domingo, 27 de abril de 2025

Carlos Alberto Sardenberg

 Trump enfrenta choque de realidade

Carlos Alberto Sardenberg

O Globo, sábado, 26 de abril de 2025


Só a reação interna pode deter o presidente americano. Além da sabedoria e da paciência milenares dos chineses

 

Da posse de Trump até ontem, o valor das companhias americanas listadas em Bolsas caiu cerca de 10%. É coisa de trilhões de dólares. Afeta principalmente as empresas que têm cadeias globais de produção, as maiores vítimas do tarifaço.

Mas, se a tendência foi claramente de queda nesse período, a característica principal do mercado foi a volatilidade. A partir não apenas de fatos, mas especialmente das declarações de Trump.

Esta semana foi assim. Começou bem pessimista, repercutindo ainda as falas do presidente ameaçando engrossar com a China e demitir o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central), Jerome Powell, se ele não reduzisse imediatamente a taxa de juros.

Ações desabaram.

Assustados, assessores de Trump chamaram sua atenção. Ele próprio, um homem de negócios, também se inquietou. Resultado: declarações mais amenas dizendo que as negociações com a China começavam e que ele seria “gentil”. Mais: acrescentou que as tarifas de importação sobre produtos chineses ficariam bem abaixo do teto atual de 145%. Já isso de demitir o presidente do Fed, era coisa de uma imprensa que sempre “exagera”.

Acalmou os mercados, Bolsas voltaram a subir, mas isso ficou longe de tranquilizar o pessoal de lá e do mundo todo. Gerou desconfiança, manifestada reservadamente por empresários e executivos americanos. Se a Bolsa oscila na base de declarações, fica óbvio que pode haver manipulação. Se um assessor sabe que Trump desmentirá a ameaça de demissão de Powell, sabe então que as ações subirão. Uma comprinha rápida dá um caminhão de lucros em poucas horas de pregão. Quem soube antes que Trump atacaria o Fed pode ter lucrado duas vezes.

São desconfianças, claro, mas alimentadas pela conhecida falta de escrúpulos de Trump. E de seu pouco apreço pela verdade. Ele não apenas disse que demitiria Powell, como escreveu isso em sua rede social. Ainda o ofendeu, também por escrito, chamando-o de “atrasadão” e “grande perdedor”. Depois, com a maior cara de pau, diz que foi coisa da imprensa.

No caso da China, foi ainda pior. Enquanto Trump afirmava que cabia a Xi Jinping dar o primeiro telefonema e, depois, que negociações estavam em andamento, o governo chinês negou tudo. Segundo Pequim, não há qualquer conversa. Xi não telefonou. E não telefonará enquanto Trump não suspender as tarifas e zerar o jogo. O governo chinês também quer que Washington designe um negociador responsável.

Trump ficou quieto, pelo menos até ontem.

Feitas as contas, a disputa tarifária afeta mais os Estados Unidos que a China. Do total de exportações chinesas, 13% vão para empresas e consumidores americanos. Os outros 87% estão distribuídos por diversos países, praticamente no mundo todo. A China já vinha reduzindo a dependência em relação aos Estados Unidos.

Do outro lado, 15% das importações americanas vêm da China. Outros 15%, do México, mais 14%, do Canadá. Quase a metade das importações vem de três países, todos duramente atingidos pelo tarifaço.

Executivos de supermercados advertiram Washington de que seus consumidores em breve poderiam topar com prateleiras vazias e produtos muito mais caros, uma péssima combinação. Em geral, os executivos evitam entrar em conflito com Trump, dada sua política vingativa. Mas não tiveram como evitar o tarifaço na apresentação de seus resultados trimestrais. Aí apareceram com frequência as palavras inflação e recessão. Eis o ponto: só a reação interna pode deter Trump. Além da sabedoria e da paciência milenares dos chineses.

Por falar em tarifaço e países protecionistas, a Nintendo acaba de lançar seu game Switch nos Estados Unidos por US$ 450. Para o Brasil, o lançamento oficial está marcado para 5 de junho, ao preço sugerido de R$ 4.500. É só fazer as contas para verificar onde está o protecionismo. É curioso: nos meios econômicos brasileiros, a crítica a Trump é praticamente unânime. E os nossos tarifaços?

Tiberio Canuto Queiroz

 Não digam que não avisei

A leitura da entrevista  no Globo de Felipe Nunes, - um dos autores do livro Biografia do Abismo, e CEO DO instituto de pesquisa Quaest - deveria ser de leitura mandatória para a esquerda. Segundo ele, enquanto Lula e Bolsonaro estiverem vivos, o país continuará dividido em partes praticamente iguais entre os dois. Sobram cerca de 10% dos eleitores que não são nenhum nem outro. Eles podem pender para um  dos lados, a depender de quem seja o candidato. Com Bolsonaro inelegível, as chances de a direita  sair vitoriosa em 2026 são mais factíveis se seu candidato tiver um perfil mais  moderado, capaz de dialogar com esses 10% dos eleitores. Aí os nomes de Tarcísio e Zema, ainda segundo Felipe Nunes, são os que, nesse espectro político, mais se adequam ao figurino.

Agora entro eu, dizendo algo que meus amigos petistas jamais concordarão. Mas como sou de uma “esquerda positiva”, tipo a de San Tiago Dantas que propunha um caminho moderado a Jango para evitar o golpe de 64, vou insistir na minha tese. Se tivesse juízo, o PT e demais partidos de esquerda deveriam lançar um candidato  com perfil adequado ao figurino de dialogar com os 10%. Este candidato não necessariamente deveria  ter um perfil de esquerda, mas também não poderia ser antiesquerda. Diria, que deveria ter um perfil de centro-esquerda, mas com poder de dialogar com o eleitorado de centro-direita de perfil moderado,  que em 2022, majoritariamente, foi para Lula.

No mercado político brasileiro vejo um nome com esse perfil: Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro.  Aliás, diria que Quaquá, vice-presidente do PT, também enxerga isso. Só que propondo Eduardo Paes  para vice de Lula, em 2026. Quaquá é muito malandro. Quer tirar as castanhas do fogo com a mão dos outros. Dele se fala cobras e lagartos, mas tem faro político.

Pode-se arguir  que Eduardo Paes sequer aparece nas pesquisas a presidente e que hoje apareceria com baixíssima percentagem de intenção de voto. Isso é irrelevante. O importante é que seu nome tem potencial de agregar forças suficiente para uma candidatura altamente competitiva, se a esquerda também estiver nesse barco.

Outro nome seria Simone Tebet, mas ela se anulou no governo. Queimou o capital político  que tinha, ao Lula exilá-la num ministério sem a menor visibilidade e relevância. Não inclui João Campos, um político promissor, antenado com a modernidade e com capacidade de dialogar com amplo espectro político, por ter menos de 35 anos. Não pode, pela constituição ser presidente da República antes de ter essa idade.

Qual a grande dificuldade  para uma saída que chamo de virtuosa para 2026? Ela se chama Lula. Como todo bom caudilho – e Lula é isso, embora meus amigos petistas sintam-se incomodados quando digo isso -  não aceita  uma frente ampla cuja candidatura a presidente não seja a sua. Aliás, Lula não aceita montar um governo verdadeiramente de Frente Ampla – e não montou um terceiro mandato com esse perfil, basta olhar para o núcleo duro do governo, aquele com assento no Palácio do Planalto, constituído  de petistas puro-sangue.

Além do caudilhismo de Lula outro obstáculo difícil de se contornar é o hegemonismo do PT, sempre refratário  a participar de governos ou frentes em que não seja hegemônico. É um mal que vem da origem do PT, da sua postura de fazer do rechaço  o centro de sua política. Foi por isso que não participou, e foi contra, a eleição de Tancredo Neves e fez oposição sangrenta  ao governo FHC, tal qual o Bolsonarismo faz agora ao terceiro governo Lula.

O momento exige uma estratégia defensiva, de a esquerda entender que não é mais hegemônica na sociedade -se é que algum dia o foi -  e montar uma chapa capitaneada com alguém que, de fato,  fuja da armadilha da polarização. Sem isso, o risco de a extrema-direita voltar ao poder e de avançar no Parlamento a ponto de eleger um número de senadores suficientes para aprovar impeachment de ministros do STF, é muito grande. 

No Chile  da Concertacion Democrática e no Uruguai da Frente Ampla nem sempre a esquerda disputou a eleição capitaneado a chapa. Aliás, no interior da frente, esquerda e centro-esquerda se revezaram, com êxito,  no  comando da aliança e, por isso, governaram seus países sucessivamente.

Temos no Brasil uma experiência exitosa de “estratégia defensiva”. Assim foi na resistência à ditadura, por meio da Frente Democrática  liderada pelos liberais. Foi ela que levou ao fim da ditadura. Não foi a  estratégia do “rechaço”, do apelo às armas e da pregação do voto nulo. Esses foram derrotados política e militarmente.

A realidade hoje exige que a esquerda deixe de lado a contradição de falar em Frente Ampla mas   realizar um governo do PT, como ressaltou Felipe Nunes em sua entrevista. É preciso ter a humildade de entender que 56% da população acha que o governo Lula vai na direção errada e que a derrota em 2026 bate à sua porta, se continuar se guiando pelo hegemonismo.

Sei que é esperar muito de nossa esquerda. Também sei que prego no deserto, mas prefiro a nadar contra a corrente a me omitir. Se o pior acontecer em 2026, não digam que não avisei.

Ailton Braga

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