Papo de Economista
Sou Economista com dois mestrados, cursos de especialização e em Doutoramento. Meu objetivo é analisar a economia, no Brasil e no Mundo, tentar opinar sobre os principais debates da atualidade e manter sempre, na minha opinião essencial, a independência. Não pretendo me esconder em nenhum grupo teórico específico. Meu objetivo é discorrer sobre varios temas, buscando sempre ser realista.
domingo, 13 de setembro de 2026
Elio Gaspari
NA CRISE DO STF, SÃO DEZ ESCORPIÕES NUM GARRAFA
Isolados atritos de choques de ego e surtos de onipotência, sobra pouco
Supremo atravessou ditaduras sem maiores crises e, em 2026, meteu-se na maior encalacrada de sua história
O juiz Oliver Wendell Holmes Jr. (1841-1935) foi um dos juízes mais influentes e longevos da Corte Suprema dos Estados Unidos. Com 30 anos de experiência, ele descreveu o tribunal: "São nove escorpiões numa garrafa". Isso na corte americana. Na brasileira, são 11. (Na crise de hoje, são dez, porque uma cadeira está vazia.)
O Supremo atravessou ditaduras sem maiores crises e, em 2026, meteu-se na maior encalacrada de sua história. Se pudessem ser isolados os atritos produzidos por choques de egos ou surtos de onipotência, sobraria muito pouco da crise. Não há um fiapo de política pública separando Alexandre de Moraes e André Mendonça. Moraes até hoje não explicou sua relação com o então banqueiro Daniel Vorcaro, e Mendonça já chamou Jair Bolsonaro (que o indicou para o STF) de "profeta".
Para se ter uma ideia do ritual monárquico que enfeita o cotidiano das excelências, os ministros são servidos por funcionários denominados "capinhas", que têm, entre outras funções, a de puxar a cadeira para que eles se sentem ou se levantem. (Um ministro explicou que esse serviço é necessário porque a toga enrosca nas rodinhas da cadeira. Vá lá.)
Indo-se ao histórico dos quatro personagens da crise —Dias Toffoli, Alexandre de Moraes, Flávio Dino e André Mendonça—, vê-se que Toffoli e Moraes entraram no processo do Banco Master preocupados em apagar as luzes da sala. Toffoli sabia que a turma do Master havia comprado parte do resort Tayayá Aquaparque. Destemido, aceitou a relatoria do caso, colocou-o sob sigilo e blindou-o. Deu no que deu.
Moraes sabia o tamanho do ervanário recebido do Master pelo escritório de advocacia de sua mulher. Ainda assim, permitia que Vorcaro lhe pedisse conselhos. Novamente, deu no que deu.
Os ministros tinham motivos para suspeitar que seus desassombros custariam caro às suas biografias e tisnariam a imagem do tribunal. Nenhum deles precisava se expor. Expuseram-se porque se julgaram invulneráveis. Enganaram-se e levaram seus colegas junto.
CARMEN LUCIA CANTOU A PEDRA
Se os ministros do Supremo tivessem juízo, eles teriam ouvido a ministra Cármen Lúcia na sessão do dia 12 de fevereiro, quando ela disse: "Todo taxista que eu pego fala mal do Supremo. A população está contra o Supremo".
Não eram só os taxistas. Diante de revelações da Polícia Federal em torno da venda de parte do resort Tayayá, o STF deu-se ao ridículo. Solidarizou-se com Toffoli, condenou as revelações e, discretamente, sugeriu que deixasse a relatoria, o que ele fez.
Em uma fala que deverá entrar para a história do Supremo, Dino falou do documento da ligação da Polícia Federal dos familiares de Toffoli com o resort Tayayá: "Essas 200 páginas [de relatório da PF] para mim são um lixo jurídico. Não adianta discutir esse lixo jurídico".
AS CAMAS DO MASTER
Foram expostas à exaustão as festas e farofas de Daniel Vorcaro. No meio desses ágapes, degustavam-se uísques e charutos. Só?
Mensagens já conhecidas apontam para a existência de uma traficância de favores sexuais semelhante, em ponto menor, ao do americano Jeffrey Epstein. Vorcaro era servido pelo promotor de eventos, Diogo Batista, conhecido como "o concierge dos VIPs".
Em 2022, num passeio pela França, o banqueiro gastou R$ 11,2 milhões. Meses depois, o banqueiro patrocinou uma festa indígena na praia de Trancoso, enfeitada por convidadas estrangeiras, inclusive russas e ucranianas. No ano seguinte, o Master foi um dos patrocinadores da equipe de Fórmula 1 da Aston Martin e da sua festa para 190 convidados e consumo de 180 garrafas de bebidas. Novamente, foram trazidas convidadas do Leste Europeu.
Em 2024, Vorcaro desentendeu-se com Diogo Batista e foi parcialmente substituído por Karolina Trainotti.
Vorcaro também foi assessorado por Stheve Lopes, sócio de Batista. As repórteres Joana Cunha e Júlia Moura mostraram que ele recrutava convidadas e submetia fotografias a Vorcaro, que as avaliava nas categorias "wow", "loirinha top" ou de "+ -".
Em junho de 2024, Lopes ajudou Vorcaro com eventos simultâneos à 12ª edição do Fórum Jurídico de Lisboa, conhecido como Gilmarpalooza. O roteiro que Vorcaro bancou em Portugal ficou em US$ 1,6 milhão (mais de R$ 8,1 milhões na cotação de hoje).
Em agosto de 2025, Vorcaro e sua ex-noiva, Martha Graeff, trataram das festas e ela reclamou porque Vorcaro mantinha contato na rede social com mulheres que ela considerava "putas".
"Fazia parte do meu 'business'. Nunca te escondi o que fiz e por que fiz. Fiz festa com 300 desse tipo", respondeu o ex-banqueiro nas mensagens extraídas de seu celular pela PF.
Falta saber qual era o "business" dos convidados de Vorcaro.
PROMESSAS AMAZÔNICAS
Lula entra na reta final da campanha azucrinado por más notícias. Há algo de desigual nessa má sorte. Afinal, noves fora as traficâncias de alguns ministros do Supremo, que são encrencas pessoais, nada há no seu passivo que se compare ao ervanário que circulou em torno do filme "Dark Horse", uma biografia apologética de Jair Bolsonaro.
Habituada ao salto, sua equipe achou razoável criar quatro unidades de preservação ambiental no Amazonas.
Tudo bem, mas cadê a Autoridade Ambiental, prometida durante a campanha eleitoral? Em janeiro de 2023, a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, prometeu: "Até março deste ano, será formalizada a criação da Autoridade Nacional de Segurança Climática, no âmbito do Ministério do Meio Ambiente, além da criação de um conselho sobre mudança do clima, a ser comandado pelo próprio presidente da República, e com a participação de todos os ministérios que estão agora nesta Esplanada, da sociedade civil, dos estados e municípios".
Veio março e nada. Em setembro de 2024, em Manaus, Lula prometeu a criação da Autoridade Climática. Nada, nem explicação.
Mulheres no STF
Com o Supremo atolado na crise, importa registrar que, em 218 anos de existência, o Supremo Tribunal Federal só teve três mulheres: Ellen Gracie, nomeada em 2000 por Fernando Henrique Cardoso, Cármen Lúcia, nomeada por Lula 1.0, e Rosa Weber, nomeada por Dilma Rousseff.
Nenhuma das três envolveu-se em farofas ou episódios nebulosos.
El Presidente
Se um candidato a presidente latino-americano oferecesse US$ 5.000 (cerca de R$ 25.100) a cada adulto caso o seu partido vença a eleição, a promessa seria associada à irresponsabilidade fiscal dos latinos.
Pelo andar da carruagem, Trump poderá perder a maioria na Câmara. Até aí nada de novo, porque, em geral, os presidentes perdem as eleições do meio do mandato.
A novidade é a promessa.
Fernando Schuller
“Se o indivíduo tivesse convicção de sua inocência, não teria motivo para eliminar registros que poderiam confirmar sua versão dos fatos”.
(Ministro Alexandre de Moraes, ao condenar a 'Débora do batom' a 14 anos de prisão por pixar a estátua; o mesmo ministro que usava mensagens de visualização única ao conversar com Vorcaro)
••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••••
O dia 'd' da democracia brasileira
Fernando Schüler, no Estadão de 13/09/2026
“Apagar dados do celular indica consciência sobre a ilegalidade dos atos praticados”, escreveu o ministro Alexandre de Moraes, em um dos argumentos para condenar a cabeleireira Débora dos Santos a 14 anos de prisão. E explicou: “se o indivíduo tivesse convicção de sua inocência, não teria motivo para eliminar registros que poderiam confirmar sua versão dos fatos”. O Brasil é um país curioso. Agora é uma conta com o nome do ministro, vejam só, que aparece com o modo de visualização única, feito para apagar conteúdo, interagindo com as 52 mensagens de Vorcaro, logo antes de sua prisão. E aqui estamos, em um drama nacional para ver se alguma coisa, afinal de contas, será investigada.
Não acho que isto incomode muita gente. Débora é uma brasileira comum. E é do “outro lado”. Ficou cerca de dois anos presa, por uma cautelar do próprio ministro, distante dos filhos de 6 e 10 anos, pelo rabisco com o batom naquela estátua. Seu caso é similar ao de Alcides Hahn, o “colono” de Corupá, no interior de Santa Catarina, também condenado a 14 anos, dessa vez sem ir a Brasília, pelo Pix de R$ 500. Nos anos recentes, escrevi muito sobre estas histórias. A pior talvez seja a do Clezão, morto como um zé-ninguém em um presídio de Brasília, depois de meses sem que o ministro se desse o trabalho de despachar um pedido de liberdade, “sob risco de morte”, para tratar da saúde.
São histórias difíceis e quase infinitas. Elas não tratam apenas de um longo rastro de abuso de poder. De pessoas comuns “julgadas” diretamente pelo Supremo, sem os direitos mais elementares ao juiz natural, instância devida e graus de recurso. Tratam do “use a sua criatividade” para atingir alvos pré-definidos; da censura aos empresários, por nada, em um grupo de WhatsApp; de um sujeito, o Filipe Martins, preso por meses por uma “fuga” do País que jamais existiu.
Elas contam uma história de brutal assimetria na cidadania brasileira. Algo que sempre me faz lembrar do dualismo moral descrito por Roberto DaMatta em seu “Você sabe com quem está falando?”. Da ideia de que somos uma sociedade em que, no papel e na retórica, somos todos iguais. Todos “indivíduos” sujeitos a um regramento abstrato e imparcial. Mas que, no mundo real, nas hierarquias, no estamento e nas sombras do poder, somos “pessoas” com status pateticamente distintos.
Para uns, apagar mensagens ou fazer um Pix de 500 reais pode ser crime de lesa-pátria, sujeito a 14 anos de prisão; para outros, o contrato de uma centena de milhões e a suspeita de trabalhar para um banqueiro fraudador sequer parecem razão suficiente para que a República autorize uma investigação. Para uns, a exceção jurídica; para outros, um tipo de supergarantismo, autoconfiante e feito da ausência de limites.
No fundo, é disso que se trata a sessão do STF, nesta terça-feira, dia 15. Não é apenas uma reunião difícil para autorizar ou não uma investigação. É o exame de uma tradição. Para saber se somos mesmo o país do “estamento”, onde a lei funciona primeiro perguntando “com quem você está falando”, ou se ainda temos alguma esperança de sermos uma república de iguais. Confesso meu desânimo com tudo isso. Mas posso estar enganado, e logo ali adiante teremos a resposta.
sábado, 12 de setembro de 2026
Semana pesada
Foi uma semana pesada. Vamos a ela….
1) No front externo, continuamos acompanhando as “escaramuças” entre EUA e Irã no contencioso para desbloquear o ESTREITO DE ORMUZ.
2) Tenho comentado sobre isso. Trump optou por ataques cirúrgicos em Teerã, para desestabilizar o regime dos aiatolás, ataques aéreos, mas evitou invadir por terra, pelo desgaste político que isso poderia trazer. Problema político pois não possuem maioria folgada no Congresso.
3) Acabou como um “salto no escuro”, pois o regime da Guarda Revolucionária, a teocracia iraniana, continua na superfície. Continua respondendo aos ataques.
4) É por aqui, no Brasil, no entanto, que a situação continua “complexa”. AM, ministro do STF, divulgou um extenso relatório da PF com informações mais do que bombásticas sobre AM. Praticamente o condenou ao limbo.
Jhn031299@gmail.com
5) Só para não perder o “fio da meada”. Dentre os “pequenos delitos”, no mais incrível, a discussão sobre um contrato de “módicos” 133 milhões reais (!), entre M, o escritório da mulher e DV. O “preço” da coisa toda? Proteger o playboy banqueiro. Pode isso Arnaldo? Um ministro do STF atuando como advogado e consultor para um encrencado banqueiro? Proteção do que?
6) Ainda temos cartão de 300 mil reais para os “pobres” filhos do ministro, um learjet à disposição, convites diversos para festas em Londres. Conflitos de interesse, corrupção pesada ou desvio de finalidade? Vocês escolhem. Mas quem se importa?
7) Alguma coisa precisa ser feita. Em vez de sumariamente preso, afastado da função, acontece agora no dia 15 uma votação, esperamos aberta, em plenário do STF.
8) Alguém tem dúvida, dada a evolução dos acontecimentos, que acabaríamos caindo nesse esgoto?
9) E as nossas “ciosas” mídias, muitos veículos bancados pelos órgãos oficiais de governo, indo atrás das fontes de financiamento da porcaria do filme do Bolsonaro, “Dark Horses”. Tudo é relativo! Não é mesmo?
10) Velha tese de parte desta oportunista e preguiçosa imprensa: se todos roubam…
Pano rápido.
Lavagem de toga suja
Na próxima terça, só há um programa: ver o STF revelando, ao vivo, quem combate e quem acoberta a corrupção.
Eugênio Esber para a Oeste:
Não marque nada para este 15 de setembro. É o dia em que o país viverá uma superterça de suspense e, se tudo correr bem, de enorme depuração. Depois de todas as hesitações e manobras protelatórias bem próprias de sua personalidade, o presidente do STF, Edson Fachin, finalmente convocou uma sessão plenária em que a Corte terá de decidir se autoriza a abertura de investigação contra um de seus mais poderosos ministros. Os indícios de crimes que pesam contra Alexandre de Moraes são gravíssimos, mas nada têm de novidade — arrastam-se desde o início do ano nas conversas de botequim e padaria, nos fóruns, nas rodas de cafezinho das empresas, nas redações e nas missas. Se Moraes sobreviveu até aqui no cargo e seguiu perseguindo e encarcerando vítimas dos atos do 8 de janeiro sob aplausos e bajulações de escolas de Direito como a da USP, é porque tem conexões profundas com o estamento oligárquico que lhe deu poderes extraordinários a partir de 2019. A grande notícia, porém, é que pela primeira vez, nestes sete anos, estará na condição de acusado, frente a seus próprios pares e sob os olhos da nação. O dia tão esperado chegou, e é nesta terça-feira.
Não será um parto indolor, a se considerar tudo o que aconteceu nestes nove meses de gestação da mais séria crise moral enfrentada pela, entre muitas aspas, “Nova República”.
Foi em dezembro de 2025 que o jornal O Globo publicou uma notícia-bomba sobre o contrato de R$ 129 milhões (na verdade, R$ 131 milhões) que o escritório jurídico da família de Moraes faturou para defender os interesses de Daniel Vorcaro, banqueiro que havia sido preso em novembro, quando se preparava para fugir do Brasil em seu jatinho particular.
Desde então, Moraes não deu uma única entrevista nem fez pronunciamento público para desfazer a informação de que enriqueceu colocando sua toga de ministro da Suprema Corte a serviço do financista que aplicou o maior desfalque no sistema financeiro nacional e na poupança de uma multidão de brasileiros. O silêncio de Moraes é uma gritante confissão de culpa. E a inação de Fachin, uma evidente admissão de tibieza.
O pedido para investigar Moraes parte de seu colega André Mendonça, relator do processo relativo ao escândalo da quebra do Banco Master no Supremo Tribunal Federal. A base é um relatório preparado pela Polícia Federal sobre a surpreendente e dócil subordinação de Alexandre de Moraes aos interesses de um banqueiro em apuros para fugir da aplicação da lei. Diálogos encontrados no telefone de Daniel Vorcaro indicam que ele contava com a assessoria de Moraes para ter acesso a informações sigilosas sobre diligências contra si e seu Banco Master que estavam em curso no Banco Central, na Polícia Federal, no Ministério Público e até no Judiciário. E o pior dos mundos: Vorcaro pediu orientação sobre quando deveria se mandar — sim, fugir — do Brasil. Isso tem nome. É obstrução da justiça.
Se a investigação for autorizada e Moraes sofrer uma quebra de sigilo telefônico, talvez a Polícia Federal consiga recuperar mensagens de visualização única que ele enviou a Vorcaro e então decifrar que papel o ministro desempenhava diante de missões comprometedoras que recebia do banqueiro. Por exemplo, quando Vorcaro perguntava a Moraes se ele conseguiria acionar Paulo Gonet, procurador-geral da República, Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, ou Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, para evitar o que chamava de “maldades” e “sacanagens” contra seu banco.
E aqui chegamos a alguns aspectos de puro nonsense da sessão plenária que selará o destino de Moraes, na terça-feira, 15. É que lá estará o procurador-geral da República, citado em contextos embaraçosos no mesmo relatório da Polícia Federal que fulmina Moraes. E Gonet, em decisão muito criticada por seus pares do Ministério Público, não se declarou impedido neste caso e emitiu parecer — contrário, claro — ao uso do relatório da PF para embasar a abertura de investigação.
Portanto, Moraes está enredado na mesma teia de relações promíscuas de Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, como abordei no artigo da semana passada, “O conluio do uísque”.
O clima pode pesar ainda mais na sessão se, além de Gonet, estiver presente o próprio Alexandre de Moraes, pivô do caso que, nas palavras do jornal espanhol El País, é uma “bomba atômica”. O temperamento explosivo e afrontoso de Moraes não permite duvidar de que ele queira encarar os colegas julgadores ou, até mesmo, votar. Especialmente se Dias Toffoli, outro ministro enrolado na rede de negócios de Daniel Vorcaro, resolver deixar de lado a decisão de abster-se de votações que envolvem o caso Master e desejar tomar parte na sessão plenária. Se a confusão se estabelecer, o grito de “ordem no tribunal” terá de vir de Fachin, o presidente de voz sussurrante e mania de conciliação.
Fachin é, hoje, um homem acuado, dentro e fora do tribunal. Sabe que o STF terá de entregar a cabeça de Moraes se quiser restituir parte de sua imagem pública, ou o que resta dela após meses de desmoralização. Mas suas omissões e relutâncias criaram internamente um vácuo de autoridade que estimulou os baixos instintos de um trio guloso de poder – Gilmar Mendes, decano da Corte e caudilho das maquinações políticas; Alexandre de Moraes, perseguidor-geral da República saído do mesmo ninho tucano de Gilmar; e Flávio Dino, um político de toga com vaidade e ambição suficientes para almejar a Presidência da República como herdeiro do lulopetismo.
Os três estão unidos e mostrando os dentes para Fachin, a quem chamam de “Frachin” desde que o presidente do STF apareceu com a ideia de enquadrar os ministros em um Código de Ética, e assim reduzir a crítica externa que se avolumou por causa dos negócios de Toffoli e Moraes. A ideia é tão inócua quanto tratar tumor com band-aid, mas Fachin delegou à ministra Cármen Lúcia a tarefa de apresentar o tal código, e tudo ficou por isso mesmo. O melhor código que Cármen pode redigir, se estiver mesmo preocupada com ética, começa por lançar um voto favorável à abertura de investigação de Moraes na sessão da próxima terça-feira.
Mendonça, autor do pedido de investigação, precisará de mais quatro votos para obter maioria dentre os oito julgadores aptos, já que Moraes e Toffoli, por razões óbvias, devem ser impedidos de votar. Por enquanto, seu bloco de apoio, formado apenas por Luiz Fux e Nunes Marques, é insuficiente para contrastar a monolítica coesão de Gilmar e Dino e seu poder de influência sobre o ministro Cristiano Zanin, ex-advogado de Lula. O fiel da balança será mesmo Cármem Lúcia, eis que Fachin, como presidente, provavelmente se eximirá de votar.
Estou otimista. Moraes, que perdeu boa parte de seu poder ao ser retirado, por Fachin, da relatoria do Inquérito das Fake News (4.781), deve se tornar formalmente investigado a partir de terça-feira que vem, se nenhum cambalacho acontecer de última hora – pedido de vista de Gilmar ou Dino, por exemplo. Ou algum acordo de acomodação – e, neste campo, tudo, absolutamente tudo, pode acontecer. Até o absurdo de manter Moraes na Corte enquanto é investigado.
Fachin não pode ser “Frachin”. Não agora. Do contrário, as ruas vão rugir. Moraes, se permanecer vestindo toga, será o próximo presidente do STF daqui a um ano. Inaceitável.
Imagem 2 - O presidente do STF, Edson Fachin, convocou sessão plenária em que a Corte terá de decidir se autoriza a investigação contra um de seus mais poderosos ministros | Foto: Gustavo Moreno/STF
Imagem 3 - Moraes não se pronunciou publicamente para rebater a acusação de que teria colocado sua atuação no STF a serviço de Vorcaro | Foto:
Marcelo Camargo/Agência Brasil
Imagem 4 - Mendonça precisará de mais quatro votos para obter maioria entre os oito julgadores aptos, com Moraes e Toffoli impedidos de votar | Foto: Reuters/Adriano Machado
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
BO em sala de aula
Segundo o relato, um grupo de estudantes chamava uma adolescente negra de “Zé Gotinha da Petrobras”. Enquanto os alunos riam e continuavam com as provocações, a menina chorava.
O professor parou a aula, conectou o notebook ao datashow e acessou o sistema eletrônico da Polícia Civil para registrar o B.O. relatando o episódio. Em seguida, projetou informações sobre racismo e as possíveis consequências jurídicas desse tipo de conduta.
A reação dos alunos mudou imediatamente. O que antes era motivo de risadas deu lugar à preocupação. Depois do episódio, algumas mães procuraram a escola e acusaram o professor de constranger os adolescentes e praticar “terrorismo psicológico”.
Por orientação jurídica recebida pelo sindicato da categoria, os nomes da escola e da rede de ensino não foram divulgados.
O episódio também levanta uma discussão maior sobre o chamado preconceito recreativo, quando ofensas contra características como raça, peso ou orientação sexual são tratadas como simples apelidos, memes ou “brincadeiras”.
Dependendo da apuração, da conduta praticada e da idade dos envolvidos, o caso pode gerar consequências previstas na legislação, incluindo medidas socioeducativas e possíveis responsabilidades civis pela reparação dos danos causados à vítima.
Ser adolescente não significa estar livre de consequências pelos próprios atos.
E apoiar um filho quando ele erra não significa transformar em culpado o adulto que estabeleceu um limite. Também faz parte da educação ensinar que determinadas atitudes podem ferir outras pessoas e que é preciso assumir a responsabilidade por elas.
Naquela sala, havia adolescentes que precisavam entender que racismo não deixa de ser racismo porque foi apresentado como uma piada.
E havia uma menina chorando, esperando que algum adulto dissesse que aquilo precisava parar.
Cora Ronai
Ontem escrevi no Globo comentando como é dura a vida de quem escreve coluna semanal num país como o Brasil, onde escândalos e realidade mudam a cada 24 horas. Nem se eu tivesse coluna diária daria mais conta; as prioridades se embaralham, os sentimentos são atropelados.
No dia 26 de agosto, uma geleira se desprendeu no Himalaia e levou vilarejos inteiros. Os mortos já passam de mil e trezentos; os desaparecidos, de cinco mil. Vi vídeos de gente morta, bichos mortos, pedaços de gente morta, gente viva tirando os brincos de gente morta — porque a gente viva precisa continuar viva.
Viajei de carro do Nepal para o Tibete em 2011. Me apaixonei por aquelas montanhas, pelas pontes precárias sobre os despenhadeiros, pelas mulheres carregando o mundo enquanto os homens fumavam, acocorados e contemplativos.
Se eu morasse na Suíça, teria escrito sobre o vale do Trishuli.
Mas moro no Brasil. Na noite anterior, um estudante da UFRJ foi arrancado de uma sala e linchado por uma camiseta de mau gosto que uma turma decidiu ser apologia ao nazismo. Violência inaceitável em qualquer lugar, mas imperdoável numa universidade, onde deveria haver diálogo.
Há vídeos.
E há alunos e professores defendendo os agressores.
Escrevi sobre a UFRJ. E imaginei que agora, enfim, escreveria sobre o apocalipse no teto do mundo.
E aí, pronto: STF.
Um espetáculo de autodestruição, um conto moral sobre homens sem moral, sobre uma instituição que fracassou e um país que perdeu definitivamente a vergonha na cara.
Lamento pelo digno Ministro Edson Fachin, que preside aquela casa desmoralizada; lamento pela Ministra Cármen Lúcia, que só nos dá motivos de orgulho; e lamento sobretudo pelo Brasil, que há tempos se afoga como os vilarejos do Nepal, numa enxurrada de lama e dejetos.
Pablo Ortellando
Quando o escândalo eclodiu, nenhum elemento sustentava as alegações dos agressores de que haviam expulsado da universidade um provocador nazista. Naquele momento, tudo o que havia eram dois vídeos. No primeiro, Diego exibia um broche antinazista e explicava que a caveira da SS na sua camiseta tinha função crítica, como faziam artistas “como David Bowie”. No segundo vídeo, mais de dez pessoas espancavam um Diego tombado na escada. Apesar de tudo indicar que a turba não foi capaz de entender a simbologia antinazista e que tinha resolvido fazer justiça com as próprias mãos, uma onda de solidariedade institucional com os agressores se disseminou na universidade.
No mesmo dia das agressões, uma postagem em colaboração entre a UNE e o DCE da UFRJ reiterava a tese do estudante com símbolo nazista “retirado” da universidade. UFRJ e Instituto de Filosofia e Ciências Sociais soltaram notas ambíguas criticando o nazismo e a violência. Os diversos sindicatos e movimentos sindicais — Sintufrj, Asduerj e CSP-Conlutas — se solidarizaram com os agressores e condenaram o nazismo, o racismo e o fascismo. Embora o linchamento estivesse documentado e a apologia ao nazismo fosse alegada e contestada, as instituições da UFRJ não tiveram coragem de enfrentar os movimentos sociais e condenar com a devida força um linchamento em suas dependências.
O que veio depois foi pior. Um manifesto de “docentes em defesa da UFRJ”, com mais de 200 assinaturas, inclusive de um ex-reitor, posicionou-se “em solidariedade aos estudantes agredidos por um neonazista” e repudiou “a caracterização da reação de autodefesa dos estudantes como um ato de linchamento”. Um grupo de pesquisa em direitos humanos ponderou que “a violência do oprimido não é a violência do opressor” e que “uma reação coletiva de estudantes diante de símbolos que celebram o extermínio” não pode “ser lida na mesma chave que o gesto que a provoca”.
(...) O mais inquietante, no caso de Diego Araújo, não é que uma multidão tenha se convencido de que fazia justiça, mas que tantas instituições tenham se empenhado em convencê-la de que tinha razão.
Elio Gaspari
NA CRISE DO STF, SÃO DEZ ESCORPIÕES NUM GARRAFA Isolados atritos de choques de ego e surtos de onipotência, sobra pouco Supremo atravessou ...
-
Brasil: Mais perto de juros menores... By Dan Kawa 12Nov25 Um IPCA (inflação) mais comportado e uma mensagem menos dura da Ata do Copom aj...
-
🇧🇷 *Tarcísio: mercado financeiro é muito ansioso, precisa ter calma* Broadcast: - O governador de São Paulo afirmou há pouco, no Annual M...
-
*Bom Dia Mercado* Sexta Feira, 31 de Outubro de 2.025. *Magníficas brilham no after hours* Aqui, hoje tem a Pnad Contínua e déficit primár...