sábado, 16 de maio de 2026

Mercado global: ruído politico

 *Ruído político coincide com piora global e liga alerta nos mercados*


Mercados Juros globais têm forte dinâmica de alta com guerra no Irã; volatilidade eleitoral chega aos mercados locais e expõe fragilidade


A despeito da guerra do Irã e do choque de petróleo, os ativos domésticos vinham desfrutando um ambiente externo de maior tolerância a fragilidades idiossincráticas e de bom apetite a risco por parte dos investidores estrangeiros. Nos últimos dias, no entanto, os mercados globais deram sinais de fadiga com a persistência do impasse geopolítico, justamente em um momento que o ambiente local também passou a ser contaminado pela volatilidade do noticiário eleitoral. O resultado foi uma rápida depreciação do real, que saiu da faixa dos R$ 4,90 para perto dos R$ 5,10 e uma elevação forte nas taxas de juros de longo prazo, que passaram a operar nos piores níveis do ano.


O pregão da sexta-feira foi um bom exemplo da rápida deterioração do ambiente para ativos globais de risco. Com a ausência de notícias sobre progressos nas negociações entre Estados Unidos e Irã e nenhuma evidência de melhora nos fluxos globais de petróleo, as curvas de juros ao redor do mundo entraram em uma espiral negativa.


Na quarta-feira, o Tesouro dos Estados Unidos, vendeu um título com vencimento de 30 anos a uma taxa de 5% pela primeira vez desde 2007 e, na sexta-feira, o rendimento da T-bond de 30 anos já havia escalado a 5,12%. No Reino Unido, os juros dos gilts de 10 anos fecharam a sessão aos 5,187%. O juro de 30 anos do Japão é negociado acima de 4%.


De acordo com a diretora de macroeconomia para Brasil do UBS Global Wealth Management, Solange Srour, enquanto o preço do petróleo não cair, há um tero para o apetite global por risco.


“O sell-off não é apenas conjuntural. Governos que por anos se financiaram a taxas próximas de zero agora enfrentam custo de captação crescente, precisando emitir cada vez mais dívida para honrar compromissos de gasto que não param de crescer. A dívida bruta global está em trajetória para atingir 100% do PIB até 2029, segundo o FMI, nível só alcançado antes no pós-Segunda Guerra Mundial”, aponta a economista.


Neste cenário, segundo ela, o dilema para os bancos centrais é agir cedo demais e comprimir economias já pressionadas pelo choque de energia, ou esperar e arriscar uma desancoragem de expectativas, repetindo o erro de 2022. “Os diferenciais existem: mercados de trabalho com mais folga, demanda já comprimida, taxas longe do território acomodatício. Mas têm prazo de validade. O mercado de swaps já precifica alta de juros nos EUA antes do final de 2026", aponta.


Para o Brasil, nota Srour, os juros longos elevados globalmente estreitam o espaço para a política monetária doméstica, ao tornar a ancoragem das expectativas de inflação ainda mais dependente da credibilidade fiscal, que já enfrenta pressões conhecidas. “O conflito no Oriente Médio não tem prazo de resolução à vista. Os mercados estão começando a cobrar um prêmio de risco que estava ausente", afirma a diretora do UBS Global Wealth.


Neste contexto global mais adverso, que se juntou ao noticiário político nos últimos dias, o real se desvalorizou 3,54% na semana frente ao dólar, a pior desde 2022. A moeda fechou a sexta-feira negociada aos R$ 5,0673.


Segundo a equipe de estratégia global do BBVA, liderada por Alejandro Cuadrado, é improvável que novos desdobramentos relevantes envolvendo o caso Master impeçam o real de se afastar do nível psicológico dos R$ 5.


“O caminho até a eleição de outubro ainda é longo e provavelmente haverá muitos altos e baixos ao longo do percurso. O mais recente escândalo coloca o foco na próxima rodada de pesquisas e nos potenciais candidatos alternativos para desafiar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O carrego do real, as alternativas disponíveis e o longo horizonte até a eleição ainda favorecem danos limitados ao real, que segue forte, embora o posicionamento técnico ainda pareça bastante carregado", afirmam os profissionais do banco espanhol.


Já a estrategista do Goldman Sachs, Teresa Alves, avalia que, à medida que os eventos políticos se aproximarem da data da eleição, o impacto deles poderá se tornar mais relevante, especialmente diante do posicionamento ‘congestionado’ do mercado. Para ela, contudo, o que, de fato, deve importar para o comportamento dos ativos domésticos é o conjunto de pesquisas eleitorais, além das probabilidades dos diferentes desfechos da eleição.


“Embora o real provavelmente reaja a mudanças nas probabilidades eleitorais, também vale notar que a maior parte da valorização da moeda neste ano foi impulsionada por fatores globais, e não por mudanças no prêmio de risco doméstico”, nota a estrategista. Para ela, o aumento do ruído político e a piora do sentimento global de risco podem pesar sobre o câmbio no curto prazo, mas um ambiente de preços de energia mais elevados por mais tempo continua a ser um fator estruturalmente positivo para o real.


A economista-chefe para América Latina do J.P. Morgan, Cassiana Fernandez, nota que, nesta semana, a narrativa da campanha eleitoral tomou um novo rumo após a divulgação de áudios e mensagens envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, o que levantou questionamentos sobre a trajetória da oposição e aumentou o ruído político no curto prazo.


“Esse episódio reforça como a incerteza política trazida pela eleição — e suas potenciais consequências para ativos financeiros, como o real, e para as expectativas dos agentes econômicos, como as expectativas de inflação — torna ainda mais complexa a projeção dos dados econômicos. Em um ambiente em que a incerteza geopolítica já está elevada, esses eventos reforçam que está excepcionalmente difícil projetar a política econômica para além das próximas reuniões", afirma.


No mercado de juros, as taxas dos contratos de Depósito Interfinanceiro para janeiro de 2029 encerraram a semana nos maiores patamares desde 14 de abril de 2025, enquanto a taxa do DI para janeiro de 2031 terminou a sexta-feira aos 14,25%, também nos maiores níveis em mais de um ano.


Em podcast semanal, o sócio e gestor da Novus Capital, Luiz Eduardo Portella afirma que as taxas locais foram os principais destaques negativos da semana.


“O mercado de juros foi o destaque negativo, com 69 pontos-base de alta na semana, tornando o cenário para o BC mais desafiador. Começou a volatilidade da eleição. Nós já vínhamos discutindo quando viria alguma coisa em relação ao Flávio Bolsonaro. Todo mundo debatia que iriam esperar virar abril para passar o prazo para o Tarcísio [de Freitas, governador de São Paulo] não conseguir mais se candidatar. Veio em maio”, nota.



https://valor.globo.com/financas/intraday/post/2026/05/ruido-politico-coincide-com-piora-global-e-liga-alerta-nos-mercados.ghtml

Leitura de sábado

 *Leitura de Sábado: Não há espaço para Imposto Seletivo este ano, mas 6x1 passa, diz Eduardo Braga*


Por Naomi Matsui e Luci Ribeiro


Brasília, 15/05/2026 - O senador Eduardo Braga (MDB-AM), pré-candidato nas eleições deste ano a um novo mandato no Senado, afirmou ao Papo com Editor, do Broadcast Político, não acreditar que o Congresso votará em 2026 o projeto que definirá a alíquota do Imposto Seletivo (IS), conhecido como "imposto do pecado". No caso do fim da escala de trabalho de 6 dias por 1 de descanso, porém, ele disse "não ter dúvida" de que será aprovado.


O texto do "imposto do pecado" ainda não foi enviado pelo governo federal ao Congresso Nacional e precisa ser aprovado pelas duas Casas até setembro para que haja tempo de o tributo começar a valer em 2027, conforme estabelecido na reforma tributária.


"Não vejo espaço para tramitar um projeto dessa envergadura no segundo semestre, em plena campanha eleitoral. [...] Ficou pactuado de que esse imposto seria extrafiscal. É um equívoco o governo achar, se é que está achando, que encontrará espaço para transformar o Imposto Seletivo em imposto arrecadatório", declarou Braga, que foi relator da reforma tributária no Senado. O Imposto Seletivo recairá sobre cigarros, bebidas alcoólicas e açucaradas, veículos poluentes e apostas, e tem como objetivo desestimular o consumo desses produtos.


Braga também afirmou que o projeto que define uma política e destina incentivos à exploração de minerais críticos, aprovado na Câmara, terá "aprimoramentos" no Senado. O senador disse estar disposto a relatar a matéria e defendeu a fixação da participação de capital nacional e estrangeiro no texto, proposta que, segundo ele, conta com a concordância do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP).


"No pré-sal, tínhamos a tecnologia para explorar petróleo em altas profundidades marítimas, faltava capital, então, estabelecemos uma relação em que a Petrobras ficava com 70% do capital e o capital estrangeiro com 30%. No caso da exploração de terras raras, nos falta tecnologia e equipamentos. Seria justo pegar o mesmo parâmetro e que o capital nacional também possa ter participação, mas numa razão 70%-30% inversa", afirmou. O texto chegou ao Senado na semana passada, mas ainda aguarda despacho de Alcolumbre para as comissões.


Braga indicou que, neste ano eleitoral, o Senado deve priorizar, além das terras raras, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública e a redução da jornada de trabalho, que ainda está na Câmara. Para ele, tanto a PEC do fim da escala 6x1 quanto as medidas provisórias de subvenção ao combustível e do fim da "taxa das blusinhas" devem sofrer modificações durante a tramitação, mas devem ser aprovadas.


O 'Papo com Editor', programa com personalidades da política do País, é conduzido por jornalistas do serviço de informação em tempo real do Grupo Estado. O vídeo está disponível para assinantes do terminal broadcast+ na Broadcast TV, em Comentário Político e no Broadcast Político.


Leia aqui trechos da entrevista de Eduardo Braga ao Papo com Editor:


Broadcast Político: O Congresso aprovou a criação do Imposto Seletivo, mas falta definir a alíquota até setembro para dar tempo de entrar em vigor em 2027. Estamos em maio e o governo sequer mandou o projeto ao Congresso. O senhor tem tratado com o governo sobre o tema? Dá para votá-lo tão perto das eleições?

Braga: Primeiro, não vejo espaço para tramitar um projeto dessa envergadura no segundo semestre, em plena campanha eleitoral. Segundo, não estou conversando com o governo sobre o tema, porque não fui procurado. Terceiro, quando da criação da Emenda Constitucional 132, ficou pactuado o conceito de que esse imposto seria extrafiscal, não teria efeito arrecadatório para o governo, teria efeito educativo para a população. É um equívoco o governo achar, se é que está achando, que encontrará espaço para transformar o Imposto Seletivo em imposto arrecadatório.


Broadcast Político: A Câmara aprovou o projeto dos minerais críticos, envolvendo, entre outros pontos, incentivos federais da ordem de R$ 5 bilhões ao longo de cinco anos. O Amazonas tem interesse no assunto. Acha que o projeto está maduro o suficiente ou precisa de aprimoramentos?

Braga: A menos de 100 quilômetros de Manaus tem muita terra rara e, mais, em resíduo mineral, mais fácil de explorar. Não temos tecnologia para explorar terras raras. Um comparativo: no pré-sal, tínhamos a tecnologia para explorar petróleo em altas profundidades marítimas. Faltava capital, então estabelecemos uma relação em que a Petrobras ficava com 70% do capital e o capital estrangeiro com 30%. No caso da exploração de terras raras, nos falta tecnologia e equipamentos. Seria justo pegar o mesmo parâmetro e que o capital nacional também possa ter participação, mas numa razão 70%-30% inversa. Não temos a tecnologia, precisamos ter acesso à tecnologia e ao know-how. A partir daí, poder efetivamente entrar no mercado. Ainda não temos essa capacidade, nem do ponto de vista do hardware nem do software, para fazê-lo de forma lucrativa, rentável e eficiente.


Broadcast Político: O que o senhor acha do texto que saiu da Câmara?

Braga: Está na direção certa, mas com certeza sofrerá aprimoramentos no Senado.


Broadcast Político: O senhor pretende pleitear a relatoria desse projeto?

Braga: Não é meu costume pleitear relatorias. Coloco-me à disposição, porque é um tema sensível e eu, que fui ministro de Minas e Energia, tenho algum conhecimento. Não sou nenhum especialista na matéria, mas tenho algum conhecimento de mercado até em função do mapa geológico do Amazonas.


Broadcast Político: O que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, comentou sobre o projeto?

Braga: Davi falou que precisa de alguns aprimoramentos. Ele, por exemplo, concorda com a necessidade da participação do capital nacional.


Broadcast Político: Este é um ano legislativo mais curto por causa das eleições e tem uma série de projetos que vão se acumular no Senado. O que dá para votar e o que fica para o ano que vem?

Braga: Conversei com Alcolumbre e achamos haver entendimento para votar a questão das terras raras, a compensação de impostos em relação aos derivados de petróleo diante da crise da guerra entre Estados Unidos e Irã, que tem impactado enormemente alguns setores da nossa economia, entre eles, o agronegócio. Outra matéria que precisa ser votada é a da [redução da jornada] 6x1. Teremos que ter regra de transição para alguns setores da economia e regras mais compensatórias em determinados setores do que em outros. Mas é uma matéria que não tenho dúvida de que será aprovada. PEC da Segurança é um tema que está no topo da lista da agenda do Legislativo. Se essa PEC tramitar, vai andar muito rápido.


Broadcast Político: O governo Lula tem apostado em anúncios populares. Só esta semana, editou a MP para revogar a "taxa das blusinhas" e uma MP de subsídio à gasolina. O Congresso vai apoiá-las?

Braga: A medida provisória do combustível vai ser aprovada e avaliada, claro que com modificações e contribuições do Congresso. A "taxa das blusinhas" vai ser debatida, mas, no final das contas, acabará votada, porque, se não me engano, essa MP vence quatro dias antes da eleição. Imagine o efeito que isso causa. O setor privado vai debater muito sobre isso. Ouvi: 'Será que a gente pode aprovar uma emenda desonerando o produto nacional até US$ 50?' Eu disse: 'Vai compensar isso de onde?' Temos regras fiscais que nós vamos ter que obedecer. São temas que vão acontecer e vão ficar numa casa de irreversibilidade.


Contato: naomi.matsui@estadao.com; luci.ribeiro@estadao.com


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Paulo Roberto de Almeida

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