domingo, 27 de setembro de 2026

Elio Gaspari



A íntegra: Elio Gaspari

Jornalista, autor de cinco volumes sobre a história do regime militar, entre eles "A Ditadura Encurralada"




Lula errou em 2023

Quando derrotou Jair Bolsonaro por uma margem pequena de votos, Lula leu mal o resultado

Lula 3.0 não cultivou o arco democrático que o elegeu




Em 2022, quando derrotou Jair Bolsonaro por uma margem pequena de votos, Lula leu mal o resultado. O que era uma vitória apertada vinda de um arco democrático, o PT e Lula tomaram como uma consagração.




Consagração foi, afinal o sujeito passou quase dois anos na cadeia acusado de corrupção e se elegeu presidente pela terceira vez. É vitória para ninguém botar defeito, mas não é suficiente. Lula 3.0 não cultivou o arco democrático que o elegeu. A diferença entre o arco democrático e a coligação governista pode ser testada pelo lugar onde fica o ex-ministro Pedro Malan. Ele pertence ao arco, mas não pertence ao bloco que poderia ser chamado de governista.




O PT desperdiçou a oportunidade de governar com uma coligação mais inteligente e criativa do que a pobre polarização em que se caiu.




Faltando dez dias para o primeiro turno, ele acordou. O eleitor também acordou. Se não é ele, é Bolsonaro. O antipetismo que elegeu o ex-capitão em 2018 encolheu em 2026, até porque surgiram fatos que alimentam um antibolsonarismo. No início de outubro de 2018, Bolsonaro tinha 32% das preferências, segundo o Datafolha. O petista Fernando Haddad tinha 21%. Aquele Brasil bolsonarista desmanchou-se, mas não acabou.




Lula vive um paradoxo, é o candidato que vai melhor nas pesquisas, mas seu governo é mal avaliado por 40% contra e 34% a favor, segundo o último Datafolha.




Lula revelou um certo cansaço com a campanha. Não era fadiga física, era cansaço do modo campanha. Um sinal desse cansaço é o bordão desafiador: "É esse país que vocês querem?". O eleitor sabe que é ele quem manda, não é preciso ser desafiado.




De certa maneira, Lula foi capturado pela polarização bolsonarista. Podendo ampliar sua base, estreitou-a ou engordou-a, recorrendo ao centrão.




Faltou criatividade ao petismo, mas ele teve a sorte de ganhar um adversário incapaz de formular uma ideia nova ou de buscar um novo aliado.




Tarcísio no 1º turno

Uma eventual vitória do governador Tarcísio de Freitas no primeiro turno pode atrapalhar a vida de Flávio Bolsonaro no segundo turno. Sobretudo se, no dia 25 de outubro, der praia.




A carta das apostas

As casas de apostas que compraram outorgas ao governo por R$ 2,5 bilhões vão brigar na Justiça para recuperar a franquia ou receber o dinheiro de volta.




Os deuses do jogo maltrataram as casas de apostas. Jogaram no colo da justiça a proteção às casas de tavolagem.




Era tudo o que a magistratura não precisava.

sábado, 26 de setembro de 2026

Papo de Economista Semanal

Papo de Economista Semanal


Atravessamos esta semana de olho nas pesquisas para a eleição majoritária do dia 4 e também atento ao comportamento do conflito no Oriente Médio.


Vejamos o que foi destaque.


1) No Oriente, a grande dúvida é saber quanto EUA e Irã cederam para ambas as partes no “liberar” do estreito de Ormuz. Nesta semana, algum avanço houve nas tratativas e com isso o barril de petróleo recuou 6%.


O Brent encerrou a sexta-feira (25) em queda de 2,8%, a US$ 97,44 o barril, acumulando recuo de 6,2% na semana — o maior em meses.


2) A contribuir, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, apresentando aos EUA uma proposta com prazo de sete dias para reabrir o Estreito de Ormuz e retomar negociações.


3) Na sexta-feira(25), por aqui, saiu a prévia do IPCA de setembro, que subiu 0,70% — bem acima da deflação de 0,40% em agosto. Maior impacto individual veio da energia elétrica residencial, que disparou 7,42% com o fim do bônus de Itaipu. Em 12 meses, o IPCA-15 avançou de 4,24% para 4,47%.


4) Este resultado, talvez, reforce a percepção de que o Copom deve ser mais cauteloso no ciclo de cortes da Selic. A leitura oficial do IPCA de setembro, prevista para outubro, será determinante para o Copom na reunião de novembro.


5) Neste cenário, o Ibovespa operou sem rumo, “de lado”, fechando a 183.476,86 pontos, queda de 0,96% — a segunda perda semanal consecutiva. Já o dólar fechou a R$ 5,18, com alta de 0,72% na semana.




6) No “front político”, a disputa segue apertada entre Lula da Silva e Flavio Bolsonaro. No entanto, percebe-se alguma perda de tração do primeiro e reação do segundo. E tudo piorou para o primeiro diante de novas gravações de personagens do STF e do entorno do governo Lula. Realmente. Daniel Vorcaro é um “arquivo vivo”.




Boa Semana a todos!

Millor sobre Lula



“”Millôr Fernandes sobre Lula:




“A ignorância subiu-lhe à cabeça. Ele acha que sabe tudo, mas não sabe nada".




"Lula chegou ao limite extremo da soberba. E ultrapassou-o".




"O Brasil é o único país em que os ratos conseguem botar a culpa no queijo".




"Lula, um líder aspirando cada vez mais pompa tropeçando cada vez mais nas circunstâncias".




Esse negócio da bebedeira dele foi ridiculo. Ele disse que decidiu expulsar jornalista como exemplo. Para quê? Para que todo mundo fique com medo de escrever coisas negativas sobre ele?"




"Lula é um túnel no fim da luz".




"Freud ficaria besta com Lula; é o ego maior do mundo".




"Lula tem um grande passado pela frente".”




- da TL do Isaac Averbuch / via Alessandro Gagnor Galvão

Micro x Macro

A discussão sobre a questão da baixa produtividade dos fatores de produção, na economia brasileira, nos remete ao fato de que parte do meio acadêmico gosta de trabalhar com a macro keynesiana pelo lado da demanda.

São todos “educados” sob a égide da heterodoxia keynesiana e suas vertentes. Nesta, o debate gira em torno de grandes temas, como os desafios do desenvolvimento, o hiato do produto, as flutuações de demanda “efetiva”, o multiplicador, a demanda por moeda, as formas de atuação do Bacen, etc.

Falar de eficiência alocativa, na produtividade de fatores, são mais uma abordagem ortodoxa. Como tornar os setores produtivos (ou não) mais eficientes? São abordagens neoclássicas, mais micro. A macro keynesiana gosta mais de aborda a economia pelo lado da demanda, enquanto que o neo-clássicos focam mais no setor produtivo, na oferta de fatores, bens e serviços.

Os “policymakers”, em maioria, macro keynesianos, não alcançam. Perdem com isso. Não a toa, as pesquisas da Universidade de Chicago são muito mais focadas na micro, na racionalidade dos agentes, portanto, um celeiro de Prêmios Nobel.

Paramos no tempo no debate econômico, e poucos se convencem disso. Um amigo bem define, “paramos no tempo e andamos em círculo… essas escolas heterodoxas Campinas, por exemplo, insistem no “Keynesianismo bastardo”… aplicando receitas de curto prazo à problemas estruturais e de longo prazo… insistem no erro na esperança de um dia, quem sabe, dar certo…”

Certa feita, o brilhante Gustavo Franco, seguindo Pedro Malan, Bacha, todos economistas da PUC RJ, argumentaram que, pouco a pouco, estaríamos superando os temas macro, como o problema inflacionario, o gerenciamento da demanda agregada, ingressando mais em temas do “dia a dia”, de eficiência aplicativa, ou alocativa, como a questão do crédito, nas suas variadas possibilidades, os setores da economia, etc.

O "empacamento", o impasse, q representa o debate fiscal no país, por culpa do PT, é um ponto a ser salientado. A definição de regras, a disciplina e responsabilidade fiscal, já deveriam ter sido definidos como consensos consolidados. Mas o PT cisma em não considerar estes pontos relevantes. Mas são!

Piora fiscal contribui, nas expectativas, para a deterioração das condições de financiamento, na rolagem da dívida pública. O aumento dos custos financeiros no “carrego” destes títulos públicos é puro sintoma desta piora. Mas vai convencer um petista, apoiado na MMT, de que isso é uma realidade, um fato concreto…

Todos os países, que optaram pela disciplina fiscal, estão melhores que o Brasil.

Se nós formos ver o q a MIT, Princeton, Chicago, Berkeley, etc, produzem de pesquisa aplicada, veremos que são pouquíssimas as pesquisas macros.

Sabem por que? Pq a “fronteira da ciência”, do conhecimento, o “estado da arte”, está no produzir "modelos quantitativos" bem calibrados, e estes só possíveis em situações mais isoladas, no velho "céteris paribus", vendo os efeitos causais entre poucos agentes, mto complicado na macro dinâmica.

São aplicaveis mais na microeconomia. Na macro, ainda tenhamos os modelos DGSE.

No mundo acadêmico, no exterior, quem não adere aos modelos macrométricos, aos poucos, vai ficando para trás.

Lava Jato



Relembrando trecho do depoimento do Renato Duque para o então juiz Moro em maio/2017:




"É, eu tive, após a saída da Petrobras, três encontros com o Lula: um em 2012, um em 2013 e o último em 2014.




Nesse encontro de 2012, para mim ficou muito evidente, e fiquei surpreendido, com o conhecimento que ele tinha sobre esse projeto de sondas. Ele me questionou — eu já só relembrando, que eu já estava fora da Petrobras desde abril. Nós estamos falando isso aí já é julho. Esse encontro, esse primeiro encontro, se deu em julho de 2012, a meu pedido. Eu conversei com [o] Vacari, que eu queria agradecer pelo período que eu passei na Petrobras. E ele começou a fazer algumas perguntas sobre a questão das sondas. Uma delas, por exemplo, é: por que que não tinha sido assinado o contrato ainda, já que tinha sido aprovado lá em abril? Falei: 'Presidente, eu nem sabia que não tinha sido. Tô fora da empresa, não sei responder.'




Então eu fiquei surpreendido, porque naquela hora - eu, o presidente Lula... né, e Vacari - ficou claro para mim que pelo nível de informação, ele conhecia tudo, e falando esse tipo de coisa na frente do Vacari e na minha frente. Poxa, é, ele tá comandando tudo. O Vacari realmente era um braço que atuava para o Lula, né?




Aí teve um segundo encontro que, da mesma maneira, ele fez perguntas sobre sondas, é, porque não tava recebendo. Até então, em 2013, ele perguntou se eu sabia por que as empresas não estavam pagando. Eu não soube responder também, porque não acompanhava isso.




E por fim, no último encontro, 2013/2014, já com a Lava Jato em andamento, ele me chama em São Paulo. Eu tenho uma reunião no hangar da TAM, no aeroporto de Congonhas. E ele me pergunta se eu tinha uma conta na Suíça com recebimentos da empresa SBM, dizendo que a então presidente Dilma tinha recebido a informação de que um ex-diretor da Petrobras teria recebido dinheiro numa conta na Suíça da SBM. Eu falei: 'Não, não tenho dinheiro da SBM nenhum, nunca recebi dinheiro da SBM.' Aí ele vira para mim e fala assim: 'Olha, e das sondas tem alguma coisa?' Falei ( e tinha né ) - Eu falei: “Não, também não tem.” Ele falou assim: “Olha, presta atenção no que eu vou te dizer. Se tiver alguma coisa, não pode ter, entendeu? Não pode ter nada no teu nome, entendeu?” Eu entendi. Mas o que que eu ia fazer? Não tinha mais o que fazer. Aí ele foi, falou que ia conversar com a Dilma, que ela tava preocupada com esse assunto e queria tranquilizá-la.




Mas nessas três vezes ficou claro, muito claro para mim, que ele tinha pleno conhecimento de tudo e tinha o comando."

Desindustrialização...

 


Uma série de fatores poderiam ser destacados, mas eu pensaria em insegurança jurídica e institucional, carga fiscal exagerada, péssimo ambiente de negócios, custo trabalhista elevado, crises contínuas, perda de renda e emprego, etc. É este mix de fatores que nos ajuda a pensar nesta desindutrialização. Devemos ressaltar também em estratégias das matrizes, montando plantas em países asiáticos e com custos trabalhistas baixos.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

The Economist

 Artigo no The Economist: .

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 *Brasil dá as costas ao futuro* 

“O Brasil é abençoado. Suas reservas comprovadas de petróleo são enormes e estão crescendo. Dentro de suas fronteiras, o maior rio do mundo, o Amazonas, flui através de sua maior floresta tropical. Mais da metade da eletricidade do Brasil vem da energia hidrelétrica. Suas terras agrícolas estão entre as mais produtivas do planeta; em breve se tornará o maior exportador de alimentos, ultrapassando a América. Sob seus solos estão vastos depósitos de minerais de terras raras. Seus  220 milhões de habitantes são empreendedores, criativos e diversos. O vasto potencial do Brasil é aparente há muito tempo. Quando a capital, Brasília, foi construída na década de 1950, suas ruas foram dispostas em forma de avião, simbolizando um país pronto para decolar.


No entanto, ainda está parado na pista. Durante o último meio século, em vez de tomar asas, a economia do Brasil estagnou em relação aos seus pares e ao crescimento global médio. A eleição geral de 4 de outubro oferece pouca esperança de uma reviravolta. A escolha diante dos brasileiros é sombria.


O atual presidente de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, conhecido como Lula, enfrenta Flávio Bolsonaro, o filho mais velho de seu antecessor populista de direita, Jair. Lula está prestes a fazer 81 anos, a mesma idade que Joe Biden tinha quando abandonou sua candidatura à reeleição em 2024. Ele é um democrata e a favor do meio ambiente. Mas ele fez muito pouco para desencadear o crescimento ou conter os gastos. Ele não conseguiu impulsionar reformas econômicas, proibiu uma simplificação do imposto sobre vendas e chama a disciplina fiscal de “babaquice”. Seu governo está a caminho de encerrar o mandato com o maior projeto de lei de juros da dívida pública em um quarto de século.


O júnior Bolsonaro, que tem apenas 45 anos, nega que os humanos estejam causando mudanças climáticas, questiona a integridade das máquinas de votação e sugere que não honrará o resultado se Lula vencer. Ele foi investigado por supostos laços com criminosos violentos, o que ele nega. Sua principal política é perdoar seu pai, que em setembro de 2025 recebeu uma sentença de 27 anos por planejar um golpe - incluindo um plano para assassinar Lula - depois de perder sua candidatura à reeleição em 2022.


A dupla está empatada nas pesquisas, com Flávio em ascensão. Nenhum dos homens é confiável quando se trata de enfrentar os dois maiores problemas do Brasil: a corrupção arraigada e a expansão implacável dos gastos públicos. Sem um plano sólido para reduzir a dívida pública em relação ao PIB, o risco de uma espiral de juros da dívida manterá os custos de empréstimos altos, matando a economia do capital necessário para aumentar a produtividade e o crescimento. Os gastos governamentais em expansão cada vez maior impulsionam a inflação, forçando o banco central a manter as taxas de juros altas. Reduzir essa dívida e reduzir as taxas exigirá cortes profundos nos gastos do governo, 92% dos quais são exigidos por lei ou pela constituição absurdamente prescritiva do Brasil.


Na ausência de um crescimento mais forte, o jogo das elites políticas para controlar os recursos públicos faz com que muitos brasileiros comuns se sintam desesperados, uma vantagem para os políticos que operam nos extremos. A corrupção também prejudica as instituições que fornecem os freios e contrapesos do Brasil. Algumas semanas após a condenação de Jair, um escândalo conhecido como Banco Master irrompeu e rapidamente envolveu a Suprema Corte. As investigações policiais até agora mostraram que cinco dos 11 juízes do tribunal tinham conexões com Daniel Vorcaro, o mentor playboy por trás do banco. Isso alimenta o cinismo público, tornando mais fácil para os brasileiros ignorar a convicção de Jair por conspirar um golpe e apoiar seu filho.


O candidato cujas ideias combinam mais de perto com o momento é Renan Santos, um libertário que se esforça. Ele quer promulgar uma reforma estrutural profunda e cortes de gastos para transformar o Brasil em uma grande potência. Mas nem ele nem qualquer outro estranho fizeram progressos contra as máquinas políticas opostas de Lula e do Sr. Bolsonaro. O país está se movendo em direção a uma crise previsível, mas a maioria de sua elite política está muito confortável com a maneira como as coisas estão para mudar de rumo.


E assim o futuro brilhante do Brasil ficará em espera por pelo menos mais quatro anos. Não está totalmente morto. Apesar da corrupção e do pensamento insular dos políticos rastaqueras, muitas das instituições vitais do país ainda funcionam. A polícia federal atuou bem para investigar a fraude de Vorcaro e a trama do golpe antes disso; a imprensa permanece feroz, independente e relativamente bem financiada; o corpo diplomático é respeitado em todo o mundo. Até mesmo a Suprema Corte, apesar de suas abundantes falhas, conseguiu enviar um golpista para a prisão.


O gatilho mais provável para uma crise seria uma aceleração acentuada no nível de dívida e custos de empréstimos, levando a um agravamento da economia. Esse é um círculo vicioso, familiar dos brasileiros mais velhos, que pode levar a quedas no valor do real, mais inflação e uma recessão dolorosa. Talvez só então os brasileiros se voltassem para alguém preparado para fazer uma política impopular onde sacrifícios serão necessários para um futuro em que um país abençoado nunca mais seja condenado a escolher entre dois candidatos tão sombrios.”

Elio Gaspari

A íntegra: Elio Gaspari Jornalista, autor de cinco volumes sobre a história do regime militar, entre eles "A Ditadura Encurralada...