terça-feira, 4 de março de 2025

Impeachment do Trump

 Impeachment on the road?


https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2025/02/historiadores-e-cientistas-politicos-passam-a-chamar-de-golpe-acoes-de-trump.shtml?fbclid=IwY2xjawIyj85leHRuA2FlbQIxMQABHR5rwGlwZLzLEAfkfiYVFsvYPH3eqGBKoEK-iGqi8RE_Ih3N-JZhjTnCxA_aem_gT-AduBDMZuwoQonNF9ezw


*Historiadores e cientistas políticos passam a chamar de golpe ações de Trump*


_Figuras da esquerda à centro-direita, como Martin Wolf, Anne Applebaum e Timothy Snyder, acreditam que republicano já esteja rompendo ordem constitucional nos EUA_


Patrícia Campos Mello


Da esquerda à centro-direita, um número crescente de historiadores, analistas e cientistas políticos dos Estados Unidos está usando o termo "golpe" para caracterizar as ações de Donald Trump passado seu primeiro mês de mandato.


Figuras respeitadas como os historiadores Timothy Snyder e Ruth Ben-Ghiat, os cientistas políticos Steven Levitsky e Adam Przeworski, e até comentaristas mais identificados com a direita e centro-direita, como o jornalista Martin Wolf e a economista Jessica Riedl, do centro de estudos conservador Manhattan Institute, afirmam que as medidas adotadas pelo presidente ameaçam a democracia e podem configurar uma ruptura institucional.


"É claro que é um golpe", escreveu Snyder, professor da Universidade Yale e autor de "Sobre a Tirania", que popularizou o conceito de "obediência antecipada" a tiranos.


"As ações contínuas de Elon Musk e seus seguidores são um golpe, porque os indivíduos que estão tomando o poder não têm esse direito. Ele não foi eleito para nenhum cargo e não há cargo que lhe daria autoridade para fazer o que está fazendo. Tudo isso é ilegal", escreveu Snyder em sua coluna no Substack.


O desmantelamento do Estado está no foco das preocupações. Desde que o republicano assumiu, funcionários públicos têm sido pressionados a se demitir, agências governamentais inteiras estão sendo fechadas, e os recursos federais para estados e ONGs foram bloqueados. O Doge, sigla para o departamento criado via decreto por Trump com a tarefa de cortar gastos, tendo Musk à frente, atropelou regras de estabilidade de funcionários públicos, e o Executivo se apropriou de atribuições do Congresso —que tem o chamado "poder da carteira".


"Eles estão determinados a destruir o governo, não a fazer um ajuste por meio de reformas institucionais", disse Przeworski, estudioso da democracia na New York University e que cunhou o termo "autoritarismo furtivo".


"Eu adoraria ver cortes de 30%, 40% ou até mais em algumas agências governamentais. Mas siga a Constituição, vá ao Congresso e veja o que a maioria dos legisladores devidamente eleitos está disposta a aprovar", afirmou Jessica Riedl, que foi assessora econômica de políticos republicanos. Ela vê uma clara "erosão da democracia".


Já Wolf, outro influente pensador de centro-direita e colunista do Financial Times, acredita que o objetivo das demissões em massa e substituição de funcionários de carreira por aliados políticos seja "transformar os EUA em uma ditadura plebiscitária, na qual o detentor do poder é rei".


Ele escreveu em sua coluna mais recente que as reformas de Musk e Trump não têm nada a ver com tornar o governo mais eficiente. Segundo Wolf, a estratégia foi revelada pelo então senador e hoje vice-presidente, J. D. Vance, a um podcast conservador, ainda em 2021. "[Trump] deveria demitir todos os burocratas de nível médio, todos os funcionários públicos no Estado administrativo, substituí-los por nosso pessoal... E, quando os tribunais o impedirem, ficar ao lado da nação como [o ex-presidente] Andrew Jackson e dizer: 'O presidente da Suprema Corte tomou sua decisão, ele que a ponha em prática."


Em 1832, Jackson se recusou a cumprir uma decisão da Corte em uma disputa entre o estado da Geórgia e os indígenas cherokees, e a declaração atribuída a ele, provavelmente apócrifa, marcou o choque com o Judiciário.


A historiadora Anne Applebaum, autora de "Autocracia S.A.", compara esses expurgos no funcionalismo aos feitos pelo ditador venezuelano Hugo Chávez, que demitiu 19 mil empregados da PDVSA, a estatal do petróleo do país, e pelo primeiro-ministro da Hungria, Viktor Órban, que acabou com as proteções trabalhistas do setor público. Applebaum se refere às ações de Trump como "golpe" e "mudança de regime".


Para Ruth Ben-Ghiat, professora da Universidade de Nova York e autora de "Strongman", o republicano inaugurou uma versão atualizada do autoritarismo, com inovações como a rapidez extrema das mudanças e a dupla liderança, Musk-Trump. "Sou historiadora de golpes, e também usaria essa palavra. Estamos em uma situação de emergência real para nossa democracia." Na visão do economista progressista Paul Krugman, há uma "tentativa de autogolpe".


Professor da Universidade Harvard que se destacou com a obra "Como as democracias morrem", Steven Levitsky considera provável que a democracia nos EUA entre em colapso durante o segundo mandato de Trump ao "deixar de atender aos critérios padrão de uma democracia liberal: sufrágio universal adulto, eleições livres e justas, e ampla proteção das liberdades civis".


Em ensaio publicado na revista Foreign Affairs (e reproduzido pela Folha), ele afirma que os EUA não terão uma ditadura clássica do tipo "tanques na rua", mas se encaminha para o que chama de autoritarismo competitivo, "um sistema em que os partidos competem nas eleições, mas o abuso de poder do detentor do cargo desequilibra a disputa, deixando a oposição em (franca) desvantagem".


Mas, claro, há a turma do "devagar com o andor".


Em editorial, o Wall Street Journal afirma que "as ações de Trump são agressivas, mas não constituem um golpe". O WSJ é de propriedade Rupert Murdoch, dono também da Fox News, que faz cobertura positiva do governo e de onde foram pinçados alguns ministros do republicano.


Para o jornal, aqueles que falam em "crise constitucional" estão exagerando. "A verdadeira crise virá se Trump contestar uma decisão da Suprema Corte. Se isso acontecer, e pode acontecer, a esquerda vai querer não ter desperdiçado sua credibilidade ao gritar 'lobo' tantas vezes sobre crises que não existiam. Por enquanto, os leitores podem relaxar."

Amilton Aquino 0403

 Ontem, tive o desprazer de assistir ao documentário "A Face Oculta de Zelensky", produzido pelo Brasil Paralelo. Já havia visto outros episódios da série, o que me despertou curiosidade para ver até que ponto a produtora havia mergulhado nas investigações, separando fatos de desinformação russa espalhada pelas redes.


Para minha decepção (e para a esmagadora maioria dos internautas nos comentários), o documentário é uma coletânea de argumentos usados para denegrir a imagem de Zelensky, recorrendo a meias verdades e até mentiras descaradas, como veremos a seguir.


Desde o início, tenta-se traçar um paralelo com imagens da série cômica que o então ator protagonizou e a realidade, criticando sua postura outsider. Curiosamente, essa mesma característica é tratada com simpatia pelo BP quando o assunto é o bolsonarismo.


Na mesma linha, há uma crítica ao fato de Zelensky ter evitado debates durante a campanha, já que, rapidamente, despontou como favorito nas pesquisas. De fato, um ponto válido.


Até esse momento, quase metade do documentário, o tom predominante é de ironia, até mesmo ao citar a famosa frase de Zelensky: "Não me dê carona, me dê armas."


A partir daí, porém, o documentário começa a sugerir que a retórica do presidente ucraniano teria justificado a invasão de Putin. Zelensky, que se elegeu prometendo um acordo de paz, de repente vira incendiário. Segundo a narrativa do BP, ele teria sido o único responsável pela violação do Segundo Acordo de Minsk, afirmação ilustrada com imagens de tanques ucranianos avançando contra a região ocupada pelos russos. Putin, coitado, é apenas uma vítima, que não estimulou o separatismo, apenas reagiu às provocações de Zelensky!


A coisa se agrava quando o filme tenta pintar Zelensky como autoritário, citando a proibição de partidos pró-Rússia como se tivesse ocorrido antes da invasão, sugerindo que isso teria sido mais um motivo para a agressão de Putin. Na realidade, a proibição só aconteceu um mês depois da invasão e foi decidida pelo parlamento ucraniano, um erro inadimissível para uma produção que caminha para meio milhão de views.


O mesmo erro ocorre ao tratar do fechamento de veículos de imprensa pró-Rússia, algo comum em qualquer país em guerra. O documentário ainda usa a separação entre a Igreja Ortodoxa Russa e a Ucraniana como argumento contra Zelensky, ignorando o fato de que Moscou utiliza a religião como ferramenta de propaganda — basta ver as imagens do patriarca Cirilo (líder ortodoxo russo) abençoando a guerra de Putin.


Outro erro grosseiro está na questão da adesão à OTAN. O documentário tenta justificar a invasão russa alegando que Zelensky mudou de posição sobre o assunto, quando, na verdade, ocorreu o oposto. O próprio filme admite que, antes da guerra, a entrada na OTAN não era uma demanda de Zelensky. A mudança de discurso veio depois da invasão. Por que será??? 


Para reforçar as suspeitas sobre Zelensky, o documentário cita casos de corrupção em escalões inferiores do governo, sem qualquer envolvimento direto do presidente e sem mencionar que todos os envolvidos foram exonerados.


De crítica válida, apenas a sessão de fotos para a revista Vogue, que, de fato, foi um tiro pela culatra no esforço de Zelensky para conquistar apoio do Ocidente.


Pelo menos, o documentário não repete a mentira clássica de que Zelensky teria suspendido as eleições, algo que a própria Constituição Ucraniana proíbe em caso de guerra. No entanto, sugere que ele teria interesse na continuação do conflito para se manter no poder — ignorando o fato de que o próprio Zelensky já se mostrou disposto a renunciar como parte de uma eventual negociação.


Ah, e como não poderia faltar, tem também a insinuação de simpatia ao nazismo! Sim, eles usaram essa carta!


Enfim, um documentário lamentável, que cumpre o papel de justificar a guinada de Trump em direção ao ditador russo, abandonando os valores que tornaram os EUA grande. Aos apoiadores, cabe o lastimável papel de disseminadores do ódio contra um raro caso de político que abriu mão do conforto de uma vida nos EUA para arricar sua vida numa luta inglória contra a segunda maior potência militar do planeta.

BDM Matinal Riscala

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