domingo, 1 de novembro de 2026

Reflexões pós eleição

Passados alguns dias da eleição majoritária, vitória de Lula da Silva em segundo turno, uma reflexão se faz necessária.

1) Concordo que os dois candidatos à presidência, em segundo turno, eram lamentáveis. Nunca seriam a minha primeira opção. Por isso, eu anulei. Estava na Holanda para ver o meu filho se formar. Coisa muito melhor para se fazer. 

2) Só acho que a "bandidagem" do PT extrapola qualquer lógica, leitura razoável...

3) A postura do casal presidencial, por exemplo, em viagens, "queimando" milhões (são cafonas, delumbrados, zero de simplicidade, austeridade...é assim q um estadista se comporta, com discrição! Nada disso! Um escroque, cínico, dissimulado). O Lula é uma mentira! 

4) Os vários esquemas em que o PT esteve diretamente envolvido, os conluios com a praga do STF, o tal Lulinha...fugindo para Madrid, mesada de R$ 300 mil do Vorcaro, e o careca deixando rolar...o rombo do INSS, mais um esquema...e o Lula "teflon" sem nada a ver? 

5) E muitos, neste papo de chamar o Flávio de miliciano como tantos da esquerda? Uma narrativa frágil. O Lula é o que então? Ligado a PCC, CV, Farcs, Hammas, o PT sempre na contramão da história...sempre com diagnósticos equivocados...eu tenho a leitura de que se bobear, nem completa este segundo mandato seguido. 

6) Alcolumbre em articulação para ser reeleito? Um cara horroroso, malcomunado. Objetivo é blindar os ministros do STF! Eu acho esta primeira semana um desastre...totalmente desconexa. Insegurança jurídica absurda.

7) O mercado financeiro está sem um norte...dizem existir um sistema, um intenso processo de compra de apoios. 

8) Não acredito neste governo, nunca acreditei no PT, o Brasil, passados 20 anos, não melhorou. Continua um país extremamente injusto, cheio de castas do serviço público. Vivi mtos anos, entre Portugal, agora Holanda...país onde existe sim social democracia. 

9) Aqui? Só estão bem os servidores públicos...estes vivem uma social democracia, o resto??? Encher a boca para falar de SUS? O sistema não é usado pela classe media. Todos nós somos extorquidos por planos de saúde carissimos! Cadê a social democracia? 

10) E a educação superior totalmente aparelhada??? O q se menos faz é estudar!! na minha área,  economia, só militância! Estes heterodoxos lunáticos inventando baboseira de MMT, desenvolvimentismo....pouca seriedade.

12) Eu, em Delft, na Holanda, vendo meu filho se formando em Engenharia Aeroespacial, a molecada só falando da carreira, das oportunidades, nada desta bobajada de militância política...um campus enorme, organizado...estudante está lá para estudar. Zero de ficar de proselitismo politico.

13) O Brasil, totalmente "cindido" ao meio....a imprensa não pode vir com ironías contra um cara que obteve 60 milhões de votos. Tem que respirar e refletir...são 60 milhões de votos...creio q grande parte, votos contra o PT...é isso q chama atenção. A família Bolsonaro é apenas o efeito colateral deste sentimento anti PT.

14) Eu não tenho nada de Bolsonaro, não sou cristão...nem evangélico. Nada destas bobagens de discutir gênero...as pessoas vencem pelos seus méritos, predicados...não pela raça, etc.

15) Só acho que o sentimento contra o PT na sociedade brasileira não pode ser ignorado. É gente trabalhadora, preparada, como são os esquerdistas...

16) Saiu em alguns veículos que o Lula obteve 8,6 milhões de votos sem confirmação de biometria. Logo, a probabilidade de fraude nas urnas foi considerável. A tal "virada" ocorreu porque o sistema operou a favor de Lula. Será que se o Flávio Bolsonaro tivesse recebido esta quantidade de votos sem confirmação de biometria, como o PT iria reagir?

17) Eu me coloco sempre como observador da cena....zero paixão. Vocês acham q tudo correu dentro da normalidade neste segundo turno? 

18) Se conversarmos com um estatístico laureado e sério, um cientista político, eles perceberão q era impossível esta virada de 10 milhões de votos em 20 dias, até pq o PT não tinha nada a mais para mostrar, nenhuma "bala de prata". Era mais do mesmo. 

E de boa...xingar o cara de "miliciano" beira o absurdo qdo se sabe das várias conexões do PT com traficantes, CV, PCC, Farc...sem esquecer as tiranias por este mundão.

Vamos todos morrer na praia

 VAMOS TODOS MORRER NA PRAIA

Por Eduardo Brandão


Vou parar de falar de política. Talvez estas sejam minhas últimas palavras sobre o assunto. Não por falta de convicções, tampouco por resignação intelectual, mas por uma razão muito mais amarga: o esgotamento da esperança.


A política brasileira deixou de ser o território do debate de ideias para se transformar, aos meus olhos, num exercício permanente de indignação, impotência e desalento. E há um momento na vida em que até a indignação cobra seu preço. A alma também envelhece.


Lula foi eleito, a meu juízo, graças a uma sucessão de manobras jurídicas e políticas que considero uma afronta à consciência democrática. Mas isso já não importa. Assumirá mais um mandato e, temo, governará como governou anteriormente: sustentado por um sistema de alianças, conveniências, fisiologismo e promiscuidade entre o poder político e as instituições que deveriam fiscalizá-lo.


Os Alcolumbres e os Alexandres continuarão, provavelmente, onde sempre estiveram: próximos ao poder, protegidos pelas engrenagens de um sistema que parece ter desenvolvido extraordinária capacidade de preservar seus protagonistas, enquanto consome a esperança daqueles que deveria servir. Os personagens permanecem incólumes; as instituições se desgastam; a sociedade paga a conta.


Mas o que verdadeiramente me atormenta já não é Lula. É o tempo.


Quando outro presidente assumir depois dele, estarei com 67 anos. Sessenta e sete anos! Uma idade em que o futuro deixa de parecer uma promessa inesgotável e passa a ser medido pela urgência dos dias que ainda nos restam.


E não estou sozinho nesse sentimento.


Vejo meus amigos, companheiros de geração, igualmente cansados. Homens que atravessaram décadas acreditando que o Brasil poderia, enfim, encontrar seu destino. Hoje, carregamos a sensação devastadora de termos envelhecido à espera de um país que nunca chegou.


Não foram apenas anos perdidos. Foram anos que deixamos de viver plenamente, consumidos pela expectativa de uma mudança que parecia sempre próxima e que, a cada novo amanhecer, se afastava um pouco mais.


Passamos praticamente todo o século XXI combatendo aquilo que consideramos a degradação política e moral do Brasil. Vimos o Partido dos Trabalhadores consolidar uma estrutura de poder que, em nossa percepção, ultrapassou a disputa eleitoral e alcançou a própria consciência de parte da sociedade.


Lutamos, denunciamos, discutimos, escrevemos, votamos, protestamos. Acreditamos que a verdade prevaleceria sobre a conveniência, que as instituições resistiriam às tentações do poder e que a democracia seria capaz de corrigir seus próprios desvios.


Talvez tenhamos cometido o mais humano dos equívocos: acreditar que a história caminharia necessariamente em direção ao progresso.


Mas a história não tem compromisso com nossas esperanças.


O tempo, esse juiz silencioso e implacável, não devolve os anos sacrificados em nome de causas que não triunfaram. E há uma crueldade particular em perceber que podemos ter dedicado a melhor parte da existência a uma batalha cujo desfecho talvez não tenhamos sequer o privilégio de testemunhar.


Envelhecemos lutando. E, enquanto lutávamos, a vida passou.


Não teremos mais a juventude necessária para recomeçar. Talvez nem a disposição para continuar. A reconstrução de uma nação exige décadas; a existência humana, entretanto, não admite prorrogações.


É essa a dimensão mais dolorosa da nossa derrota: não apenas a possibilidade de perdermos o país que sonhamos construir, mas a certeza de que estamos perdendo o tempo que nos permitiria vê-lo reconstruído.


Ao fim desse quarto mandato de Lula, temo que o Brasil se assemelhe a uma embarcação que atravessou sucessivas tempestades sem jamais encontrar um porto seguro. Uma nau exaurida, com o casco ferido, as velas rasgadas e a tripulação dividida entre os que ainda acreditam na travessia e os que já não distinguem o horizonte.


E nós, que durante tantos anos remamos contra a correnteza, talvez já não tenhamos forças para alcançar a margem.


Há uma tragédia silenciosa em chegar ao entardecer da vida e descobrir que a pátria pela qual se lutou continua sendo uma promessa adiada.


Não é apenas uma derrota política. É uma espécie de exílio dentro da própria terra.


E, se existe algo mais doloroso do que perder a esperança no presente, é olhar para os filhos e netos e perceber que talvez lhes estejamos deixando como herança exatamente aquilo que passamos a vida tentando combater.


Sinto muito por eles. Profundamente.


Porque nós ainda tivemos o direito de sonhar com outro Brasil. Receio que eles herdem um país onde até o sonho tenha se tornado um luxo.


Ao fim e ao cabo, talvez seja esse o destino da nossa geração: assistir, impotente, ao naufrágio das próprias esperanças, enquanto o tempo recolhe, uma a uma, as forças que nos restam.


E, quando a última onda finalmente alcançar a areia, talvez não haja vencedores entre nós. Apenas os destroços da nau chamada Brasil e os corpos de uma geração que passou a vida inteira tentando salvá-la.


Vamos todos morrer na praia.

Marcos Mendes

 Um excelente artigo do economista Marcos Mendes, pesquisador associado do Insper, é  organizador do livro 'Para não esquecer: políticas públicas que empobrecem o Brasil'


Não será fácil salvar a democracia

Pacto social da redemocratização parece esgotado

Desigualdade parou de cair, e ainda estamos entre os mais desiguais do mundo


Em 2012, o Brasil acumulava uma década de crescimento médio anual do PIB de quase 4%, tendo passado ileso pela recessão mundial de 2008-2009. A desigualdade e a pobreza caíam. Havia um clima de "agora vai".

No mesmo ano, contrariando o otimismo reinante, comecei a escrever o livro "Por que o Brasil Cresce Pouco?", publicado em 2014, que apontava para estagnação econômica, com ameaça de ruptura da democracia.

O argumento é que transitamos para a democracia, em 1985, com uma sociedade muito desigual. A elite econômica, que gozava de privilégios no governo militar (subsídios, cargos em estatais, proteção comercial, etc.), conseguiu mantê-los e ampliá-los na nova ordem constitucional.


Em paralelo, o eleitor mediano, que é pobre, passou a demandar políticas sociais que o governo militar não provia. Elas cresceram fortemente, melhoraram os indicadores sociais, mas muitas são de baixa qualidade e favorecem a classe média.


Criou-se um Estado que atende a todos, dos ricos aos pobres. O custo fiscal se multiplicou, financiado inicialmente por inflação, depois por aumento da carga tributária e aumento da dívida.

Por um lado, esse modelo ajudou a consolidar a democracia. O Estado provedor amplo mitigava o conflito distributivo, todos se sentiam atendidos.

Por outro, o modelo inibe o crescimento: carga tributária crescente, corte de investimento em infraestrutura, economia fechada, má alocação de capital pela distribuição política de subsídios, pressão inflacionária e juros altos.

Funcionou por um tempo. Principalmente enquanto a expansão da China puxou nossas exportações e o custo tributário e da dívida ainda eram baixos.


Porém, com pouco crescimento e ônus fiscal crescente, o Estado deixou de ser capaz de atender a todas as demandas. O baixo crescimento cria ressentimento em quem não consegue ascender socialmente ou acha que está pagando mais do que recebe. Aumenta a tensão política, e o pacto que sustenta a democracia se fragiliza.


Havia uma possibilidade de dar certo. Se o gasto social tivesse criado uma nova classe média instruída, segura de que não voltaria à pobreza, capaz de concorrer no mercado de trabalho com os filhos da elite, teríamos aumentado a produtividade do trabalho e o estoque de talento criativo. Diminuiria a dependência de assistência social, e gradativamente surgiria um novo consenso em favor de mais crescimento. A classe média majoritária pressionaria contra a proteção e subsídio aos ricos. A produtividade aumentaria e a desigualdade continuaria a cair.


Porém, as políticas sociais foram aumentando de custo e perdendo eficácia. Os privilégios e os subsídios cresceram. O aumento do gasto em educação não se traduziu em melhoria do ensino. Um eleitorado dependente de assistência social passou a ser conveniente, assim como os financiamentos de campanha em troca de benesses a empresas.


A desigualdade parou de cair, e ainda estamos entre os mais desiguais do mundo. A despeito da multiplicação de verbas sociais, ainda temos quase 10 milhões de pessoas na pobreza extrema. O modelo emperrou antes de criar nova dinâmica social e econômica.


Novos fatos agravaram o conflito social: polarização política internacional catalisada pelas redes sociais, crescimento do crime organizado, a Covid com seus custos e traumas.


As redes de influência levaram à corrupção generalizada, contaminando até o principal garantidor da estabilidade democrática —o STF—, que agora opera sob a lógica da proteção de grupos e de forma partidária.


Não será fácil "salvar a democracia".

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Washington Post

 https://x.com/mauad_joao/status/2115866323909513503?a=iucEqJSirE488cq0NBw&s=19


"Depois do forte editorial do WSJ, agora foi a vez do The *Washington Post* estampar em suas páginas um editorial crítico ao sistema judiciário tupiniquim. Como se vê, o mundo civilizado parece cada vez mais horrorizado com o que vem acontecendo aqui...


Leiam alguns trechos 👇


" *Quando os juizes se tornam promotores* 


"Perder uma eleição não deveria levar candidatos a fugir de seus países. Mas foi o que aconteceu com Flávio Bolsonaro, que chegou a Miami na quarta-feira, três dias após sua derrota no segundo turno da eleição presidencial brasileira, por temer uma prisão iminente. Aliados dizem que ele não acredita que teria um tratamento justo na Justiça de seu país. Isso depõe contra a segunda maior democracia do Hemisfério Ocidental, mesmo que a investigação criminal contra ele venha a se mostrar justificada. 


Bolsonaro fugiu para os Estados Unidos depois que o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes ordenou que ele entregasse seus passaportes. No ano passado, o mesmo ministro condenou seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, a 27 anos de prisão por tramar um golpe após perder a eleição de 2022. O filho é investigado por suposta lavagem de dinheiro e sonegação fiscal. Ele nega irregularidades.  


As alegações de perseguição política feitas por Bolsonaro ganham outro peso por causa dos poderes extraordinários que o Judiciário brasileiro acumulou nos últimos anos. Juízes frequentemente atuam como investigadores, acusadores e julgadores ao mesmo tempo. Moraes usou investigações sobre "desinformação" e supostos ataques à democracia para exercer um controle considerável. O Supremo abriu seu próprio inquérito sobre "fake news" em 2019, e Moraes usou essa investigação ao longo dos sete anos seguintes para ordenar buscas e prisões, congelar contas e remover pessoas das redes sociais. 


Em 2024, Moraes mostrou até onde estava disposto a ir. Ele ordenou a suspensão do X, a rede social, em todo o Brasil e determinou que Apple e Google dificultassem o acesso dos usuários a softwares capazes de contornar o bloqueio. Embora tenha recuado nessa parte da ordem, manteve uma multa de R$ 50 mil (cerca de US$ 9 mil) por dia para quem usasse uma rede privada virtual (VPN) para acessar o X... Esse ataque flagrante à liberdade de expressão colocou o Brasil numa galeria de párias que inclui China, Irã e Turcomenistão.  


Os defensores de Moraes dizem que ele está fortalecendo as instituições brasileiras depois que elas foram atacadas em 8 de janeiro de 2023. Naquele dia, apoiadores do Bolsonaro pai invadiram o Congresso, o Palácio do Planalto e o Supremo. Mas um ataque ao Estado de Direito não dá aos juízes licença para se desprenderem dele.  Ninguém está acima da lei, nem mesmo quem tem a função de interpretá-la. Um tribunal não defende o Estado de Direito apenas por chamar suas ordens de legais. O Estado de Direito (rule of law) exige autoridade fundamentada em leis e constituições, procedimentos previsíveis, recursos efetivos, punições proporcionais e garantias para os acusados. A alternativa é o governo por meio da lei (rule by law): autoridades usando instrumentos jurídicos para exercer um poder que não está limitado por princípios jurídicos duradouros.


Talvez Bolsonaro seja culpado de crimes. Talvez não. Sua decisão de fugir, neste caso, não prova inocência, assim como a investigação não prova culpa. 


Enquanto isso, as manobras continuam em Brasília. Na terça-feira, outro ministro do Supremo mandou a polícia abrir uma investigação sobre eventuais comunicações entre a Rockbridge Network, um consórcio de doadores cofundado pelo vice-presidente JD Vance, e a campanha de Bolsonaro. A Rockbridge nega irregularidades. O PT, partido de Lula, havia apresentado uma representação ao Supremo.


Ver a mais alta corte do país abrir mais uma investigação politicamente explosiva a pedido do partido do presidente não ajuda a dar credibilidade às afirmações de independência do Judiciário.  O Brasil realizou uma eleição competitiva no domingo, e Lula venceu. Mas o PL, partido de Bolsonaro, tem as maiores bancadas nas duas casas do Congresso. Ele deveria estar se preparando para liderar a oposição, e não se instalando no sul da Flórida. Uma democracia saudável precisa de perdedores que aceitem a derrota e de um sistema de justiça em que possam fazer isso em segurança."


washingtonpost.com/opinions/2026/…


https://x.com/mauad_joao/status/2115866323909513503?a=ARF_TITk14bWGtw8YM4&s=08

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

A hora da vingança...

 "*A Hora da Vingança Política Chega ao Vencedor do Brasil*


*THE WALL STREET JOURNAL*


*Conselho Editorial*


28 de outubro de 2026


Supõe-se que os vencedores políticos sejam benevolentes com os vencidos, mas no Brasil, eles processam os perdedores. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito no domingo e, em poucos minutos, seu governo ordenou que o líder da oposição, Flávio Bolsonaro, entregasse seu passaporte.


O ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, aliado de Lula, autorizou um pedido da Polícia Federal para apreender os documentos de viagem de Bolsonaro. Na terça-feira, Bolsonaro fugiu secretamente do Brasil com sua esposa e filhas, cruzando a fronteira com a Argentina. Na quarta-feira, chegaram a Miami. Os EUA disseram ter emitido vistos para a família, uma oferta justificável de proteção política.


Bolson não foi acusado de nenhum crime. Mas ele tem bons motivos para acreditar que não conseguirá um julgamento justo se for. Lula afirmou, em um debate de campanha, que assim que Bolsonaro perdesse a imunidade parlamentar, enfrentaria todo tipo de investigação. Lula escolheu o homem e prometeu descobrir o crime.


A responsabilidade de decidir se um processo criminal contra um político federal é justificado cabe ao procurador-geral. Mas o ministro de Moraes tem o hábito de expandir sua jurisdição quando isso lhe convém politicamente.


O pai de Bolsonaro, o ex-presidente Jair Bolsonaro, foi condenado no ano passado por orquestrar uma tentativa de golpe contra Lula pelo Supremo Tribunal Federal, em uma votação tendenciosa de 4 a 1. O ministro de Moraes presidiu a sessão. O ex-advogado pessoal de Lula e um ex-ministro da Justiça, ambos nomeados por Lula, também votaram pela condenação.


O ministro Luiz Fux escreveu um voto dissidente convincente de 452 páginas, detalhando as inúmeras maneiras pelas quais Bolsonaro teve seu direito ao devido processo legal negado, incluindo a falta de jurisdição do Supremo Tribunal Federal e a falta de provas. Jair cumpre pena de 27 anos em prisão domiciliar.


Flávio Bolsonaro junta-se a inúmeros jornalistas, blogueiros e formadores de opinião dissidentes brasileiros que optaram pelo exílio em vez de arriscar a prisão nos anos que se seguiram à anulação da condenação de Lula por corrupção em 2017 pelo Supremo Tribunal Federal e ao início da censura a seus críticos.


Nos próximos quatro anos, Lula provavelmente indicará até quatro novos ministros para o Supremo Tribunal Federal, que tem 11 cadeiras. Caberá ao novo Senado brasileiro defender a integridade e a independência do Judiciário.


Países que transitam da liberdade para a autocracia seguem um caminho semelhante: um demagogo vence nas urnas, toma o controle do Judiciário e prende seus inimigos. Onde as instituições são fortes, o Estado de Direito pode sobreviver. Não está claro se o Brasil conseguirá."


wsj.com/opinion/flavio…


https://www.wsj.com/opinion/flavio-bolsonaro-flees-brazil-lula-da-silva-1f15b8c2?st=hQJLho&fbclid=Iwb21leAVQNrRjbGNrBVAzcmV4dG4DYWVtAjExAHBkb2YFc3J0YwZhcHBfaWQMMzUwNjg1NTMxNzI4AAEfdbwSotJc8OQNtaZ5oHE0nDOFB6i8xG62YFdUKrCW1SiDfpdu2eqIvLPj30o_aem_6YnVX2L1_CfauFhnxlfJvg

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Jorge Mitre



*Disputa por herança bilionária de Jorge Mitre divide família e pode pôr credores em risco*




Parte da família questiona transferência de fazendas que foram dadas em garantia a CRA e incluídas em unidade produtiva isolada em recuperação judicial da Elisa Agro; outra ala, diz que há tentativas de manipulação da Justiça para obter vantagens na partilha de bens




Cristiane Barbieri







O espólio de Jorge Mitre, que ergueu a construtora e incorporadora Mitre Realty, diversas outras empresas e um patrimônio bilionário, está no centro de uma intensa disputa familiar. Ela envolve alegações de fraudes, inquéritos policiais e travamento de ativos, que colocaram companhias ligadas ao grupo em dificuldades. Em jogo, está um patrimônio superior a R$ 1 bilhão e uma família dividida.




Os desentendimentos começaram antes mesmo da morte do patriarca, em 17 de junho de 2022, vítima de câncer. Registros do inventário mostram que Jorge Mitre, médico de formação, demonstrava incômodo com cobranças prematuras para a divisão do patrimônio.




Uma série de atos e um testamento foram feitos, mas não impediram a contestação em diferentes frentes, bem como a divisão da família. De um lado, ficaram a matriarca Maria Elisa Marcondes Mitre e seu filho e CEO da Mitre Empreendimentos e Participações, Fabrício Mitre. Na frente oposta, os outros dois filhos do casal, Julio e Juliana, ligados à área de saúde do grupo, que questionam no processo vários negócios praticados.




Procurada, a defesa dos familiares Maria Elisa e Fabrício Mitre disse lamentar a postura dos demais herdeiros e chama suas iniciativas de “tentativas de manipulação da Justiça para obter vantagens na partilha de bens”. Os advogados negam existir risco aos credores da Elisa Agro e do CRA.




Já a defesa de Julio Mitre afirma que seu cliente defende que os bens sejam partilhados de acordo com a estrutura negocial que Jorge Mitre adotou ao longo da vida, sem favorecimento de qualquer herdeiro em prejuízo dos demais. Juliana Mitre Felício disse, por meio de seus advogados, que quer proteger o patrimônio deixado por Jorge Mitre por meio da anulação de diversos negócios jurídicos celebrados de forma suspeita nos meses finais de sua vida (leia os posicionamentos completos no fim do texto).




*Disputa se dá em várias frentes de negócios*




A disputa é marcada por múltiplas acusações e processos, em algumas frentes de negócios nas quais a família atua. A rede Hospital de Olhos de São Paulo (Hosp), por exemplo, é uma delas. Em dificuldades, enfrenta endividamento pesado e estrangulamento de fluxo de caixa. Com suspeita de desvios de recursos dessa unidade de negócios, familiares dos dois blocos em disputa foram afastados da gestão e foi nomeado um interventor judicial.




A Mitre Realty, que tem capital aberto, não foi afetada pela disputa familiar.




A principal contestação, porém, pode colocar em risco credores de um Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) de R$ 293 milhões e da Elisa Agro Sustentável, a antiga Mitre Agro. Uma das maiores produtoras de feijão carioca do País, especializada em agricultura irrigada, a empresa entrou em recuperação judicial em fevereiro de 2024, com dívidas superiores a R$ 600 milhões.




No cerne desse litígio está a transferência de três fazendas que eram de Jorge e Maria Elisa, como pessoas físicas, para a MTR Agro, empresa criada para receber os bens com fins tributários e patrimoniais. Julio e Juliana Mitre entraram com um pedido de anulação dessa transferência, por entenderem que houve falsificação da assinatura e uso do certificado digital de Jorge, que se encontrava na UTI quando ela foi feita.




A veracidade da assinatura de Jorge em documentos embasa toda a disputa. Uma delas, manuscrita, foi feita em 8 de abril de 2022, em um memorando de entendimentos que reorganizava a estrutura da frente de agronegócios, com Fabrício tornando-se dono de quase 70% da operação. Outra assinatura, digital, feita em 24 de maio de 2022, quando ele estava internado e a menos de um mês de sua morte, transferiu as três fazendas à MTR Agro.




A parte da família que contesta ambas assinaturas tem um laudo do Instituto de Criminalística da Polícia Técnico-Científica de São Paulo que afirma que a assinatura física foi falsificada. Também alegam que a assinatura digital de Jorge foi feita na sede da Mitre Realty, a quilômetros de distância do hospital no qual ele estava internado.




Os outros herdeiros, porém, têm outros dois laudos de instituições privadas dizendo que a assinatura física é verdadeira. Também afirmam ser prática comum no grupo que o certificado digital fosse acessado por pessoas de confiança e que Jorge estava lúcido durante o ato.




O mérito sobre as acusações de falsificação de assinaturas ainda vai ser julgado pela Justiça. As acusações levaram à abertura de um inquérito policial, posteriormente arquivado. Isso porque não foi possível identificar ou vincular quem cometeu a eventual falsidade no caso da assinatura digital. Também pelo fato de que a disputa é de natureza patrimonial e familiar, e o Ministério Público entendeu que essa discussão deveria acontecer na esfera cível e não criminal. O MP deixa claro em sua decisão que o arquivamento penal não valida os atos nem impede o julgamento cível.




*Irmãos contestam inclusão de fazenda sem passivo na RJ*




Outra ação anulatória dos irmãos Julio e Juliana pede que a MTR Agro não seja incluída na recuperação judicial da Elisa Agro. Isso porque a empresa que detém as fazendas tinha um passivo irrisório e foi incluída na recuperação de um grupo endividado em mais de R$ 600 milhões. A contestação alega que a MTR Agro foi usada apenas como “empresa de fachada/veículo” para liquidar bens da herança.




O que tem potencial para impactar o grupo de credores — formado principalmente por bancos — é que o plano de recuperação judicial baseia-se na criação da Unidade Produtiva Isolada (UPI, avaliada em R$ 236 milhões) da Elisa Agro, que abriga exatamente essas fazendas. O objetivo é levá-la a leilão para pagar os credores. Se a Justiça declarar a nulidade da transferência, os imóveis saem do ativo da MTR Agro e retornam ao espólio.




Decisões do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) já alertaram para o risco de “dano reverso”: sem as fazendas, o plano de recuperação perde seu principal ativo, o que pode provocar a convolação da RJ em falência e deixar os credores sem o recebimento previsto. Esse foi um dos principais motivos da negação a liminares que pediam urgência na anulação da transferência das fazendas.




Há ainda denúncias de vendas de máquinas e tratores que pertenceriam ao espólio, no âmbito da recuperação judicial. Também de desvio de finalidade no uso dos recursos captados pelo CRA, que deveriam ser aplicados exclusivamente no custeio de insumos e atividades agrícolas.




A defesa de Maria Elisa e Fabrício afirma que a ação anulatória de transferência das fazendas, seja para a MTR Agro ou para a UPI, não deve ser bem-sucedida. Entre outros motivos, dizem que Maria Elisa tinha uma procuração com amplos poderes, que a permitia levar adiante a incorporação das propriedades à MTR Agro. Também diz que a parte dos irmãos na fazenda é pequena em relação à dívida total. E que a Justiça negou liminar, em primeira e segunda instâncias, que pedia urgência na anulação da transferência das fazendas por entender o dano em risco.




A negativa da liminar se deu para evitar o colapso da recuperação judicial, mas também porque a Justiça não enxergou urgência, já que os herdeiros demoraram para fazer esse pedido. A Justiça também viu necessidade de maior prazo para recolhimento de provas. Porém, o mérito da causa ainda não foi julgado.




Os herdeiros Julio e Juliana contestam as alegações da mãe e do irmão. Eles questionam o fato de a procuração de Maria Elisa não ter sido usada no negócio. Dizem, no processo, que esse documento só passou a ser invocado após a descoberta de que a assinatura digital de Jorge partiu de um IP na Mitre Realty, enquanto ele estava internado na UTI.




Argumentam ainda que, pelo fato de se tratar de uma procuração genérica de administração, o Código Civil exige poderes especiais e expressos para alienar ou conferir imóveis de grande valor em benefício próprio ou de terceiros. Também que sua participação nas fazendas foi diluída e que bens como tratores foram vendidos sem autorização do juiz do inventário. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) e a 9.ª Vara de Família de SP emitiram ordens cautelares determinando a imediata suspensão de todo e qualquer ato de alienação, arrendamento ou disposição patrimonial desses ativos sem o aval do juiz do inventário.




Jorge Mitre não era apenas dono das terras, mas figurava como fiador e avalista solidário da quase totalidade das Cédulas de Crédito Bancário e do CRA do Grupo Elisa Agro. Caso a ação anulatória retire as fazendas da MTR e invalide o plano de recuperação judicial, os credores fiduciários e bancos poderiam tentar executar diretamente o patrimônio geral do espólio.




*Leia abaixo o posicionamento completo das defesas:*




*Maria Elisa e Fabrício Mitre:*




“A defesa de Fabrício Mitre e Maria Elisa Mitre lamenta a postura dos herdeiros Juliana e Julio Mitre de tentar manipular a Justiça e os órgãos de persecução penal reiteradamente desde o falecimento do pai, o empresário e médico Jorge Mitre, há mais de quatro anos. Na tentativa de obter vantagens na partilha dos bens da família, os irmãos têm provocado sucessivas ações nas mais diversas esferas jurídicas (varas de família, criminal e cível) com narrativas mentirosas sobre desvio de patrimônio e falsificação de assinatura — algo jamais comprovado. Tanto que todas as sentenças em todas as esferas e instâncias até hoje confirmaram a lisura e validade dos atos praticados por Jorge Mitre em vida, bem como a validade de seu testamento.




A decisão de Jorge e Elisa de integralizar três imóveis rurais, dos quais eram os únicos donos, na empresa MTR Agro fez parte de um planejamento sucessório e tributário, seguindo as melhores práticas de mercado. A Justiça, inclusive, já reconheceu que Jorge gozava de suas plenas faculdades mentais no momento em que a operação foi realizada, tendo negado o pedido dos herdeiros Julio e Juliana para anulação do ato.




Importante ressaltar que, mesmo antes de serem integralizados sob a MTR, tais imóveis rurais já haviam sido disponibilizados como garantia, por Jorge e Elisa na pessoa física, aos credores dos CRAs e também da Elisa Agro há décadas. Portanto, a integralização não afeta em nada a situação dos credores, que já tinham garantia precedente.




Em relação às acusações de desvio patrimonial e falsificação da assinatura de Jorge, o Ministério Público já investigou e arquivou o inquérito, bem como tentativas de reabertura subsequentes, uma vez que não foi identificado qualquer ato ilícito praticado por Fabrício ou Maria Elisa. O mesmo, porém, não foi constatado em relação à Juliana, que chegou a ser indiciada pela Polícia Civil de São Paulo por extorsão e desvio de recursos da conta bancária do pai. Também fez um acordo penal com pagamento de multa por fraude processual e foi excluída judicialmente de duas sociedades de empresas da área médica da família, por faltas e desvios considerados graves.




Importante esclarecer que Julio e Juliana jamais participaram da gestão de qualquer empresa do Grupo Mitre e desconhecem profundamente as operações. Ressalte-se ainda que a disputa em torno da herança não tem nenhum impacto na Mitre Realty, companhia da qual Fabrício Mitre é controlador e CEO e completamente segregada de tais controvérsias, restritas aos bens de Jorge Mitre."




*Julio Mitre:*




“Julio defende que os bens que devem ser partilhados no inventário do Dr. Jorge Mitre sejam aqueles condizentes com a estrutura negocial que ele fez ao longo da vida, que não se harmoniza com determinadas medidas adotadas nos negócios no período próximo que antecedeu seu falecimento, alterando substancialmente a composição do patrimônio a ser partilhado − o que foi objeto de impugnação e laudo do Instituto de Criminalística da Polícia Científica de SP, no qual se constatou que a assinatura atribuída ao Dr. Jorge Mitre no Memorando de Entendimentos (MoU) não foi realizada por ele.




Busca-se, assim, preservar o legado de vida deixado pelo Dr. Jorge Mitre e evitar que qualquer dos herdeiros seja favorecido em prejuízo dos demais.




Julio também permanece aberto a tratativas de acordo que observem essas premissas."




*Juliana Mitre Felício:*




“As ações propostas por Juliana Mitre Felício buscam proteger o patrimônio deixado por Jorge Mitre diante da confirmação de que diversos negócios jurídicos — que versam sobre alterações de contratos sociais de empresas, transferências de ativos e prestação de aval para emissão de CRA — foram celebrados de forma suspeita, nos meses finais de sua vida, por terceiros não identificados, através de assinaturas digitais realizadas com a utilização de seu token pessoal.




Juliana busca a declaração de nulidade desses atos controvertidos, uma vez que há comprovação de que as assinaturas digitais de Jorge foram efetuadas com o seu token pessoal por terceiros, os quais não foram identificados até a presente data, e sem que houvesse prova de autorização específica para tais assinaturas.




Em síntese, a principal tese defensiva dos principais beneficiados pelos atos suspeitos (Fabrício Mitre e Maria Elisa) resume-se às alegações de que ‘a utilização do token pessoal por terceiros era comum’, ‘Jorge tinha a intenção de praticar os atos questionados’ e, em alguns casos, ‘houve a sua autorização verbal’.




Todavia, as alegações e os elementos probatórios produzidos não conseguiram demonstrar quem teria utilizado o token pessoal de Jorge e sequer que ele tenha tomado ciência das minutas prévias ou finais que versavam sobre os atos impugnados.




Ademais, embora Fabrício e Maria Elisa aleguem que um Memorando de Entendimentos — apresentado pelo primeiro no bojo de uma investigação criminal e que teria sido celebrado em abril de 2022 — confirma a intenção de Jorge para a prática de alguns atos impugnados, a perícia oficial realizada pelo órgão técnico da Polícia Civil de São Paulo concluiu que a assinatura física presente em tal documento e atribuída a Jorge Mitre é falsa, pois não teria sido realizada por ele.




A relevância do caso se acentua diante da suspensão da execução contra o Grupo Elisa Agro em decorrência de sua recuperação judicial. Existem tentativas de direcionar ao espólio a cobrança de débitos que ultrapassam R$ 500 milhões, sob o argumento de uma prestação de fiança firmada em documento digital. Contudo, laudos apontam que tal validação não foi realizada por Jorge Mitre, mas sim por um terceiro não identificado que fez uso de seu token pessoal.




Juliana reconhece a importância dos interesses dos credores de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e do processo de recuperação judicial. Ela esclarece que suas medidas jurídicas não visam impedir o pagamento de dívidas legítimas, mas garantir que o patrimônio de seu pai responda apenas por obrigações efetivamente assumidas por ele e que possam ser legalmente exigidas do espólio.




Vale registrar que a atuação de Juliana não se resume à qualidade de herdeira de Jorge Mitre. Casada e mãe de três filhos menores, ela tem uma sólida trajetória profissional: é empresária e atua como médica há mais de 30 anos, com destaque para sua liderança no Grupo Hosp, instituição da qual é sócia e onde atuou como Responsável Técnica e coadministradora por longo período.




Até que realizasse a contestação de atos supostamente fraudulentos que beneficiavam Maria Elisa e Fabrício Mitre, Juliana jamais havia respondido a qualquer processo cível ou criminal que pudesse desabonar sua integridade pessoal ou profissional.




Não obstante, após tais impugnações, Juliana passou a ser alvo de um severo sufocamento financeiro, violência processual e diversas representações criminais temerárias, além de supostos atos de monitoramento clandestino e violência doméstica.




Por fim, Juliana esclarece que jamais sofreu qualquer condenação criminal e reitera a sua confiança na Justiça, desejando que as controvérsias sejam solucionadas com brevidade, de modo a preservar não apenas seus direitos sucessórios, mas também os direitos legítimos de terceiros afetados pelo imbróglio sob investigação."




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terça-feira, 27 de outubro de 2026

Menos interesse, mais Brasil

 MENOS INTERESSES, MAIS BRASIL 

Carlos Alberto Di Franco 

No Estadão, em 26/10/2026


A eleição terminou. A responsabilidade permanece. Que os vencedores tenham grandeza, que os derrotados tenham espírito público e que todos saibamos cobrar resultados


Encerrada a eleição presidencial, o Brasil precisa reencontrar o Brasil. As urnas definiram quem governará. Não deram a ninguém a propriedade do País nem autorizaram a perpetuação dos palanques. A vitória impõe responsabilidades. A derrota exige maturidade. Acima das duas está uma nação que precisa trabalhar, crescer e oferecer um horizonte aos seus filhos.


É hora de baixar a voz e elevar a qualidade da política. O cidadão não pode continuar refém de uma disputa que invade a vida cotidiana, rompe amizades e transforma divergências em hostilidade. O adversário não é um inimigo a ser eliminado. É um brasileiro com quem será necessário conviver e construir soluções.


O País não carece de recursos naturais, inteligência ou capacidade empreendedora. Carece de liderança com autoridade moral, consciência histórica e espírito público. Carece de homens e mulheres capazes de subordinar suas conveniências ao interesse nacional. Há muita gente pensando na próxima eleição. Precisamos de gente pensando na próxima geração.


A pergunta decisiva já não é quem venceu. É o que faremos com o mandato recebido e com a responsabilidade que cabe a cada um. Que Brasil queremos entregar aos jovens? Um país prisioneiro de ressentimentos ou uma sociedade que transforme suas possibilidades em oportunidades reais? A resposta virá das decisões.


O cenário mundial evidenciou o valor estratégico dos alimentos, da energia e dos minerais. O Brasil tem condições para participar desse movimento. Temos água, terras, fontes de energia, empresas, agricultura produtiva e um povo trabalhador. Mas riqueza potencial não põe comida na mesa. Precisa transformar-se em investimento, produtividade e trabalho.


Enquanto discutimos pessoas, grupos e facções, projetos se arrastam, obras encarecem e oportunidades desaparecem. A burocracia sufoca quem empreende. A insegurança jurídica afasta investimentos. A instabilidade das regras pune quem planeja. O preço dessa paralisia não é pago apenas pelas empresas. É pago, sobretudo, por quem espera um emprego e por quem depende de serviços públicos precários.


Destravar o desenvolvimento deve ser prioridade nacional. Integrar o território, modernizar portos e ferrovias, melhorar a educação e estimular a inovação são tarefas que exigem continuidade. Um projeto necessário não pode ser abandonado porque nasceu em outro governo. O dinheiro público não pertence ao governante da vez. Pertence ao contribuinte, que merece respeito.


Preservação ambiental e desenvolvimento não são coisas contraditórias. Exigem decisões responsáveis, apoiadas na ciência, na proteção das comunidades e em regras claras. Mas a defesa do ambiente tampouco pode servir de justificativa para condenar populações inteiras à pobreza. O Brasil precisa recuperar seu território. Não pode admitir que organizações não governamentais, atreladas a interesses externos, decidam o nosso futuro. Governar exige conciliar direitos, avaliar consequências e decidir.


Também é preciso desfazer uma confusão persistente: desenvolvimento não se fabrica com descontrole fiscal, favores a grupos influentes ou promessas sem financiamento. O Estado precisa gastar melhor, combater desperdícios e priorizar o que muda a vida das pessoas. Inflação, dívida e improvisação cobram sua conta. Os mais pobres costumam pagá-la primeiro.


Combater a corrupção faz parte desse compromisso. Não há corrupção aceitável quando beneficia os nossos e intolerável quando favorece os outros. O dinheiro desviado falta na escola, no hospital e na segurança. A honestidade não pode ser uma bandeira recolhida depois da posse. Precisa orientar a administração e a conduta dos Poderes.


Ao presidente eleito cabe uma obrigação especial: governar para o conjunto da sociedade. Ouvir além do próprio círculo, escolher pessoas competentes e aceitar a fiscalização são sinais de grandeza. À oposição cabe exercer o controle com firmeza, apresentar alternativas e apoiar o que servir ao País. O fracasso do governo não pode ser desejado quando significa o sofrimento dos brasileiros.


Ao Congresso, ao Judiciário, aos empresários, aos sindicatos e à imprensa cabe rever prioridades. Toda instituição deve prestar contas. Nenhum setor pode exigir sacrifícios coletivos enquanto protege seus privilégios. A reconstrução da confiança começa quando o discurso encontra correspondência no comportamento.


Pacificar exige verdade, respeito à lei e disposição para o diálogo. Exige abandonar a exploração permanente do medo e da raiva. Não significa renunciar a convicções ou suspender a crítica. Significa compreender que a divergência democrática precisa produzir caminhos, e não um estado interminável de guerra.


O Brasil é maior do que qualquer biografia, partido ou projeto de poder. Não pode continuar sendo tratado como instrumento de ambições particulares. A eleição terminou. A responsabilidade permanece. Que os vencedores tenham grandeza, que os derrotados tenham espírito público e que todos saibamos cobrar resultados. Menos vaidade, menos revanche, menos interesses pessoais. Mais trabalho, mais responsabilidade, mais Brasil.

Reflexões pós eleição

Passados alguns dias da eleição majoritária, vitória de Lula da Silva em segundo turno, uma reflexão se faz necessária. 1) Concordo que os d...