segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Fernando Schuller

 


𝗔𝗦 𝗗𝗘𝗦𝗖𝗨𝗟𝗣𝗔𝗦 𝗗𝗘 𝗖𝗔𝗥𝗠𝗘𝗡 𝗟𝗨𝗖𝗜𝗔
Fernando Schüler, O Estado de S. Paulo, 20.09.2026


"Peço desculpas ao povo brasileiro, que talvez tenha esperado de mim uma postura diferente", disse a ministra Cármen Lúcia, na sessão do STF. Por um instante, imaginei que a ministra iria emendar algo como "desculpa pelos desvios éticos" ou, quem sabe, "pela nossa recusa de investigar qualquer coisa" ou, ainda, "pelos sete anos de inquérito das fake-news". Mas não. As desculpas eram por "não ter ajudado a acalmar as coisas", no tribunal.
De um bom comentarista, li que ela teria se solidarizado com o "povo brasileiro em seu sentimento coletivo de vergonha". Será? Não há o mínimo consenso sobre o que causa "vergonha", na sociedade. 67% dos eleitores de Lula, segundo o PoderData, aprovam o ministro Alexandre de Moraes. O mesmo ministro que há pouco era ovacionado em espetáculos musicais, em São Paulo, tido como a "muralha" de nossa democracia e mesmo como o grande responsável pela "libido nacional".
Isso não é uma trivialidade. No Chile, ainda recentemente, o juiz Diego Simpértigue foi destituído da Suprema Corte por suas relações impróprias com advogados de empresas com interesses no tribunal. Rapidamente, se formou um consenso na sociedade chilena de que aquilo era inaceitável, e o sistema de freios e contrapesos se pôs em ação. Simpértigue foi destituído em 28 dias. No Brasil, não dispomos de um mínimo acordo sobre questões éticas fundamentais, na sociedade.
O problema do STF não é o espetáculo de maus modos, mas ter se convertido em um poder sem limites. Foi assim quando, há dez anos, o País assistiu a Constituição ser "relativizada" com a manutenção dos direitos políticos da presidente destituída. E em 2019, na abertura do inquérito sobre fake news, com base em um artigo do regimento que falava em infrações cometidas na "sede" do tribunal; foi assim quando a própria ministra mandou pelos ares a vedação à censura prévia, apoiando a proibição do lançamento daquele documentário sobre o atentado ao ex-presidente. Depois, vivemos o longo transe de exceção. As pessoas sem foro julgadas no STF, a censura prévia em larga escala, a quebra da imunidade parlamentar.
O fórum Brasil Adiante, organizado pelo Estadão, identificou questões muito simples que nossas instituições – se tivessem alguma coragem – poderiam enfrentar. Uma é disciplinar as decisões monocráticas. Se precisávamos de um sinal de alerta sobre isso, tivemos semana passada. A guerra de decisões entre os ministros, em direções opostas, à revelia de qualquer decisão colegiada, que deveria funcionar como regra na Corte.
Não acho que a ministra ou seus colegas devam desculpas pela "intranquilidade" no País, mas sim pela lógica de exceção que criaram no Brasil dos últimos anos. Não porque geraram "mal-estar cívico", mas porque falharam na única obrigação em que uma Suprema Corte não poderia falhar: garantir a vigência das leis e da Constituição.

Call Matinal

Call Matinal, by Julio Hegedus Netto

1) No dia 18, o Ibovespa recuou 0,41%, aos 185.229,17 pontos, com giro de R$ 26,8 bilhões, turbinado pelo exercício de opções. Já o dólar fechou em leve alta de 0,10%, a R$ 5,1442, nada demais para um dia em que o real poderia ter sofrido maiores efeitos colaterais do tombo do iene, depois de o BoJ ter deixado em aberto os seus próximos passos.

2) Os mercados, nesta segunda-feira (21), operam em alta, apoiados pela queda dos preços do petróleo e pelo maior otimismo dos investidores em torno da cúpula entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente da China, Xi Jinping.

3) Abrimos a semana, portanto, de olho no encontro de Donald Trump com Xi Jinping na cúpula anual das Nações Unidas em NY. É um momento em que vários líderes estarão lá, não esquecendo Lula da Silva, ainda que se perdendo nos últimos dias com o escândalo do STF e seus ministros, em maioria, bem encalacrados.

4) No Oriente Médio, a melhora do fluxo por Ormuz e novas iniciativas diplomáticas são um contraponto para a cotação do barril de petróleo, Brent e WTI, enquanto ataques houthis mantêm a tensão sobre a infraestrutura saudita e Bab el-Mandeb.

5) No Brasil, Lula abre nesta terça-feira a Assembleia Geral da ONU, enquanto o caso Master escala em desdobramentos desagradáveis para a campanha petista.

6) A última foi a foto de Alexandre de Moraes se esbaldando num jatinho de Vorcaro, em total dissintonia com o que é certo ou errado. Sem dúvida que o cinismo de alguns ministros do STF é algo que nos assalta todos os dias. E não há punição para atos tão desabonadores! Não é uma simples carona num jatinho, mas muita mentira, muita safadeza. Algo precisa ser feito para dar um basta nisso tudo. Caso contrário, a perca de credibilidade das instituições só tende a se agravar. Impunidade, esta é a palavra do momento.

7) Na agenda econômica, temos a ata do Copom, o IPCA-15, o Relatório de Política Monetária e as pesquisas eleitorais além de uma série de discursos do Fed e os PMIs nos Estados Unidos e na Europa.

8) A ata do Copom amanhã, terça-feira, e o IPCA-15 de setembro concentram as atenções na agenda na semana, que traz ainda o Relatório de Política Monetária do BC e uma bateria de divulgações fiscais do governo.

9) Na ata da reunião, que reduziu a Selic em 0,25 ponto, para 13,75%, o mercado buscará pistas sobre os próximos passos do Copom, depois que o comunicado reconheceu uma desaceleração mais clara da atividade e melhora da inflação.

BOA SEMANA A TODOS!

Mario Sergio Conti



Artigo do Mario Sergio Conti na 'Folha de S. Paulo' de hoje, p. B12.




AMIGOS DA GRANA E DA ESBÓRNIA

As amizades interesseiras e prazerosas de Aristóteles no Supremo




Na medonha sessão de terça-feira (15) do Supremo, Edson Fachin e Flávio Dino terçaram tolices em torno de uma questiúncula. O presidente o orientou a pedir-lhe autorização quando quisesse interromper a fala de outro juiz. Dino não obedeceu. Alegou que apartes são concedidos por quem tem a palavra, não pelo chefe do STF.




Fachin veio a reconhecer seu erro e, mais para frente, Dino fez troça dele: pediu-lhe autorização para fazer um aparte. Com um risinho, Fachin notou que o pedido era irônico. Dino concordou e citou Aristóteles: "A ironia descontrai o ambiente".




Ocorre que o filósofo disse outra coisa: "A ironia é mais própria de um homem livre que o deboche, pois o irônico produz o riso para si, e o bufão o faz para os outros". Noutro livro, dá à ironia o significado de "autodepreciação" e diz que ela é inferior à franqueza porque o irônico faz uma simulação, em vez de dizer a verdade na lata.




"Ah, essa falça cultura!", diria Millôr Fernandes. Dino quis dar uma de sabido, um pecadilho na missa negra do Supremo. Mas poderia ter lembrado o que Aristóteles diz sobre a amizade: "Ninguém escolheria viver sem amigos, mesmo que tivesse todos os outros bens".




Para ele, a justiça é secundária quando há amizade, pois nela a pessoa age pelo bem dos amigos. O afeto mútuo barra o egoísmo, a ideia de que o proveito pessoal deve guiar a ação. Ao apontar para a concórdia, a amizade lubrifica a vida social. Nem tudo são flores, porque Aristóteles vê dois tipos de amizade falsa.




Uma é a utilitária. Seu alicerce é o interesse, sobretudo material. É uma amizade pervertida. É aí que entra o STF. Cinco de seus dez juízes cultivavam amizades interesseiras com Daniel Vorcaro, relações tingidas por trocas mercantis.




Alexandre de Moraes o atendia porque sua família tinha com ele um contrato de R$ 131 milhões. André Mendonça o recebeu na sua empresa e o convidava para conversas porque queria que o Banco Master a cacifasse. Dias Toffoli fez negócios com Vorcaro. O filho de Luiz Fux convivia com o bandidaço, que deu R$ 500 mil ao filho de Nunes Marques.




A segunda amizade pérfida, segundo Aristóteles, é marcada por prazeres juvenis. Seu vínculo são as emoções compartilhadas: diversão, entretenimento, o gozo da companhia agradável. É uma amizade efêmera, que pode durar uma viagem, uma degustação, uma orgia.




Mendonça, Moraes e Toffoli não são jovenzitos, mas cabem na categoria, chamados que foram pelo corruptor para desfrutar de prazeres. Eles e uma penca de mandachuvas, como o procurador-geral, Paulo Gonet. Hoje todos negam ter ido aos fuzuês. Acabou a amizade.




Ao contrário do que se diz, às vezes não é a política que orienta os juízes. Dino, Zanin e Gilmar Mendes são sabidamente unha e carne com Lula. Mas se aplicaram em proteger Moraes, o que prejudica a candidatura do presidente.




Se a política não explica sua atitude, optaram por fazer justiça doa a quem doer? Não parece, já que estava em pauta elucidar o que Moraes fez, não a sua condenação. Então por que embaraçaram Lula? Falta um Aristóteles para estudar a questão. Talvez inventasse outro tipo de amizade: a corporativa, tão fraudulenta quanto as por interesse e prazer.




Outro filósofo, Kant, merecia ter sido citado no furdunço do STF. Para ele, a amizade é assunto pessoal, não deve ser ligado à política nem à justiça. A amizade vai contra o imperativo de tratar todos com igualdade, diz, pois a tendência humana é priorizar os amigos.




Convém esperar sentado que o Judiciário adote o imperativo igualitário. Em 2016, o Conselho Nacional de Justiça liberou a remuneração de palestras de juízes, então proibida. Resultado: as esbórnias do amigo Vorcaro. Há empresas que pagam R$ 60 mil por conferências de juízes de tribunais superiores.




Nem todas aceitam isso. Na própria tarde da sinistra sessão suprema, a presidente do Superior Tribunal Militar, Maria Elizabeth Rocha, fez uma palestra na USP sobre a ameaça totalitária no mundo. Ela só vai a conferências acadêmicas —e desde que não seja remunerada.




Rocha foi a primeira juíza e presidente do STM em 206 anos. Na USP, recorreu a Adorno e Marx para dizer que a extrema direita só será barrada —e a democracia preservada— se houver empenho individual e coletivo.

BDM Riscala Matinal

*Rosa Riscala: Mercados apostam em avanço entre Trump e Xi*


A semana começa com os mercados em clima positivo, embalados pela expectativa com o encontro entre Trump e Xi Jinping, enquanto o petróleo recua pelo quarto pregão seguido, apesar da escalada no Oriente Médio. A melhora do fluxo por Ormuz e novas iniciativas diplomáticas ajudam a aliviar o Brent, enquanto ataques houthis mantêm a tensão sobre a infraestrutura saudita e Bab el-Mandeb. No Brasil, Lula abre amanhã a Assembleia Geral da ONU, enquanto o caso Master continua produzindo novos desdobramentos. Na agenda econômica, ata do Copom, IPCA-15, Relatório de Política Monetária e pesquisas eleitorais dividem as atenções com uma bateria de discursos do Fed e os PMIs nos Estados Unidos e na Europa.


ORMUZ DÁ ALÍVIO – O petróleo abriu em queda pelo quarto pregão seguido, apesar da escalada no Oriente Médio durante o fim de semana.


… No eletrônico, o Brent recuava 2,17%, para US$ 101,60, com o mercado acompanhando a melhora do fluxo pelo Estreito de Ormuz e os novos esforços diplomáticos para encerrar a guerra.


… Segundo o Centcom, o volume de petróleo, cargas e GNL que atravessou Ormuz nas últimas duas semanas atingiu o maior nível em seis meses, apesar dos ataques iranianos a embarcações.


… As forças americanas dizem ter protegido mais de 2 mil navios e auxiliado o transporte de mais de 1 bilhão de barris nos últimos dois meses.


… No fim de semana, os houthis lançaram um míssil balístico contra Riad, interceptado pela defesa saudita, e reivindicaram ataques com mísseis e drones contra instalações da Saudi Aramco em Yanbu, importante polo de exportação no Mar Vermelho.




… Yanbu é especialmente sensível porque recebe o oleoduto Leste-Oeste, que permite à Arábia Saudita escoar petróleo sem passar por Ormuz. O corredor, com capacidade para transportar cerca de 4 milhões de barris por dia, já havia sido danificado por ataques na semana passada.




… A pressão se estende a Bab el-Mandeb. Os houthis prometeram manter as ofensivas contra a Arábia Saudita até o fim do bloqueio às áreas do Iêmen sob seu controle e ameaçaram reagir contra outros países que se juntem a Riad.




… O grupo avançou neste mês pela costa ocidental do Iêmen até o estreito, passagem estratégica entre o Mar Vermelho e o Oceano Índico.




… Outro amortecedor vem da China, que acumulou cerca de 1,4 bilhão de barris em reservas estratégicas e reduziu suas importações de petróleo em 32% no segundo trimestre. Os estoques ajudaram a limitar a disparada dos preços durante os seis meses de guerra.




… Embora o mercado continue vulnerável a novas interrupções, especialmente diante dos ataques à infraestrutura saudita e da pressão simultânea sobre Ormuz e Bab el-Mandeb, a escalada militar convive com novas tentativas diplomáticas.




… Trump voltou a ameaçar o Irã neste domingo, mas disse estar aberto a encontrar o presidente Masoud Pezeshkian, que estará em Nova York junto com o chanceler Abbas Araghchi para a Assembleia Geral da ONU nesta semana.




… Amanhã, ele deve se reunir à margem da Assembleia com líderes dos países do Golfo para discutir os próximos passos na guerra e propostas para uma estratégia pós-conflito. Washington já trabalha no plano, que deve ser finalizado após as eleições de meio de mandato.




TRUMP RECEBE XI – O presidente também deve se encontrar nesta semana com Zelensky e com Xi Jinping, que será recebido em Washington, na quinta-feira, para uma agenda que vai da trégua comercial entre Estados Unidos e China a Taiwan, Irã e inteligência artificial.




… No comércio, os mercados estarão atentos à possível prorrogação da trégua tarifária que vence em 10 de novembro e a eventuais anúncios sobre agricultura e barreiras não tarifárias.




… O clima melhorou neste domingo, após Scott Bessent classificar como “muito proveitosa” a reunião com o vice-premiê chinês, He Lifeng, em Nova York. Os dois lados disseram que continuarão trabalhando em um acordo comercial.




… Bessent também propôs a criação de um mecanismo de notificação entre os dois países para incidentes de segurança nacional envolvendo inteligência artificial.




… A tecnologia terá lugar de destaque na visita. Os CEOs da OpenAI, Sam Altman, da Nvidia, Jensen Huang, da Qualcomm, Cristiano Amon, e o presidente do conselho da Apple, Tim Cook, estão entre os executivos esperados para o jantar de Estado com Trump e Xi.




… Às vésperas do encontro, Trump anunciou que pretende nomear um novo “czar” da inteligência artificial e criar uma “Força de IA”, defendendo que os Estados Unidos acelerem o desenvolvimento da tecnologia para preservar a liderança sobre a China.




LULA NA ONU – Outro encontro poderá ocorrer entre o presidente do Brasil e Trump, nos bastidores da Assembleia Geral, como no ano passado, quando surgiu a famosa “química” entre os dois. Lula abre o debate amanhã e será seguido pelo presidente americano.




… Lula chegou neste domingo a Nova York, para uma estadia curta, mas de peso também para a campanha eleitoral no Brasil. A poucos dias do primeiro turno, um dos principais eixos de seu discurso será a defesa da soberania nacional, que ganhou espaço na estratégia da reeleição.




… A expectativa é de que Lula defenda as instituições e o processo eleitoral e rejeite interferências externas, sem citar nominalmente Trump. O presidente deve adotar linguagem diplomática e evitar referências à crise no STF, considerada pelo governo um assunto interno.




… Lula pretende ainda criticar medidas e sanções comerciais unilaterais e defender a cooperação internacional no combate ao crime organizado transnacional, desde que respeitados o direito internacional e a integridade territorial dos países.




… A defesa do multilateralismo ganhou um novo capítulo neste domingo, quando Lula assinou com os líderes da União Europeia, Quênia e Canadá um manifesto que pede reformas nas instituições internacionais diante do aumento dos conflitos e da fragmentação geopolítica.




… O documento cita os riscos de gargalos marítimos globais, como o Estreito de Ormuz, para as cadeias de suprimentos, além dos desafios da inteligência artificial, choques financeiros e mudanças climáticas.




… A agenda de Lula inclui entrevista hoje à jornalista Christiane Amanpour, da CNN, e reuniões com o presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e o senador democrata Bernie Sanders. Mais de 30 autoridades haviam solicitado encontros.




… Amanhã, antes do discurso na ONU, Lula se reúne com o secretário-geral da organização, António Guterres. O retorno ao Brasil está previsto para poucas horas depois do discurso. Ele não participará do jantar oferecido por Trump aos chefes de Estado.




MAIS POLÍTICA – Câmara e Senado não têm sessões deliberativas previstas nesta semana, às vésperas do primeiro turno. Depois de mais uma semana de crise, o STF não tem julgamentos relacionados ao caso Master. Mas o caso ganhou novos capítulos no fim de semana.




… Um vídeo mostrou Moraes e a mulher desembarcando de uma aeronave ligada a Vorcaro, após o ministro ter dito que “jamais” havia viajado em avião do banqueiro. O escritório de Viviane Barci confirmou o uso de serviços da empresa, mas disse que Vorcaro nunca esteve nos voos.




… Também aumentou a pressão sobre o procurador-geral da República, Paulo Gonet, após a divulgação de uma foto ao lado de Vorcaro em Londres. A oposição cobrou seu afastamento. Gonet afirma que a imagem é de 2024, quando não havia investigação contra o banqueiro.




… Outro vídeo, também de 2024, mostrou Vorcaro em uma festa do Master em Londres com o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. Andrei e Gonet são citados em mensagens nas quais o banqueiro pediu a Moraes que interviesse para tentar frear as investigações sobre o banco.




… Ainda neste domingo, Flávio Dino deu prazo de 90 dias para que a União, sob coordenação do Ministério da Fazenda, apresente uma avaliação do arcabouço da CVM e propostas para aprimorar a autarquia, diante das fragilidades na supervisão apontadas no caso Master.




… Faltando duas semanas para as eleições e depois das turbulência no STF, o calendário das pesquisas eleitorais prevê Quaest e BTG Nexus para hoje, AtlasIntel na quarta-feira e Datafolha e Real Time Big Data na quinta-feira.




MAIS AGENDA – A ata do Copom amanhã, terça-feira, e o IPCA-15 de setembro concentram as atenções na agenda econômica da semana, que traz ainda o Relatório de Política Monetária do BC e uma bateria de divulgações fiscais do governo.




… Na ata da reunião que reduziu a Selic em 0,25 ponto, para 13,75%, o mercado buscará pistas sobre os próximos passos do Copom, depois que o comunicado reconheceu uma desaceleração mais clara da atividade e melhora da inflação.




… Ainda amanhã, a Fazenda divulga às 10h30 o Boletim Macrofiscal, com novas projeções oficiais para atividade e inflação, além do resultado da arrecadação federal de agosto. A divulgação do boletim estava inicialmente prevista para a última sexta-feira e foi transferida para dia 22.




… Na quinta-feira, sai o Relatório de Política Monetária, acompanhado de entrevista coletiva do presidente do BC, Gabriel Galípolo, enquanto Fazenda e Planejamento apresentam o Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas do quarto bimestre.




… O documento deverá detalhar o espaço fiscal para o reajuste de 15% do Bolsa Família anunciado na semana passada.




… As contas públicas ganharam mais atenção após o governo revisar suas projeções para a dívida. As estimativas enviadas ao Congresso junto com o PLOA de 2027 apontam a dívida bruta em 83,7% do PIB no fim deste ano, chegando a 89,6% em 2029 e 89,7% em 2030.




… Também na quinta-feira, reúne-se o Conselho Monetário Nacional. O IPCA-15 encerra a semana dos indicadores domésticos na sexta-feira.




… Hoje, como todas as segundas-feiras, o Banco Central divulga a Pesquisa Focus, às 8h25.




LÁ FORA – Nos Estados Unidos, a agenda de indicadores é mais leve, mas o mercado acompanhará uma bateria de discursos de dirigentes do Fed em busca de sinais sobre os próximos passos dos juros, depois da alta de 0,25 ponto da semana passada.




… Neel Kashkari, do Fed de Minneapolis, já reforçou o tom duro neste domingo (leia abaixo).




… Hoje fala Austan Goolsbee. Amanhã será a vez de John Williams, Philip Jefferson e Thomas Barkin. Michael Barr participa de evento na quarta-feira, e Williams, Barkin, Beth Hammack e Anna Paulson estão entre os dirigentes com compromissos na quinta e na sexta-feira.




… Os PMIs preliminares de setembro serão conhecidos na quarta-feira nos Estados Unidos e na Europa. Para o PMI americano, a previsão é de 54 na indústria, 56 nos serviços e 56,3 no composto. Ainda na quarta, o DoE divulga os estoques semanais de petróleo.




… Na sexta-feira, sai a leitura final de setembro da confiança do consumidor da Universidade de Michigan, incluindo as expectativas de inflação.




ÁSIA HOJE –No Japão, os mercados permaneceram fechados hoje por feriado local; amanhã também não haverá pregões.




… Já na China, o PBoC manteve as principais taxas de juros inalteradas, segundo comunicado divulgado neste domingo, com a referência para empréstimos (LPR) de 1 ano em 3% ao ano e a LPR de 5 anos em 3,5% ao ano. Os juros seguem no mesmo nível desde maio de 2025.




ELEIÇÃO NA ALEMANHA – A apuração neste domingo revelou perdas expressivas para a CDU, do chanceler Friedrich Merz, nas eleições estaduais de Berlim e Mecklenburg-Pomerânia Ocidental, enquanto a AfD ampliou sua votação.




ENERGIA QUE MOVE – Chamou a atenção na sexta-feira nos negócios a capacidade que os juros futuros domésticos exibiram de resistir à pressão nas taxas dos Treasuries, com o yield da Note de dez anos rompendo de novo os 5%.




… Apesar de o rendimento do título do Tesouro americano ter voltado a superar este nível de estresse, por aqui, a curva do DI operou de lado, porque o trade eleitoral ainda parece estar blindando contra as ondas de piora externa.




… Pela manhã, o investidor mostrou algum desconforto, depois de a Datafolha mostrar estagnação de Flávio Bolsonaro, mesmo após a tensa sessão do STF. Mas já à tarde a esperança de vitória da oposição voltou a dominar.




… Faltando apenas duas semanas para a eleição presidencial, as próximas pesquisas eleitorais servirão de tira-teima sobre a competitividade da candidatura bolsonarista ou o eventual risco de uma estagnação nas intenções de voto.




… A notícia de que o Ministério Público junto ao TCU pediu a suspensão do reajuste de 15% do Bolsa Família, alegando que a medida fere a LRF, foi bem recebida pelo mercado, um dia depois do “pacote de bondades” de Lula.




… Descoladas do exterior, a taxa do DI para Jan/27 ficou estável, em 13,555%; Jan/28 fechou em 13,630% (de 13,617% ano ajuste); Jan/29, 13,840% (de 13,845%); Jan/31, 14,020% (de 14,061%); e Jan/33, 14,130% (14,185%).




… Além da politização do enredo nos negócios, os juros futuros esperam esta semana pelo teor da ata do Copom, neste momento em que o BC avalia o esfriamento gradual da atividade como sinal de eficácia da política monetária.




… O Bradesco divulgou relatório revisando para baixo a previsão para o PIB deste ano, de 1,9% para 1,7%, e de 2027, de 1,3% para 1,0%, já que os dados do terceiro trimestre continuam sinalizando moderação do ritmo.




… No câmbio, como aconteceu com o DI, chegou a haver algum mal-estar pela manhã de sexta-feira com a falta de novidades do Datafolha. Mas o cenário eleitoral indefinido não chegou a evoluir para uma reação mais negativa.




… O dólar à vista fechou em leve alta de 0,10%, a R$ 5,1442, nada demais para um dia em que o real poderia ter sofrido maiores efeitos colaterais do tombo do iene, depois de o BoJ ter deixado em aberto os seus próximos passos.




… Durante seminário realizado pelo FGV/Ibre e Estadão, o sócio-fundador da SPX Capital, Rogério Xavier, alertou que o Brasil se encontra em uma trajetória fiscal perigosa, com endividamento semelhante aos de países desenvolvidos.




… A amarga diferença é que o País não conta com a credibilidade das grandes economias globais.




… Xavier é contrário a propostas de cortar os juros “na marra” e usar reservas para controlar a taxa de câmbio.




… Segundo ele, apelar a estas medidas seria como um “beijo da morte”, causaria pânico entre investidores estrangeiros e detentores de ativos, provocando fuga de capitais e o surgimento de mercados paralelos de dólar.




PROMETEU MUITO E ENTREGOU POUCO – Foi praticamente um aperto dovish a decisão do BoJ de subir os juros em 25 pontos-base, a 1,25%, maior nível desde 1995, porque o placar veio rachado (7 a 2) e Kazuo Ueda frustrou.




… Apesar de o presidente do BC japonês ter reconhecido o risco de a inflação subjacente superar a meta de 2%, ele condicionou novos movimentos da política monetária à evolução da economia, dos preços e condições financeiras.




… Para quem esperava que ele pudesse vir muito mais agressivo, não deixou de ser uma decepção, descontada no iene, que só conseguiu reduzir parcialmente o mau humor com rumores de possível intervenção no câmbio.




… Ainda assim, o iene caiu forte (-0,50%), para 156,75 por dólar. Desde o estouro da guerra no Oriente Médio, no final de fevereiro, a inflação ganhou o atual contexto como o maior driver a ser administrado pelos grandes BCs.




… Em entrevista neste domingo à Fox News, o Fed boy Neel Kashkari advertiu que as pressões inflacionárias vão além dos preços do petróleo e que, mesmo excluindo energia e alimentos, a inflação continua rodando muito alta.




… O colega Jeff Schmid concorda que a pressão é disseminada entre bens e serviços, não apenas energia, e que os indicadores recentes apontam inflação acima de 3%, o que justifica o aperto promovido pelo Fed semana passada.




… Também no BCE, o vice-presidente, Boris Vujcic, disse que a precificação dos juros está sendo impulsionada principalmente pela alta de energia, porém, não seria aconselhável concentrar-se exclusivamente nesse fator.




… Outro integrante do Banco Central Europeu, Martins Kazaks afirmou que a taxa de juros de 2,75% representa um território restritivo, mas reconheceu que a instituição “pode ir além disso” se as perspectivas econômicas exigirem.




… O euro registrou alta de 0,10%, a US$ 1,1488, e a libra esterlina ganhou 0,28%, cotada a US$ 1,3396.




… De pouco adiantou o petróleo ter caído na sexta, porque continuou nos três dígitos e reforçou a convicção de que o Fed pode ter que se manter na direção atual para combater as pressões inflacionárias perigosamente altas.




… Na visão da Stifel Economics, serão necessários mais do que dois aumentos de juros para garantir o retorno à meta. Neste cenário mais restritivo, as taxas da Note de dez anos voltaram a superar 5%, a 5,005% (contra 4,929%).




CREO EN BRUJAS – As bolsas em Nova York monitoraram a retomada da trajetória de alta dos Treasuries e as preocupações com a política monetária japonesa, mas oscilaram em margem estreitas, sem cautela mais intensa.




… O triple witching, vencimento simultâneo de três tipos de contratos, pode ter justificado a postura moderada. O Dow Jones caiu 0,18% (51.682,64 pontos); S&P 500, +0,17% (7.650,50 pontos); e Nasdaq, +0,39% (26.522,55 pontos).




… Também o Ibovespa não operou no susto, apesar de ter assumido alguma dose defensiva antes das próximas pesquisas eleitorais e de olho no comportamento dos juros dos Treasuries e desdobramentos da guerra.




… O alívio do petróleo desvalorizou a Petrobras (ON -1,09%, a R$ 53,41; e PN -0,23%, a R$ 48,50) e contribuiu para que o Ibovespa caísse 0,41%, aos 185.229,17 pontos, com giro de R$ 26,8 bilhões turbinado pelo exercício de opções.




… Vale (-1,53%; R$ 73,37) também colaborou para manter a bolsa no vermelho. Segundo o Broadcast, os custos de frete entre os Brasil-China chegaram a cerca de US$ 42 por tonelada e respingam sobre os papéis da mineradora.




… A própria empresa avalia que cerca de 120 milhões de toneladas de minério podem ficar economicamente inviáveis nas condições atuais, segundo relatos do Citi, após reunião com o CEO da Vale, Gustavo Pimenta.




… Para o Itaú BBA, a Vale está bem protegida no curto prazo, mas a cobertura cai de forma relevante em 2028.




… Entre as blue chips financeiras, Santander unit caiu 3,47% (R$ 29,47), Bradesco PN recuou 0,88% (R$ 17,99) e Itaú PN devolveu 0,59% (R$ 42,33), ao passo que BB ON avançou 1,84% (R$ 23,20) e BTG unit ganhou 0,43% (R$ 61,40).




CIAS ABERTAS NO AFTER – PETROBRAS negou impacto socioambiental direto da exploração na Foz do Amazonas, após MPF pedir suspensão imediata da licença de perfuração até cumprimento de medidas em comunidades…




… Petrobras informou que recebeu R$ 448 milhões em subvenção à gasolina e acumula R$ 9,9 bilhões em repasses para combustíveis. Conselho também aprovou adesão à nova subvenção de R$ 1 por litro de diesel…




… TCU julga na próxima quarta-feira, em sessão extraordinária e reservada, política de preços da Petrobras.




VIBRA fechou contrato de R$ 1,28 bilhão com a Inpasa Agroindustrial para fornecimento de etanol hidratado.




SABESP fará emissão de R$ 59,5 milhões em debêntures, com prazo de 1.778 dias e remuneração de 6,3% ao ano. Recursos financiarão projetos elegíveis ao Eco Invest Brasil.




ANEEL revisou a projeção de alta das contas de energia deste ano, de 8,6% para 9,4%.




TIM. Poste Italiane tornou-se controladora indireta da companhia após passar a deter cerca de 66,63% da Telecom Italia por meio de OPA.




PORTO pagará R$ 333,4 milhões em JCP, equivalentes a R$ 0,520657 por ação. Papéis ficam ex em 24/9 e pagamento será feito até abril de 2027.




FLEURY antecipou de 2/10 para 28/9 o pagamento de R$ 217,8 milhões em JCP, equivalentes a R$ 0,4007 por ação.




NATURA firmou parceria com a Aviva para abrir um spa da marca Ekos na Costa do Sauípe, na Bahia, com inauguração prevista para outubro. Será o segundo projeto da companhia no segmento de spas.




CYRELA. Invesco elevou participação para 5,01% das ações ON, equivalente a 19,2 milhões de papéis.




IGUATEMI. Fundos geridos pela Azvalor passaram a deter 18 milhões de units, equivalentes a 10,62% do capital.




TOTVS pagará R$ 85 milhões em JCP, equivalentes a R$ 0,15 por ação. Pagamento será em 8/10. Ex em 24/9.




POSITIVO fará emissão de R$ 120 milhões em notas comerciais, com prazo de dois anos e remuneração de DI + 1,35%. Recursos serão usados para refinanciar passivos.




MARCOPOLO. Goldman Sachs reduziu participação de 5,91% para 4,38% das ações PN.




PARANAPANEMA. João Carlos Correa de Vargas elevou participação para 27,84% do capital e tornou-se o maior investidor individual da companhia.

Bankinter Matinal Portugal



Análise Bankinter Portugal




NY +0,2% US tech +0,7% US Semis +2,8% UE -1,4% Espanha -1,6% VIX 14,8% Bund 3,52%. T-Note 4,99%. Spread 2ª-10ª USA=+24pb B10A: ESP 3,99% PT 3,86% ITA 4,43% FRA 4,56% Euribor 12m 3,343% (futuro 12m 3,800%) USD 1,147 JPY 180,2/€ 157,1/$. Ouro 4.353$. Brent 102,1$. WTI 98,5$. Bitcoin +6,7% (81.518$). Ether +8,8% (2.664$).







:: SESSÃO. Parece que o petróleo retrocede um pouco, brincando com a fronteira dos 100 dólares por barril perante uma calma aparente entre os EUA e o Irão, portanto, as bolsas asiáticas sobem esta madrugada, especialmente a tecnologia na Coreia (+1,5%). O tom é de calma e as bolsas poderão subir um pouco (+0,5%), habituadas já às “yields fronteira”: T-Note 5%, Bund 3,50% e O10A Espanha 4%. O USD bastante apreciado (1,147) e o yen volta a depreciar-se (180,2/€ 157,1/$), o que demonstra que o efeito das intervenções é efémero. O tom parece menos




A polémica sobre a velocidade da IA simplesmente parece ter ficado suspensa, sem desenvolvimento, mas sem mais deterioração. Não há nenhuma conclusão, mas menos tensão. Contudo, um mercado um pouco menos tenso não significa necessariamente um mercado em alta, porque as fontes de incerteza (petróleo, obrigações e IA) permanecem ativas e poderão voltar a bloqueá-lo a qualquer momento. E não devemos esperar que a macro desta semana resolva a situação, porque se trata de indicadores de influência intermédia que provavelmente serão laterais: PMIs no mundo, IFO Clima Empresarial na Alemanha e 3 bancos centrais “periféricos” que repetirão taxas de juros (Suíça, Suécia e Noruega). Reunião Trump/Xi na quinta-feira, provavelmente com resultados de perfil baixo ou muito baixo.




Na realidade, além da imprevisibilidade do petróleo, as obrigações e a IA, a próxima referência previsível capaz de dirigir o mercado são os resultados corporativos 3T 2026 que começarão a ser publicados a 13 de outubro, com Goldman (Micron a 30 de setembro, porque termina o exercício em agosto). Espera-se que expandam +30% nos EUA, que é um ritmo mais do que respeitável. Principalmente ao ter em conta que vêm a bater amplamente as expetativas (no 2T, +53,4% vs. +24% esperado, por exemplo), portanto, parece razoável pensar que no 3T acontecerá algo parecido. Contudo, até que comecemos a ver esses números, teremos um mercado instável, inseguro e errático… provavelmente com bolsas laterais e a assentarem-se, à espera de que algo novo aconteça e a acostumarem-se a conviver cordialmente com umas yields das obrigações a longo prazo em torno dos “níveis-fronteira” comentados.




:: VÁRIOS: As eleições no 2 länder na Alemanha resultaram noutra vitória de AfD em Mecklembugo-Pomerania (1,9% população) e de Die Linke (antigos comunistas da RDA) em Berlim (4,5% população). Ucrânia ataca Moscovo com 1600 drones, com algum sucesso nas refinarias, mesmo em plenas eleições na Rússia, o que debilita a imagem de Putin e pode levar a uma intensificação da guerra. Japão fechado de segunda a quarta-feira.




:: CONCLUSÃO. Tom um pouco menos tenso, mas mercado submetido a elevada incerteza. Certamente irá subir um pouco hoje, mas continuaremos numa fase de espera de que algo mude ou que os resultados corporativos 3T animem um pouco a situação. O risco Ucrânia/Rússia é crescente e isso significa prémio de risco




FIM

sábado, 19 de setembro de 2026

Samuel Pessoa e Breno Altman (peguei da rede)

O economista liberal/ortodoxo Samuel Pessôa deu uma entrevista muito interessante a Breno Altman no programa 20 Minutos, do canal do YouTube Opera Mundi (ver link nos comentários).

As provocações de Pessôa me instigaram a fazer algumas reflexões e questionamentos sobre seus argumentos, os quais tento sintetizar abaixo:

Num primeiro momento, Breno Altman, bem municiado de argumentos heterodoxos, coloca Pessôa contra a parede, apresentando alguns números dos governos Lula 1 e Lula 2, os quais apresentavam a obtenção sucessiva de superávits primários em meio a uma grande expansão fiscal dos gastos federais, com taxa de juros estável e juros não muito elevados. Para contestar Altman, Pessôa argumenta que a macroeconomia "tem um problema de baixa qualidade em suas séries históricas" e que ele poderia chegar a conclusões totalmente diferentes apenas apresentando uma narrativa distinta.

Apesar de a "verdade absoluta" não ser uma categoria alcançável do ponto de vista epistemológico, sou persuadido por argumentos que defendem que a investigação científica é capaz de produzir conhecimento objetivo, baseado em pressupostos demonstráveis, métodos reproduzíveis e conclusões que podem ser teoricamente mais robustas do que outras. Nesse sentido, as conclusões que os programas de pesquisa heterodoxos vêm obtendo em macroeconomia, principalmente com a retomada da abordagem clássica do excedente (Sraffa) e sua articulação com o arcabouço pós-keynesiano/kaleckiano, superando o poder explicativo da abordagem neoclássica, parecem fazer com que o mainstream econômico "desista da macroeconomia" em prol de uma microeconomia institucionalista baseada em experimentos quase naturais. O pior é que a ortodoxia vem reiteradamente tratando a macroeconomia como um campo do discurso. É certo que o discurso está repleto de aspectos políticos e ideológicos, mas isso não faz com que sua objetividade seja perdida.

Ao tratar a macroeconomia como um campo da economia suscetível ao discurso, Pessôa parte para a microeconomia institucional e alega que os resultados positivos do período "Palocci" (1994-2005) são frutos das reformas liberais. Novamente, vemos aqui os milagrosos efeitos das "defasagens eternas" dos tucanos. Daqui a 50 anos, o que estiver dando certo na economia será fruto das "reformas liberais dos anos 1990", e o que estiver dando errado será consequência de alguma mudança nesse arcabouço. Nisso, Pessôa não nega suas origens e se apresenta como uma das garças de alta plumagem mais aguerridas.

Em outra passagem, Pessôa tenta mostrar que as "mudanças" feitas em Lula 2 e Dilma 1 geraram uma situação de insustentabilidade que resultou na crise de 2015-2016. Ele não ponderou o fato de que houve uma expressiva mudança de agenda econômica entre Lula 2 e Dilma 1. Dilma já iniciou seu governo com um forte ajuste fiscal em 2011 e, depois, buscou implementar uma fracassada agenda de "aliança com o empresariado paulista". Ela apostou em PPPs em vez de investimentos públicos diretos (o setor privado não veio), apostou no Programa de Sustentação de Investimentos (PSI), que concedeu fortes subsídios ao setor privado, em vez de utilizar o poder do gasto público como componente da demanda agregada; adotou a contenção das tarifas de energia em um período de forte seca e, incrivelmente, acreditou que as estatais de energia controladas pelo PSDB iriam cooperar (CESP, COPEL e CEMIG), o que obviamente não ocorreu e criou um grande descasamento contratual no setor elétrico, com preços atingindo picos históricos e empresas eletrointensivas deixando de investir para utilizar suas infraestruturas elétricas na venda de energia. Sem contar a pedalada fiscal e a redução da taxa de juros via bancos públicos, que também encontraram seus limites devido às amarras jurídicas do orçamento federal e à frustração de receitas tributárias em decorrência do "ajuste fiscal rudimentar". A cereja do bolo foi a Operação Lava Jato, que travou toda a cadeia produtiva do setor de óleo e gás no Brasil. Enfim, sem considerar esses "detalhes", fica fácil afirmar que a crise de 2015-2016 foi culpa do Lula 2. Veja no gráfico G1 o comportamento do orçamento estrutural a partir de 2011.[1]

Para Pessôa, o que limita a economia brasileira a crescer mais é sua baixa poupança. Ele destaca que, quando fala em "baixa poupança", não está se referindo à poupança financeira (que resulta do financiamento via crédito, ou seja, que não exige economia prévia). Porém, ele não define claramente o conceito de poupança que utiliza. O que fica implícito é que se trata do conceito moral ou "técnico" de poupança como economia de recursos. Nesse contexto, a baixa poupança causaria taxas de juros elevadas, inviabilizando níveis mais altos de investimento. Assim, qualquer expansão do gasto acima do nível de equilíbrio geraria inflação, pois a economia estaria operando próxima do pleno emprego.

Nesse momento, Altman faz contra-argumentações utilizando os exemplos chinês e japonês. A China realiza elevados investimentos, ampliando sua capacidade produtiva, e o Japão apresenta um grande volume de dívida pública em relação ao PIB sem enfrentar problemas inflacionários ou restrições financeiras para o pagamento dessa dívida, uma vez que ambas as economias possuem dívidas denominadas em suas próprias moedas.
Pessôa então invoca, com uma nova roupagem, o velho mito da "dona de casa suábia", que economiza recursos para poder consumir posteriormente. Ele retoma esse mito a partir de um argumento culturalista, alegando que China e Japão investem muito porque "poupam muito".

Aqui cabe esclarecer algumas questões.

Na China, os investimentos em infraestrutura que impulsionam a economia são realizados por fundos de investimento municipais e provinciais, que captam recursos por meio de depósitos à vista ou da emissão de títulos junto aos cinco grandes bancos comerciais estatais chineses, os quais, por sua vez, estão vinculados ao mercado monetário chinês. Ou seja, quando um banco comercial chinês financia um fundo municipal ou provincial, ele cria moeda via crédito, pois os bancos não precisam recolher compulsório de imediato quando concedem empréstimos. Eles têm prazo para fazê-lo. Por outro lado, esses empréstimos acabam acessando as operações compromissadas (repos) do Banco Popular da China (PBoC).

Já o Japão, além de contar com a atuação do Banco do Japão (BoJ) na compra de títulos emitidos pelo Tesouro tanto no mercado primário quanto no secundário, também busca influenciar as taxas de juros de longo prazo por meio de compras periódicas, mesmo após o recente encerramento formal da política de Controle da Curva de Rendimentos. Ou seja, parte significativa da poupança japonesa deriva do próprio balanço do BoJ, e não exclusivamente da "economia dos lares". Além disso, as baixas taxas de juros japonesas faziam com que agentes tomassem empréstimos em ienes, convertessem-nos em dólares e investissem em títulos do Tesouro dos Estados Unidos, que ofereciam juros mais elevados. Novamente, a poupança japonesa emerge do crédito bancário e não da "economia dos lares".

Pessôa também argumenta que essa disponibilidade de "poupança" no Japão e, particularmente, na China permite fomentar investimentos capazes de elevar a produtividade. Ele reforça que investimentos em "capital humano" seriam a principal explicação para esses ganhos de produtividade.

A produtividade macroeconômica deriva da relação capital-produto, particularmente da composição do estoque de capital fixo em infraestrutura, máquinas e equipamentos. Esse estoque permite ao trabalho humano apropriar-se de fontes de energia e materiais que são aplicados em toda a economia, possibilitando a produção de um produto social suficiente para repor o estoque de capital, sustentar a força de trabalho e gerar excedente econômico. É a capacidade de apropriação de fontes de energia nos setores produtores e sua posterior aplicação nos setores consumidores que possibilita o aumento da força produtiva do trabalho. A educação afeta esse processo, mas de forma marginal. O acesso à energia e às matérias-primas por meio do estoque de capital fixo é o principal responsável por avanços significativos da produtividade. Observe, no gráfico da relação capital/produto, como, entre 1970 e 1983, essa relação aumentou, principalmente em razão dos investimentos em energia e infraestrutura realizados nos anos 1970. [2]

Pessôa também parte do princípio de que as medidas de PIB potencial utilizadas pelo mainstream econômico são razoáveis. Porém, conforme reproduzi em outros posts, essas medidas são, grosso modo, médias móveis que não guardam boa relação com a inflação. No gráfico de PIB potencial que apresento abaixo, é possível observar que o PIB potencial baseado na Lei de Okun, além de ser maior, apresenta comportamento mais realista. Por exemplo, durante a pandemia, nos períodos de lockdown, o PIB potencial calculado pela IFI apresentou uma redução relativamente modesta, enquanto a estimativa baseada na Lei de Okun mostrou uma queda bem mais pronunciada e plausível.

A baixa taxa de desocupação brasileira ainda não constitui uma limitação relevante ao PIB efetivo, pois há considerável subocupação por insuficiência de horas trabalhadas e força de trabalho potencial ainda disponível para ser incorporada ao mercado. Portanto, a previsão de que o PIB sofrerá severas limitações no próximo mandato, conforme argumenta Pessôa com base na baixa taxa de desocupação, não parece particularmente crível.

Há outros pontos a discutir, mas o vídeo já era muito longo, assim como este post.

0ESP




O risco de anulação do caso Master

O caso Master corre o risco de ser destruído não pela inexistência de crimes, mas pela guerra política instalada dentro do Supremo Tribunal Federal. As investigações estão divididas entre André Mendonça e Flávio Dino, hoje representantes de grupos antagônicos na Corte. Essa disputa pode contaminar procedimentos, provocar nulidades e permitir que Daniel Vorcaro e as autoridades supostamente beneficiadas por seus negócios escapem pela porta dos fundos do formalismo jurídico.

Os sinais são preocupantes. Dias Toffoli, primeiro relator do caso, deixou a função após a revelação de possíveis conflitos de interesse, mas decisões tomadas durante sua relatoria poderão ser questionadas. Agora, Edson Fachin suspendeu investigações conduzidas por Mendonça até que o STF resolva sua crise interna. Quanto mais o processo permanece paralisado e fragmentado, maior o risco de que erros processuais sejam posteriormente utilizados para invalidar tudo.

Foi essencialmente esse o roteiro que levou à chamada “descondenação” de Lula. As condenações não foram anuladas porque o STF declarou sua inocência, mas por decisões sobre competência territorial e imparcialidade judicial. Naquela ocasião, o mesmo movimento aconteceu de maneira menos ostensiva, construído nos bastidores dos gabinetes e por meio de uma sucessão de decisões processuais. O resultado político foi transformar condenados em vítimas, enfraquecer a Lava Jato e devolver ao poder personagens que haviam sido alcançados pelas investigações.

A consequência institucional foi ainda mais grave: a explosão da ousadia dos canalhas. Quando poderosos percebem que crimes, provas e confissões podem ser soterrados por nulidades produzidas pelo próprio sistema, o risco deixa de funcionar como freio. O caso Master não pode repetir esse roteiro. As investigações precisam ser imediatamente retomadas, preservadas tecnicamente e conduzidas até o fim. Caso contrário, o Brasil confirmará a pior de suas mensagens: para quem possui dinheiro, influência e acesso aos gabinetes certos, o processo não serve para fazer justiça — serve para fabricar impunidade.

Fernando Schuller

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