Os fatos chegam atrasados
Alex Pipkin, PhD em Administração e Consultor Empresarial
Primeiro escolhemos. O candidato chega depois.
Entre os eleitores de menor escolaridade, Lula tem 49%, Flávio Bolsonaro, 29%.
Seria a prova definitiva da superioridade política do diploma, não fosse um detalhe devastador.
Conheço, e como conheço, doutores capazes de defender disparates com bibliografia, nota de rodapé e absoluta convicção.
Diploma aumenta repertório, não vacina contra estupidez.
A explicação é bem menos confortável.
Ninguém chega sozinho à urna. Leva os pais, a renda, o bairro, o medo, a religião, o emprego que teve, o dinheiro que faltou, a ajuda que recebeu, a raiva que guardou e a turma à qual aprendeu a pertencer.
O candidato chega por último. Para milhões, Lula não é um político. É uma biografia emprestada. Emprego, consumo, proteção, a lembrança de uma época em que a vida pareceu melhorar. Para outros, é também a memória da corrupção, das condenações depois anuladas e de uma história judicial que o país ainda interpreta de maneiras opostas.
Memória não gosta de auditor.
A rejeição trabalha no mesmo escritório.
Flávio carrega um sobrenome que entra na sala antes dele, junto com a pecha do autoritarismo bolsonarista. Lula carrega uma biografia que fecha a porta depois. Há quem rejeite antes de ouvir e quem absolva antes de julgar.
Os argumentos chegam depois. Advogados contratados pela sentença.
O Datafolha desta semana cometeu uma pequena indecência estatística: Lula e Flávio com os mesmos 45% de rejeição.
Iguais no número, diferentes na bagagem. Em Flávio, o sobrenome chega primeiro. Em Lula, uma longa biografia já está sentada à mesa. Não é equivalência. É simetria de trincheiras.
Faço parte da estatística, sem qualquer pretensão de neutralidade.
Entre os dois, minha rejeição a Lula decide meu voto. Flávio não precisa me entusiasmar.
Também carrego uma biografia para a urna.
Chamamos isso de escolha porque reconhecimento tribal ficaria feio na urna.
O grande engano é imaginar que um fato novo encontra uma cabeça disponível. Não encontra. O imóvel já tem inquilino.
Se favorece meu candidato, é prova. Se o desmente, é perseguição, contexto, sabotagem, imprensa, juiz, mercado, sistema. Para o adversário, evidentemente, contexto não existe. Embora a biografia política de Lula dispense apresentações.
Não é burrice. Seria fácil demais.
Um fato não disputa com outro fato. Disputa com uma biografia. Biografias são péssimas perdedoras.
A democracia fez uma aposta: diante dos fatos, revisaríamos nossas escolhas. A aposta não envelheceu bem.
Fizemos o contrário. A escolha vem pronta. Depois contratamos os fatos para defendê-la.
Alex Pipkin
