domingo, 8 de novembro de 2026

Pedro Malan



Malan é um homem que passou no controle feminino Gontijo de qualidade. Catarina Gontijo de Souza Lima Malan se apaixonou pelo Economista que conhecia outras áreas das humanidades e lhe presenteou, no início do namoro, com o livro Fragmentos de Um Discurso Amoroso de Roland Barthes, esse clássico da semiótica que desvela a linguagem, as dores e os sentimentos mais cristalinos dos apaixonados. Conclusão: os brutos também amam e alguns raros e sensíveis economistas amam também.

Malan é a competência magna em Economia que o Plano Real evidenciou mas é muito mais que isso: conhece os mitos e os logos que habitam as almas dos homens e principalmente das mulheres.

Vamos ao artigo de Pedro Malan no Estadão de hoje.




Crise: a complexa transição de Lula 3 para Lula 4




Será fundamental indicar com clareza que existe um sistema de regras que assegurem a sustentabilidade das finanças públicas para o período 2027-2030.




A transição de Lula 3 para Lula 4 não será trivial e seus primeiros momentos afetarão o quadriênio. A eleição encerra uma campanha, mas não encerrará a crise. As urnas distribuem poder e conferem legitimidade aos eleitos, mas não corrigem instituições que perderam capacidade de funcionar com previsibilidade, equilíbrio e respeito aos próprios limites (Murilo Aragão).




Será fundamental, o mais rápido possível, indicar com clareza, de maneira crível, que existe um sistema de regras que assegurem a sustentabilidade da trajetória das finanças públicas no Brasil para o período 2027-2030 e além. Dívida, tributação, gasto público, eficiência e equidade são temas inter-relacionados que terão que estar no centro do debate público sobre o desenvolvimento do País – econômico, social e político-institucional – pelos cruciais anos à frente.




Quadriênios, velhos e novos era o título de artigo que publiquei neste espaço em dezembro de 2014. Abria o texto uma referência a um discurso de Lula durante a campanha eleitoral daquele ano, em que afirmara que já se via, com Dilma, em 2022, nas comemorações de nossos 200 anos de Independência, defendendo tudo o que haviam conseguido conquistar “nos últimos 20 anos”. O artigo notava o óbvio: antes de 2022, haveria que passar pelas eleições de 2018. Como apontava o artigo, Lula 1 foi diferente de Lula 2; Dilma 1 foi diferente de Lula 2; e Dilma 2 seria diferente de Dilma 1, e também o mais difícil dos quatro quadriênios. “Quem vivesse, veria – ou já estava vendo”, escrevi à época.




A transição de Dilma 1 para Dilma 2, como é sabido, fracassou desde a partida. O investimento havia começado a declinar no último trimestre de 2013 e uma forte desaceleração do crescimento levou ao desastre de 2015-2016: a maior recessão da economia brasileira desde o início dos anos 80, a que se seguiu a crise política que contribuiu para o impeachment da presidente em 2016. Aquele artigo apontava a perda de credibilidade da política governamental, que trazia consigo a exaustão do discurso do “mais do mesmo” no qual o governo Dilma insistiu até a data das eleições, negando-se a reconhecer seus problemas cada vez mais graves – condição sine qua non para tentar resolvê-los.




É muito vívida, nesse sentido, a lembrança coletiva de governos que acreditaram que a aceleração do crescimento poderia ser assegurada por uma política dita “keynesiana” de caráter duradouro – tanto pró-cíclica quanto anticíclica. Nessa visão, gasto público é vida e investimento sempre tem efeito multiplicador em termos de geração de renda adicional e estímulos tanto à demanda quanto à oferta (que a expansão da demanda necessariamente geraria). Afinal, por que alguém preferiria sofrer as agruras da “austeridade” quando poderia, livremente, escolher maior crescimento, renda e emprego?




No processo de tentar valer a pura “força da vontade política” em condições adversas, governos podem tornar a situação ainda mais insustentável. Um governo e uma sociedade que não têm compromisso com a responsabilidade fiscal acabarão por encontrar formas de expandir seus gastos, déficits e dívidas como projeção do Produto Interno Bruto (PIB), independentemente do estatuto jurídico de seus bancos centrais. Até um certo ponto – após o qual, na ausência de limites intertemporais críveis quanto a gastos, déficits e dívidas, os agentes econômicos passam a esperar elevações futuras de tributos, maior estoque de dívidas, maiores déficits, maior desvalorização, maior inflação.




“Este é um erro nos governos”, disse em outro momento o mesmo Lula, referindo-se ao governo Dilma: “quando um governo coloca na cabeça que está certo, é difícil mudar”. Seria de todo desejável que Lula, antes mesmo de dar início ao novo mandato, escolhesse reeditar os compromissos de junho de 2002. A carta-compromisso ao povo brasileiro afirmava: “Vamos preservar o superávit primário o quanto for necessário para impedir que a dívida interna aumente e destrua a confiança na capacidade do governo de honrar os seus compromissos”.




Como sabemos, a história nunca se repete, mas por vezes rima e sempre ensina. A transição para o próximo quadriênio não será fácil, em razão do contexto de erosão institucional que o Brasil experimenta, mas em parte também por convicções profundamente arraigadas do atual ocupante do cargo sobre o funcionamento da economia. Como notaram os organizadores (Bacha, Fraga e Schwartzman) de livro a ser lançado no início de 2027, há uma nova urgência nesta quadra da vida nacional: “pressão fiscal, envelhecimento populacional, enrijecimento orçamentário e impasse institucional não atuam isoladamente; combinam-se para criar um renovado sentido de urgência que antes não existia”. Há que responder ao mesmo.




As perguntas de Marcos Mendes continuam a reverberar como o decifra-me ou te devoro da esfinge milenar: por que o Brasil cresce pouco? Por que é um país tão desigual? Por que é tão difícil fazer reforma no Brasil? Entendamos os desafios ou seremos vencidos pelos mesmos. Tarefa de Sísifo.

Pedro Malan

Malan é um homem que passou no controle feminino Gontijo de qualidade. Catarina Gontijo de Souza Lima Malan se apaixonou pelo Economista qu...