terça-feira, 28 de abril de 2026

BDM Matinal Riscala

 *Bom Dia Mercado*


Terça Feira,28 de Abril de 2.026.


*IPCA-15 testa o Copom sob pressão da guerra*


O dia será, ainda, movimentado pela expectativa com o balanço de Vale, após o fechamento


… Na primeira de uma série de decisões de política monetária da semana, o BoJ manteve o juro no Japão em 0,75% nesta terça-feira, conforme o esperado. Mas a decisão foi dividida (6 x 3), com os dissidentes defendendo um aperto monetário, em meio ao impasse na guerra entre Estados Unidos e Irã, que pressiona o petróleo e eleva os riscos inflacionários. Amanhã, também o Fed deve estender a pausa, enquanto aqui o mercado está com a aposta fechada em um corte mais moderado no Copom, de 0,25pp. Na agenda, o IPCA-15, às 9h, pode ampliar a cautela se surpreender negativamente. O dia será, ainda, movimentado pelos dados da arrecadação, expectativa com o balanço de Vale, após o fechamento, e repercussão dos resultados de Gerdau, que subiu no after hours em Nova York.


O DRIVER ANTES DO COPOM – O IPCA-15 de abril deve marcar uma inflexão relevante na dinâmica inflacionária, com alta mediana de 0,98%, após 0,44% em março, segundo o Projeções Broadcast. O avanço reflete, em grande medida, a pressão dos combustíveis.


… Em meio ao choque de energia provocado pela guerra no Oriente Médio, a expectativa é de que a gasolina tenha papel central na aceleração do índice, mesmo sem reajustes formais da Petrobras, em um ambiente de petróleo acima de US$ 100/barril.


… Ao mesmo tempo, a inflação deve ganhar tração em itens de alimentação, combinando fatores sazonais com o encarecimento do transporte, o que reforça a percepção de que o conflito, que está prestes a completar dois meses, começa a se espalhar pela economia.


… O dado deve vir acompanhado de uma piora qualitativa, com aceleração dos núcleos de inflação, cuja mediana deve subir de 0,35% a 0,44%.


… Esse movimento indica maior persistência inflacionária e reduz a leitura de que a alta recente se trata apenas de um choque pontual, elevando o risco de efeitos de segunda ordem. O pano de fundo ganha ainda mais relevância às vésperas da decisão do Copom.


… Apesar da aposta amplamente majoritária de que o Copom voltará a cortar a Selic em 0,25 ponto porcentual, para 14,50%, a expectativa dos economistas é de manutenção de um tom cauteloso, com o BC evitando qualquer compromisso com os próximos passos.


… Nesse contexto, um IPCA-15 mais pressionado tende a reforçar posições mais conservadoras para a condução da política monetária.


… Um resultado acima do esperado pode fortalecer a leitura de um comunicado mais duro, com piora no balanço de riscos para a inflação e ênfase na necessidade de cautela, reduzindo o espaço para sinalizações de aceleração no ritmo de cortes nas próximas reuniões.


… Nesta segunda-feira, os juros futuros negociados na B3 seguiram avançando, acompanhando de perto a alta do petróleo e a abertura da curva dos Treasuries americanos. A guerra no Oriente Médio segue como principal fator do movimento.


… Causou preocupação nova rodada de deterioração das expectativas inflacionárias no boletim Focus. A projeção mediana para 2026 subiu pela sétima semana consecutiva, de 4,80% a 4,87%, afastando-se ainda mais do teto da meta perseguida pelo BC, de 4,5%.


… A previsão para 2027 avançou a 4%, de 3,99%, e a de 2028 passou de 3,60% para 3,61%.


… A guerra no Oriente Médio também deve aparecer nas justificativas do Fed e dos demais bancos centrais – BoE e BCE na quinta-feira – para sustentar a cautela, com os formuladores avaliando o impacto da crise de energia nos preços e no crescimento.


MAIS AGENDA – O dia traz também a divulgação da arrecadação federal de março, às 11h, que deve somar R$ 229,75 bilhões, segundo a mediana do Projeções Broadcast, após registrar R$ 222,1 bilhões em fevereiro.


… O resultado deve refletir uma atividade ainda resiliente, mesmo com sinais de moderação na margem, e o reforço de receitas como o IOF.


… Economistas destacam que o desempenho da arrecadação segue sustentado pela dinâmica da economia doméstica e por mudanças recentes na base fiscal, enquanto o choque de energia já começa a aparecer nas receitas não administradas, especialmente via royalties do petróleo.


… No exterior, com agenda mais esvaziada, o destaque fica para a confiança do consumidor nos Estados Unidos, medida pela Conference Board, que deve recuar na margem, em linha com a deterioração recente do sentimento, diante da inflação ainda elevada e da incerteza geopolítica.


… Na China, o mercado acompanha reunião do Comitê Permanente da Assembleia Popular Nacional, em meio a sinais ainda mistos da atividade.


SEM NOVIDADES –O noticiário da guerra no Oriente Médio entrou em compasso de espera, mas o impasse nas negociações entre Estados Unidos e Irã segue como principal vetor para os mercados financeiros em todo o mundo.


… A proposta de Teerã para reabrir o Estreito de Ormuz foi descartada por Washington, que mantém como linha vermelha a questão nuclear, travando qualquer avanço mais concreto nas tratativas.


… Apesar da falta de evolução, mediadores ainda trabalham nos bastidores com uma janela considerada crucial nos próximos dias, em um processo que passaria primeiro pela reabertura do estreito e só depois avançaria para temas mais complexos.


… O risco de ruptura, no entanto, permanece no radar, incluindo a possibilidade de um novo escalonamento do conflito.


… No campo militar, a tensão se mantém elevada, mesmo com a trégua formal em vigor, reforçando a leitura de um conflito sem desfecho claro no curto prazo. A marca de quase dois meses de conflito pressiona o governo Trump dentro dos limites da Lei de Poderes de Guerra.


BALANÇOS –A temporada de resultados ganha tração nesta terça-feira, com Vale, Hypera e Neoenergia na B3, após o fechamento.


… No caso da mineradora, a expectativa é de um primeiro trimestre mais forte, apoiado por desempenho operacional acima do esperado, com avanço relevante de lucro e Ebitda na comparação anual, ainda que sob pressão de custos mais elevados, incluindo câmbio e combustíveis.


… O lucro líquido (atribuível) deve ficar em US$ 2,51 bilhões, ante US$ 1,39 bilhão de igual período de 2025, com variação positiva de 80,5%, de acordo com a média de estimativas de analistas de casas consultadas pelo Broadcast.


… O Ebitda proforma deverá ser de US$ 4,03 bilhões, 25,5% maior que os US$ 3,21 bilhões em 2025. As receitas líquidas devem alcançar US$ 9,47 bilhões, 16,6% superiores aos US$ 8,12 bilhões apresentados um ano antes.


… O resultado da Vale também será acompanhado de perto como termômetro para commodities e atividade global, em um momento em que o mercado tenta equilibrar o impacto da alta do petróleo com sinais ainda mistos da economia internacional.


… Ontem à noite, a Gerdau reportou lucro acima de R$ 1 bilhão no primeiro trimestre, com crescimento anual expressivo, embora abaixo das estimativas. O Ebitda superou a previsão e a reação positiva dos ADRs no after hours sugere leitura construtiva da ação na bolsa.


… No exterior, a temporada avança com resultados de Barclays, BP, GM, Airbus e Visa, em uma semana particularmente relevante para as bolsas globais, que entram nesse período tentando sustentar níveis elevados em meio à pressão dos juros e ao aumento da incerteza.


… A expectativa é para as big techs amanhã – Apple, Microsoft, Alphabet e Amazon – e Meta na quinta-feira.


DESENROLA 2.0 –A proposta do governo para uma nova rodada do programa de renegociação de dívidas gerou reação no mercado, com piora das ações de bancos, à medida que investidores passaram a incorporar possíveis impactos sobre margens e rentabilidade do setor.


… Para alguns analistas, a leitura é de que, embora o programa possa melhorar a qualidade do crédito no médio prazo, ele tende a impor custos no curto prazo às instituições. Itaú PN caiu 0,86%; Bradesco PN, -0,95%; BTG -0,61%; e BB -0,84%.


… O Desenrola 2.0 deve ser anunciado ainda nesta semana pelo presidente Lula e prevê descontos de até 90% nas dívidas, além da possibilidade de uso do FGTS para quitação, conforme iniciativa alinhada pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, com os principais bancos.


… O foco estará em dívidas de cartão de crédito, crédito pessoal e cheque especial, com redução relevante das taxas de juros nas renegociações.


… Em um ambiente de juros ainda elevados, o programa entra no radar como medida de estímulo ao consumo, mas adiciona ruído ao setor financeiro no curto prazo, ao mesmo tempo em que reforça a tentativa de equilibrar atividade e custo do crédito.


CURTAS DA POLÍTICA – Lula recebe hoje, às 9h30, o ministro Dario Durigan para fechar o programa Desenrola 2.0. À tarde (16h), o presidente assina o decreto de promulgação do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, em evento no Palácio do Planalto.


… No Senado, o governo atua para consolidar margem de segurança na indicação de Jorge Messias ao STF, em meio a preocupações com eventuais dissidências no Senado. A votação está marcada para amanhã, quarta-feira (29), na CCJ.


… A estratégia passa pela negociação de emendas e mudanças na composição de Comissão, onde governistas estimam cerca de 16 votos, apenas dois acima do necessário. No plenário, a margem também é estreita, com cerca de 44 votos favoráveis contra 41 necessários.


… AtlasIntel divulga hoje nova pesquisa de intenção de voto para a disputa presidencial.


O RUIM PODE SER PÉSSIMO – Profissional disse ao Broadcast que, se o IPCA-15 vier pior que o imaginado, o impacto no sentimento do mercado deve ser muito negativo. Já um resultado bom, calcula, teria efeito relativamente neutro.


… Diante do choque energético, o mercado duvida muito que a prévia da inflação possa trazer uma surpresa de alívio, e o investidor já tratou ontem de sofrer de véspera e se preparar antecipadamente para a pressão do dado.


… O petróleo novamente acima de US$ 100 e a alta das taxas do Treasuries ajudaram a sustentar prêmios de risco expressivos nos juros futuros, enquanto a piora das expectativas no boletim Focus confirmou a tensão inflacionária.


… Já estava precificado o novo ajuste para cima (o sétimo seguido) na mediana das apostas para o IPCA deste ano. Mas o desconforto com a inflação se estendeu, porque também o horizonte mais longo voltou a apontar alta.


… Mais duas casas soltaram relatórios ontem elevando as estimativas para a inflação deste ano. O PicPay, que esperava 3,7%, puxou bastante a sua aposta, para 4,7%, resultado que agora estoura o alvo central fixado pelo CMN.


… A mudança de cenário responde à escalada do petróleo, que tem se mostrado mais persistente. Diante da incorporação deste quadro pior, o PicPay também revisou a projeção para a Selic no fim do ano, de 12% para 13%.


… Ainda o Banco Inter passou a projetar inflação acima do limite do intervalo de tolerância, em 4,9%, contra 4,3% anteriormente, e também elevou a previsão para a taxa básica de juros no final deste ano, de 12,50% para 12,75%.


… No ambiente mais desafiador, o DI para Janeiro de 2027 marcou 14,135% (de 14,104% no ajuste anterior); Jan/28, 13,760% (contra 13,643%); Jan/29, 13,615% (de 13,480%); Jan/31, 13,635% (13,517%); e Jan/33, 13,690% (13,590%).


… O investidor prepara o espírito para um comunicado mais conservador do Copom amanhã, com a guerra que não acaba. O Citi reforçou sua visão altista para o petróleo Brent nos próximos três meses, com preço-alvo de US$ 120.


… O barril para julho começou a semana subindo 2,58% e voltou a romper os US$ 100, valendo US$ 101,69. A diplomacia não funcionou até agora, no fracasso que tem levado o conflito a durar tempo demais para o mercado.  


… Neste contexto, apesar da convicção de que o Fed não vai subir o juro amanhã, as taxas dos Treasuries subiram, porque a bomba da inflação continua armada, diante do impacto nos preços do impasse nas negociações com o Irã.


… O rendimento da Note de dois anos avançou para 3,798% (de 3,778%) e o de dez anos, a 4,337% (de 4,304%).


O TRUNFO DO CÂMBIO – Dois fatores garantiram ontem que o dólar não estressasse junto com os juros futuros.


… A alta do petróleo, que favorece as moedas de países produtores, teria colaborado para o fortalecimento do real. Mais importante do que isso, o diferencial de juros entre o Copom e o Fed ainda continuou fazendo a diferença.


… A Selic vai cair amanhã, mas tão pouco (por causa do petróleo), que o investidor tende a continuar faturando alto com o carry trade, até porque, em paralelo, o Fed não tem perspectiva de iniciar o ciclo de corte dos juros tão cedo.


… Não foi muito o que o dólar caiu ontem, mas foi o suficiente para continuar abaixo da marca simbólica dos R$ 5 pelo segundo pregão seguido. Fechou em baixa de 0,32%, cotado a R$ 4,9821, em semana de briga da ptax.


… Lá fora, a moeda americana ficou praticamente estável, travada pelo impasse do diálogo com o Irã. O índice DXY teve queda inexpressiva de 0,03%, a 98,496 pontos. O euro subiu para US$ 1,1724 e a libra não saiu de US$ 1,3536.


… O iene caiu para 159,42 por dólar, horas antes de o BC japonês optar por não mexer na política monetária.


… As incertezas sobre a guerra no Irã e os receios de que a inflação continue rodando cada vez mais alta por aqui por causa do petróleo induziram o Ibovespa a completar uma sequência de quatro perdas e entregar os 190 mil pontos.


… O índice à vista da bolsa doméstica fechou em baixa de 0,61%, na mínima intraday, de 189.578,79 pontos. O giro ficou bem abaixo do usual, em R$ 20,6 bilhões. Na véspera do balanço, Vale recuou 0,43%, negociada a R$ 85,50.


… Petrobras (PN, +0,45%, R$ 47,37; ON, +0,34%, R$ 52,42) teve alta tímida comparada à alta de 2,5% do Brent.


… Em Nova York, como as bolsas já estão no high, qualquer dose de otimismo, por menor que seja, leva o S&P 500 e o Nasdaq a renovarem os seus recordes históricos de fechamento, como voltou a acontecer neste início de semana.


… Além de manter o radar da guerra ligado, Wall Street tem para enfrentar o teste dos balanços: cinco da sete magníficas divulgam os seus resultados esta semana. A agenda importante será ainda movimentada pelo PCE.


… Com alta de só 0,12%, o S&P 500 estabeleceu a máxima inédita dos 7.173,91 pontos. O Nasdaq fechou no pico de 24.887,10 pontos, com avanço modesto de 0,20%. Já o Dow Jones fechou em queda de 0,13%, a 49.168,04 pontos.


CIAS ABERTAS NO AFTER – PETROBRAS fechou acordo para aquisição de 100% de parte do Campo de Argonauta, na Bacia de Campos, por R$ 700 milhões, mais US$ 150 milhões, em três parcelas.


GERDAU teve lucro líquido de R$ 1,013 bilhão no 1TRI26, alta de 33,6% na comparação anual, mas 16% abaixo do esperado no Broadcast. Ebitda somou R$ 2,958 bilhões (+23,2%) e receita foi de R$ 16,716 bilhões (-3,8%)…


… A empresa informou que pagará R$ 354,1 milhões em dividendos (R$ 0,18 por ação). Ex em 14/05. A companhia ainda aprovou cancelamento de 7,380 milhões de ações PN e 225 mil ON, sem redução do capital.


METALÚRGICA GERDAU teve lucro líquido ajustado de R$ 1,012 bilhão no 1TRI26 (+33,8%), com receita de R$ 16,7 bilhões (-3,8%) e Ebitda de R$ 2,9 bilhões (+23,3%)…


… A companhia aprovou programa de recompra de até 10 milhões de ações PN, equivalente a cerca de 1,2% dos papéis em circulação, com prazo de até 18 meses a partir de hoje.


EMBRAER. A carteira de pedidos alcançou US$ 32,1 bilhões no primeiro trimestre deste ano, alta de 22% na comparação com o mesmo período do ano passado. Segundo a companhia, foi o sexto recorde histórico.


SABESP votará hoje desdobramento de ações na proporção 1:5 em AGE; ex amanhã.


ASSAÍ reportou lucro líquido de R$ 86 milhões no primeiro trimestre de 2026, queda de 46,7% na comparação anual. O resultado ficou 36,2% abaixo da média das estimativas de seis bancos consultados pelo Broadcast…


… Por outro lado, o Ebitda ajustado de R$ 1,02 bilhão e a receita líquida de R$ 18,6 bilhões vieram em linha…


… Assaí aprovou programa de aquisição facultativa de debêntures de até R$ 200 milhões, para manutenção em tesouraria e posterior cancelamento.


COGNA pagará R$ 28,560 milhões em dividendos (R$ 0,0142 por ação). Ex hoje.


GOL deve pedir ingresso como terceira interessada em processo do Cade que analisará o aporte da American Airlines na Azul, segundo fontes do Broadcast.


SÃO MARTINHO aprovou emissão de debêntures de R$ 1,1 bilhão.


ENGIE pagará R$ 657,7 milhões em proventos (R$ 0,0875 em JCP e R$ 0,4882 em dividendos). Ex em 05/05…


… A empresa ratificou a aquisição do controle da Companhia Energética do Jari e estuda operação envolvendo fatia da EBP na Jirau Energia.


CEMIG foi incluída no índice Dow Jones Best in Class Index pela 26ª vez. A companhia também aderiu à repactuação de UBP das usinas Irapé e Queimado, com pagamento de R$ 14,162 milhões.


BRAVA antecipou pagamento de R$ 57,4 milhões em dividendos para 30/4, de 1/05 originalmente. O valor total corresponde a R$ 0,1236 por ação e será pago com base na data de corte de 20 de abril.


LIGHT. Tempo Capital reduziu participação para 4,48% do capital, de 5,51% anteriormente.


FERBASA. O diretor-presidente, Silvano de Souza Andrade, passará a acumular funções, depois de ter sido eleito para assumiu também como diretor financeiro e de relações com investidores da companhia.


INTERCEMENT. CVM aprovou cancelamento de registro de emissor de valores mobiliários categoria A.


AGIBANK captou R$ 2,5 bilhões em FIDC com prazo de 10 anos.


BIOMM. BRB passou a deter 25,86% do capital social da companhia após liquidação de fundo.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

BDM Matinal Riscala

 *Bom Dia Mercado*


Segunda Feira,27 de Abril de 2.026.


*Impasse no Oriente Médio pressiona supersemana*


A superquarta reúne Fed e Copom, enquanto BCE, BoE e BoJ também decidem juros nos próximos dias, no ambiente ainda contaminado pelo avanço do petróleo e riscos inflacionários


… A semana começa sob pressão para os mercados, com uma agenda carregada de decisões de política monetária, em meio ao agravamento do cenário geopolítico no Oriente Médio. A superquarta reúne Fed e Copom, enquanto BCE, BoE e BoJ também decidem juros nos próximos dias, no ambiente ainda contaminado pelo avanço do petróleo e riscos inflacionários. O calendário de indicadores é denso, com IPCA-15, IGP-M, arrecadação, Pnad e Caged no Brasil, além da primeira prévia do PIB/1TRI e do PCE de março nos Estados Unidos. A temporada de balanços ganha tração, com big techs em Nova York e Vale, Gerdau e Santander na B3 – tudo isso antes do feriado de 1º de Maio, na sexta-feira.


NEGOCIAÇÃO FRACASSA –A tentativa de retomada das negociações entre Estados Unidos e Irã no fim de semana fracassou antes mesmo de começar, desmontando a principal premissa de alívio que sustentou os mercados na sexta-feira.


… O encontro previsto em Islamabad não ocorreu, com o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, deixando o Paquistão e o presidente Donald Trump cancelando o envio de seus representantes, em mais um sinal de desencontro entre as partes.


… Mais do que um ruído pontual, o episódio explicita o impasse nas tratativas, com o Irã afirmando que não negociará sob pressão ou bloqueio, enquanto os Estados Unidos mantêm o cerco aos portos iranianos.


… O ambiente de desconfiança mútua trava qualquer avanço diplomático e reforça a leitura de que o conflito caminha para um horizonte mais prolongado, sem sinal claro de resolução.


… Nesse contexto, o Estreito de Ormuz segue como peça central da disputa, com Teerã tratando o controle da passagem como estratégia definitiva na guerra, enquanto forças americanas ampliam a presença militar na região.


… A interrupção do fluxo de petróleo, gás e insumos estratégicos continua pressionando a cadeia global e elevando o custo econômico do conflito, mesmo sob um cessar-fogo que, na prática, não resolve o impasse.


… A deterioração também se reflete em outras frentes da região.


… Apesar da trégua formal, Israel voltou a atacar o sul do Líbano no fim de semana após emitir alertas de evacuação, evidenciando a fragilidade dos acordos paralelos e o risco de novos focos de tensão no entorno do conflito principal.


… O mercado volta a encarar o Oriente Médio não como um episódio de escalada pontual, mas como uma crise prolongada, que deve manter elevados os prêmios de risco — especialmente no petróleo — e seguir contaminando as expectativas de inflação e o crescimento global.


FIM DE SEMANA – No sábado à noite, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi retirado às pressas de um jantar com jornalistas no hotel Washington Hilton, após disparos serem ouvidos no local. Não houve feridos, mas o evento foi cancelado.


… Informações do Serviço Secreto apontam que Trump seria o alvo do atirador, que foi preso e identificado.


SUPERSEMANA – A agenda concentra uma combinação de decisões de política monetária e indicadores relevantes no exterior e no Brasil, em um ambiente ainda pressionado pelo cenário geopolítico — e pelo petróleo — e pelos riscos inflacionários.


… O BoJ abre a sequência antes da superquarta, com a decisão na madrugada de terça-feira, enquanto Fed e Copom anunciam juros na quarta-feira, e BCE e BoE, na quinta. A expectativa é de manutenção das taxas em todos eles, com exceção do BC do Brasil (abaixo).


… Em paralelo, dados-chave de atividade e inflação estão previstos, como a primeira prévia do PIB/1TRI e o PCE nos Estados Unidos, além do IPCA-15 de abril. Nesse contexto, os mercados tendem a concentrar a volatilidade até o feriado de 1º de Maio.


… No início da semana, a agenda é mais leve, com destaque para a confiança do consumidor na Alemanha, hoje, e nos Estados Unidos, amanhã, enquanto no Brasil saem, pela manhã, o Boletim Focus (8h35) e os dados de crédito de março (8h30).


… Na terça-feira, a decisão do BoJ na madrugada é seguida pelo IPCA-15 de abril, que deve acelerar para 0,98% (Broadcast), e pela arrecadação de março no Brasil, com previsão de R$ 229,75 bilhões, além da confiança do consumidor do Conference Board nos Estados Unidos.


… A quarta-feira concentra a decisão do Fed, às 15h, seguida da coletiva de Jerome Powell, além do Copom no fim da tarde. Pela manhã, saem o IGP-M de abril, que deve repetir março em 0,52% (Broadcast), e o IPP. À noite, a China divulga seus índices PMI.


… Na quinta-feira, além das decisões de política monetária do BoE e do BCE, são destaques os resultados preliminares do PIB/1TRI na zona do euro e nos Estados Unidos, que têm ainda o PCE de março. No Brasil, saem dados fiscais, a taxa de desemprego do IBGE e o Caged.


… Na sexta-feira, com mercados fechados no Brasil pelo feriado de 1º de Maio, a agenda segue no exterior com indicadores de atividade nos Estados Unidos, como o PMI e o ISM industrial, encerrando a semana com potencial elevado de volatilidade.


WARSH – Comitê do Senado vota na quarta a indicação de Kevin Warsh para a presidência do Federal Reserve, após o Departamento de Justiça encerrar investigação sobre Jerome Powell, o que abre caminho para o avanço do nome indicado por Donald Trump.


BALANÇOS – A semana também é carregada na temporada do 1TRI, com destaque para as big techs em Nova York e nomes relevantes na B3, em um momento em que os resultados ganham peso adicional na sustentação dos ativos, diante do cenário macro mais incerto.


… Nos Estados Unidos, o foco está nas gigantes de tecnologia, com Alphabet, Microsoft, Amazon e Meta na superquarta-feira, além de Apple na quinta, em uma semana que também traz nomes como Visa, Qualcomm, Ford, Mastercard e Caterpillar.


… Os números das big techs são decisivos para testar a sustentação recente dos recordes em Nova York.


… Também divulgam balanços bancos como Santander e Deutsche Bank, além de empresas industriais e de energia, como BP, Airbus, Shell e Chevron, ampliando o peso da temporada no cenário global.


… Na B3, a semana é igualmente relevante, com balanços concentrados até quarta e destaque para Gerdau e Assaí hoje (após o fechamento), Vale e Neoenergia (amanhã) e Santander Brasil, Weg, Suzano, Multiplan e Hypera (quarta), e Irani (quinta).


… As prévias do Broadcast junto ao mercado indicam um trimestre forte para a Vale, com lucro estimado em US$ 2,51 bilhões e Ebitda ao redor de US$ 4 bilhões, refletindo o desempenho operacional acima do esperado no período.


… Para a Gerdau, expectativa de lucro de R$ 1,2 bilhão, alta de quase 60% na comparação anual, sustentada pela operação na América do Norte.


… Já o Santander Brasil deve apresentar um desempenho mais moderado, com lucro próximo de R$ 4 bilhões, em meio a uma postura mais cautelosa na concessão de crédito e ajustes internos, incluindo a transição de comando.


PETROBRAS – Divulgará seu relatório de Produção e Vendas referente ao primeiro trimestre de 2026 na quinta (30), após o fechamento.


… Segundo fontes ouvidas pelo Valor, a Petrobras deverá repassar aos clientes um reajuste de 18% no preço do querosene de aviação (QAV) a partir de sexta-feira (1º de maio), sob os impactos da guerra. O reajuste já teria sido comunicado aos clientes pelas distribuidoras.


… Será a terceira alta seguida do querosene de aviação: 9,4% em março e 54% em abril, com o QAV acumulando elevação de 99%.


… Ainda no front de combustíveis, o governo planeja elevar a mistura de etanol anidro na gasolina de 30% para 32%, medida que deve ser analisada pelo CNPE em 7 de maio e que busca reduzir a dependência de importações em meio à alta do petróleo provocada pela guerra.


… A proposta teria caráter temporário, com validade inicial de 180 dias, e poderia reduzir em cerca de 500 milhões de litros por mês a necessidade de compras externas, segundo estimativas do Ministério de Minas e Energia.


… Em paralelo, o governo prorrogou até 5/5 o prazo para Estados aderirem à subvenção ao diesel, que prevê subsídio de R$ 1,20 por litro.


SUPERQUARTA –As decisões do Fed e do Copom ocorrem em um ambiente mais complexo para a política monetária global, marcado por inflação resiliente, atividade ainda firme e, mais recentemente, pelo choque de energia provocado pela guerra no Oriente Médio.


… No caso do Fed, o consenso é de manutenção dos juros na faixa de 3,50% a 3,75%, com o mercado praticamente descartando mudanças nesta reunião e passando a discutir não mais o início dos cortes, mas a duração de uma política monetária restritiva.


… A precificação indica reduções marginais e tardias, em linha com o último “dot plot”, reforçando a tese de juros elevados por mais tempo.


… O avanço do petróleo adiciona uma camada extra de incerteza, ao elevar a inflação via energia e, ao mesmo tempo, ameaçar o ritmo da atividade global, colocando o Fed diante de um dilema mais complexo e com maior risco de erro de política.


… Nesse contexto, a coletiva de Powell ganha ainda mais peso, em meio à expectativa de que seja sua última à frente da autoridade monetária.


… No Brasil, o Copom decide a Selic no fim da tarde, com a maioria do mercado projetando um novo corte de 0,25 ponto, em um movimento de calibração, diante de um cenário que segue desafiador. Entre 37 instituições consultadas pela Agência Estado, 33 apostam nessa redução.


… A persistência da guerra e o petróleo próximo de US$ 100 reforçam a postura cautelosa do Banco Central, em um ambiente de expectativas de inflação pressionadas, ainda que o câmbio mais comportado ajude a mitigar parte desse impacto.


… O foco deve recair sobre o comunicado e o balanço de riscos, que podem indicar o ritmo dos próximos passos do ciclo de flexibilização.


CURTAS DA POLÍTICA – A semana em Brasília tem como destaque a sabatina de Jorge Messias na CCJ do Senado, na quarta-feira, para uma vaga no STF, com expectativa de votação no plenário (e aprovação do seu nome) no mesmo dia.


… No Congresso, o presidente Davi Alcolumbre convocou sessão para quinta-feira (30) para análise de vetos ao projeto da dosimetria aos condenados pelos atos de 8 de Janeiro, em uma pauta sensível, que pode ter repercussões políticas relevantes.


… Na última sexta-feira, Moraes concedeu prisão domiciliar a dezenas de presos com mais de 60 anos condenados pelos atos golpistas.


… Na Câmara, avança a PEC que propõe o fim da escala 6×1, com instalação de comissão especial e disputa em torno da relatoria, considerada um dos pontos mais sensíveis para o governo Lula, que apresentou um projeto de lei com o mesmo tema.


… O governo também deve lançar no feriado de 1º de Maio um novo programa de renegociação de dívidas, mirando famílias com renda mais baixa e buscando melhorar indicadores de popularidade.


… Em paralelo, o vice-presidente Geraldo Alckmin anunciou neste domingo, na Agrishow, uma nova linha de crédito de R$ 10 bilhões para a modernização do setor agrícola, enquanto prepara medidas para renegociação de dívidas rurais.


… No radar político-eleitoral, Genial/Quaest divulga na quarta-feira, 29, nova pesquisa sobre a corrida presidencial.


CAIXA DE PANDORA – O mercado não perdeu a esperança de que as reuniões em separado no fim de semana dos EUA e Irã com o Paquistão (que nem aconteceram) pudessem prosperar para um diálogo diplomático coletivo.


… Mas fora as bolsas americanas, que partiram para novos recordes históricos, porque se entusiasmaram com as gigantes de tecnologia, o alívio da maioria dos ativos globais foi moderado, em sinal de otimismo cauteloso.


… Tanto isso é verdade, que o petróleo Brent nem chegou a cair, ainda que tenha subido muito pouco, só 0,24%, a US$ 105,33. Terminou a semana com um rali acumulado de 16,5%, sem coragem para devolver os excessos.


… Aqui, a torcida por um acordo de paz levou o dólar a operar novamente abaixo dos R$ 5. Mas a queda da moeda americana foi tão modesta, de 0,11%, para R$ 4,9982, que também mal dá para dizer que o câmbio relaxou a tensão.


… Parece mais certo falar que preferiu não escalar o estresse, em clima de expectativa pelas novidades da guerra. 


… Depois de ter chamado o leilão simultâneo de swap reverso e venda de dólar à vista (“casadão, no jargão do mercado), o BC rejeitou todas as propostas, possivelmente avaliando que o mercado exagerou nos prêmios pedidos.


… Nesta última semana do mês, a volatilidade redobrada em torno da disputa da ptax entra em cena no câmbio.


… Lá fora, além de ter operado de olho no envio das delegações americanas e iranianas para Islamabad, o mercado cambial também repercutiu a chance de que Kevin Warsh seja confirmado em breve para o comando do Fed.


… Como se viu, o Departamento de Justiça americano decidiu encerrar a investigação sobre Powell e a reforma da sede do Fed, removendo o obstáculo que faltava para a provável confirmação de Warsh para a vaga na presidência.


… O sentimento é de que o sucessor de Powell imprima um viés mais dovish. O DXY caiu 0,24%, a 98,533 pontos, o euro subiu 0,30%, a US$ 1,1720, a libra ganhou 0,50%, a US$ 1,3533, e o iene se valorizou para 159,43 por dólar.


… Com o campo livre para Warsh assumir a cadeira no Fed, as taxas dos Treasuries caíram, ainda que o mercado considere improvável que o novo presidente americano opte por arriscar a credibilidade da política monetária.


… De qualquer maneira, ao longo de sua gestão, pode contribuir para dar uma marca menos conservadora do Fed.


… O yield da Note-2 anos recuou para 3,778%, contra 3,831% na véspera, e o de dez anos caiu a 4,304% (de 4,326%).


… A melhora da percepção de risco com as negociações presenciais no Paquistão também levou os juros futuros a devolverem por aqui uma pequena parte dos prêmios acumulados ao longo dos últimos dias de tensão com a guerra.


… No fechamento, o DI para Janeiro de 2027 marcava 14,095% (de 14,128% no ajuste anterior); Jan/28, 13,630% (contra 13,694%); Jan/29, 13,470% (de 13,547%); Jan/31, 13,495% (de 13,590%); e Jan/33, 13,560% (de 13,658%).


BANDEIRA AMARELA – Na sexta-feira, a Aneel confirmou as projeções que vinham circulando no mercado e acionou a bandeira tarifária amarela para maio, após o volume de chuvas dos reservatórios ter ficado abaixo da média.


… Os consumidores de energia elétrica terão custo adicional de R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos. Desde que o ano começou, a bandeira permanecia verde, tendo vista as condições favoráveis à geração de energia no País.


… A possibilidade de El Niño no segundo semestre do ano, com seu efeito no aumento das temperaturas e redução das chuvas no Norte e Nordeste do País, reforça a perspectiva de bandeiras tarifárias mais caras ao longo de 2026.


… A Terra Investimentos não se surpreendeu com a bandeira amarela e manteve a projeção do IPCA de 5,2% no ano.


ME INCLUAM FORA DESSA – Como os demais ativos domésticos, o Ibovespa também teve um pregão morno, com a diferença de que não acompanhou o alívio no dólar e nos juros futuros, e muito menos o impulso das bolsas em NY.


… Os novos recordes de lá foram seguidos por aqui à distância e, no pior momento, o Ibovespa chegou a perder os 190 mil pontos. A bolsa abre cada vez mais longe dos 200 mil pontos, que estiveram tão perto do alcance.


… O sonho ainda não acabou e a conquista desta marca inédita continua valendo nos prognósticos do ano.


… No curto prazo, porém, o que se vê é um refugo da bolsa, que engatou a terceira correção seguida, prejudicada pela Petrobras (PN -1,28%, a R$ 47,16; e ON -0,97%, a R$ 52,24) e pelos bancos. Só Itaú PN subiu: 0,43% (R$ 44,37).


… BB ON caiu 1,30% (R$ 22,70), Santander recuou 0,60% (R$ 29,68), Bradesco PN perdeu 0,25% (R$ 19,92) e BTG devolveu 0,13% (R$ 60,88), derrubando o Ibovespa em 0,33%, aos 190.745,02 pontos, com giro fraco, de R$ 25 bi.


… Às vésperas de seu balanço (amanhã), Vale caiu de leve (-0,12%; R$ 85,87), enquanto o minério subiu 0,19%. Usiminas abriu bem a temporada de balanços: saltou 5,55% (R$ 7,61). Os R$ 8 voltam ao target após quase dois anos.


… Em Nova York, nem bem a safra de resultados corporativos começou, e as bolsas já têm corrido livres.


… O que se comenta é que o mercado de ação continua sensível à guerra, mas a confiança em números positivos das empresas no primeiro trimestre ajuda a absorver os choques do conflito militar, que está difícil de se resolver.


… Meta e Amazon, que soltam balanços na quarta-feira, registraram fortes ganhos de 2,4% e 3,5%, respectivamente, no último pregão, depois de terem anunciado um acordo bilionário para o uso de chips de inteligência artificial.


… A controladora do Facebook e do Instagram também repercutiu bem a demissão de 10% de sua equipe.


… Intel saltou 23,64% com o balanço melhor do que o esperado e o guidance positivo para este segundo trimestre.


… O Nasdaq avançou 1,63%, a 24.836,60 pontos, e o S&P 500 subiu 0,80%, a 7.165,08 pontos, ambos renovando as suas máximas de fechamento de todos os tempos. Só o Dow Jones ficou de fora e caiu 0,16%, aos 49.230,71 pontos.  


CIAS ABERTAS NO AFTER – VALE formalizou a incorporação da Baovale Mineração para simplificar estrutura e reduzir custos. A Vale que já detém 100% das ações da Baovale, o que elimina a necessidade de emissão de novas ações.


BANCO DO BRASIL estima R$ 3 bilhões em propostas de crédito na Agrishow, que será realizada entre 26 de abril e 1º de maio, em Ribeirão Preto (SP).


BRB. Fachin suspendeu decisão que proibia venda de bens do DF para cobrir rombo do Master no banco.


BTG alertou clientes de contas internacionais sobre possível vazamento de dados após ataque hacker à parceira DriveWealth; banco afirma que não houve impacto em ativos, mas fará troca de números de contas.


RAÍZEN enviou proposta alternativa a credores para captação de R$ 2,5 bilhões a R$ 5 bilhões, que se somaria a R$ 4 bilhões com que a Shell e Rubens Ometto (presidente do conselho da Raízen) se comprometeram. (Bloomberg)


SUZANO confirmou captação de US$ 400 milhões com vencimento em 2033 e avanço em reestruturação de dívida.


ELDORADO captou US$ 400 milhões com vencimento em 2033 e avançou em reestruturação de dívida.


ENGIE pagará R$ 657,7 milhões em proventos (R$ 0,0875 em JCP e R$ 0,4882 em dividendos). Ex em 05/05. A empresa também ratificou a aquisição do controle acionário da Companhia Energética do Jari.


ENEL. Fitch rebaixou ratings de AAA(bra) para AA+(bra), com perspectiva negativa…


… Enel SP tenta reverter processo na Aneel que pode levar à caducidade da concessão. (fontes do Broadcast)


ISA ENERGIA. Axia afirmou em formulário 20-F que há 16 ações que contestam privatização da companhia.


SABESP avalia incorporar a totalidade das ações da EMAE que ainda não possui, que viraria subsidiária integral. O preço da ação da EMAE em OPA unificada proposta será de R$ 61,83.


HAPVIDA teve participação dos controladores reduzida para 52,47% do capital, de 55,4%…


… O movimento ocorreu um dia depois de a família Pinheiro, fundadora e controladora da operadora, ter elevado a participação de 51,39% para 55,4%, às vésperas da eleição do novo conselho de administração, na próxima quinta…


… A gestora Squadra, que publicou uma dura carta questionando a atual gestão da companhia, está indicando três nomes para o conselho: Eduardo Parente, Tania Sztamfater Chocolat e Bruno Magalhães e Silva.


ONCOCLÍNICAS. Faltando poucos dias para a assembleia que definirá o novo conselho, na quinta, a Mak Capital, que detém 6,38% da empresa, conseguiu maioria para indicar Marco Grodetzky à presidência do colegiado…


… Mas o resultado desagradou à Latache, acionista com quase 15%. A ideia era chegar à assembleia com uma chapa única. No entanto, não se chegou a um consenso…


… O vice-presidente e sócio da Latache, Marcel Cecchi, renunciou. O cargo passa a ser ocupado pelo atual diretor presidente e diretor médico da companhia, Carlos Gil Moreira Ferreira, até a assembleia desta semana.


MAGAZINE LUIZA pagará R$ 63 milhões em dividendos (R$ 0,0813 por ação). Ex em 27/04.


RIACHUELO. O Citi iniciou a cobertura da ação ordinária da empresa com recomendação de compra e preço-alvo de R$ 14, o que representa um potencial de valorização de 43,3% contra o fechamento de sexta-feira.


SIMPAR captou R$ 1,7 bilhão em aumento de capital e abriu subscrição de sobras.


MOVER vendeu participação de 14,86% na Motiva ao Bradesco BBI por mais de R$ 5 bilhões.


HELBOR pagará R$ 2,67 milhões em dividendos (R$ 0,02015 por ação) em 29 de maio em duas parcelas. A primeira será paga aos acionistas que detinham papéis da companhia ao final do pregão de 5 de janeiro de 2026…


… A segunda parcela será destinada aos investidores posicionados na base acionária ao fim desta sexta-feira (24).


ÂNIMA EDUCAÇÃO pagará R$ 29 milhões em dividendos (R$ 0,07778 por ação). O pagamento será realizado em 15 de maio, com base na posição acionária de 24 de abril.


ENJOEI aprovou redução de capital de R$ 426,1 milhões, passando o capital social para R$ 250,9 milhões.


WESTWING. Agruciacapital passou a deter 5,05% do capital social.


UNIÃO PET. Fundos Kinea elevaram participação para 10,13% do capital, de 9,10% anteriormente.

Gilmar e a derrota auto-infligida

 Gilmar e a derrota autoinfligida

Marcus André Melo

Folha de São Paulo, 26/4/26


“Entrevistas recentes do ministro Gilmar Mendes têm causado perplexidade pelo tom defensivo e pelos ataques desferidos. Em vários momentos, não fica claro se suas falas constituem narrativas retóricas em reação à onda de críticas ao Supremo, avaliações efetivas dos fatos ou simplesmente atos falhos.


Dentre estes últimos, sua afirmação que oSupremo é parlamentarista deixa entrever uma visão da corte como governo ou estado dentro do estado, no qual ele próprio seria uma espécie de primeiro ministro que já teria iniciado démarches com chefes do poder executivo e das casas do legislativo para um "pacto republicano".


A imagem sinaliza também a pouca importância do Presidente Fachin, que seria mero chefe de estado, uma rainha da Inglaterra. E mais: o ministro afirmou que os pesos das vozes dentro da instituição são diferentes, que a representatividade delas é distinta: algumas delas podem paralisar iniciativas. Em bom português, alguns ministros valem mais que outros.


A outra face da moeda nessa toada é que para o ministro o ambiente externo do tribunal parece não importar ou importar pouco, o que contrasta marcadamente com os achados da literatura, como analisei aqui. Em "Judicial Reputation: A Comparative Theory", Garoupa e Ginsburg argumentam que a reputação é crítica para a autoridade e eficácia das cortes, especialmente porque os juízes carecem, "do poder da espada e do dinheiro". Por isso seria o "poder menos perigoso" como diria Hamilton. E deveria, segundo um analista famoso, cultivar "virtudes passivas", e.g. autocontenção.


Gilmar faz tudo ao contrário. Convoca a imprensa. E borra a defesa de indivíduos e instituição. Mas por quê? Quem busca mobilizar e para qual batalha? Quem mobiliza tipicamente está perdendo, mas não sabemos para que ou contra quem. Inimigos internos? Os novos senadores eleitos em novembro?


O ministro atacou a imprensa e comparou descabidamente a reputação desta última com a do próprio tribunal. Minimizar aqui a magnitude do escândalo é uma autossabotagem. A reputação não se mede apenas em pesquisas de opinião. Embora seja fato que a maioria da população —a estimativa é de algo entre 60% (Atlas Intel) e 53% (Datafolha) da população— não tem confiança na instituição. Como Garoupa e Ginsburg mostram, a reputação na audiência interna da corte —a comunidade jurídica— é crucial. E nela o impacto tem sido colossal. Idem, na imprensa.


Na imprensa nacional, já se acumulam dezenas de editoriais críticos dos principais veículos; na internacional, a cobertura aponta para uma crise de grande envergadura. A The Economist traz manchetes como "Impropriedade Suprema" e "Vasto escândalo na corte; o El País afirma que o caso "abala a confiança no Supremo" e "projeta uma sombra sobre o juiz mais poderoso do país"; e o Financial Times alerta para "riscos à integridade institucional".


A escala do impacto reputacional é consistente com a natureza dos malfeitos: trata-se de escândalo absolutamente inédito em nossa história. E mais: envolve não apenas um membro do tribunal, mas dois. A mobilização pelo ministro é uma espécie de derrota autoinfligida. Quanto mais intervém, maior o dano reputacional.”

Bankinter Portugal Matinal

 Análise Bankinter Portugal 


NY +0,8% US tech +2% US Semis +4,3% UEM -0,2% Espanha -1,1% VIX 18,7% Bund 3,01%. T-Note 4,32%. Spread 2A-10A USA=+52pb B10A: ESP 3,46% PT 3,41% ITA 3,78% FRA 3,65% Euribor 12m 2,735% (fut.12m 2,926%) USD 1,172 JPY 186,9/€ 159,5/$. Ouro 4.714$. Brent 107,4$. WTI 96,1$. Bitcoin -0,2% (77.749$). Ether -0,1% (2.323$). 


SESSÃO. Tom positivo. Excelente sessão americana na sexta-feira (não tanto a europeia), sobretudo para os semicondutores (+4,3%), que acumulam nada menos do que 18 subidas consecutivas. Continuam a ser a nossa recomendação nº1. Devido a essa subida tão forte na sexta-feira, a sessão de hoje deverá ser de estagnação ou mesmo de ligeira correção como reação natural. Mas muito limitada (cerca de -0,2%) e apenas para algum descanso, porque nesta fase o mercado já assumiu que irá conviver por tempo indefinido com o conflito no Irão e com um petróleo errático, mas não incomportável (insistimos que deverá recuar progressivamente para os 85$ em dezembro). Os resultados empresariais dão suporte, o ciclo económico mantém-se expansionista, ainda que com menor impulso, a inflação sobe mas é suportável e deverá desacelerar gradualmente, e é pouco provável que os bancos centrais subam taxas (apesar do suposto consenso nesse sentido).


GEOESTRATÉGIA. Tom tendencialmente positivo. O Irão pede um acordo para reabrir Ormuz, desde que a questão nuclear seja excluída. Este gesto evidencia que necessita de vender petróleo para garantir a sobrevivência do regime (tal como temos vindo a defender do ponto de vista geoestratégico), pelo que agora é claro que são os EUA que detêm a chave de qualquer acordo… e é pouco provável que cedam facilmente, uma vez que já não estão pressionados pelo consumo de armamento, dado que, na prática, a guerra terminou (não há combates nem ataques). Podemos dizer que os objetivos militares dos EUA (essencialmente neutralizar o Irão) já foram alcançados.


A tentativa de atentado contra Trump poderá favorecer a sua popularidade, enquanto Kevin Warsh poderá obter rapidamente aprovação do Senado para substituir Powell na Fed, uma vez que já não existe processo legal contra este último após a retirada das acusações.


COMPANHIAS. Tom positivo. Com cerca de 30% das empresas americanas já a reportar, o BPA médio cresce +26,8% vs +14,4% esperado, pelo que o balanço é francamente positivo. Esta semana o fluxo de resultados atinge o pico, com 5 das “7 Magníficas”: na quarta-feira Alphabet, Microsoft, Meta e Amazon, e na quinta-feira Apple.


MACRO. Tom neutro, mas com impacto positivo dos indicadores recentemente divulgados. Esta semana reúnem-se os bancos centrais do Japão (terça-feira), Canadá e EUA/Fed (quarta-feira) e UEM/BCE e Banco de Inglaterra (quinta-feira)… todos deverão manter taxas, o que, de certa forma, reforça a nossa estimativa de que não haverá subidas adicionais, mesmo com alguma pressão inflacionista… e que a Fed poderá até cortar uma vez este ano. A nossa estimativa vai contra o consenso, mas temos uma convicção relativamente elevada.


CONCLUSÃO. Mantemos a perceção de consolidação em tendência ascendente, o que significa que o cenário negativo seria lateralização e o positivo a continuidade do movimento de recuperação. Wall Street destaca-se positivamente face à Europa e deverá continuar a fazê-lo, mas a nossa estratégia de investimento já está mais exposta aos EUA do que à UEM, pelo que não surpreende. A sessão americana de hoje poderá ser mais fraca (cerca de -0,2%), mas apenas como reação natural após as fortes subidas de sexta-feira. Obrigações e divisas permanecem relativamente estáveis, praticamente laterais nos últimos dias. O tom dos próximos dias será sobretudo condicionado pelos resultados e guidance de 5 das “7 Magníficas” entre quarta e quinta-feira. Não antecipamos um mercado negativo — pelo contrário — salvo alguma surpresa negativa pouco provável.


FIM

domingo, 26 de abril de 2026

Deonísio da Silva

 Um libelo contra essa modinha nefasta e autoritária do politicamente correto, que quer impor sua visão de mundo equivocada e atacar quem não pensa assim. 


Do prof. Deonísio Da Silva, que abono plenamente. 


SUBSTITUIR ÍNDIO POR INDÍGENA É FALTA DO QUE FAZER

É modismo e a moda é sempre efêmera. Logo passará. E talvez volte  um dia, como acontece com nosso modo de vestir. 


Indígena veio do latim "Indigena" e designa quem é originário do lugar em que nasceu e vive, como ocorre a filhos de imigrantes nascidos onde seus pais viveram ou vivem. E não apenas aos chamados índios. 


 Assim, não pode substituir a palavra "índio", habitante das Índias Ocidentais, designação equivocada de Cristóvão Colombo em sua primeira carta ao rei espanhol Fernando para informar que designara São Salvador a uma terra recém-descoberta "que os índios conhecem por Guanahani". 


A seguir, o astrônomo holandês Petrus Plancius (1552-1622) descobriu nova constelação à qual chamou "Indus" em homenagem a esses povos.  A etimologia serve também para isso: para mostrar como as palavras mudam de significado. Em português, o habitante da Índia não é índio, é hindu. Índio mantém o significado que Colombo lhe deu e passou a designar o habitante das matas, o(s) povo(s) da floresta. 


O padre Antônio Vieira, glória do barroco brasileiro, defendeu os índios brasileiros com grande poder de persuasão sem substituir sua designação por nenhuma palavra em moda. E por isso seus sermões tornaram-se peças literárias gloriosas.


 Os padres José de Anchieta e Manoel da Nóbrega não substituíram índio por indígena para defender suas diversas etnias em todo o Brasil. 


José de Alencar fez trabalho semelhante nos romances O Guarani e Iracema, assim como Antônio Gonçalves Dias com sua poesia inspirada nos índios. Eles e outros escritores  de referência criaram inclusive um movimento literário, o indianismo. O Modernismo tampouco renegou a palavra índio para defender nossos irmãos da mata onde viviam Macunaíma, muiraquitãs, icamiabas e outras amazonas.


Os irmãos  Villas Boas, o marechal Cândido Rondon, assim como Lévi-Strauss, Darcy Ribeiro e diversos antropólogos não incorreram em modismos nem macularam o português para fundar entidades de defesa do índio e estudar suas lições aos povos invasores. 


Não percamos nosso tempo gastando nosso latim contra esses que compõem uma minoria insignificante que entretanto propõem didatorialmente  de cima para baixo o impossível e o inexequível: que todos falem como os membros de tal minoria, que dão  às palavras o significado estreito e epocal que eles nos querem impor por motivos ideológicos. 


Na língua há lugar para todos, inclusive para eles, desde que não tenham, como fascistas e nazistas, a pretensão de excluir todos os que  não pensam nem agem como eles. 


Minha recomendação de jardineiro e botânico das palavras é: vão plantar batatas e parem de nos encher a paciência. 


Do contrário, nós vamos disparar nossas flechadas verbais e ergueremos nossas paliçadas em defesa da língua portuguesa, patrimônio popular consolidado em todo o Brasil, que nos permite dar um aviso de vacina e sermos entendidos em todo o território nacional, sem excluir ninguém. 


(a) Deonísio da Silva

sábado, 25 de abril de 2026

Paulo Baia

 Encontrei, no fim da tarde, em Copacabana, um velho conhecido. Um homem de cerca de cinquenta anos, advogado, professor universitário, intelectualmente sofisticado e profissionalmente muito bem-sucedido. Daqueles perfis que, à primeira vista, inspiram respeito imediato.

Tem mestrado em Direito Constitucional pela Universidade de Brasília e dois doutorados em Direito, um pela Universidade Stanford e outro pela Universidade do Texas. Pelo que me recordo, realizou ainda estágio pós-doutoral na América do Norte, entre os Estados Unidos e o Canadá. Circula com desenvoltura entre São Paulo e Rio de Janeiro. Em São Paulo, integra como advogado um grande escritório. No Rio, leciona em uma universidade de prestígio.

Não é alguém improvisado. Ao contrário. É alguém moldado pelas melhores instituições, pelos ambientes mais exigentes, pela lógica do mérito acadêmico e profissional.

Conversamos.

Ele me perguntou, com naturalidade, o que eu pensava sobre o que está acontecendo na governadoria do estado do Rio de Janeiro. Respondi de forma direta, como costumo fazer.

Ele ouviu, sorriu levemente e, sem hesitar, apresentou sua posição.

Disse, com todas as letras, que o melhor para o Brasil seria um “absolutismo do Judiciário”. Não como metáfora. Como proposta concreta. Defendeu que as eleições de outubro deste ano deveriam ser canceladas. Que o Judiciário, especialmente suas instâncias superiores, deveria assumir um papel ainda mais ativo e decisivo, como, segundo ele, já vem ocorrendo no caso do governo do estado do Rio de Janeiro.

Foi além.

Afirmou que governadores deveriam ser nomeados. Que deputados estaduais e federais deveriam deixar de ser legisladores e passar a atuar como uma espécie de ouvidores da população. Que o Senado Federal, em sua visão, poderia simplesmente deixar de existir. Tudo isso, segundo ele, geraria eficiência e uma economia significativa de recursos públicos.

Falava com convicção. Sem ironia. Sem provocação.

Chegou a elogiar a experiência recente no Rio de Janeiro, destacando a atuação de um desembargador à frente do governo estadual, classificando-a como notável, digna de reconhecimento. Para ele, ali estaria um modelo. Um desenho possível de futuro.

Ouvi tudo com atenção.

Confesso que me causou perplexidade. Não pela ousadia da formulação, mas pela origem dela. Não se tratava de um discurso marginal, de alguém alheio às instituições. Era exatamente o contrário. Vinha de alguém profundamente integrado ao sistema, formado nas melhores tradições jurídicas, plenamente consciente do significado de cada palavra que pronunciava.

Havia ali uma espécie de ruptura silenciosa. Como se a confiança na política representativa tivesse cedido lugar a uma aposta na tutela institucional. Como se a complexidade da democracia pudesse ser substituída por uma engenharia de poder mais direta, mais concentrada, mais “eficiente”.

Terminamos a conversa de forma cordial. Ele pagou o café e, à moda carioca, deixou um convite aberto para um almoço em breve.

Seguimos caminhos distintos na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, na altura da Praça do Lido, entre o movimento intenso e indiferente da cidade.

Fiquei com a sensação de que aquela conversa, breve e casual, carregava algo maior. Não apenas uma opinião isolada, mas um sinal. Um indício de que certas ideias, antes impensáveis, começam a circular com naturalidade em ambientes altamente qualificados.

E isso, mais do que tudo, inquieta.


Paulo Baía em 24 de abril na cidade do Rio de Janeiro.

Antônio Risério

 PREFÁCIO DE WILSON GOMES AO LIVRO "ADEUS, IDENTITARISMO", de Antonio Risério.

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Não se trata (...) de um livro escrito para qualquer leitor. O leitor implícito da obra não é o militante identitarista, mas aquele que ainda acredita na democracia liberal, no pluralismo, no dissenso legítimo e na possibilidade de convivência entre diferenças sem recorrer à coerção moral. Um leitor simpático às premissas encontrará prazer intelectual na leitura; um leitor adversário tenderá a rejeitá-la. (W. Gomes)

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Recebi com verdadeira lisonja o convite para prefaciar este livro. Não apenas pela honra formal do gesto, mas sobretudo pelo que ele implica: apresentar ao leitor uma obra de Antonio Risério, autor que admiro há muito tempo pela vastidão incomum de sua cultura, por uma erudição que não se deixa aprisionar por especializações estreitas nem pela compartimentação acadêmica e que se estende, com a mesma familiaridade, da tradição intelectual erudita à cultura popular brasileira. Há, em Risério, algo cada vez mais raro: uma curiosidade intelectual sem cercas, uma inteligência que transita com igual desenvoltura pela antropologia, pela história, pela crítica cultural, pela música, pela literatura e pela política, sem jamais converter essa circulação em exibicionismo ou capital simbólico de ocasião. Some-se a isso uma coerência intelectual que é pouco frequente em tempos de oportunismo moral, uma honestidade que não se ajusta às conveniências do momento e um brilho de escrita que combina precisão conceitual, ritmo, ironia e coragem. Prefaciar este livro, portanto, não é um gesto protocolar nem uma deferência amistosa, mas um exercício de responsabilidade intelectual diante de uma obra que não pede cumplicidade confortável nem adesão automática e que tampouco oferece ao leitor a tranquilidade enganosa das posições consensuais.


Adeus, Identitarismo é, antes de tudo, um gesto. Um gesto intelectual e político no sentido mais forte do termo: uma intervenção deliberada no debate público, feita sem cálculo de recepção, sem anestesia retórica e sem concessões ao clima moral dominante. Não se trata de um texto concebido para agradar, seduzir ou pacificar, tampouco de um livro que aspire a reconciliar posições inconciliáveis. Ao contrário, é uma obra que assume desde a primeira página o risco do confronto e da impopularidade e que faz disso não um efeito colateral indesejado, mas parte constitutiva de sua estratégia discursiva. O livro não pede licença para existir nem se justifica preventivamente diante de seus possíveis acusadores; escreve como quem já não reconhece a legitimidade do tribunal moral que se pretendeu instalar como instância suprema de julgamento intelectual.


Sob esse aspecto, trata-se de um último gesto de insubordinação diante da hegemonia identitária, que considera declinante: uma recusa a que a lida intelectual com o identitarismo continue a merecer seu tempo e esforço; uma rejeição à ideia de que a oposição ao autoritarismo identitário deva definir sua identidade. Nesse sentido, o livro parece dizer, da primeira à última seção: “encerramos aqui; basta disso”.


No plano explícito, a obra se propõe a uma crítica frontal do identitarismo contemporâneo, especialmente em sua versão universitária, moralizante e punitiva, frequentemente designada pelo rótulo woke. Risério interpreta esse fenômeno como uma forma específica de autoritarismo político-cultural, importada do ambiente acadêmico norte-americano e transplantada para o Brasil de modo acrítico, como se experiências históricas, sociais, culturais e políticas profundamente distintas pudessem ser substituídas por esquemas conceituais prontos, slogans morais e categorias simplificadoras. O próprio autor define o texto como um réquiem, ainda que “abrindo-se ao final à esperança”: uma tentativa de registrar o esgotamento histórico de um movimento que, depois de duas décadas de hegemonia simbólica em universidades, redações, setores culturais, fundações, empresas e parte do aparato estatal, começa a dar sinais claros de fadiga, erosão e perda de legitimidade social.


Mas o livro entrega mais do que anuncia. Para além da crítica ideológica, Adeus, Identitarismo funciona como documento de época, como dossiê comentado e como testemunho intelectual. Ao reunir fragmentos de textos, citações extensas, episódios públicos, polêmicas, nomes próprios, campanhas de difamação, perseguições e cancelamentos, Risério constrói um arquivo crítico de um ciclo histórico específico do debate público brasileiro. O livro registra práticas e discursos que dificilmente sobreviveriam ao apagamento seletivo da memória pública ou à reescrita moralizante da história recente, sempre pronta a absolver os vencedores simbólicos do momento. Nesse sentido, ele não apenas argumenta contra o identitarismo, mas preserva evidências do modo como esse fenômeno operou concretamente, com seus dispositivos de intimidação, silenciamento, chantagem moral, coerção simbólica e corrosão deliberada das condições mínimas do pluralismo democrático.


Há também, de maneira indissociável, uma dimensão autobiográfica e testemunhal. O autor não se esconde atrás de abstrações nem fala de um lugar neutro ou asséptico. Ao contrário, assume explicitamente o lugar de quem foi alvo de ataques, ameaças, exclusões e tentativas sistemáticas de silenciamento. Quando escreve sobre cancelamento, por exemplo, não o faz como categoria sociológica distante, mas como experiência vivida, observando que “cancelar” é tentar “sepultar uma pessoa ainda em vida”. Essa dimensão confere ao livro uma densidade existencial particular: não estamos diante de ressentimento, mas de estupefação e desalento — o espanto legítimo de qualquer liberal-democrata ao constatar o grau de brutalidade, intolerância e toxicidade moral que passou a caracterizar práticas identitárias apresentadas como progressistas, emancipadoras ou humanistas.


É justamente nesse ponto que se revela, de modo exemplar, o método ensaístico e imaginativo de Risério, baseado na bricolage de citações e na montagem de vozes diversas para iluminar um mesmo fenômeno. Um dos trechos mais expressivos do livro surge quando o autor discute o cancelamento. Partindo de um artigo de Laura Greenhalgh, no Valor Econômico, Risério destaca a observação de que “nessa máquina de triturar reputações, quem é cancelado, de fato, é o indivíduo, não uma ideia, uma tese, uma visão de mundo”. Em seguida, incorpora uma advertência de Barack Obama, dirigida a jovens norte-americanos, segundo a qual “cancelamentos não são uma forma de ativismo. Nem um chamado para a mudança. […] Apontar falhas alheias, apenas para se sentir bem, não faz sentido”. A montagem se completa com o raciocínio de Utpal Dholakia, para quem o cancelamento não se baseia em critérios equilibrados de transgressão, nasce enviesado ao admitir apenas um ângulo moral, restringe a liberdade de expressão por coerção ou censura, gera punições desproporcionais e alimenta a intolerância, constituindo “uma grave ameaça para as sociedades democráticas”. O fechamento interpretativo é todo de Risério: o cancelamento como gozo perverso de destruir o outro, prazer em humilhar, sadismo social, reação patológica à frustração e à humilhação. Nesse pequeno mosaico, vê-se condensado não apenas o argumento, mas o próprio estilo do livro: pensar por montagem, iluminar por contraste, fechar com uma interpretação desassombrada.


Outro eixo decisivo da obra — e talvez um dos mais importantes politicamente — é a crítica à renúncia progressiva, por parte da esquerda identitária, à ideia mesma de país. Risério insiste, em vários momentos, na defesa de soluções tipicamente nossas para a convivência das diferenças, historicamente construídas no Brasil, em contraste com modelos importados que tratam a sociedade como campo de guerra moral permanente. É nesse contexto que surge uma frase lapidar, quase um aforismo civilizacional: “É tarde demais, muito tarde, para abrir mão de nosso país”. A frase concentra uma posição intelectual e política clara: não se trata de negar conflitos, desigualdades ou injustiças históricas, mas de recusar a tentação destrutiva de abandonar o país real em nome de abstrações morais importadas. Abrir mão do país — de sua história, de suas ambiguidades, de suas formas imperfeitas, porém efetivas, de convivência — é, para Risério, um gesto de desistência política e cultural.


Essa crítica se articula de maneira particularmente feliz com uma citação de César Benjamin, incorporada pelo autor, que ajuda a compreender o mecanismo pelo qual parte da esquerda construiu identidades reativas, definidas menos por projetos afirmativos do que pela negação sistemática de tudo o que soa como comum, nacional ou compartilhado. Benjamin observa que, para nos diferenciarmos do mito do brasileiro pacífico e cordial, inventamos frequentemente o contramito do brasileiro violento e sanguinário; que, em reação ao mito do Brasil Grande, caro ao regime militar, jogamos fora o próprio conceito de nação; que ao mito da democracia racial respondemos com o contramito de uma sociedade essencial e visceralmente racista. Constitui-se, assim, um olhar carregado de negatividade — pois as identidades reativas são, por definição, negativas — e essa negatividade passa a se apresentar como radicalidade. O resultado, conclui Benjamin, é um “círculo de ferro” que interdita qualquer aproximação amorosa com o Brasil.


Essa passagem é central para compreender o alcance do livro. O que Risério denuncia não é apenas um conjunto de excessos discursivos, mas um verdadeiro empobrecimento da imaginação política, incapaz de pensar o país fora do registro da culpa, da denúncia e da acusação permanente. Ao romper com esse circuito negativo, Adeus, Identitarismo reafirma a possibilidade — e a necessidade — de uma relação crítica, mas não hostil, com o Brasil real, com sua história concreta e com suas formas próprias de administrar conflitos e diferenças.


Do ponto de vista formal, tudo isso se inscreve num livro deliberadamente difícil de classificar segundo os gêneros tradicionais. Não é um tratado, não é um ensaio acadêmico clássico, tampouco uma monografia organizada por hipóteses e demonstrações lineares. O próprio Risério descreve o texto como um “ensaio-colagem”, quase um mosaico, em que fragmentos se justapõem segundo um princípio não linear. O leitor encontrará uma bricolagem de reflexões, citações, comentários, memórias pessoais, ataques frontais e diagnósticos culturais, articulados menos pela progressão lógica do argumento do que pela acumulação insistente de exemplos e retornos temáticos.


Há algo de ensaio, algo de panfleto culto, algo de libelo — no sentido clássico do termo, como escrito de acusação pública — e algo de escrita de maturidade radical, própria de um autor que já não escreve para preservar capital simbólico, agradar pares ou negociar posições institucionais. A linearidade cede lugar à recorrência; a diplomacia, à franqueza; a mediação, ao enfrentamento. O efeito buscado não é o da persuasão gradual, mas o da interpelação direta.


Não se trata, contudo, de um livro escrito para qualquer leitor. O leitor implícito da obra não é o militante identitarista, mas aquele que ainda acredita na democracia liberal, no pluralismo, no dissenso legítimo e na possibilidade de convivência entre diferenças sem recorrer à coerção moral. Um leitor simpático às premissas encontrará prazer intelectual na leitura; um leitor adversário tenderá a rejeitá-la. Ainda assim, o livro cumpre sua função maior: dizer com clareza onde estamos e com quem já não podemos contar.


Não há dúvida de que se trata de uma obra de maturidade. Mas não no sentido de um livro que fecha portas. As portas já foram fechadas, as pontes demolidas, os navios queimados. O livro apenas registra, com lucidez e sem autoengano, essa clausura já consumada — e afirma algo ainda mais importante: que é possível manter autonomia intelectual e moral mesmo quando já não se pode contar com os identitarismos de esquerda, definitivamente perdidos para o autoritarismo e a intolerância, na reconstrução de um debate público baseado em pluralismo, dissenso e tolerância ou na elaboração de um projeto comum para o futuro.


Trata-se, por fim, de um livro honesto, franco e desassombrado. Um livro que não disfarça suas teses, não recua diante das consequências e não aceita o enquadramento moral imposto pelo próprio objeto que critica. Ao recusar a linguagem, os pressupostos e as chantagens simbólicas do identitarismo, Risério preserva algo cada vez mais raro: a independência intelectual. Concorde-se ou não com suas conclusões, é difícil negar que estamos diante de uma obra que diz claramente o que pensa, assume o preço disso e se recusa a pedir desculpas por pensar. Em tempos de prudência excessiva e medo de desagradar, essa clareza talvez seja, ela própria, uma das razões mais fortes para ler este livro.

BDM Matinal Riscala

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