domingo, 11 de maio de 2025

Maurício Meirelles

 Maurício Meireles


Nove de abril de 1964 foi um dia tumultuado, para dizer o mínimo. Os militares tinham acabado de tomar o poder e, naquela data, com o Ato Institucional Número 1, suspenderam inúmeras garantias democráticas. Na lista de cassados em seguida constavam nomes como João Goulart, Leonel Brizola e Rubens Paiva. Era o início de uma ditadura que duraria 21 anos.


No mesmo dia, o escritor Rubem Fonseca —executivo da Light, mas nos primeiros passos de sua carreira literária— redigiu uma carta ao presidente do Ipês (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), organização empresarial que tinha participado da conspiração contra João Goulart.


"Meu caro [Haroldo] Poland", bateu o autor à máquina, "venho pela presente solicitar minha demissão da Comissão Executiva do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais. Levam-me a isso razões particulares a que não posso deixar de atender".

No documento, o autor também defende que o Ipês continue se dedicando a uma agenda de "reformas de base".


A missiva está entre as centenas de papéis no acervo do escritor, a que a Folha teve acesso. O material, hoje em cerca de 60 caixas, foi encontrado pela filha de Rubem Fonseca, Bia Corrêa do Lago, no apartamento do pai depois da morte dele, em 2020.

Ao que tudo indica, o documento só está preservado ali. A reportagem fez uma busca nos arquivos do Ipês, no Arquivo Nacional, mas não encontrou uma cópia da correspondência.


A carta acrescenta um novo elemento a uma controvérsia que marcou a biografia de Rubem Fonseca, uma das mais notórias vítimas da censura no regime militar. Nos anos 1980, pesquisas revelaram que ele havia integrado a cúpula do Ipês —o que, como consequência, poderia torná-lo cúmplice das articulações pelo golpe de 1964.

A participação no Ipês, aliás, foi um dos poucos assuntos sobre os quais Rubem Fonseca falou na imprensa. Em um texto de 1994 na Folha, por exemplo, ele dizia que havia dois grupos dentro do instituto: um golpista e outro reformista e democrático, ao qual ele pertencia. Também disse ter se afastado da organização depois do golpe.

A carta de demissão parece dar lastro à versão do escritor sobre seu afastamento. "A carta não me surpreendeu, mas fiquei feliz de a ter encontrado", diz Bia Corrêa do Lago, acrescentando que o documento reforça o que ouvia em conversas privadas com o pai.


Foi em 1981 que a participação de Rubem Fonseca no Ipês, então como diretor da Light, empresa de distribuição de energia que financiou o instituto, veio à tona pela primeira vez. Naquele ano, saiu o livro "1964 - A Conquista do Estado", do cientista político uruguaio René Armand Dreifuss, pioneiro ao revelar a atuação dos empresários para derrubar o governo João Goulart —sustentando que o Ipês teve papel crucial nesse processo.

Pela análise de Dreifuss, o instituto se apresentava em público como algo inofensivo, apenas um think tank disposto a auxiliar o país em reformas. No entanto, estava envolvido em ações secretas e produzia peças de propaganda para influenciar a opinião pública. 

 

O Ipês contou inclusive com a participação dos militares. O general Golbery do Couto e Silva, um dos militares mais influentes da ditadura, foi uma das lideranças da entidade. Golbery não só ajudou a traçar a estratégia da organização, mas também coordenou o levantamento de dados sobre brasileiros considerados subversivos.

Quando saiu o livro de Dreifuss, Zé Rubem, como os amigos o chamavam, já era um escritor famosíssimo. Não foi à toa que, de tantos nomes citados na obra, o seu tenha chamado a atenção.


Dreifuss descobriu que ele coordenara o núcleo editorial do Ipês, mas, como a pesquisa não é especificamente sobre o escritor, não chega a se estender em detalhes da trajetória dele —ou a mencionar um eventual afastamento da entidade.

Logo depois da publicação do livro, Rubem Fonseca publicou um artigo no Jornal do Brasil (uma cópia do texto está preservada em seu acervo). Nele, desenvolve pela primeira vez o argumento das alas reformista e conservadora do Ipês e minimiza o papel da organização no golpe.


O escritor lembra ainda que, quando os militares tomaram o poder, não foi ocupar um cargo no governo federal porque não quis. Diz que, quando o governo comprou a Light, foi um dos primeiros diretores a serem demitidos. E recorda o rumoroso caso de censura a seu livro "Feliz Ano Novo", em 1975 — o volume de contos só voltaria às livrarias com a reabertura.


A historiadora Heloísa Starling, que foi orientanda de Dreifuss e chegou a pesquisar o Ipês em Minas Gerais, diz ver com ceticismo a explicação do autor.


Em seu novo livro, ainda inédito, ela dedica um capítulo à entidade empresarial. Na obra, sustenta que a fase final do plano do instituto —aliado a uma facção das Forças Armadas— era ocupar o Estado.


"O Ipês é o braço empresarial do golpe, não há ala democrática lá. É como o que vemos hoje, usavam o discurso da democracia para subverter a democracia. Mas não acho que Rubem Fonseca estivesse interessado na ocupação do Estado", diz ela.

"Várias pessoas participam ativamente e depois se arrependem. Os efeitos dos atos institucionais podem ter funcionado de gatilho para uma compreensão maior. Podemos calçar os sapatos do morto nisso." 

 

Já nos anos 2000, outras pesquisas sugeriram que Rubem Fonseca fosse o autor dos roteiros dos filmes do Ipês, produzidos por Jean Manzon, lendário fotógrafo de revistas brasileiras. Mas esses estudos apoiam a acusação em evidências frágeis, enquanto trabalhos posteriores afirmam que os filmes do instituto eram iniciativa principalmente da unidade de São Paulo e que o papel do escritor neles foi superestimado.


Contudo, historiadores têm apontado documentos no acervo do Ipês, no Arquivo Nacional, que parecem contradizer a carta de demissão.


Por exemplo: em 27 de março de 1968, Haroldo Poland, presidente da entidade, comunica numa carta a Rubem Fonseca que o autor foi reconduzido, por unanimidade, para o Conselho Orientador do instituto; chama-o de "caro amigo dr. José". Além disso, a ata de dissolução da organização, em 1972, tem a assinatura do escritor.


Segundo Bia Corrêa do Lago, o pai continuou oficialmente no quadro do Ipês porque era executivo da Light, mas se afastou do dia a dia da entidade.


"Ele deixou de ir às reuniões do Ipês. Como a Light ainda estava ligada ao instituto, ele continuou ligado de alguma maneira, mas sem ações na prática", diz ela, acrescentando que o pai era contra a deposição de João Goulart e que está contratando uma pesquisadora para investigar os arquivos do instituto.


A filha do autor vem trabalhando no acervo do pai para uma fotobiografia em celebração do centenário dele. Ela afirma que os papéis permitem um olhar abrangente sobre as posições políticas do escritor — inclusive com uma atuação de juventude contra o Estado Novo de Getúlio Vargas. Segundo Bia, o homem que surge dos documentos tem credenciais democráticas.

Silêncio comprado

 *Silêncio comprado?*


Por Leonardo Corrêa


Foi com dureza e precisão que Estadão e a Folha de S.Paulo reagiram à visita de Lula à Rússia. Em editoriais contundentes, os dois maiores vespertinos paulistas não pouparam o presidente brasileiro pelo gesto de confraternização com Vladimir Putin, no coração de Moscou, durante as comemorações do chamado “Dia da Vitória”. A Folha classificou a viagem como um "erro diplomático patente", denunciando a deferência a um autocrata que promove guerra e violações massivas aos direitos humanos. Já o Estadão foi além: evocou o peso da História e carimbou a cena com palavras que não se esquecem — “o dia da infâmia da política externa brasileira”.


Ambos editoriais reconheceram o gesto como mais que simbólico: viram nele a falência de qualquer pretensão de neutralidade, e a submissão da diplomacia brasileira a uma lógica antiocidental. Lula, ladeado por ditadores latino-americanos, assistiu ao desfile de mísseis que hoje esmagam cidades ucranianas. Para os jornais de São Paulo, a presença não foi um deslize; foi um manifesto, uma escolha. Um país que diz prezar pela paz não se senta à mesa com quem abraça a guerra.


No entanto, entre as grandes redações nacionais, um nome destoou. O Globo, sempre pronto a assumir o centro do debate institucional, desta vez foi tímido. Publicou um editorial antes da visita, ainda no tom das advertências diplomáticas. Condenou a reinterpretação histórica feita por Putin sobre a Segunda Guerra Mundial, mas evitou criticar diretamente o presidente brasileiro. Nem a imagem de Lula na Praça Vermelha, diante de ogivas e tanques, foi suficiente para arrancar do jornal da família Marinho ao menos uma nota à altura do que se viu nos editoriais do Estadão e da Folha.


A razão talvez não esteja nas páginas de opinião, mas nas cifras da publicidade oficial. Segundo levantamento publicado pela VEJA, entre 2023 e 2024 a Rede Globo recebeu R$ 177,2 milhões da Secretaria de Comunicação do governo Lula — valor que supera o total repassado à emissora durante os quatro anos de Jair Bolsonaro. Em 2024, sozinha, a Globo ficou com 53% de toda a verba federal de publicidade destinada às principais TVs do país. Não se trata de conjectura: trata-se de números. Dados públicos que expõem um elo financeiro robusto entre o governo e a emissora que, por décadas, se autodenominou “independente”.


Mais do que isso: enquanto os demais grupos de mídia receberam valores menores e até decrescentes, a Globo viu seu lucro saltar 138% em 2024, chegando a impressionantes R$ 2 bilhões, conforme revelou reportagem publicada pelo portal Teletime em abril de 2025. A coincidência entre esse crescimento exponencial e o volume de repasses publicitários da Secom é eloquente demais para ser ignorada.


Diante disso, é legítimo perguntar: por que um jornal que sempre se destacou por seus editoriais vigorosos parece agora tão contido diante de um episódio tão grave? Por que a maior emissora do país, diante do constrangimento internacional causado por um presidente que se associa a ditadores e autocratas, responde com o silêncio? A resposta pode não estar apenas na redação, mas no caixa. Quando a crítica custa caro, a complacência vira investimento. A verdade, então, não se cala: se o Estadão e a Folha ainda cumprem o papel de imprensa livre, O Globo parece cada vez mais satisfeito em atuar como assessoria de imprensa do poder. Um poder que paga bem.


Mais do que omissão, o comportamento de O Globo expõe um vício sistêmico: quando o dinheiro do pagador de impostos é usado pelo governo de ocasião para financiar o discurso, a liberdade de expressão se desfaz. Não há neutralidade possível quando o Estado banca o microfone. A crítica se torna concessão, o silêncio vira contrato, e a imprensa deixa de servir ao público para servir ao poder. O jornalismo independente não sobrevive onde a publicidade oficial compra a pauta e entorpece a vigilância. Nesse cenário, não há pluralismo — há alinhamento. Não há voz — há eco.


Enquanto isso, os mísseis dos censores não desfilam apenas em Moscou — apontam, cada vez mais, para as redes sociais. Ali, onde não há verba da Secom, não há controle por contrato. São vozes soltas, sem pauta vendida, sem blindagem estatal. E é justamente por isso que incomodam tanto. As plataformas digitais expõem o que os editoriais calados escondem: a opinião dos indivíduos, não a conveniência dos grupos. Onde o dinheiro público não chega, a liberdade resiste.


No fim, o que se cala pesa mais do que o que se diz. A imprensa existe para ser contrapeso, não escudo. Quando falha em denunciar o poder, torna-se cúmplice dele. E quando o silêncio é comprado com dinheiro público, a verdade passa a ter preço — e o cidadão, a pagar com desinformação. Mas há ainda quem escreva sem patrocínio, quem fale sem filtro, quem resista sem medo. São essas vozes, dispersas e indomáveis, que mantêm viva a centelha da liberdade. Mesmo quando tudo parece dominado, elas lembram que o eco não é a única forma de som.

Paulo Cursino

  Não, eu não gostaria de ver a América de Trump tirando o presidente da Venezuela do poder. Eu gostaria de ver o Brasil fazendo isso. O paí...