quarta-feira, 30 de junho de 2021

QUARTA-FEIRA NOS MERCADOS

O pacote de reforma tributária, anunciado na sexta-feira, a crise hídrica e as celeumas na CPI da Covid ainda continuam pesando nos mercados. 

Na contramão, no entanto, boas notícias ainda conseguem amenizar o cenário geral. O IGP-M abaixo do esperado (0,60%), contribui para isso, assim como uma bandeira vermelha 2, para julho, mais amena. Soma-se a isso, o Tesouro anunciou uma mega emissão externa nesta terça-feira, sinalizando forte demanda, ou seja, apetite pelo Brasil. Neste contexto, as taxas de juros no mercado futuro cederam, o mesmo acontecendo com dólar. A moeda americana que chegou a bater R$ 4,97 ao longo do dia, cedeu bastante nesta terça, para fechar o dia a R$ 4,9419, em suave valorização de 0,28%. 

A leitura é de que mesmo com os fatos narrados acima, somando-se a nova variante Delta da Índia, o bom fluxo de recursos e a prevista captação do Tesouro seguraram a moeda norte-americana. 

No caso da operação do Tesouro, deverá ser uma emissão soberana de títulos em dólar. De acordo com o comunicado, será realizada a emissão de um novo título de 10 anos, com vencimento em 2031, e a reabertura do atual benchmark de 30 anos, o Global 2050. A operação será liderada pelos bancos Bradesco BBI, Goldman Sachs e HSBC.

No mercado de capitais, no entanto, segue o desconforto com o pacote de reforma tributária em discussão no Parlamento. Pegando mais mal as propostas de tributação de dividendos, a extinção dos juros sobre capital próprio e a redução do imposto de renda sobre pessoa jurídica em etapas. Pesando ainda mais o risco de apagão no País. Decorrente disso, o Ibovespa fechou o dia de ontem em baixa de 0,08%, a 127.327 pontos. 

Sobre os debates da reforma tributária, movimentações na Câmara apontavam para mudanças na proposta apresentada inicialmente. De cara, poderemos ter a redução da alíquota sobre dividendos (de 20% para pelo menos 15%) e a antecipação para 2022 do corte de 5 pontos percentuais no Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ).

Uma outra notícia veio da arrecadação de impostos em maio, recorde absoluto, refletindo a retomada mais consistente da economia. De alguma forma, isso serve fortalecer o presidente Bolsonaro, em permanente "inferno astral".   Em maio, a arrecadação federal chegou a R$ 142,10 bilhões, o maior valor da série. Já o déficit do governo central acabou aquém do esperado, R$ 20,94 bilhões. 

No outro front, da inflação, no entando, o que se tem é a perspectiva de um choque de oferta, pelo reajuste da energia elétrica em 52% na bandeira vermelha para julho. A ANEEL anunciou o reajuste de R$ 6,24 para R$ 9,49, a cada 100 quilowatt-hora consumidos. Isso vale a partir de julho. O governo, mesmo negando o risco de racionamento, se mostra muito preocupado com o impacto eleitoral do processo, principal razão para não ter efetuado um reajuste ainda maior - que pode acabar se impondo em agosto.

Em resposta a isso, na reunião do Copom de agosto cresce a opinião dos que acreditam num ajuste de 1 ponto percentual, a 5,25%. É consenso no mercado de que o ideal é "fazer o mal logo, de uma vez só" e não em doses homeopáticas. Pela pesquisa Focus, o IPCA de 2022 segue em 3,78%, dentro dos objetivos do BACEN de trazer o índice para o centro da meta.    

Nesta quarta-feira estejamos atentos a mais um fator de preocupação para o governo, a PNAD de abril se mantendo acima de 14,7% da PEA, indicando resiliência. O tema também estará em foco nos EUA, onde previsões apontam para redução na criação de empregos privados em junho, frente ao mês anterior. O patamar deve continuar significativo, contudo, na casa dos 600 mil.

Sobre a CPI da COVID, as denúncias sobre a compra da vacina indiana Covaxin, devem continuar a gerar ruídos para o governo. Segundo o líder do governo, Fernando Bezerra, o presidente repassou a denúncia de sobrepreço ao secretário do ministério da Saúde, Elcio Franco, que nada encontrou de irregular, Bezerra, no entanto, compromete o presidente Bolsonaro com o destino das apurações. Por que então a decisão de suspender o contrato para aquisição do imunizante, anunciada terça-feira? 

E se o secretário Elcio Franco se vir envolvido de vez no “esquema”? Ou se aumentarem - como está ocorrendo - os indícios de irregularidades? Também continuará no ar a principal pergunta: o presidente citou ou não o nome do deputado Ricardo Barros?

Por fim, o relatório anual do Banco de Compensações Internacionais (BIS, em inglês), divulgado nesta terça-feira, afirmou que uma recuperação mundial desigual da crise da Covid-19 deve tornar a calibragem das políticas fiscal e monetária, complicadas. Apelidado de banco central dos bancos centrais do mundo, o BIS, com sede na Suíça, diz que "seu cenário principal é de uma recuperação mundial sólida, embora com velocidades diferentes entre os países."


Paulo Baia

 Encontrei, no fim da tarde, em Copacabana, um velho conhecido. Um homem de cerca de cinquenta anos, advogado, professor universitário, inte...