*Primeiro sócio de Vorcaro na Faria Lima revela origem fraudulenta do Master*
15/01/2026 16h17
*Sócio que apresentou Daniel Vorcaro para o mundo da Faria Lima uma década e meia atrás, o empresário Antonio Augusto Conte foi alvo de busca e apreensão na quarta-feira, na segunda fase da Operação Compliance Zero. Conte estava em casa na Fazenda Boa Vista e entregou o celular.*
Em 2011, Antonio Augusto e o irmão Vicente — filhos de um empresário do ramo de cemitérios — eram sócios da gestora Blackwood quando Daniel e o pai Henrique Vorcaro apareceram no escritório no Itaim em busca de investidores para o retrofit de um prédio abandonado no centro de Belo Horizonte. A intenção era construir um hotel cinco estrelas que deveria ficar pronto para a Copa de 2014.
Conte liderou a estruturação de um fundo de R$ 200 milhões, atraindo dezenas de Institutos de Previdência de municípios, a própria prefeitura de Belo Horizonte, a marca hoteleira Golden Tulip e o empresário Roberto Justus, que emprestou seu nome para o projeto. O plano era transformar a velha estrutura abandonada em uma torre de vidro de 37 andares, com centro de convenções e heliponto.
O Golden Tulip, contudo, nunca saiu do papel. Foi o primeiro grande golpe dos Vorcaro em escala nacional e já indicava o modus operandi de desvio de recursos com fundos de previdência e fartos contatos políticos. Gestores dos institutos são indicados pelo prefeito (ou governador, no caso dos institutos dos estados).
Na época, os Vorcaro já tinham deixado investidores na mão em empreendimentos residenciais em Minas Gerais.
"Envolvi o Justus, a construtora RFM. Era um negócio grande. Por que nunca saiu do papel? Porque a obra parou no meio. Tudo o que eles faziam era para não sair. Era só rolo, rolo, rolo. Pegaram o dinheiro e compraram Porsche Cayenne, helicóptero", diz Antonio Augusto, em entrevista ao UOL realizada no final de dezembro no escritório do advogado Afrânio Affonso Ferreira Neto. Segundo ele, cerca de 70 institutos de previdência entraram como cotistas do fundo.
"Os Vorcaro eram muito queimados em Belo Horizonte. O pai brigava com todo mundo. Tinha uma época em que andava armado. Aos poucos comecei a dar uma roupagem para eles em São Paulo. Ensinei como funciona o mercado financeiro. Eles não tinham acesso, mas eram muito envolventes. Vestiam Louis Vuitton. No começo era 25 de Março, depois passaram a comprar em shopping", diz Antônio. "A gente viajava junto, ia para Trancoso. Fui no casamento da Natália [irmã de Vorcaro] com o Fabiano Zettel [preso e depois liberado na operação de quarta-feira]. Ficaram muito deslumbrados."
Antônio diz que foi vítima do esquema de desvios na construção do hotel — parcialmente desvendado na Operação Fundo Perdido de 2014. A operação mostrou como uma consultoria de investimentos, a Plena Consultoria, pagava comissões para os gestores dos institutos de previdência dos municípios que investissem recursos no fundo do hotel de BH e outros negócios.
Antônio relata que levou outros dois golpes do grupo de Vorcaro: na compra do Banco Máxima, que deu origem ao Master e, posteriormente, do Banif, hoje Banco Master Múltiplo, dono do Will Bank. O Banif está sob intervenção, tendo sido poupado da liquidação extrajudicial do grupo Master, decretada pelo Banco Central em 18 de novembro.
Em uma década, além da perda dos negócios, Conte diz que sofreu ameaças, perdeu amigos e nunca mais falou com o irmão Vicente, com quem chegou a sair no braço. Vicente também foi alvo de busca e apreensão nesta segunda fase da operação.
Cerca de um ano depois de estruturar o fundo do Golden Tulip, Antônio saiu da Blackwood — formada por executivos egressos do Credit Suisse — e montou uma gestora de gestão de patrimônio, a H11. Em 2016, Vicente deixou a Blackwood em meio a uma briga entre sócios e os irmãos Conte montam uma nova sociedade, a gestora Zion.
"Nessa época, eu admiti também o Daniel como sócio com 30% do negócio. Ele queria montar um banco, e tinha conhecido o Saul Sabbá, do Banco Máxima. Chamei para presidir o banco o Antônio Marques de Oliveira Neto, um cara muito inteligente, que tinha sido HSBC e era amigo da escola dos nossos filhos. E trouxe também o pessoal da gestora Mérito." Antonio Marques foi diretor do Máxima no período de transição e, mais recentemente, apontado como CEO do banco caso a venda para o grupo Fictor fosse aprovada.
Não demorou para Antônio e Vorcaro saírem de companheiros de baladas em Trancoso para arquirrivais — com o irmão Vicente e o resto do time que ele montou ficando do lado de Vorcaro.
"O negócio começou a crescer. Eram muitos e muitos fundos e perdi o controle. Não conseguia enxergar o todo. O Vicente e o Daniel começaram a dominar o time de executivos que eu tinha montado e foram tomando a empresa para eles."
Nessa época, eles já tinham comunicado a intenção de comprar o Máxima, mas o Banco Central ainda não tinha aprovado a operação. O processo de autorização levou dois anos.
"A gota d'água foi quando eu fui alertado pelo Fundo Garantidor de Crédito. Eles me falaram: 'cara, não dá. Isso não pode, vocês estão fazendo coisa errada'. Eu não estava entendendo. Foi aí que eu comecei a enxergar as minhas empresas. Porque era muito fundo, muita muita coisa. Quando entendi, falei: Tô fora."
Para comprar o Máxima, que estava com patrimônio negativo, e dar conta das exigências do Banco Central, eles precisavam aumentar o capital do banco em R$ 100 milhões.
A Zion estruturava fundos imobiliários, listados na Bolsa. Captavam dinheiro no mercado e investiam em empreendimentos. "Mas era só para fazer investimento com gente séria, de primeira linha. Mas eles iam fazendo sem me contar. Quando me dei conta, a gente estava comprando até condomínio no Pará. "
Conte foi até o Pará conversar com o vendedor e conhecer o empreendimento:
"Eu cheguei lá para falar para o cara que vendeu pra gente, um cara muito grande no estado, que tinha um fundo grande. Perguntei por que ele não tinha rating [métricas de performance e vacância] e ele falou: "Não, Antônio, é que na nossa análise aqui, não tem como a gente cobrar o cara. São muito violentos. Eles não pagam, entram para dentro e não tem polícia. Não tem como despejar o cara."
A autorização do BC veio em outubro de 2019, na gestão de Roberto Campos Neto, que assumiu o posto em fevereiro daquele ano. O quadro de acionistas original era formado por Armando Miguel Gallo Neto, Felipe Wallace Simonsen e Augusto Lima.
A operação Compliance Zero da Polícia Federal, deflagrada em novembro de 2025 e que levou à prisão de Vorcaro, Augusto Lima e outros três executivos, está revelando um esquema bilionário de fraudes com o uso de fundos para ocultar patrimônio e lavar dinheiro.
A defesa de Vorcaro diz que ele tem colaborado "integral e continuamente com as autoridades competentes. Todas as medidas judiciais determinadas no âmbito da investigação serão atendidas com total transparência." Segue a nota: "O sr. Vorcaro permanece à disposição para prestar esclarecimentos sempre que solicitado, reforçando seu interesse no esclarecimento completo dos fatos e no encerramento célere do inquérito. A defesa reitera confiança no devido processo legal e seguirá atuando nos autos para que as informações sejam tratadas de forma objetiva e dentro dos limites constitucionais."
Reportagem
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