quarta-feira, 23 de setembro de 2026

José Paulo Kupfer

Muitos reverenciando, com absoluta razão, o jornalista Zuenir Ventura, que fez passagem nesta terça-feira (22), depois de bem vividos 95 anos. Quase unânimidade sobre a generosidade do profissional que acolhia e transmitia ensinamentos aos jovens que chegavam às redações em que ele dava expediente.




Acho que não cheguei a ser "acolhido" pelo Zuenir, de quem fui amigo e colega de redação - ele no Rio, eu em São Paulo -, anos 80, na Veja e na Istoé.




Conheci Zuenir nas aulas que deu num curso para jovens candidatos a jornalistas de um novo jornal em que bambas do Rio na profissão iriam se reunir, numa experiência tão empolgante quanto efêmera.




Eu estava nesse grupo, em 1967, aos 18 anos, e o jornal em formação era "O Sol", um vespertino (sim,o projeto do jornal era circular a partir do meio dia, acompanhando leitores na volta do trabalho para casa), aquele mesmo que Caetano canta em "Alegria, alegria", bancado pelo "Jornal dos Sports", se não me engano ainda então propriedade da familia de Mário e Nelson Rodrigues.




"O Sol", criação do designer Reinaldo Jardim, tinha Zuenir, Ana Callado, Martha Alencar e outros de que não lembro, na equipe. O conjunto era composto pelos melhores, mais modernos e mais progressistas jornalistas do Rio naquele ano já de ditadura, mas pré-AI 5.




Reinaldo bolou um negócio curioso. As páginas eram dividas em quatro partes dentro de um quadrante. A ideia era que as matérias não ocupassem mais do que um quadrado, no máximo dois, para que o jornal pudesse ser dobrado em quatro com o leitor pendurado no estribo do ônibus.




Mas Reinaldo e os jornalistas que bolaram "O Sol" parece que se esqueceram dos anúncios (ou não ligaram para esse "detalhe"), que não se adaptaram ao quarto de página em que deveriam se conter. Acho que o jornal não durou seis meses...




Zuenir fazia parte da resistência à ditadura nas redações, e do movimento pela retomada do sindicato dos jornalistas do Rio, então em mãos de pelegos. Foi nesse movimento que ficamos amigos, amizade que depois, quando trabalhamos nas mesmas revistas (Veja e Istoé) se estenderam às nossas companheiras - Mary Ventura e Cristina Kupfer.




Sempre soube que Zuenir era fluminense de Friburgo, mas lendo agora seus necrológios vi que era mineiro de Além Paraíba, na zona da mata, só chegou em Friburgo aos 11 anos. Mas, para mim, Zuenir sempre um carioca de caricatura, "apesar" (meus conterrâneos vão me matar...) da formação sólida e das preocupações sérias.




Mas essas virtudes, combinadas com honestidade e ética sem retoques, cada vez mais raras, conviviam como uma capa de carioca de caricatura. Aquele sujeito alegre, otimista, com um olhar e um jeito meio malandro. Sabe aquele carioca ultra-simpático que ao se despedir quanto conhece alguém manda aquela "passe lá em casa", mas não dá o endereço?




Neste momento de tristeza e saudade, me lembro de dois episódios com Zuenir, a quem conheci antes de ele passar a ser chamado, com justiça, de "mestre Zu".




O primeiro foi em março de 1972, quando Zuenir chefiava a redação carioca da então importante revista "Visão". Eu queria me transferir para São Paulo, depois que, numa viagem de férias do "Correio da Manhã" pelo Rio Francisco, tinha conhecido uma mocinha paulistana, estudante de psicologia na USP, com quem divido travesseiro, alegrias, perrengues, dois filhos e quatro netas, já lá vão fazer 54 anos.




Perguntei ao Zuenir se a "Visão" não tinha alguma vaga em São Paulo. "Rapaz, você caiu do céu!", respondeu ele, com o entusiasmo característico. "O Pimenta (Pimenta Neves, aquele mesmo, assassinado da namorada Sandra Gomide, era o diretor de redação), me pediu um jovem jornalista estudante de economia...". Mas Pimenta saiu da Visão na semana seguinte, e a transferência morreu ali.




Além de generoso e com o dom de professor, Zuenir também era craque nas pautas. Suas pautas que resultaram nas reportagens em livros pelos quais ele está sendo lembrado são prova disso.




No meu caso, a pauta que ninguém pensou e era um grande achado ocorreu numa reunião política de empresários, a IV Conclap - Conferência das Classes Produtoras - em fins de 1977. Em 1978, haveria eleição indireta para presidente.




Eu fui enviado ao Rio para cobrir a Conclap, sob as ordens de Zuenir. Zuenir inventou uma enquete com os participantes, centenas, talvez perto de mil, empresários de todo o país.




Apareceu como vitorioso um nome meio desconhecido, o general Euler Bentes. Bentes acabou sendo o candidato do partido de oposição permitido, o MDB, na eleição do ano seguinte. Perdeu para o general Figueiredo, candidato do Arena, o partido do governo militar.




Foi, afinal, um grande furo da Veja, fruto de uma pauta de um jornalista genial.




Meu abraço sentido à Mary, filhos, netos e legião de amigos e afilhados profissionais.

Marcelo Guterman



A tática de quem está na lama é puxar quem esteja por perto para a lama também, de modo a semear confusão e escapar do juízo da opinião pública ao nivelar todos indiscriminadamente por baixo.
No caso Moraes-Master, basta a menção a um contrato de centenas de milhões de reais para que o caso seja equiparado ao da Xandona com o banco de Daniel Vorcaro. No Brasil, quando todos são culpados, ninguém é culpado.

Em poucas linhas, o caso é o seguinte: 1) o desembargador do TRF-1, Newton Pereira Ramos, votou duas vezes a favor de um caso envolvendo precatórios que interessava ao Banco Master. Nas duas votações, a decisão não foi monocrática, foi unânime da turma de desembargadores que julgou o caso; 2) Ramos é casado com a advogada Camila Ramos, sócia do escritório Queiroga, Vieira, Queiroz e Ramos; 3) O Master contratou o escritório da Ramos seis meses após o voto do marido. O contrato previa pagamentos de até R$ 427 milhões em caso de sucesso nas demandas do contratante; 4) O desembargador é amigo de Kassio Nunes Marques desde os tempos em que o ministro era desembargador no TRF-1.

Essa é a história. Agora me digam: como essa situação se compara com o caso do contrato com o escritório da Xandona, em que se pagou milhões de reais por um manual de compliance? Em que, a se provarem verdadeiros os indícios, o próprio ministro atuou como advogado do banqueiro? Não há comparação intelectualmente honesta possível.

Tendo dito isso, quero aumentar o escopo deste post. Não é porque as situações não sejam comparáveis que devemos normalizar esse escândalo que é o entrelaçamento de interesses privados com os públicos no relacionamento entre bancas de advocacia e juízes. O desembargador Newton Ramos pode ser o mais puro dos juízes, mas sua esposa, neste caso, não poderia passar perto, quanto mais ser sócia, de uma banca de advocacia com interesses no tribunal. Há tantos outros escritórios de advocacia no Brasil, porque escolher justo um que litiga na corte onde o marido bate ponto?
Esse caso veio à tona porque envolve o Master e, indiretamente, o ministro Kassio Nunes. Caso contrário, permaneceria nas sombras, como ocorre certamente com tantos outros. A coisa está tão normalizada, que até o ministro “limpinho” Édson Fachin cunhou o termo “filhofobia” ao referir-se a esse sentimento estranho de repulsa que temos ao ver parentes de ministros advogando em causas nas cortes dos pais e maridos. O tal “código de ética” defendido por Fachin certamente deixaria uma brecha para que sua filha continuasse a exercer a advocacia em Brasília sem ser incomodada.
Aumentando ainda mais o escopo do post, é interessante observar como funcionam, de maneira geral, as relações de amizade em Brasília. Kassio Nunes foi indicado por Bolsonaro por ser chapa de Ciro Nogueira. O juiz Newton Ramos virou desembargador com um empurrãozinho do amigo Kassio Nunes. E assim vamos, na República dos Amigos. O Poder Judiciário, ao invés de ser a instância imparcial de resolução de conflitos, com juízes nomeados pela sua competência, se transformou em uma grande confraria de ajuda mútua. É a captura do Estado por interesses privados, conforme descrito pelo economista Daron Acemoglu. A receita do subdesenvolvimento.

Call Matinal

Call Matinal, by Julio Hegedus Netto

1) Depois muita volatilidade pela manhã (no dia 22), o alívio do petróleo serviu de norte para uma melhora dos mercados domésticos. O Ibovespa rompeu os 187 mil pontos e o dólar e juros futuros viraram, passando a cair. Diante disso, o Ibovespa marcou alta de 0,44%, aos 187.422,92 pontos, com giro de R$ 22,5 bilhões, e o dólar em leve queda de 0,11%, a R$ 5,1029.

2) Os índices futuros de NY operam em leve alta nesta quarta-feira (23), enquanto o petróleo recua pelo sexto dia consecutivo, em meio às expectativas de uma possível trégua da guerra entre os EUA e o Irã.

3) Mercados acordam cautelosos, diante do recuo do barril de petróleo e da retomada do diálogo entre EUA e Irã. Continuamos, no entanto, atentos ao olhar do Fed.

4) Nos EUA, declarações mais duras de dirigentes do Fed mantêm o mercado atento à possibilidade de novo aperto monetário, o que pode sustentar os Treasuries e o dólar e limitar o fluxo para mercados emergentes.

5) No Brasil, o movimento é diferente. A ata do Copom reconheceu com maior clareza a desaceleração da atividade e da inflação, fortalecendo as expectativas de continuidade dos cortes da Selic — embora o BCB deva se manter cauteloso.

6) O mercado doméstico começa o dia dividido entre dois movimentos opostos. De um lado, a perspectiva de novos cortes da Selic tende a favorecer ações mais sensíveis aos juros, especialmente varejo, construção, consumo e empresas com maior endividamento. Do outro, se o Fed mantiver ou ampliar o aperto monetário nos EUA, o diferencial de juros entre Brasil e EUA diminui mais rapidamente.

Isso pode significar maior volatilidade para o dólar e para os juros futuros brasileiros.

7) No circo político, o discurso de Lula da Silva repercutiu para os seus apoiadores, mas sem grandes impactos eleitorais. Incrível que quando “engessado”, até que sai alguma coisa. A questão é que Donald Trump não parece ter dado muita atenção. Foi o discurso de sempre, falando de soberania, importância da democracia, relação com os EUA, guerras, etc.

 

BDM Matinal Riscala

 *Rosa Riscala: Petróleo cai, mas Fed mantém mercado sob pressão*


Em Nova York, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, discursa na ONU, sob expectativa de mais sinais sobre as negociações com Washington


… O petróleo abaixo de US$ 100 e a retomada do diálogo entre Estados Unidos e Irã aliviam os temores de inflação, mas não tiram o Fed do modo hawkish. O mercado já virou a aposta para nova alta dos juros em outubro, após dirigentes reforçarem a preocupação com os preços. No Brasil, o movimento é inverso: a ata do Copom ampliou as expectativas de novos cortes da Selic, enquanto a Fazenda reduziu as projeções para PIB e inflação. A 12 dias da eleição, a política segue no radar, com nova pesquisa AtlasIntel prevista para hoje. Em Nova York, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, discursa na ONU, sob expectativa de mais sinais sobre as negociações com Washington.


ABAIXO DE US$ 100 – A retomada do diálogo entre Estados Unidos e Irã derrubou o petróleo pela quinta sessão seguida e levou o Brent a fechar abaixo dos três dígitos pela primeira vez desde 9 de setembro, a US$ 99,25, em queda de 1,09%. O WTI caiu 2%, a US$ 90,52.


… O movimento ganhou força depois que Donald Trump revelou que Steve Witkoff e Jared Kushner haviam se reunido por três horas com representantes iranianos, à margem da Assembleia Geral da ONU, e classificou as conversas como “muito produtivas”.


… O chanceler Abbas Araghchi participou do encontro, mediado pelo Catar, que teve a reabertura do Estreito de Ormuz no topo da pauta.


… Trump falou em “muitas” sinalizações positivas e disse que uma nova rodada deve ocorrer em breve.


… O tom do presidente contrastou com o discurso feito poucas horas antes na ONU, quando Trump voltou a ameaçar “aniquilar” a República Islâmica caso não haja acordo e afirmou que jamais permitirá que o Irã tenha uma arma nuclear.


… Mesmo após a reunião, manteve o estilo morde e assopra. De um lado, disse acreditar que o Irã fará “algo de bom” e que a guerra pode acabar antes das eleições de novembro. De outro, não descartou atacar Pickaxe, local ligado ao programa nuclear iraniano, se detectar movimentação.


… Embora Trump tenha afirmado que o fluxo de petróleo no Golfo está no maior nível desde o início da guerra, os riscos de oferta permanecem.


… Um comitê do Parlamento iraniano aprovou dispositivos que permitem a apreensão de 20% das cargas de navios que descumprirem as regras de Teerã para Ormuz, enquanto o G7 voltou a pressionar o Irã a cortar o apoio aos Houthis.


… Na Líbia, protestos já reduziram a produção em cerca de 130 mil barris por dia e a estatal ameaça declarar força maior. Já o Iraque tenta ampliar rotas alternativas, com transporte por caminhões e negociações para elevar as exportações via Turquia.


… Nesta 4ªF, as atenções se voltam ao presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, que discursa na Assembleia Geral da ONU, enquanto o mercado aguarda sinais sobre a próxima rodada de negociações entre os Estados Unidos e o Irã.


FED – A quinta queda seguida do petróleo e a perspectiva de descompressão da inflação global não tiraram o Federal Reserve do modo hawkish. Dirigentes voltaram a reforçar a preocupação com a inflação e o mercado já virou a aposta para nova alta em outubro.


… No CME, a probabilidade de aumento de 25 pontos-base na próxima reunião subiu para 54,2%, contra 45,8% de manutenção. Há uma semana, o quadro era inverso: 53% apostavam em estabilidade e 43,5% em alta.


… Para dezembro, apenas 10,8% ainda projetam manutenção dos juros no nível atual. As apostas se dividem entre uma alta acumulada de 25 pontos-base, com 47,8%, e de 50 pontos-base, com 41,4%.


… Thomas Barkin (Richmond) disse que a inflação é hoje o lado mais problemático do duplo mandato e que os riscos para a estabilidade de preços superam os riscos para o emprego, justificando a alta de 25 pontos-base promovida pelo Fed na semana passada.


… Barkin lembrou que a inflação está acima da meta de 2% há mais de cinco anos e destacou que mais de 60% dos componentes do PCE avançam acima de 3% em 12 meses.


… Susan Collins (Boston) também apoiou a alta da semana passada e vê maior probabilidade de cenários em que a inflação permaneça “notavelmente acima de 2%”. Para ela, juros “um pouco mais restritivos” ajudarão a garantir o retorno sustentável à meta.


… O tom duro prevaleceu nos mercados apesar do alívio do petróleo. Os Treasuries longos terminaram em alta, o dólar ganhou força e as bolsas de Nova York fecharam sem direção única (leia mais abaixo).


COPOM – Na contramão do Fed, a ata do Copom reforçou as apostas em novos cortes da Selic e ajudou a derrubar os juros futuros nesta 3ªF. A mediana do Projeções Broadcast para o fim de 2026 caiu de 13,50% para 13,25% após a divulgação do documento.


… Das 33 instituições consultadas, 19 esperam agora mais dois cortes de 0,25 ponto porcentual, em novembro e dezembro, levando a Selic a 13,25%. Seis projetam apenas mais uma redução, para 13,50%, e oito esperam manutenção nos atuais 13,75%.


… A ata trouxe poucas novidades em relação ao comunicado, mas o mercado enxergou sinais que favorecem a continuidade da flexibilização. O principal foi o maior grau de convicção do BC sobre a desaceleração da atividade e a transmissão dos juros altos para a economia.


… Pela primeira vez, o Copom dedicou um parágrafo ao crédito bancário, destacando a desaceleração das linhas com recursos livres, especialmente as de prazo mais longo e mais sensíveis à política monetária.


… O Comitê manteve a sinalização de que a magnitude do ciclo será ajustada à evolução do cenário, sem indicar que 13,75% seja o ponto de parada ou estabelecer um gatilho para interromper os cortes.


… O Santander considerou a ata marginalmente dovish e destacou justamente a ausência de uma sinalização de pausa. O banco entende que o Copom preservou a opção de um novo corte, embora ele não esteja contratado.


… O Bradesco também viu poucas novidades, mas avaliou que as adições favorecem a continuidade da flexibilização. A casa prevê mais dois cortes de 0,25 ponto, com Selic a 13,25% no fim do ano.


… Para a XP, o fato de os trechos sobre o balanço de riscos e a estratégia de política monetária terem sido mantidos reforça que a continuidade do ciclo permanece como cenário-base do BC. A casa também projeta Selic de 13,25% no fim do ano.


… Já o Itaú considerou a ata praticamente inalterada e entende que o BC manteve os próximos passos em aberto, sem oferecer sinais mais claros sobre a trajetória futura dos juros.


… O C6 mantém cenário de Selic estável em 13,75% até dezembro, diante das expectativas desancoradas, da assimetria altista dos riscos e da inflação ainda pressionada, embora não descarte novos cortes.


… Na 5ªF, o BC divulga o Relatório de Política Monetária do 3º trimestre, com novas projeções e atualização do cenário para a atividade.


FAZENDA – Também nesta terça-feira, o Ministério da Fazenda trouxe a atualização dos dados macroeconômicos, com reduções de 2,3% para 2% da projeção do PIB em 2026 e de 5,1% para 4,9% na estimativa para o IPCA, ainda acima do teto da meta, de 4,5%.


… Para 2027, a previsão do PIB caiu de 2,5% para 2,3% e a de inflação subiu de 3,6% para 3,8%, diante dos efeitos do El Niño sobre os alimentos.


… A Fazenda vê perda de fôlego da atividade no segundo semestre e avalia que os efeitos defasados dos juros altos já aparecem principalmente na indústria, nos serviços e no crédito – cujo impulso está negativo há dez meses, consistente com uma política monetária restritiva.


… Segundo a secretária Débora Freire, o aperto das famílias decorre mais do custo do crédito do que do nível de endividamento.


… A projeção de 4,9% para o IPCA ainda não incorpora as recentes desonerações de gasolina e etanol, que, nos cálculos da Fazenda, podem retirar cerca de 0,15 ponto porcentual da inflação.


… No cenário externo, a Pasta passou a tratar o choque do petróleo como persistente e elevou de cerca de US$ 79 para US$ 87 a premissa média para o Brent em 2026. A Fazenda ressalva, porém, que não considera os preços atuais um “novo normal” para a commodity.


… A grade foi fechada em 4 de setembro e também não incorpora o reajuste de 15,04% do Bolsa Família, que deve ter impacto em 2027.


LULA NA ONU – A 12 dias da eleição, o presidente Lula aproveitou o discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU para defender bandeiras do governo e da campanha à reeleição e mandar recados aos Estados Unidos.


… Sem citar Trump, criticou a interferência externa em processos eleitorais e afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”. Também afirmou que o Brasil não terceirizará o combate ao crime organizado e disse que o País não precisa de porta-aviões vigiando suas águas.


… Lula voltou a atacar as bets, que “transformam vício em lucro”, defendeu o fim da escala 6×1, com dois dias de descanso semanal, e afirmou que o Brasil não cederá a pressões de multinacionais contra o Pix. Defendeu ainda a regulação das big techs e da inteligência artificial.


… Sobre minerais críticos e terras raras, disse que o acesso às reservas brasileiras terá como contrapartida geração de valor no País, transferência de tecnologia e atendimento a setores estratégicos nacionais. Na agenda ambiental, destacou a redução do desmatamento na Amazônia.


… Com duras críticas à ONU, cuja “credibilidade nunca esteve tão baixa”, Lula voltou a defender uma reforma do Conselho de Segurança.


JANTAR COM EMPRESÁRIOS – Na sexta-feira, Lula terá um jantar com cerca de 200 empresários e banqueiros no hotel Tivoli Mofarrej, em São Paulo, numa tentativa de reduzir o mal-estar do mercado com as recentes sinalizações do presidente na área fiscal.


… A reação negativa veio depois que Lula afirmou, em comício no dia 12, que era preciso “parar com essa babaquice de fazer superávit”, e foi reforçada pelo reajuste de 15,04% do Bolsa Família e pela preparação de um novo programa para reduzir o endividamento das famílias.


… O encontro terá a participação do ministro da Fazenda, Dario Durigan, do vice-presidente Geraldo Alckmin e de Fernando Haddad. A reunião ocorre a poucos dias da eleição e em meio ao empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro nas pesquisas de segundo turno.


AGENDA DOS MERCADOS – Sem horário definido, a AtlasIntel divulga nova pesquisa eleitoral de abrangência nacional, principal destaque desta quarta-feira, que tem agenda esvaziada de indicadores e apenas o IPC-S da terceira quadrissemana de setembro (8h).


… Em Brasília, Gabriel Galípolo recebe às 10h executivos do Banco da China Brasil e, às 14h30, o BC informa o fluxo cambial semanal.


… Lá fora, a bateria de PMIs preliminares de setembro começa de madrugada com a Alemanha, zona do euro e Reino Unido. Às 10h45, saem os dados dos Estados Unidos, com previsão de leve desaceleração da indústria, de 53,9 para 53,8, e dos serviços, de 56,5 para 56.


… Às 11h05, o diretor do Fed Michael Barr participa de evento em Chicago. Às 11h30, o DoE divulga os estoques semanais de petróleo.


… A Assembleia Geral da ONU entra no segundo dia de debates em Nova York, com discurso do presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, sob atenção após a retomada das negociações entre Washington e Teerã.


FESTA DO K AQUI – Entrou bastante dinheiro estrangeiro na B3 no pregão da última sexta-feira: R$ 3,6 bilhões, ampliando as entradas no mês para R$ 9,2 bilhões, enquanto o saldo no ano está positivo em R$ 27,5 bilhões.


… Sinais de ingresso de capital externo também foram identificados ontem na bolsa, segundo o Broadcast, no apetite que coincide com a melhora da percepção de risco, com o petróleo abaixo de US$ 100 e o trade eleitoral promissor.


… Por mais que o desfecho da guerra seja imprevisível, o mercado resolveu dar o benefício da dívida sobre o diálogo com o Irã, na esperança de que, quem sabe desta vez, as coisas caminhem para um acordo sobre o fim do conflito.


… Depois de ondas de volatilidade pela manhã, o alívio do petróleo serviu de gancho à tarde para uma melhora dos mercados domésticos. O Ibovespa rompeu os 187 mil pontos e o dólar e juros futuros viraram, passando a cair.


… Em teoria, o petróleo em queda seria desvantajoso para as ações da Petrobras. Mas, na prática, a leitura foi positiva, porque acionou o sentimento de risk on. Petrobras PN subiu 0,73%, a R$ 48,35, e ON, +0,61%, a R$ 53,20.


… Os papéis da Vale recobraram parcialmente as perdas recentes e subiram 0,39%, a R$ 72,83, apesar de o minério de ferro ter perdido 1%. O Ibovespa marcou alta de 0,44%, aos 187.422,92 pontos, com giro de R$ 22,5 bilhões.


… Entre as blue chips financeiras, Santander unit registrou desvalorização de 0,60%, para R$ 29,74, apesar da notícia de que a matriz espanhola está avançando com a oferta de permuta de papéis. BB ON recuou 1,39%, a R$ 22,67.


… Já Bradesco PN subiu 1,49%, para R$ 18,43; Itaú PN ganhou 0,23%, a R$ 43,18; e BTG unit, +0,71% (R$ 63,95).


… Parte do setor financeiro operou embalada pela virada da curva do DI, garantida pela melhora no exterior.


… Apesar de a ata do Copom não ter descartado novos cortes da Selic, os juros futuros passaram boa parte do pregão subindo e só inverteram a mão à tarde, quando o petróleo passou a dominar a cena dos mercados globais.


… O investidor sabe que o barril ainda tem que cair com muito mais convicção para enfrentar o sentimento hawkish dominante no Fed. Ainda assim, parece que o mercado estava só esperando um pretexto para ensaiar uma melhora.


… Neste contexto, a esperança de paz no Oriente Médio veio a calhar para os contratos dos juros futuros e o dólar interromperem a correção em alta e voltarem a devolver prêmios de risco, ainda que de forma limitada.


… Os sinais de desaquecimento da atividade doméstica apontados pela ata do Copom foram também reconhecidos pela 4intelligence na arrecadação federal de agosto, de R$ 235,566 bilhões, abaixo da mediana de R$ 239 bilhões.


… Para a casa, os indicadores de atividade ainda indicam expansão, porém em ritmo mais moderado.


… No fechamento, o DI para Janeiro de 2027 marcava 13,525% (de 13,547% no ajuste anterior); Jan/28, 13,495% (contra 13,528%); Jan/29, 13,680% (de 13,712%); Jan/31, 13,870% (de 13,912%); e Jan/33, 13,960% (de 14,028%).


NÃO SEGUIU A CARTILHA – Seria até razoável supor que, com o petróleo em queda há cinco pregões consecutivos, o real também estivesse caindo, já que o Brasil é exportador líquido da commodity, o que deteriora os termos de troca.


… Mas, pelo contrário, o câmbio até mudou de faixa neste período, de R$ 5,15 para 5,10, em parte, provavelmente, porque está lendo com bons olhos o ajuste em queda do petróleo, que esvazia um fator de estresse nos negócios.


… O câmbio tem desafiado também outros gatilhos que poderiam estar trazendo pressão, como a perspectiva de o Fed continuar subindo o juro e de o Copom continuar cortando o juro, o que pode reduzir o apelo do carry trade.


… Operadores ouvidos pelo Valor entendem que o sentimento construtivo com o câmbio tem predominado, independentemente da narrativa externa, por causa da expectativa de alternância na condução da política fiscal.


… Isso pode estar ajudando a manter o mercado local mais estável, ainda que haja dúvidas sobre uma nova pernada de valorização do real antes do resultado eleitoral. Ontem, o dólar fechou em leve queda de 0,11%, a R$ 5,1029.


… Lá fora, a moeda americana não tem desprezado os alertas conservadores dos Fed boys e, no acumulado deste mês, o índice DXY já subiu mais de 1%, voltando a superar a marca dos 100,000 pontos agora em setembro.


… Ontem, marcou alta de 0,17%, a 100,601 pontos, com o dólar se sobressaindo na comparação com o euro, que caiu 0,14%, para US$ 1,1456, e a libra, que perdeu 0,22%, a US$ 1,3348. Já o iene subiu para 157,35 por dólar.


… O ING projeta novo aperto do BCE neste ano, mas acredita que a postura mais agressiva do Fed deixa o euro mais vulnerável a testar US$ 1,140 ou até as mínimas de junho, em US$ 1,132, se o juro americano subir em outubro.


… Com pelo menos mais uma alta no radar, não teve petróleo que conseguisse derrubar as taxas dos Treasuries mais longos, ainda que o retorno da Note-10 anos tenha permanecido abaixo de 5%, em 4,953% (de 4,951% na véspera).


… O rendimento do T-bond de 30 anos avançou para 5,292%, contra 5,284% no pregão anterior.


… Desbancando os sinais de diplomacia com o Irã, o índice Dow Jones fechou em queda de 0,36%, aos 51.863,69 pontos, e o S&P 500 ficou estável, aos 7.764,64 pontos, porque a rigidez dos Fed boys não está para brincadeira.


… Único a operar blindado foi o Nasdaq, que subiu 0,45% e foi impulsionado para um novo recorde de fechamento, aos 27.244,28 pontos, refletindo o avanço do setor de tecnologia (Intel, +1,69%; AMD, +1,38%; e Sandisk, +6,82%).


CIAS ABERTAS NO AFTER – PETROBRAS resgatará antecipadamente US$ 1,08 bilhão em títulos globais com vencimento em 2028. Liquidação financeira será em 25/9…


… TCU analisa hoje, em sessão extraordinária e reservada, a política de preços da estatal, com foco na sustentabilidade econômico-financeira e nas regras de governança.


PPSA. O primeiro leilão de gás natural do pré-sal que é destinado à União deve ser realizado no dia 22 de outubro e deve ter os preços atrelados ao Henry Hub, de acordo com Luis Fernando Paroli, presidente da Pré-Sal Petróleo…


… O MME definiu oferta de 1,1 milhão de metro quadrados por dia de gás da União neste primeiro leilão da estatal gestora dos contratos de partilha.


SUZANO reajustará preços da celulose em todos os mercados, segundo o Valor. Alta será de US$ 50 por tonelada nas Américas e Europa e de US$ 20 na Ásia.


AXIA aprovou resgate compulsório de ações PNC em até R$ 3,9 bilhões. Operação envolve até 70,7 milhões de ações, equivalentes a 15,46% da classe PNC.


ENEVA. Proposta para alterar contratos de termelétricas deve ser encerrada no TCU após rejeição da Aneel, segundo o Valor. Agência decidiu manter inalterados os contratos.


AUREN ENERGIA. Cesp pediu à CVM conversão do registro de emissor da categoria B para A, como parte da reorganização societária do grupo.


EMBRAER. Instabilidade global no GPS da frota E2 afetou mais de 70 voos da Azul e 15 mil passageiros, segundo fontes do Valor. Fabricante afirmou que os aviões dispõem de sistemas e procedimentos para operar com segurança.


ANAC informou que a tarifa aérea média doméstica subiu 14,5% em termos reais em agosto contra um ano antes, para R$ 776,87. O preço do QAV avançou 31,8% no período.


BMG fará emissão de R$ 350 milhões em letras financeiras, podendo chegar a R$ 500 milhões. Recursos serão usados para alongar dívida, reforçar caixa e financiar atividades do banco.


ONCOCLÍNICAS concluiu venda da espanhola Medsir por 1 euro e encerrou arbitragem. Acordo elimina obrigações futuras relacionadas ao investimento, que poderiam chegar a 52 milhões de euros.


LOCALIZA pagará R$ 614,9 milhões em JCP, equivalentes a R$ 0,5565 por ação. Pagamento será em 18/11, com papéis “ex” em 28/9.


LOJAS RENNER. Jefferies cortou preço-alvo de R$ 20 para R$ 16, mas manteve a recomendação de compra, citando balanço robusto e potencial de valorização com eventual queda dos juros.


YDUQS. Fourth Sail Capital elevou participação para 6,16% do capital, equivalente a 16,9 milhões de ações.


ROMI poderá recuperar cerca de R$ 47 milhões em créditos tributários após decisão judicial definitiva. Impacto líquido estimado nos resultados é de R$ 37 milhões

Bankinter Matinal Portugal

Análise Bankinter Portugal


NY +0,0% US tech +0,8% US Semis +2,1% UE +0,1% Espanha +0,2% VIX 14,2% Bund 3,46%. T-Note 4,96%. Spread 2ª-10ª USA=+19pb B10A: ESP 2,61% PT 3,82% ITA 4,36% FRA 4,50% Euribor 12m 3,33% USD 1,145 JPY 180,2/€ 157,4/$. Ouro 4.361$. Brent 99,3$. WTI 94,6$. Bitcoin -0,8% (86.265$). Ether -1,2% (2.752$).


SESSÃO: Com a falta de notícias relevantes na frente convencional, os mercados aguentam bastante bem as inúmeras notícias da frente geopolítica, no marco da Cimeira da NATO. De momento, o mais determinante foi o regresso de conversações entre os EUA e o Irão, que permitiu que o petróleo perdesse a avaliação dos 100 $ (Brent 98,30 $). A tecnologia também recupera impulso após avanços na frente da IA (novo agente de IA “Muse” por parte de Meta, também sucessos anunciados por Alibaba) e que devolve ao Nasdaq máximos históricos. As obrigações não baixam a guarda, mas não estão tão tensionadas e deverão tender a estabilizar-se. O tom hawkish/duro de declarações recentes de Barkin e Goolsbee da Fed, ontem, à última hora, não deverá surpreender após a subida de taxas de juros a 16 de setembro.


Hoje o foco continua nos EUA perante o que possa surgir hoje e à espera do encontro entre Trump e Xi Jinping, amanhã, em Washington. As reuniões anteriores das suas equipas foram “conciliadoras”, portanto, será de esperar que ambos os líderes evitem elevar a tensão e, antes, tentem acalmar as relações bilaterais num contexto já suficientemente tenso. Em segundo plano, hoje é dia dos PMIs de setembro (9 h na UE e 14:45 h nos EUA), que deverão confirmar que a economia global continua em expansão. De momento, Austrália desacelera um pouco enquanto a Índia avança mais do que o esperado.


Em suma, tudo aponta para uma sessão com ligeira inércia positiva, celebrando este contexto de um pouco mais de tranquilidade e esperança de uma melhoria em Ormuz. Petróleo em baixa, fechos asiáticos, em geral, todos positivos e futuros em alta apontam para isso.

Editorial O GLOBO

 


José Paulo Kupfer

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