Bela reflexão de meu Faceamigo Fernando Costa sobre o apoio da esquerda ao regime medieval assassino do Irã.
"Escrevi este texto em resposta a uma entrevista concedida pelo diplomata José Bustani, na qual ele sustentou que a Guerra do Iraque e o atual conflito envolvendo o Irã seriam motivados essencialmente por imperialismo americano, chegando ao ponto de formular a pergunta — a meu ver absurda — sobre por que o Irã não poderia possuir armas nucleares enquanto outros países podem. A questão, colocada nesses termos, ignora contexto histórico, natureza de regimes políticos e responsabilidade institucional:
Sobre os ataques dos EUA ao Irã, a esquerda brasileira, a diplomacia petista e certos setores da diplomacia brasileira insistem em um antiamericanismo automático e intelectualmente limitado, afirmando que os EUA agem exclusivamente por imperialismo. Embora eu compartilhe críticas à política externa americana — fui, inclusive, contrário à Guerra do Iraque — reduzir ações geopolíticas complexas a uma narrativa simplista de “dominação” não é análise, mas ideologia. Trata-se de uma leitura reducionista que ignora fatores históricos, estratégicos e tecnológicos que moldaram a atuação internacional americana ao longo do século XX.
Após a Primeira Guerra Mundial, os EUA optaram pelo isolacionismo. O resultado histórico desse afastamento contribuiu para um ambiente internacional instável que culminou na Segunda Guerra. O aprendizado estratégico foi decisivo: oceanos e barreiras geográficas já não isolam uma nação, sobretudo na era da aviação, dos mísseis balísticos e, posteriormente, das armas nucleares. A liderança global americana no pós-1945 não decorreu de um projeto imperial clássico, mas da compreensão de que a estabilidade internacional passou a ser condição direta de sua própria segurança.
Em contraste com a maioria dos impérios da história, que buscaram expandir territórios e subjugar povos, os EUA receberam o domínio global como consequência da derrota de potências expansionistas — o nazismo na Europa e o Japão imperial na Ásia. Antes do fim da guerra, tanto o regime nazista quanto o império japonês praticaram políticas de ocupação e violência extremas: na Ásia, o exército japonês matou civis, estuprou mulheres e cometeu atrocidades sistemáticas contra populações civis, enquanto na Europa o nazismo perpetrava massacres e perseguições em larga escala. Os Estados Unidos, ao contrário, não buscaram anexar territórios ou subjugar povos, mas atuaram para derrotar regimes que praticavam essas violências. Se os Aliados não tivessem vencido a Segunda Guerra, o mundo provavelmente teria seguido a trajetória histórica de expansão violenta típica da maioria dos impérios. A experiência histórica mostra, portanto, que a tese imperialista do Sr. José Bustani carece de fundamento: os EUA não criaram um império no sentido clássico, mas assumiram responsabilidades estratégicas por aprendizado histórico e necessidade de segurança global.
Isso não significa negar erros históricos graves. O golpe de 1953 no Irã, que depôs Mohammad Mossadegh, e o subsequente apoio americano ao regime do xá foram decisões controversas e moralmente problemáticas. Contudo, a própria história do Oriente Médio demonstra que, na região, frequentemente não há escolhas ideais, mas opções menos danosas dentro de cenários altamente instáveis. O exemplo do Iraque é ilustrativo: sob Saddam Hussein havia uma estabilidade autoritária; após sua queda, o país mergulhou em uma guerra civil brutal entre sunitas e xiitas. A constatação desconfortável é que, em determinadas circunstâncias históricas, não existem escolhas boas, apenas alternativas que buscam minimizar danos dentro de contextos trágicos.
A reconstrução da Alemanha e do Japão após 1945 — sem anexações territoriais — reforça que a política externa americana não se resume a conquistas territoriais. Os EUA financiaram a recuperação de antigos inimigos e ajudaram a estruturar instituições multilaterais que, muitas vezes, os criticam. Isso não os absolve de erros, mas invalida a caricatura de potência movida exclusivamente por espoliação.
Outro ponto frequentemente distorcido é a ideia de que guerras modernas se explicam principalmente pela busca por recursos naturais. O século XX demonstrou que a prosperidade de uma nação depende mais de educação, tecnologia e instituições sólidas do que de matérias-primas. Países ricos como Suécia, Noruega e Dinamarca — além de Suíça, Áustria e Alemanha — prosperaram sobretudo por capital humano e institucional, não por expansão colonial. Da mesma forma, Hong Kong, Singapura e Austrália — esta última tendo sido colônia penal do Império Britânico — tornaram-se altamente desenvolvidos apesar de sua origem colonial. Em contraste, países com vastos recursos naturais, como Brasil e Venezuela, continuam enfrentando dificuldades estruturais persistentes. O Japão, com escassez de recursos naturais, tornou-se potência global graças à inovação tecnológica e à produtividade. Ainda assim, parte da esquerda brasileira sustentou que a Guerra do Iraque ocorreu essencialmente para que empresas americanas explorassem petróleo — explicação simplista que reduz um conflito multifacetado a determinismo econômico e ignora fatores estratégicos, de segurança e de equilíbrio regional.
Continuando:
No caso do Irã, a discussão exige rigor adicional. O regime iraniano financia e apoia, há décadas, grupos como Hamas e Hezbollah, responsáveis por ataques deliberados contra civis. Dentro dessa lógica político-ideológica, o uso do terrorismo e do assassinato de civis é legitimado como instrumento de avanço estratégico. Esse elemento não pode ser relativizado. Um regime que admite tais práticas como ferramenta política representa risco qualitativamente distinto ao pleitear armamento nuclear. A pergunta sobre por que o Irã não poderia ter armas nucleares enquanto outros países têm ignora justamente essa diferença fundamental de natureza institucional e doutrinária.
A experiência recente ilustra o contraste entre diplomacia responsável e delírio moral. A ex-presidente Dilma Rousseffsugeriu que os EUA deveriam negociar com o Estado Islâmico (ISIS), organização que, entre outras atrocidades, jogava opositores na fogueira e promovia execuções públicas de minorias religiosas. Propor negociação com um movimento que pratica barbarismo explícito não é sofisticação diplomática, mas incompreensão da natureza do interlocutor. A metáfora do “tigre”, utilizada por Winston Churchill em referência ao nazismo, expressa exatamente esse ponto: negociar com o tigre significa supor que é possível racionalizar com um predador. Há forças históricas com as quais o diálogo não produz moderação, porque não compartilham os mesmos parâmetros racionais ou morais. Negociar com o barbarismo, nessas condições, tende apenas a fortalecê-lo.
No campo acadêmico, parte da base intelectual desse relativismo foi influenciada por correntes associadas à tradição antropológica da Columbia University, com autores como Franz Boas, Ruth Benedict e Margaret Mead. Embora tenham contribuído para combater teorias raciais pseudocientíficas, a leitura vulgarizada de suas ideias fomentou um multilateralismo acrítico, segundo o qual todas as culturas seriam equivalentes em mérito histórico e institucional. A própria história demonstra que civilizações alternaram posições de liderança científica e institucional. O mundo islâmico medieval destacou-se por avanços matemáticos, médicos e filosóficos, enquanto partes da Europa enfrentavam obscurantismo religioso e perseguições como as da Inquisição. Posteriormente, a Reforma Protestante, o Iluminismo e a Revolução Científica transformaram profundamente as instituições europeias, alterando o eixo do dinamismo tecnológico e político, enquanto países do Oriente Médio ficaram relativamente para trás nesse processo institucional. Ignorar essas variações históricas e sustentar uma equivalência moral permanente entre culturas é desconsiderar evidências concretas.
Essa postura gera uma contradição evidente: proclama-se a defesa de minorias e direitos humanos universais, mas relativizam-se práticas que os violam frontalmente, como a mutilação genital feminina, a repressão sistemática das mulheres, a imposição de códigos legais discriminatórios e a legitimação do assassinato de civis como meio de ação política. Defender grupos oprimidos enquanto se toleram tais abusos em nome do relativismo cultural não é coerência moral, mas inconsistência intelectual.
Em síntese, a falta de consistência analítica em setores da esquerda e da diplomacia brasileira produz uma falsa equivalência moral. Ao tratar democracias liberais e regimes que legitimam terrorismo e reprimem direitos fundamentais como se ocupassem o mesmo patamar ético, constrói-se uma simetria artificial. Os exemplos reiterados de abusos de direitos humanos e da utilização deliberada do terrorismo por parte do regime iraniano demonstram que essa equivalência é insustentável. O antiamericanismo reflexo, longe de qualificar o debate, empobrece a compreensão das diferenças reais entre sistemas políticos, culturas estratégicas e responsabilidades históricas."