*Abertura: IPCA-15 guia apostas para cortes da Selic e exterior adota cautela antes de PPI dos EUA*
São Paulo, 27/02/2026 -
Por Luciana Xavier e Silvana Rocha*
OVERVIEW. O último pregão de fevereiro tem como destaque no exterior o PPI dos Estados Unidos. No Brasil a agenda mais robusta traz o IPCA-15 de fevereiro, que ajudará a balizar as apostas para o ciclo de afrouxamento monetário, ainda que não mude a perspectiva de corte de 50 pontos-base da Selic, para 14,50%, em março. Além disso, ficam no radar as duas reuniões trimestrais de diretores do Banco Central com economistas em São Paulo, a nova bandeira tarifária da Aneel e entrevista do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ao podcast Flow.
NO EXTERIOR. Nova York exibe cautela no mercado futuro nesta manhã, sinalizando que pode estender as perdas da véspera diante dos temores relacionados a gastos com inteligência artificial (IA). Os papéis da Netflix, no entanto, saltavam perto de 7%após dizer que não elevará mais sua oferta pela Warner Bros Discovery, abrindo caminho para a Paramount Skydance. Na Europa os sinais são mistos, mas ainda assim caminham para garantir o oitavo mês consecutivo de ganhos. Na China, o banco central começou nesta sexta-feira a tomar medidas para conter o recente avanço do yuan, recorrendo a uma estratégia antiga para reduzir o custo de apostar contra a moeda. E o Politburo do Partido Comunista da China, o mais alto órgão de tomada de decisão do país, reiterou o apoio à política pró-crescimento da economia. O petróleo subia há pouco quase 2%, após a rodada de negociações nucleares entre EUA e Irã terminar sem um acordo. A expectativa é que as conversas sejam retomadas na semana que vem.
POR AQUI. O dia é de vários condutores para os ativos locais. A cautela em NY pode frear o ímpeto do Ibovespa, que termina fevereiro com saldo positivo após vários recordes, com ganhos de 5,32% até o fechamento de ontem, aos 191 mil pontos. Balanços como da Copel e Axia também serão repercutidos (leia mais abaixo em O que Sabemos). A esperada aceleração do IPCA-15, com alta de serviços, preços livres e administrados, pode reduzir o orçamento total de queda da Selic, mas os ajustes podem ser limitados com o primeiro corte, no mês que vem, já bem precificado. O recuo dos rendimentos dos Treasuries e dólar mais fraco no exterior podem tirar pressão da ponta longa da curva. O dólar, no entanto, pode ficar volátil com a disputa pela formação da Ptax do mês. A moeda americana acumula queda de 2,07% no mês. O mercado pode reagir também ao novo levantamento da Paraná Pesquisas, mostrando que o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) estão empatados em cenários de primeiro e segundo turno na corrida presidencial.
NA POLÍTICA. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), disse a aliados que será candidato ao governo de São Paulo porque nunca poderia negar um pedido do presidente Lula. Mais cedo ontem, o ministro, no entanto, negou ter definido a candidatura. O partido Novo decidiu que apoiará a campanha de reeleição do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e não lançará um candidato próprio. O governo tem uma lista mostrando que 55 apoiadores da candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Palácio do Planalto pagaram para impulsionar publicações contra o presidente Lula nas redes sociais, após o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça autorizou a quebra dos sigilos bancários, fiscais e telemáticos de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. O Superior Tribunal Militar (STM) notificou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para que apresente sua defesa no processo que pode resultar na perda de sua patente até o dia 5 de março.
AGENDA.
IPCA-15 E RESULTADO FISCAL NO BRASIL - A agenda desta sexta-feira, 27, tem como destaque a divulgação do IPCA-15 de fevereiro (9h) e do resultado primário do setor público de janeiro (8h30). A Aneel divulga bandeira tarifária de março. O Banco Central realiza sua reunião trimestral com economistas em São Paulo, às 11h e 14 horas, e o Instituto Paraná Pesquisas divulga enquete eleitoral. O vice-presidente Geraldo Alckmin e presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, apresentam novos investimentos na Nova Indústria Brasil (NIB) em entrevista coletiva (15h). O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, participa do podcast Flow (19h).
PPI DOS EUA É DESTAQUE NO EXTERIOR - No exterior, o índice de preços ao produtor (PPI, na sigla em inglês) dos Estados Unidos será publicado às 10h30 e depois saem o PMI pelo ISM Chicago (11h45) e os investimentos em construção (12h). O Presidente dos EUA, Donald Trump discursa no Porto de Corpus Christi (17h). Na Alemanha será divulgado o CPI de fevereiro (10h).
O QUE SABEMOS.
AXIA - A Axia Energia encerrou o quarto trimestre de 2025 com lucro líquido ajustado de R$ 1,25 bilhão, alta anual de 141,4%, mas com piora operacional: o Ebitda caiu 9,9% e a receita recuou 11,3%. Em 2025, lucro e Ebitda diminuíram 45,8% e 22,8%, respectivamente, enquanto a dívida líquida subiu para R$ 46,5 bilhões, elevando a alavancagem a 2,4x. A companhia investiu R$ 3,87 bilhões no período e R$ 9,61 bilhões no ano, com foco em transmissão, reforçando a expansão da rede e sinalizando aumento do volume de energia vendida em 2026 e 2027.
EM TESE: O ADR da empresa caía 1,47% no pré-mercado em Nova York mais cedo, indicando possível queda das ações na B3. Lucro e Ebitda ficaram cerca de 38% e 39% abaixo do consenso, enquanto a receita veio em linha, reforçando a leitura de frustração operacional no curto prazo. Por outro lado, o aumento dos investimentos ajuda a amenizar a avaliação negativa, ao indicar que a pressão sobre resultados e a alta da alavancagem estão ligadas a um ciclo de expansão, sobretudo em transmissão, de receitas mais previsíveis. A sinalização de maior volume de energia vendida em 2026 e 2027 reforça a perspectiva de crescimento futuro. Ainda assim, a reação inicial é adversa, já que os aportes elevam a dívida antes do retorno, com leitura mais favorável no médio prazo caso os projetos se convertam em geração de caixa e melhora operacional.
COPEL - A companhia do setor elétrico do Paraná registrou lucro líquido de R$ 1,06 bilhão no 4T25, alta de 85,4% em um ano, beneficiado também por menor carga tributária. No resultado recorrente, o lucro avançou 29,6%. O Ebitda cresceu 42,3% (16,1% recorrente) e a receita líquida subiu 18,4%, refletindo melhora operacional no período. A Copel avalia que a migração para o Novo Mercado da B3 aumentou a entrada de investidores estrangeiros e impulsionou o desempenho das ações, favorecida pela unificação das classes acionárias e melhora da governança. Em 2026, o papel sobe mais de 20%, superando o Índice de Energia Elétrica, que avança 8,8% no período.
EM TESE: As ações podem subir na B3, conforme sugerem os seus ADRs com alta de cerca de 1% no pré-mercado em Nova York mais cedo. A Copel apresentou resultados do quarto trimestre de 2025 acima das estimativas, com forte crescimento de lucro, Ebitda e receita, reforçando a melhora operacional. A migração para o Novo Mercado aumentou o interesse de investidores estrangeiros e sustentou a valorização das ações em 2026. Para a empresa, a revisão tarifária e o leilão de capacidade podem ampliar a remuneração dos investimentos e a geração futura de caixa. A leitura tende a ser positiva, com viés favorável para as ações, embora eventos regulatórios sigam como principal fator de risco.
AÉREAS - O CMN aprovou o marco regulatório que destrava até R$ 4 bilhões em financiamentos do Fundo Nacional de Aviação Civil (Fnac) para companhias aéreas, com juros subsidiados entre 6,5% e 7,5% ao ano e regras mais flexíveis. Os recursos poderão financiar compra e manutenção de aeronaves, combustível sustentável (SAF) e investimentos operacionais, reduzindo entraves que vinham atrasando o acesso ao crédito.
EM TESE: A medida amplia a oferta de crédito subsidiado para o setor aéreo, altamente endividado e sensível ao dólar e ao custo do combustível, podendo favorecer melhora gradual da liquidez, alongamento de passivos e financiamento de investimentos. O impacto, porém, não é imediato, pois depende da adesão das companhias, da estruturação das operações, provavelmente via BNDES e agentes financeiros credenciados, e do ritmo de contratação. Desse modo, o efeito sobre as ações pode ser mais limitado no curto prazo, com eventual reprecificação condicionada ao uso efetivo dos recursos e à melhora dos indicadores financeiros.
OVERNIGHT.
TRANSPORTE GRATUITO - O Ministério da Fazenda afirmou que o Marco Legal do Transporte Público não prevê Tarifa Zero, mas diretrizes para melhorar o transporte coletivo, com foco em qualidade, transição energética e redução de emissões. A proposta, já aprovada no Senado e em análise na Câmara, destina recursos para custear gratuidades e tarifas reduzidas. A pasta apoia o projeto com ajustes, enquanto a Tarifa Zero segue em estudo, com atenção aos impactos fiscais e estímulos à mobilidade elétrica e combustíveis renováveis.
VALE - A mineradora aprovou a eleição de Marcio Antonio Chiumiento, presidente da Previ, para o conselho de administração, além de aumento de capital de R$ 500 milhões por capitalização de reservas, sem emissão de novas ações. O conselho de administração da companhia também aprovou a incorporação das subsidiárias Baovale Mineração e CDA Logística, em movimento de simplificação societária, sujeito à aprovação em assembleia entre março e abril de 2026.
MINA BORBOREMA - A Aura Minerals firmou acordo com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes para realocar trecho rodoviário que atravessa a Mina Borborema, no Rio Grande do Norte. A medida permite converter recursos em reservas prováveis e elevou em 82% a base de reservas, para cerca de 1,5 milhão de onças de ouro, aumentando o potencial de retorno do projeto.
CONSOLIDAÇÃO - O Bradesco anunciou a criação da Bradsaúde, que reunirá todos os negócios de saúde do grupo sob a Odontoprev, que passará a atuar como consolidora do segmento e poderá mudar de nome. A nova companhia será listada no Novo Mercado da B3, com receita de R$ 52 bilhões, lucro de R$ 3,6 bilhões e ROE de 24% (dados de 2025). A reorganização busca ganho de eficiência e ampliação da oferta integrada em saúde e odontologia. Nos termos da reorganização societária que cria a Bradsaúde, o Bradesco passará a ter participação de 91,35% das ações ordinárias da Odontoprev após a conclusão da operação, segundo fato relevante divulgado hoje. Já os demais atuais acionistas terão 8,65% do capital total e votante.
CAIXA SEGURIDADE - A empresa do ramo de seguros e seguridade da Caixa Econômica Federal registrou lucro líquido gerencial de R$ 1,12 bilhão no 4T25, alta de 6,4% em um ano, mas leve queda de 1,3% ante o trimestre anterior. Em 2025, o lucro somou R$ 4,3 bilhões, avanço de 14,9%. As receitas operacionais cresceram 4,3%, impulsionadas pelo maior resultado das empresas investidas (+14,1%), enquanto as receitas com comissionamento recuaram 6,9%.
LOCALIZA - A Localiza registrou lucro líquido de R$ 939 milhões no quarto trimestre de 2025, alta anual de 12,1%. O Ebitda avançou 12,1%, para R$ 3,7 bilhões, e a receita líquida cresceu 11,7%, impulsionada pelos segmentos de aluguel e seminovos. Em 2025, o lucro contábil somou R$ 1,8 bilhão, afetado por efeitos fiscais, enquanto o Ebitda anual avançou 15,4%, refletindo melhora operacional.
B3 - A Brasil, Bolsa, Balcão teve lucro líquido de R$ 907,8 milhões no 4º trimestre de 2025, queda de 23% em um ano, impactado por efeito contábil ligado a impostos diferidos. O lucro recorrente avançou, assim como receita e Ebitda, com margem de 69%. Em 2025, o lucro recorrente somou R$ 5,3 bilhões (+10%). A companhia distribuiu R$ 3,6 bilhões no trimestre e R$ 6,3 bilhões no ano aos acionistas.
RAIZEN - A Cosan afirmou que ainda não há aprovações nem decisões vinculantes sobre eventual injeção de capital na Raízen. As discussões seguem com a Shell e o BTG Pactual para reforçar a estrutura de capital. A petroleira busca novos parceiros - como a Mitsui, que não avançou - para evitar assumir controle superior a 50%.
QUALICORP - A Qualicorp teve prejuízo líquido de R$ 10,5 milhões no 4º trimestre de 2025, revertendo lucro de um ano antes. No ano, o lucro ajustado caiu 51%. O Ebitda ajustado cresceu no trimestre, mas recuou em 2025. A receita diminuiu, o resultado financeiro seguiu negativo e a base de clientes encolheu, enquanto a dívida líquida caiu 12%, com alavancagem em 1,45 vez.
COREWEAVE - A CoreWeave ampliou o prejuízo no quarto trimestre de 2025, com perda de US$ 0,89 por ação, apesar da receita crescer 110%, a US$ 1,57 bilhão. As despesas operacionais mais que dobraram, pressionando os resultados. Parceira da Nvidia, a empresa viu as ações caírem cerca de 11% no after hours, mesmo com forte expansão anual de receita.
FRANÇA - O Produto Interno Bruto (PIB) da França cresceu 0,2% no quarto trimestre de 2025 ante os três meses anteriores, segundo revisão divulgada pelo instituto de estatísticas do país (Insee). O resultado confirmou a estimativa preliminar e veio em linha com a projeção de analistas consultados pela FactSet.
E NOS MERCADOS.
FUTUROS DE NY - Os índices futuros das bolsas de Nova York operam em baixa, sinalizando que Wall Street pode estender perdas de ontem, quando foi pressionada por temores relacionados a gastos com inteligência artificial (IA). Nos negócios do after hours, a Netflix saltou 8,5% após dizer que não elevará mais sua oferta pela Warner Bros. Discovery, abrindo o caminho para que a Paramount Skydance compre a empresa. Às 7h10 (de Brasília), no mercado futuro, o Dow Jones caía 0,51%, o S&P 500 recuava 0,35% e o Nasdaq perdia 0,30%.
BOLSAS DA EUROPA - As bolsas europeias operam com sinais mistos, mas seguem rumo ao oitavo mês seguido de alta, apoiadas principalmente por mineradoras. Resultados fortes de HSBC e Nestlé sustentam o mercado, apesar de temores sobre IA e tarifas do governo Donald Trump. Investidores aguardam dados de inflação da Alemanha e dos EUA, enquanto o PIB da França cresceu 0,2% no 4º tri de 2025. Às 7h10, a Bolsa de Londres subia 0,45%, a de Paris caía 0,11% e a de Frankfurt avançava 0,22%.
TREASURIES - Os rendimentos dos Treasuries operam em baixa, estendendo perdas de ontem, enquanto investidores aguardam dados dos EUA, incluindo números da inflação ao produtor (PPI). Às 7h13, o juro da T-note de 2 anos caía a 3,403% (de 3,438% no fim da tarde de ontem), o da T-note de 10 anos recuava a 3,985% (de 4,010%) e o do T-Bond de 30 anos diminuía a 4,646% (de 4,664%).
MOEDAS - O dólar opera perto da estabilidade ante outras moedas de economias desenvolvidas em meio a expectativas por dados de inflação ao consumidor (CPI) da Alemanha e ao produtor (PPI) nos Estados Unidos. Na China, o banco central (PBoC) tomou medidas para conter o recente ímpeto de valorização do yuan. O BC chinês anunciou que diminuirá a taxa de reserva de risco para instituições financeiras que realizam operações de câmbio a termo de 20% para zero, uma medida que efetivamente torna a compra do dólar mais barata. Às 7h13, o euro caía a US$ 1,1797 (de US$ 1,1804), a libra cedia a US$ 1,3479 (de US$ 1,3491) e o dólar recuava a 156,01 ienes (de 156,09 ienes). Já o índice DXY do dólar - que acompanha as flutuações da moeda americana em relação a outras seis divisas relevantes - tinha leve baixa de 0,02%, a 97,770 pontos.
PETRÓLEO - Os contratos futuros do petróleo sobem, após terminar sem acordo a rodada de negociações nucleares entre EUA e Irã, em Genebra, ontem. A expectativa é que as conversas sejam retomadas na semana que vem. Às 7h15, o barril do petróleo WTI para abril subia 1,84% na Nymex, a US$ 66,42, enquanto o do Brent para maio avançava 1,74% na ICE, a US$ 72,08.
BOLSAS DA ÁSIA - As bolsas asiáticas fecharam majoritariamente em alta nesta sexta-feira, apesar da queda de quase 5,5% da Nvidia em Nova York na véspera. Segundo o Deutsche Bank, a falta de detalhamento em teleconferência sobre as perspectivas de receita futura pesou sobre a ação. Em Tóquio, o Nikkei subiu 0,16%, renovando recorde, enquanto o Hang Seng, em Hong Kong, avançou 0,95%. Na China continental, o Xangai Composto ganhou 0,39% e o Shenzhen Composto, 0,30%, apoiados por sinalização pró-crescimento do governo chinês. Na contramão, o Kospi, em Seul, caiu 1% por realização de lucros após forte rali. Na Austrália, o S&P/ASX 200, de Sydney, avançou 0,25%.