domingo, 4 de outubro de 2026

Gramsci

 Antônio Gramsci e o marxismo


1 Um leitor atento manifestou-me o seu interesse num artigo meu sobre A. Gramsci, a publicar aqui em breve.


Nada me deixaria mais satisfeito. Não sou marxista, como todos os leitores sabem, mas é sempre gratificante escrever umas palavras sobre aquele que foi o teórico mais interessante e vigoroso do marxismo, muito, mas muito mais lúcido do que Lenine e Trotsky e então com o «Zé Serralheiro» (alcunha que os neo-realeiros coimbrões davam amorosamente a Estaline) e com o Mao nem há comparação.


Não vou alinhavar umas banalidades sobre a figura de Gramsci. Merece-me respeito demais.


Gramsci, que foi sempre dirigente do partido comunista italiano, escreveu sobre a perspectiva de uma revolução socialista nos países capitalistas europeus. Percebeu desde muito cedo que a teoria tinha de ser adaptada a uma estratégia «frentista», erradicando a estafada tese da «classe contra classe» que dominou o Komintern até tarde e que deu maus resultados, aspecto em que Gramsci se separou de alguns dos seus correligionários como Bordiga, que apostava num feroz anti-parlamentarismo.


Para ele, a estratégia frentista decorria não de uma simples questão estratégica eleitoralista e moderada, cujas vantagens o Komintern acabou por compreender e adoptar. Não: o frentismo era para Gramsci uma questão teórica central. Não era uma questão de mais uns votos. E porquê? Porque compreendeu logo que a luta política nas sociedades capitalistas europeias mais ricas do seu tempo não podia limitar-se ao levantamento da classe operária sobre as ruínas do capital nem explicada apenas pela radical divisão de classes entre capitalistas e trabalhadores, titulares de interesses radicalmente opostos. Compreendeu que para derrubar o capitalismo seria necessário que o proletariado e seus aliados, sempre sob a direcção do partido comunista, teria de fornecer ao todo social um caldo cultural e ideológico credível e consistente, sem dúvida que influenciado pela leitura de Maquiavel, que tanto comentou, e que lhe lembrava que o poder nunca vive só da força e que carece do consentimento.


Mas este novo projecto ideológico só medraria se substituísse os valores dominantes na sociedade burguesa do seu tempo, bem enraizados e servidos por uma multidão de «aparelhos ideológicos» (termo mais tarde cunhado por Althusser, seu confesso admirador), desde a escola, ao exército, à igreja, à imprensa, à família tradicional, à comunicação social, entre outros. A este difuso poder cultural chamou Gramsci «hegemonia».


A hegemonia garante o amplo e diversificado poder da sociedade burguesa. O poder seria não apenas o estritamente político resultante do domínio do aparelho do estado civil e militar, mas seria também o cultural, moral e ideológico. Também este fazia parte dos fundamentos primeiros da sociedade civil burguesa e não apenas a propriedade privada dos meios de produção. A hegemonia vivia de dar ao particular da cultura burguesa uma validade universal. A figura da retórica clássica que lhe corresponde é a sinédoque (tomar a parte pelo todo). Para contrabalançar a hegemonia burguesa seria necessário assentar a hegemonia revolucionária, o que vai colocar o acento tónico na luta pela cultura.


Claro está que tal poder (dito aqui abreviadamente cultural) não se toma com ocupações de fábricas e de latifúndios, com a autogestão, nem com milícias armadas, apesar de Gramsci nunca ter desdenhado a importância política destas iniciativas no clima de pré-guerra civil que se vivia naquela época em Itália, conhecida pelo Biennio Rosso (1919/20). Não. O poder cultural toma-se fornecendo alternativas credíveis, o que demora o seu tempo. A guerra que se segue não é de confronto, é «de posição», como uma guerra de trincheiras, termo também gramsciano. Ao fazer do objecto da acção revolucionária a luta pela hegemonia cultural (em sentido amplo) Gramsci valorizou a «prática» (transformadora da realidade cultural) como critério da acção política. Levou a prática revolucionária para fora do sindicato e do comité. O seu objectivo é demonstrar que as ideias que alimentam a sociedade burguesa em que vivemos não são abstracções naturais nem são verdades eternas mas apenas o invólucro em que nos vendem as representações mentais que alimentam a hegemonia de uma classe definida pela sua posição no circuito da produção.


2 A atenção dada por Gramsci à superestrutura cultural (direito, religião, arte, ensino, educação, civismo, etc…) não condiz com a posição de Marx. Este nunca deu atenção nenhuma à necessidade de uma guerra cultural. Fiel às sua premissas, Marx entendeu sempre que uma vez estabelecido o poder comunista e alteradas as relações de propriedade no quadro da ditadura do proletariado, a substituição da cultura por outra viria como que naturalmente. Nada mais coerente: se sempre afirmou, ao contrário de Hegel, que a consciência era uma simples consequência das condições materiais da produção, como bom discípulo que era da materialista antropologia feuerbachiana, uma vez alteradas aquelas, a consciência seguir-lhes-ia os passos. Nunca lhe passou pela cabeça que no coração da culta Europa a luta política teria de começar pela esfera da cultura.


3 Mas para lutar pela hegemonia o partido comunista não pode actuar sozinho. Tem de fazer alianças estratégicas com os sectores da burguesia mais impressionáveis (pequena burguesia liberal, católicos progressistas, funcionários, quadros médios e tutti quanti), e de mobilizar, tal como a burguesia faz, «intelectuais orgânicos» das classes hostis ao capital que passam a ser o cimento dos novos valores culturais (Gramsci nunca escondeu a sua admiração pelos padres católicos, designadamente os jesuítas, na reproducão do caldo ideológico burguês). As alianças são indispensáveis na luta contra a hegemonia burguesa, tanto mais que, como o próprio lembra, a própria burguesia mais instalada faz o mesmo: serve-se sempre da sua influência hegemónica para arrecadar todos os apoios úteis.


Esta estratégia frentista foi mais tarde adoptada na teorização de N. Poulantzas e de E. Laclau e C. Mouffe, que se ufanam da mais completa teoria das complexas relações entras as classes que sustentam o estado capitalista. Tais relações dizem-nos que a estrutura da sociedade burguesa é demasiado complexa para depender apenas dos interesses do capital e exibe uma autonomia relativa dos factores culturais que impede a sua redução aos meros interesses daquele, chegando ao ponto de nem sempre os secundar.


4 Mas despontava um problema. Ao focalizar a luta nos aspectos culturais e políticos, Gramsci esqueceu, segundo alguns dos ses detractores, a velha tese dogmática da dependência das estruturas políticas e culturais (ditas superestruturas) das estruturas económicas da sociedade, em que Marx tanto insistiu, e que dá predominância à luta pelo domínio das primeiras, posto que as superestruturas como que cairiam depois por si. Neste aspecto, dizem aqueles, os leninistas e o maoísmo foram mais coerentes porque fixaram primeiro o poder político e económico do proletariado industrial e agrícola e só depois se preocuparam com a destruição da hegemonia cultural burguesa.


Percebendo claramente a questão e os perigos dogmáticos da sua ousada construção, Gramsci resolveu o dilema através da noção de «bloco histórico». Esta noção diz-nos que no seio da sociedade concreta em que vivemos a infraestrutura económica e a superestrutura cultural vivem em comunhão e não separadamente. Formam um bloco. Convivendo dentro de uma estrutura unitária, a economia nem sempre determina só por si as ideias e as políticas. Estas têm vida própria e um papel activo na sustentação do poder. Mas Gramsci nunca aceitou, em puridade, que a cultura se alimentasse de si própria, como se fosse uma ideia, esquecendo a sua função que é servir de cimento aglutinador do poder do grande capital, estrategicamente unido ou não aos seus sequazes.


5 Concluindo, o expresso reconhecimento às superestruturas (na linguagem marxista) de uma ontologia própria e distinta deu amargos de boca aos marxistas mais puristas. É que é a estratégia para a tomada do poder que está em causa. Lenine nunca a teria aceite. Na verdade, Gramsci fez uma ruptura epistemológica no marxismo. Acabou com a sobredeterminação da esfera cultural e moral pela base económica. Foi este o contributo imorredouro de Gramsci. A questão de saber se isto o levou ou não para fora do marxismo será abordada no fim.


6 Está hoje em moda repescar nos textos de Engels, vindos a lume na sua maioria já depois da morte do «mouro» (alcunha amigável de Marx), a admissibilidade da autonomia relativa da superestrutura relativamente à base económica, tão vulgarizada pela «teoria crítica» da razão capitalista difundida pela «Escola de Frankfurt» com M. Horkheimer, T. Adormo e H. Marcuse, entre outros, no seu altar, com largas consequências nos campus norte-americanos. O objectivo é permitir uma leitura não economicista e obreirista de Marx,


L. Althusser propõe mesmo uma distinção entre a esfera «dominante em primeira instância» (que pode ser a cultural) e a «determinante em última instância», que seria sempre a económica, e os seus epígonos não andam nada longe disto. A linguagem é que por vezes difere.


Pessoalmente esta habilidade dialéctica nunca me impressionou. Quem pela primeira vez me chamou a atenção para ela foi um colega meu, infelizmente já falecido, no café Avenida de Coimbra em 1973. Dormi mal nessa noite a tentar digeri-la e li logo o Lire le Capital mas fiquei céptico. Penso que a honestidade intelectual é uma virtude.


7 Gramsci constatou que se as estruturas sociais como o capitalismo são o produto da história, também o desenvolvimento da história se faz no interior das estruturas sociais que temos, como nos indica a sua referida tese do «bloco histórico», e estas não estão dispostas como Marx abstractamente entendia. Se as estruturas sociais da Europa do capitalismo avançado são diferentes do que eram na Rússia, no Camboja e na China, também a acção revolucionária teria de ser outra. Mas ao desvalorizar a luta económica, Gramsci desviou-se do marxismo, pois que, segundo bem viram os seus detractores, acabaria por transformar o comité central do partido comunista num salão literário, alheio à ferrugem. E como, do meu ponto de vista, só há marxismo ortodoxo, Gramsci, em boa verdade, saiu de lá e transformou-se naquilo a que Lenine chamaria um filósofo «idealista».


E foi este o destino dos seus continuadores. Se Althusser nunca largou a sobredeterminação da luta política pela esfera económica, de modo a não fugir a Marx (ser militante do partido comunista francês oblige: não se podia irritar Suslov), insistindo sempre em que a lógica da sobredeterminação bastava para salvar o precioso determinismo económico de Marx, se N. Poulantzas aceitou que o poder político burguês vive hoje de e para uma complexa rede de recíprocas influências de classes e que é cada vez mais autónomo relativamente à economia e afastado do proletariado, já E. Laclau e C. Mouffe aceitaram pacífica e finalmente que os conceitos necessários para compreender os confrontos sociais de hoje não pertencem ao património marxista. São outros e não passam por fazer da economia o motor da sociedade nem da luta política.


Chega a ser cómico ver os desertores do marxismo a tentarem compreender a sociedade actual fora do marxismo: uns apresentam uma concepção de sociedade tão fragmentada e desgarrada que não há nada que alicerce valores colectivos, outros, na mesma onda, (Lyotard) têm dela uma concepção wittgensteiniana baseada na presença de uma pluralidade de «jogos de linguagem» incomensuráveis entre si, o que impossibilita qualquer reconstrução política. Safam-se os alemães J. Habermas e sobretudo K.-O. Apel, com as suas magníficas teses da comunicação geral e da pragmática transcendental, que viram completamente costas ao marxismo, mas têm de ficar para outra vez.


Afinal aquilo a que Marx chamava superestrutura não é superestrutura nenhuma, muito menos agarrada ao modo de produção dominante na sociedade. Os níveis da luta política são diferentes e contraditórios e requerem até práticas políticas divergentes, impossíveis de reduzir a uma comum estratégia de base economicista.


Rio-me à brava quando olho para os pequenos e médios intelectuais tugas convencidos que são marxistas. Já não são, só que ainda não sabem e andam desnorteados em busca de uma paternidade um tanto vadia que teima em lhes não aparecer.

Marcelo Guterman

 Esse post foi escrito, mais ou menos como está a seguir, no dia 15/09, após aquele espetáculo circense que presenciamos no STF. Decidi não publica-lo no dia, deixando-o dormir na gaveta para amadurecer a ideia ou, quem sabe, esquecê-la. O gol de mão do STF/TSE no caso do debate da Globo, no entanto, foi a gota d’água que me fez, finalmente, tomar a decisão de publicá-lo. Aí está, portanto. Divirtam-se.


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Na véspera do 2o turno de 2022, escrevi um post explicando o meu voto em Jair Bolsonaro (havia votado em Luis Felipe D’Ávila (Novo) no 1o turno). A minha linha de argumentação, à época, foi puramente econômica: dos dois modelos em disputa, minha avaliação pessoal é que a agenda do então presidente, por mais falhas que tivesse, era superior ao do desafiante. Já tínhamos experimentado o desastre petista na economia com a Dilma, e nunca caí no canto da sereia do pragmatismo de Lula.


Esta eleição de 2026, no entanto, é diferente. Se eu havia investido tempo e energia para desenvolver um racional para o meu voto, dessa vez o voto será com base em outro órgão do corpo humano que não o cérebro: o fígado. Meu voto, ainda no primeiro turno, será para Flavio Bolsonaro.


Deixe-me explicar não o racional do voto, mas a sua trajetória, do meu cérebro para o meu fígado, ao longo desses meses.


Tudo começou em dezembro do ano passado, quando Bolsonaro pai escolheu o 01 como seu candidato. Pensei: não vou ser refém dessa pantomima. Quem Jair Bolsonaro pensa que é, ao apontar um desqualificado como o seu filho, e achar que vou atrás sem pensar. Pela primeira vez na vida, pensei, vou anular meu voto para presidente no 2o turno.


E fiquei com essa escolha durante meses. Até que os episódios envolvendo os ministros do STF começaram a provocar em mim uma sensação dolorosa de impotência. Como pode ministros com as canetas mais poderosas do país fazerem o diabo e continuar tudo como dantes no quartel de Abrantes? É isso então? São inimputáveis? Podem fazer o diabo, inclusive mudando regras na mão peluda, só para se protegerem e favorecerem o seu campo político?


Foi daí que, no início envergonhadamente, e depois descaradamente, uma ideia começou a tomar forma no meu fígado: não, não sou impotente. Tenho um instrumento que pode, se não dar um jeito, pelo menos dar uma lição nesse pessoal. E esse instrumento é o voto. É pouco, é quase nada, mas é melhor do que nada.


Eu sei que isso que eu vou falar agora é xadrez 4D, mas não deixa de ser divertido pensar que, talvez, Jair Bolsonaro tenha sido mais esperto do que pareceu a princípio ao escolher seu filho. Ele o escolheu não somente por ser da família, mas também por ser uma completa nulidade. Se Flávio ganha a eleição, a humilhação para Lula e sua trupe será completa. Imagine o incumbente, com a caneta de presidente na mão, com o apoio tácito do STF, ser derrotado pelo filho inepto de um cara que está na prisão? Impagável.


Fosse Tarcísio o candidato, a derrota de Lula faria parte do jogo. Tarcísio é extremamente inteligente, excelente administrador, teria o apoio maciço do Centrão a zero de jogo, enfim, seria um adversário à altura. Já Flávio, bem, a sua única credencial é ter o sobrenome Bolsonaro. Lembrando a antológica definição do general Mourão, se o sobrenome do Flávio fosse bananinha, provavelmente estaria agora em algum emprego obscuro por aí. Toda a sua carreira política foi feita na cola do pai, e sua performance no Senado foi pífia, para dizer o mínimo. Mas é justamente a sua desqualificação que o credencia não para ser presidente, mas para aplicar um corretivo em toda essa gente. É a própria definição do Cacareco.


Alguns dirão que é uma irresponsabilidade eleger alguém para o mais alto cargo da República justamente pela sua desqualificação. Ao que eu respondo: ultimamente, quando eu ouço a palavra “República”, tenho uma mistura de ataque de risos e náuseas. A República Brasileira já foi devidamente avacalhada, não será a eleição de um Bolsonaro que piorará o que não dá para ser pior. (Eu avisei no início que a decisão foi feita com o fígado).


Não vou pedir compreensão de ninguém para o meu voto.


Antibolsonaristas soltarão fogo pelas ventas, pois Bolsonaro é o diabo na terra. Para estes, só digo que quero mais é ver o parquinho pegando fogo.


Bolsonaristas soltarão rojões, cumprimentando-me pela minha escolha. Para estes, digo que estou escolhendo o candidato deles não porque seja o melhor, ou mesmo o menos pior, mas porque é o pior. Quanto mais ruim, mais feia e ridícula será a derrota desse sistema em torno de Lula.


Isentões, meus companheiros de jornada política, lamentarão, pois ambos os candidatos são péssimos, no que eu concordo e, racionalmente, o voto nulo seria mais adequado. Mas, lembrem-se, minha decisão foi feita com o fígado, não com o cérebro.


E se Lula ganhar? Bem, se Lula ganhar, ganhou. Sinceramente, I couldn’t care less. Eu terei feito a minha parte em tornar a sua vitória mais difícil e, de certa forma, humilhante, porque, lembre-se sempre, do outro lado está Flávio Bolsonaro, um nada. Uma vitória apertada já será uma derrota, muito pior que em 2022, quando do outro lado da disputa estava o presidente da República.


Não tenho a mínima ilusão de que Flávio fará um “bom governo” se eleito, ou que trabalhará para termos um Supremo decente. No final do dia, ele comerá na mão do sistema, como fez o seu pai. Mas não peçam coerência para o meu fígado. Meu voto visa tão somente a pequena satisfação de imaginar a cara de bunda do Gilmar Mendes no dia da apuração. Só isso.

OESP

Intolerável intolerância progressista

Editorial, O Estado de S. Paulo (01/10/2023)


Cada vez mais a esquerda iliberal se crê autorizada a empregar todo e qualquer meio, solapando a ordem jurídica e o processo democrático, para impor seus fins messiânicos


Está em curso uma campanha, em boa parte promovida pelos integrantes do Executivo, de discriminação e no limite criminalização das pautas de direita, como se a disputa entre progressistas e conservadores fosse uma batalha existencial da civilização contra a barbárie.


A pretensão do PT ao monopólio do bem e da verdade é constitutiva. Expoentes da direita sempre foram demonizados como “fascistas” e “inimigos do povo”. Mesmo a outros progressistas a oferta do partido se resume à vassalagem ou à apostasia. Toda crítica é desmoralizada como conspiração das “elites”. Ainda hoje o partido exige reparações pelo “golpe” do Legislativo e do Judiciário em Dilma Rousseff e por sua “perseguição política” a Lula e outros “guerreiros do povo brasileiro” flagrados em tramoias antirrepublicanas, como no mensalão e no petrolão.


O jihadismo esquerdista encabeçado pelo lulopetismo frequentemente foi propagado por setores que, marcados, por razões históricas e sociológicas, por uma hegemonia progressista, funcionam como sua caixa de ressonância, como a academia, redações ou a chamada classe artística. Na última geração, a intolerância maniqueísta das vanguardas da “luta de classes” foi inflamada pelas pautas identitárias da nova esquerda.


Para a esquerda iliberal, as responsabilidades individuais são dissolvidas em “estruturas” de opressão. Nesse estado de espírito paranoico, não basta não ser racista, misógino, homofóbico; quem não é ostensivamente “anti”, quem não milita pela causa, quem não faz rituais de expiação pelo mero fato de ter uma determinada cor de pele, pertencer a um gênero ou ter uma orientação sexual é desmoralizado como uma peça da máquina de opressão. A política é submetida a emoções tribais e quem questiona a pureza ideológica dos redentores deve ser disciplinado, punido ou mesmo eliminado do debate público por tribunais midiáticos e campanhas de “cancelamento”.


Considerem-se alguns debates recentes, como a exploração de novas fronteiras petrolíferas, a demarcação de reservas indígenas ou a legalização do aborto. Em todos esses casos, não há uma disputa inequívoca entre o bem e o mal, mas zonas de conflito entre bens juridicamente tutelados. No caso da exploração de petróleo na Margem Equatorial, por exemplo, há uma equação entre riscos ambientais e ganhos socioeconômicos; no caso das reservas indígenas, entre os direitos dos povos originários e os de proprietários (muitas vezes indígenas aculturados) de boa-fé; no caso do aborto, entre a autonomia das mulheres e a vida do nascituro. Além do mérito, há a questão da competência para arbitrar esses conflitos, por exemplo, entre o Legislativo e o Judiciário.


Mas os progressistas iliberais se creem portadores de verdades absolutas e condutores da História legitimados a empregar quaisquer meios para a consumação de seus fins. O mero questionamento é denunciado como “violência”. A reação em defesa de direitos plausivelmente legítimos é anatematizada como reacionarismo. As teses de quem advoga por explorar as riquezas do petróleo, por garantir as propriedades de agricultores ou por preservar a vida do nascituro não são meramente objetadas, com base na Constituição, em função de supostas lesões a direitos do meio ambiente, dos indígenas ou das mulheres, mas recriminadas como ataques de predadores desalmados.


Isso exprime uma visão da vida pública típica de um Estado confessional, do tipo que o liberalismo veio a superar com a instauração do Estado Democrático de Direito e o princípio de que o progresso humano deve ser conquistado por debates, negociações e reformas. A direita iliberal representa uma ameaça a esse marco civilizacional, como se viu no 8 de Janeiro. Mas, ao equiparar todos os seus críticos a “extremistas” dignos de serem alijados da vida pública, a esquerda iliberal também é uma ameaça, não tanto pelos seus ideais, em princípio tão legítimos quanto os de seus adversários, mas pelos seus métodos: a intimidação, a censura, a ruptura, a imposição. Numa democracia, essa intolerância é intolerável.

sábado, 3 de outubro de 2026

Amilton de Aquino

 E chegamos à eleição mais estranha de todos os tempos. Todo mundo cabisbaixo, tentando fugir de polêmicas, sem debates, sem regras, com juízes atuando descaradamente como cabos eleitorais, uma oposição mais suja que pau de galinheiro e um presidente idem, acuado, fazendo o diabo para se reeleger, empurrando uma bomba fiscal para os próximos anos que pode cair no colo dele mesmo e, claro, nas costas da população, especialmente de quem rala o dia inteiro para pagar a conta.


Uma eleição decidida pelo medo de um dos polos, em que um se “limpa” na sujeira do outro e vice-versa.


E, neste mar de incertezas, três certezas — ou quase certezas:


1) Não existe mais espaço para uma terceira via moderada. Na era das bolhas, só há espaço para quem consegue chamar atenção de alguma forma, mesmo recorrendo a hipérboles.


2)  Renan Santos vai ficar em terceiro lugar, a única candidatura com uma militância de fato capaz de fazer alguma diferença na reta final, com chance de se tornar uma alternativa de fato a atual polarização. As de Caiado, Cury e Zema tendem a desidratar ainda mais.


3) Quem assumir terá um mandato difícil.


Se for Lula, será um mandato ainda mais impopular, com uma conta de juros de R$ 1,1 trilhão ao ano, agora com uma tendência de alta ainda maior, depois do festival de “bondades” nas semanas que antecederam a eleição. Um Lula ainda mais escorado no STF, que tende a passar por cima de tudo, ainda mais com mais quatro indicações do PT para reforçar sua tropa na instituição que dará a última palavra (passando por cima, inclusive, da Constituição, como já tem acontecido sucessivamente) durante as próximas décadas.


Se for Flávio, um mal menor, pois, além de representar alguma chance de pelo menos estabilização da dívida, haveria ainda uma chance de dar uma equilibrada no STF. Digo uma chance porque, embora tenha se falado muito por aí das tais “quatro vagas” que o próximo presidente vai indicar, na prática, só uma delas ocorrerá no início do mandato — e isso se Lula não inventar uma manobra de emergência para fazer a indicação da vaga do “Bessias” ainda neste ano, algo que ele vai tentar se perder.


Dos outros três, o pior deles, Gilmar Mendes, só no finalzinho do mandato. Os outros dois, Fux e Cármen Lúcia, só depois de 2028.


Ou seja, as duas substituições que de fato Flávio faria em meados do mandato não mexeriam no placar da maioria que Lula já tem hoje no STF e que poderá ficar ainda mais consolidada caso consiga completar a vaga remanescente até o final de dezembro.


Portanto, se Flávio for o eleito, governará na coleira do pior STF de todos os tempos. Pelo menos, desta vez, além de um Bolsonaro mais moderado, parte da imprensa já percebeu o monstro que ajudou a criar no STF, o que seria um fator que tenderia a dar uma equilibrada no jogo.


Enfim, continuaremos, na melhor das hipóteses, num mar de incertezas. Certeza mesmo é que continuaremos pagando muito imposto para sustentar uma das piores elites da humanidade.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Um ato terrorista q não se consumou

 *Pela primeira vez em mais de 20 anos, alguém tentou sequestrar um avião com destino a Israel.* 


_Milagrosamente, o agressor, um piloto de Omã, foi dominado antes de conseguir concluir sua missão._


A região inteira prendeu a respiração quando o voo matinal da Flydubai, de Dubai para Tel Aviv, emitiu um sinal de emergência, acionou o código de sequestro e pareceu desviar de sua rota sobre o espaço aéreo saudita. A tensão na região se dissipou, quase dando lugar a um riso aliviado, quando os primeiros relatos atribuíram o incidente a uma briga entre os dois pilotos. Esse riso, porém, logo desapareceu à medida que avaliações de segurança e depoimentos de passageiros revelaram que o copiloto havia esfaqueado o comandante repetidas vezes. 


O terrorista então assumiu os controles e direcionou a aeronave para o solo, perdendo quase 20.000 pés de altitude em pouco mais de um minuto, até que vários tripulantes e passageiros forçaram a entrada na cabine de comando e o imobilizaram. 


Muitas pessoas ficaram feridas durante a ação. 


O avião fez um pouso de emergência em Tabuk, no noroeste da Arábia Saudita, onde os passageiros agora aguardam que Israel os leve de volta para casa.


A motivação específica e a afiliação do agressor ainda não foram confirmadas, mas Israel trata o incidente como um ato de terrorismo.


Ao contrário de muitos sequestros na longa história de Israel, o de hoje teve um final feliz. 


O episódio ocorreu, além disso, poucas semanas após o 25º aniversário do sequestro mais letal da história.


Muitas perguntas permanecem. Como esse homem obteve autorização para pilotar a aeronave? O que exatamente o motivou? E o que isso significa para o futuro das viagens aéreas no corredor de voo mais movimentado de Israel?


A El Al suspendeu seus voos regulares para os Emirados Árabes Unidos em março de 2026 devido a ameaças à segurança e não os retomou desde então. É possível que o agressor pretendesse criar uma ruptura nessa aliança crucial. Apenas ontem, Benjamin Netanyahu alertou, em um discurso na principal base aérea das Forças de Defesa de Israel (FDI), que "nossos inimigos tentarão nos atacar". "Não mexam conosco", advertiu ele. "Nosso braço longo os alcançará em qualquer lugar e a qualquer momento."


No entanto, não foi o punho vingador da Força Aérea de Israel nem um resgate heroico realizado por forças especiais que frustrou a ameaça de hoje.  Foi a coragem de israelenses comuns. Havia uma possibilidade muito real e trágica de que eu estivesse escrevendo um artigo completamente diferente hoje. Com o capitão lutando para sobreviver, o sistema de direção avariado e uma asa danificada, foi graças à bravura de um pequeno grupo de passageiros e tripulantes que quase 180 vidas foram salvas. Hoje, no quinto dia de Sucot, recitaremos as palavras do Hallel com fervor redobrado: “Este é o dia que o Senhor fez; alegremo-nos e regozijemo-nos nele.” – Amit Segal


https://x.com/AmitSegal/status/2105250626040926320


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Os fatos chegam sempre atrasados

 Os fatos chegam atrasados

Alex Pipkin, PhD em Administração e Consultor Empresarial 


Primeiro escolhemos. O candidato chega depois.

Entre os eleitores de menor escolaridade, Lula tem 49%, Flávio Bolsonaro, 29%.

Seria a prova definitiva da superioridade política do diploma, não fosse um detalhe devastador. 

Conheço, e como conheço, doutores capazes de defender disparates com bibliografia, nota de rodapé e absoluta convicção.

Diploma aumenta repertório, não vacina contra estupidez.

A explicação é bem menos confortável.

Ninguém chega sozinho à urna. Leva os pais, a renda, o bairro, o medo, a religião, o emprego que teve, o dinheiro que faltou, a ajuda que recebeu, a raiva que guardou e a turma à qual aprendeu a pertencer.

O candidato chega por último. Para milhões, Lula não é um político. É uma biografia emprestada. Emprego, consumo, proteção, a lembrança de uma época em que a vida pareceu melhorar. Para outros, é também a memória da corrupção, das condenações depois anuladas e de uma história judicial que o país ainda interpreta de maneiras opostas.

Memória não gosta de auditor.

A rejeição trabalha no mesmo escritório.

Flávio carrega um sobrenome que entra na sala antes dele, junto com a pecha do autoritarismo bolsonarista. Lula carrega uma biografia que fecha a porta depois. Há quem rejeite antes de ouvir e quem absolva antes de julgar.

Os argumentos chegam depois. Advogados contratados pela sentença.

O Datafolha desta semana cometeu uma pequena indecência estatística: Lula e Flávio com os mesmos 45% de rejeição.

Iguais no número, diferentes na bagagem. Em Flávio, o sobrenome chega primeiro. Em Lula, uma longa biografia já está sentada à mesa. Não é equivalência. É simetria de trincheiras.

Faço parte da estatística, sem qualquer pretensão de neutralidade.

Entre os dois, minha rejeição a Lula decide meu voto. Flávio não precisa me entusiasmar.

Também carrego uma biografia para a urna.

Chamamos isso de escolha porque reconhecimento tribal ficaria feio na urna.

O grande engano é imaginar que um fato novo encontra uma cabeça disponível. Não encontra. O imóvel já tem inquilino.

Se favorece meu candidato, é prova. Se o desmente, é perseguição, contexto, sabotagem, imprensa, juiz, mercado, sistema. Para o adversário, evidentemente, contexto não existe. Embora a biografia política de Lula dispense apresentações.

Não é burrice. Seria fácil demais.

Um fato não disputa com outro fato. Disputa com uma biografia. Biografias são péssimas perdedoras.

A democracia fez uma aposta: diante dos fatos, revisaríamos nossas escolhas. A aposta não envelheceu bem.

Fizemos o contrário. A escolha vem pronta. Depois contratamos os fatos para defendê-la.


Alex Pipkin

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Diário




 Em recesso amigos. Aparecerei esporadicamente. Viajando hoje para a formatura do filho. Fechando um ciclo, dar de melhor ao nosso filhote, sem exacerbar, sem irresponsabilidade. Educação top pq eu sabia q ele ia usufruir. Valores, princípios e condutas. 

Colocarei aqui um Diário de viagem. 

Vamos em frente.

Gramsci

 Antônio Gramsci e o marxismo 1 Um leitor atento manifestou-me o seu interesse num artigo meu sobre A. Gramsci, a publicar aqui em breve. Na...