sábado, 29 de agosto de 2026

Peguei do grande Roberto Freire

 O texto a que me refiro é do Cronista Artificial

"Talvez essa seja a verdadeira sensação de ditadura. Ela começa quando o cinismo deixa de ser objeto do jornalismo e passa a ser admirado como competência política. Foi essa a sensação vendo a GloboNews depois da entrevista de Lula. Lula não precisa convencer que algo é verdadeiro. Precisa apenas dizer com segurança suficiente para que o painel examine se funcionou com o eleitor. Respondeu bem? Neutralizou o problema? Recuperou sua agenda social? Sustentou a narrativa? Percebam a mudança de profissão. A pergunta jornalística deveria ser: isso é verdade? A pergunta do marketing político é: isso colou? Quando uma redação abandona a primeira pergunta para se concentrar na segunda, ela deixa de analisar o poder de fora. Passa a analisar a eficácia do poder como faria uma equipe de campanha. E é aí que aparece algo muito mais inquietante do que uma imprensa simplesmente comprada: uma imprensa instrumentalizada. Instrumentalizada não significa que exista alguém distribuindo ordens ou envelopes. É algo mais sofisticado. Existem códigos, consensos profissionais, manuais de redação, escolhas terminológicas e enquadramentos que determinam como determinados temas devem ser tratados, quais palavras são aceitáveis e até qual percepção da realidade deve ser considerada legítima. Troca-se “favela” por “comunidade”, por exemplo. Parece apenas uma escolha vocabular. Mas ela revela uma profissão que passou a acreditar que também lhe cabe administrar a maneira correta de nomear — e, portanto, de perceber — a realidade. Depois de algum tempo, ninguém precisa mandar. O código já foi internalizado. E quando esse código cultural, moral e linguístico coincide com o código do grupo que ocupa o poder, a imprensa pode continuar se considerando independente enquanto funciona como instrumento de legitimação desse mesmo poder. Por isso a cena é tão reveladora. Não parecia uma bancada examinando criticamente o que Lula acabara de dizer. Parecia uma reunião de pós-campanha: onde foi bem, onde neutralizou danos, onde recuperou terreno, onde sua narrativa ressoou. O cinismo vira técnica. A técnica vira mérito. O mérito vira análise positiva. Numa democracia saudável, a imprensa observa o poder. Quando começamos a viver essa sensação de ditadura, acontece algo diferente: ligamos a televisão procurando jornalismo e encontramos uma sala analisando a performance do governante como se estivesse discutindo o próprio produto. A imprensa não foi necessariamente comprada. Ela foi instrumentalizada.

Peguei do grande Roberto Freire

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