro blindado e vida confortável no Rio. Foi quando tudo mudou. Em julho daquele ano, Guedes levou Daniella ao lançamento da candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência pelo PSL, no Centro de Convenções SulAmérica, na capital fluminense. De acordo com o economista, a então sócia se impressionou com o ambiente, as músicas, as placas, as faixas e o entusiasmo dos cidadãos. Ao fim do evento, Daniella pediu para integrar o projeto. “Quero ir para Brasília te ajudar a transformar o Brasil”, disse.

Separada e com um filho de 4 anos, Daniella deixou o Rio e se mudou sozinha para a capital federal. Trocou os rendimentos milionários do mercado financeiro por cerca de R$ 25 mil mensais no serviço público. Depois da vitória de Bolsonaro, Guedes montou uma equipe de 21 dos chamados “supersecretários”. Daniella, nomeada para chefiar a Assessoria Especial de Assuntos Estratégicos do Ministério da Economia, era a única mulher do grupo. Em Brasília, passou a ser chamada de “superego” de Guedes.

Atuação sem holofotes

Entre antigos colegas de governo, Daniella é lembrada pela capacidade de ler o ambiente político. Essa habilidade se tornou especialmente útil para Guedes, que chegara a Brasília com uma agenda extensa e pouca experiência na política. Daniella passou a ajudá-lo na interlocução com parlamentares, em que uma frase mal colocada podia comprometer a aprovação de propostas importantes. Agia dessa forma sem buscar holofotes. Não gostava de aparecer.

Ela tinha acesso direto a Guedes e despachava com Bolsonaro mesmo quando o ministro não estava presente. Esse protagonismo cresceu sobretudo quando a relação entre Guedes e Rodrigo Maia, então presidente da Câmara, atravessava sucessivos atritos. Daniella servia de ponte. Entre outros projetos de relevância, participou das articulações no Congresso para a aprovação da reforma da Previdência, em 2019, e da PEC dos Precatórios, em 2021.

Mas a atuação de Daniella nem sempre se restringiu aos bastidores. Em abril de 2019, Guedes foi à Comissão de Constituição e Justiça da Câmara para debater a proposta de reforma da Previdência apresentada pelo governo. Na sessão, o deputado federal Zeca Dirceu (PT-PR) afirmou que o ministro era “tigrão” com aposentados e professores e “tchutchuca” com privilegiados e banqueiros. Guedes reagiu. A sessão virou tumulto. Daniella saiu em defesa de Guedes e discutiu com a deputada Maria do Rosário (PT-RS). A parlamentar acusou a assessora do ministro de tê-la agredido e pediu a intervenção da Polícia Legislativa. Daniella acabou conduzida pelos seguranças, mas nenhuma ocorrência foi registrada.

Em fevereiro de 2022, Daniella ganhou mais espaço no Ministério da Economia. Deixou a função de assessora de Guedes para comandar a Secretaria Especial de Produtividade e Competitividade, uma das principais áreas da pasta. Ali, passou a cuidar de políticas voltadas à produtividade e ao ambiente de negócios. Mas durou pouco tempo. Apenas cinco meses depois, Daniella enfrentaria um desafio ainda maior.

Uma mulher na Caixa

Pedro Guimarães deixou a presidência da Caixa Econômica Federal em junho de 2022, depois de denúncias de assédio sexual e moral. O governo precisava escolher um substituto para comandar um dos maiores bancos do país em meio à crise. Escolheu Daniella, a primeira mulher a ocupar o cargo mais alto da instituição. Ela já começou anunciando mudanças. Disse que as denúncias seriam investigadas “com independência, com rigor, com seriedade” e que, se comprovadas, haveria punições. Além disso, criou o Diálogo Seguro Caixa, canal voltado ao acolhimento das funcionárias, à apresentação de denúncias e ao recebimento de sugestões. Nos primeiros 30 dias, as funcionárias passaram a ter um canal direto com a nova presidente. “Sou mulher, entendo o que é ser mulher no ambiente de trabalho”, disse às colaboradoras.

Controvérsias também marcaram a trajetória de Daniella à frente da Caixa. Na campanha eleitoral de 2022, o banco começou a conceder empréstimos a beneficiários do Auxílio Brasil, programa de transferência de renda que havia substituído o Bolsa Família no governo Bolsonaro. As parcelas eram descontadas diretamente do benefício. Na época, a iniciativa foi questionada pelo Tribunal de Contas da União, que pediu investigação sobre os empréstimos.

Esse assunto ressurgiu em agosto deste ano, durante uma entrevista de Daniella ao jornal Folha de S.Paulo. Na ocasião, a ex-presidente da Caixa reprovou o aumento de gastos e a expansão de crédito promovidos pelo governo Lula em ano eleitoral. Uma das entrevistadoras lembrou que Bolsonaro também havia ampliado gastos e crédito em 2022 e citou os cerca de R$ 5 bilhões em consignados do Auxílio Brasil liberados pela Caixa entre os dois turnos daquela eleição. A jornalista ainda formulava a pergunta quando Daniella a interrompeu. “Que foram arquivados, né?”, respondeu a entrevistada, referindo-se aos questionamentos do TCU. “Vamos ser corretos na pergunta.” Antes de devolver a palavra à jornalista, arrematou: “Obrigada por ser factual. Se fizer pergunta, detalha”.

De volta ao setor privado

O governo Bolsonaro terminou em dezembro de 2022. Daniella deixou a Caixa em janeiro do ano seguinte e retornou ao setor privado. Ainda em 2023, passou a integrar o grupo de serviços financeiros Legend Capital, inicialmente como integrante do conselho. Mais tarde, chegaria à presidência da empresa.

A parceria profissional com Guedes seguiu na nova casa. O ex-ministro também havia ingressado na Legend em 2023 e assumido a presidência do conselho de administração. Daniella, contudo, voltava à iniciativa privada com uma trajetória própria: havia presidido a Caixa e trabalhado no primeiro escalão do Ministério da Economia.

Nos bastidores da Faria Lima, a executiva ganhou um apelido que resume a reputação de firmeza construída nesse percurso: “Dama de Ferro”. A alcunha remete a Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica que se tornou mundialmente conhecida pelo mesmo epíteto. Daniella também é chamada de “Paulo Guedes de Saias”, referência à parceria entre os dois e à afinidade na defesa de uma agenda econômica liberal.

Esse currículo abriu caminho para a entrada de Daniella na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Guedes havia sido procurado, mas não demonstrou interesse em retornar a Brasília e incentivou o senador a buscar integrantes da antiga equipe do Ministério da Economia. Daniella aceitou. Ela compõe o núcleo duro da campanha do Zero Um. Lá, participa da formulação do programa econômico. Daniella olha para as contas do país como quem examina um balanço: quanto o Estado deve, quanto gasta e que recursos tem à disposição para reorganizar as finanças. Nesse cálculo entram cerca de 760 mil imóveis da União, avaliados em mais de R$ 1,5 trilhão. Como solução, Daniella propõe obter recursos com parte desses ativos e destiná-los à redução da dívida pública, que ultrapassa R$ 9 trilhões.

O mesmo pente-fino alcançaria as despesas. Segundo a chefe da campanha econômica de Flávio, cerca de 45 estatais custam em torno de R$ 30 bilhões por ano aos cofres públicos, enquanto a administração federal reúne 22,5 mil cargos comissionados. “Privatização ou não é consequência”, observa, ao explicar que as estatais precisam ser reavaliadas periodicamente. “A lógica não é necessariamente privatizar tudo.”

A conta que Daniella pretende fechar é de um corte de R$ 190 bilhões em despesas, o equivalente a cerca de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Para chegar lá, defende reduzir ministérios, combater supersalários e mudar a regra fiscal. Propõe ainda medidas para aumentar a produtividade, reduzir a burocracia, ampliar a digitalização dos serviços públicos e melhorar o ambiente de negócios.

É assim que Daniella liga as contas públicas à vida das famílias. Ela explica que, quando o governo gasta muito mais do que arrecada e aumenta a dívida, os efeitos inevitavelmente chegam ao bolso dos brasileiros. Juros altos encarecem o financiamento da casa, do carro e as compras parceladas. A inflação faz o dinheiro render menos no supermercado. “Quem não cuida das contas não cuida das pessoas”, costuma dizer em entrevistas.

O legado continua

A vida também mudou fora dos escritórios. Daniella se casou novamente e tornou-se mãe pela segunda vez, aos 45 anos. Chama Arthur, o filho mais novo, de “milagre”. Católica, costuma usar escapulários e fala abertamente sobre a importância da religião. “A fé é a base de tudo”, ressalta.

Nem o velho hábito de pôr os objetivos no papel desapareceu. Daniella garante que continua escrevendo o que pretende alcançar, como fazia ainda menina, aos 13 anos. Uma das metas daquela época era ter US$ 1 milhão. Teve êxito.

Agora, mais de três décadas depois, Daniella dá outro sentido à ambição. Quer retribuir o que conquistou na carreira e associa a volta à vida pública ao desejo de deixar um legado para os dois filhos. Mesmo com a rotina intensa da campanha, tenta reservar ao menos uma hora do dia para Arthur e Pedro Henrique, o primogênito.

Ao falar sobre o país que gostaria de deixar para os brasileiros, Daniella recorre à própria experiência como mãe. Afirma que cria os filhos para que estudem, cresçam e, no futuro, possam “voar” sozinhos. É a mesma lógica que tenta levar para a política: o Estado deve amparar quem precisa, mas também oferecer condições para que as pessoas conquistem autonomia.

Em 2018, Daniella disse a Guedes que queria ir a Brasília para ajudá-lo. Oito anos depois, pode retornar à capital federal para carregar o legado do ex-ministro.

Uma derrota cantada

 Eu continuo esperando um diagnóstico "corajoso", honesto, de um cientista político sobre a realidade do país. Muitos, pela necessidade do "pertencer", de não serem cancelados, continuam neste muxoco q presenciamos no pós primeiro turno. 


São vários fatores a explicarem a derrota do PT. O q derrubou a campanha do Lula não foi apenas a campanha do Flávio Bolsonaro, mas também um "sentimento anti PT", legítimo, "encroado" entre os corações e mentes da sociedade brasileira em todos os seus estratos. 


O crescimento da religião evangélica também ajuda a explicar isso, na sua batalha "ética e moral". É entre aspas mesmo, pq eu não gosto deste movimento neopentecostal (para mim, é tudo charlatão, vendedor de fé, exploradores), mas é uma realidade. 


É importante termos em mente, além dos vários erros de campanha, q o lulo-pestismo está desgastado e envelhecido. E possui uma mancha indelével, q é o seu histórico pesado de corrupção (Mensalão, Lava Jato, aposentados do INSS, Master, etc) e isso não é pouca coisa. Não deve ser naturalizado ou relativizado. São recursos desviados q poderiam financiar escolas e hospitais. Vão para o bolso dos "companheiros". 


E tbem me causa asco o "populismo vagabundo" praticado, de esmola para os mais fragilizados. 


Programas de governo ou projetos de poder pessoal? Infelizmente, o segundo. E 


as gastanças em viagens internacionais reforçam isso, né Janja tatibitati...?? (muito chatinha, por sinal).

Merval Pereira



RECOMENDO MUITO, AMIGOS QUERIDOS.




Orgulho e preconceito

Dirigentes do PT têm a pretensão de ser os donos da verdade, os que sabem guiar o povo para sua redenção.

Por Merval Pereira

06/10/2026 04h30




Sempre se soube que o Brasil é um país conservador, mesmo que seja governado pela quinta vez por um presidente de esquerda (três vezes Lula e duas vezes Dilma). A supremacia surpreendente de Flávio Bolsonaro no primeiro turno da eleição presidencial, no domingo, não quer dizer, porém, que a maioria dos cidadãos seja de extrema direita. Assim como as vitórias de Lula não comprovam que a maioria daqueles momentos era de esquerda, agora também a extrema direita não define a maioria dos que votaram em Flávio.




Lula só foi eleito presidente, nas três vezes anteriores, porque voltou-se para o centro. Do “Lulinha, Paz e Amor” ao apelo a um governo de união nacional para proteger a democracia, adaptou sua agenda pública ao centro, dando lugar até à direita em certos momentos. A insinuação agora de que pode nomear o vice Geraldo Alckmin para o Ministério da Fazenda num eventual quarto mandato vai nessa direção.




Talvez seja tarde demais, pois um dos seus erros fundamentais foi vender um governo de união nacional e entregar um governo petista como os demais que montou, com exceção do primeiro, que, sob a égide do ex-ministro Antonio Palocci, foi inteligente para manter-se ao centro, continuando a política econômica do seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Assim como o economista Joaquim Levy foi engolido pela máquina do PT quando nomeado ministro da Fazenda da então presidente Dilma Rousseff, também Alckmin terá o mesmo destino se Lula conseguir dar a volta por cima e vencer a eleição no segundo turno.




Talvez a razão mais profunda para o desgaste do governo do PT seja exatamente esta, a pretensão de seus dirigentes de ser os donos da verdade, os que sabem guiar o povo para sua redenção. O cansaço com Lula vem desse sentimento de subalternidade com que os não petistas são tratados por seus governos. Ou são manipulados pelas benesses sociais que o governo distribui, ou são relegados a segundo plano.




Há um sentimento de desprezo pelos não convertidos, que transmite uma sensação de não pertencimento a essa parte da sociedade. Lula tem sido incapaz de governar para todos, de ampliar sua base de apoio, trata com superioridade condescendente os que não o seguem. Nem ele nem o PT tentam entender os que os criticam, considerando-os inimigos, nem sequer adversários. A arrogância esteve presente até as últimas semanas da campanha, enquanto Lula considerava uma afronta à sua história a previsão de que poderia perder para Flávio.




O desprezo pelos que consideram inferiores contrasta com o fervor com que trata os excluídos. Se tivesse a mesma empatia com os que discordam de suas políticas, talvez pudesse encontrar o diálogo que o alçaria à altura dos estadistas. Não falo dos que o consideram comunista ou dos extremistas que conseguiram manipular a direita e os centristas. Exemplar dessa arrogância petista é a frase de Lula:




— Se vocês tivessem de escolher entre mim e um gênio, é uma coisa. Mas não é isso que está na mesa.




Claro que Flávio não é um gênio, longe disso, mas também Lula não é imbatível. O que falta a ele e aos seus é tentar entender por que votaram no outro, e não nele. Lembro-me de quando Lula tinha mais de 80% de aprovação, e seus acólitos provocavam:




— Em que planeta vivem os críticos?




Viviam neste planeta que foi se formando à medida que o governo Lula os foi desprezando e se esqueceu de ampliar sua base política para fechar-se numa redoma com os seus.




A união nacional que mobilizou os eleitores independentes na eleição de 2022 foi um estelionato eleitoral. Os que representavam a centro-direita em seu ministério foram relegados a segundo plano, assim como no governo Dilma Rousseff, a ponto de o vice-presidente Michel Temer ter se queixado por escrito de que era tratado como “um vice decorativo”. O mesmo acontecera com Levy, e aconteceu agora com as ministras Marina Silva e Simone Tebet.

Sergio Garschagen

 De Sergio Garschagen.

Relato interessante e valioso.

Também fui exchange student e fez muito sentido.


"Anos 70. Eu era contra a ditadura militar. Simpatizava com as esquerdas. Em suma, seguia, sem saber, a máxima do estadista francês George Clemenceau; "Aquele que aos 20 anos não é socialista não tem coração, mas aquele que continua socialista aos 40 anos, não tem cérebro".

Creio ter perdido a ilusão quando fui para os Estados Unidos com a então namorada, Regina, onde nos casamos.

Para sobreviver trabalhei como faxineiro noturno na fábrica de tratores John Deere, em Waterloo/Cedar Falls, no estado de Iowa.

Na primeira semana de trabalho fui cercado por três ou quatro outros trabalhadores que me dirigiram perguntas básicas: 

- Você é refugiado político da ditadura brasileira?

Respondi que não. Estava no país para aprender  o idioma. 

- Você sabe que tira o trabalho de um americano? 

Sim. Sabia, mas seria por pouco tempo, pois não pretendia ficar nos EUA mais quer um ano. 

-  ok. Se fosse um refugiado político iríamos trata-lo mal como um covarde. 

Eram típicos red necks locais, simplórios,  que após as perguntas me convidaram para sentar à mesa com eles. Sinal de que fora aceito. Até então me sentava sozinho no refeitório, na hora do lanche. 

Também costumava me sentar ao lado de uma companheira negra, simpática, de riso fácil,  enorme de gorda que queria me apresentar aos filhos. Acho que ela me via como um ET e por isso queria me mostrar à família. Brasil? Que planeta é este? Ria muito quando eu dizia que não iria ao bairro dela sozinho. Era perigoso para um branquelo. 

Só ousava ir ao bairro negro com o Fred, mineiro moreno que se passava por mexicano. Íamos, nos fins de semana,  aos bares onde se apresentava grupos de jazz.  Era de bom tom pagar uma rodada de cerveja, nas mesas  coletivas. 

Mas foi na Universidade de Cedar Falls que comecei a me livrar das ideias socialistas. Sei lá como, meio na cara de pau, arranjei uma bolsa para o curso de inglês para estrangeiros. Aulas no curso de Literatura Americana, onde sofria para acompanhar as aulas. Fui convidado pela professora duas vezes para ler um trecho de uma obra.   Na segunda leitura um jovem americano pediu a palavra e disse:

- Na sua primeira leitura não entendi uma única palavra. Hoje entendi muitas palavras. Seu inglês melhorou muito. Parabéns. 

Morri de vergonha ao me lembrar que anos antes, no Liceu "Muniz Freire", a classe inteira riu da pronúncia do português de um menino americano, do intercâmbio cultural do American Fields.

Fiquei chocado também com duas palestras na universidade: a primeira da Ku Klux Klan e a réplica, na semana seguinte, dos Panteras Negras. Auditório repleto de estudantes negros e brancos, todos em silêncio absoluto. Ao final dos discursos de ódio das duas correntes opostas, nenhuma vaia, nenhum aplauso.

Nesta época fizera um bom amigo na universidade: o professor cubano Nodarse, a quem procurei para entender a razão das duas palestras de ódio. Para minha surpresa, ele disse que estava surpres, decepcionado mesmo, era com a minha pergunta. 

- Sérgio, uma universidade forma os futuros dirigentes de um país. Eles devem conhecer todos os fatos políticos, bons ou ruins, com que terão de lidar no futuro. Por isso estas palestras.

E concluiu: estudante que vaiar ou tentar proibir estas manifestações podem ser expulsos. Fazem parte da grade curricular.

Sempre me lembro desta aula do professor Nodarse quando leio que estudantes brasileiros proíbem, com vaias e quebra-quebra,  palestras de convidados que eles não gostam. Sergio. Moro, à época da Lava-jato não conseguiu falar na PUC. Acho que foi no Rio de Janeiro.

Não é à toa que não temos um única universidade no ranking das 100 melhores do mundo. 

Mas, apesar da bronca que levei, o  que me deixou muito envergonhado, o professor Nodarse me convidou para trabalhar com ele, legalmente, com direito a green card, no Departamento de Espanhol da universidade. Os seus alunos ficavam fascinados com a semelhança da língua espanhola com o nosso. Português. Muitos conversavam comigo em espanhol e entendiam a resposta em português. 

Nodarse era um ex-comunista ligado aos irmãos Castro. Disse-me que marcharam juntos desde Sierra Maestra até Havana. Foi preso por um desentendimento com Raul Castro e colocado em um barco, por Fidel, com outros cubanos, muitos doentes, para Miami. 

De dia prestava depoimentos à CIA; à noite sua casa era  apedrejada por cubanos fugidos do regime.  Por isso seguiu para Iowa, bem longe de Miami. Um dia desabafou comigo:

-  Hoje lamento os anos perdidos  como comunista."

OESP

 “Desnorteado depois da pancada nas urnas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu um salve "urgente" nas redes sociais com trê...