domingo, 24 de agosto de 2025

Leitura de domingo

 *Leitura de Domingo: Setores ligados à economia doméstica têm bom desempenho, mas juro é alerta*


Por Ana Paula Machado, Beth Moreira, Caroline Aragaki, Isabela Mendes e Mateus Fagundes


São Paulo, 19/08/2025 - A temporada de balanços do segundo trimestre de 2025 teve como destaque positivo as empresas ligadas à economia doméstica e os bancos. Esses segmentos apresentaram crescimento expressivo nas receitas e boas margens, salvo algumas exceções pontuais - como o Banco do Brasil.


No levantamento feito pela reportagem a partir do compilado do Prévias Broadcast, 60% das empresas apresentaram números em linha ou acima do esperado no segundo trimestre.


O setor de varejo foi um dos destaques da temporada, na opinião do head de Equity Research para América Latina do Citi, André Mazini. O profissional ressalta que o segmento registrou alta de dois dígitos nas vendas no conceito mesmas lojas (SSS, na sigla em inglês), impulsionado pelo clima mais frio.


Nessa lista de companhias com as melhores performances no segundo trimestre estão o varejo e as construtoras; entre elas, segundo Mazini, do Citi, figuram Lojas Renner, C&A, Alpargatas e Petz.


"Inclusive a C&A é a nova queridinha eu diria. A empresa teve um turn around nos últimos tempos e está rodando muito bem", afirma. Mazini avalia, no entanto, que o terceiro trimestre deve ser mais difícil para o segmento, principalmente por causa da base de comparação forte de 2024.


Entre as varejistas que não foram tão bem, segundo o Citi, estão a Natura, que ainda enfrenta dificuldades com a Avon Internacional, e o Magazine Luiza.


Bancos


Os bancos brasileiros também tiveram um trimestre positivo, segundo Mazini, do Citi, com inadimplência sob controle apesar da desaceleração do crédito. Como destaques, ele cita Itaú e BTG, com retorno sobre o patrimônio (ROAE) acima das expectativas.


O Inter, por sua vez, apresentou boa expansão do ROAE, sólido patrimônio e lucro acima do esperado. Ainda entre os digitais, o Nubank entregou ROAE de 27%, nível que o analista considera elevado.


Já o Bradesco mostrou recuperação, com ROAE em alta e ganho de margem financeira. O BB, no entanto, continua a mostrar pressão do segmento agro, o que tem deixado o mercado cético, segundo o profissional.


Juros


Apesar das surpresas positivas, os balanços do segundo trimestre mostraram de forma mais concreta os efeitos do aperto monetário feito pelo Banco Central. Com a Selic a 15%, as despesas financeiras passaram a consumir ainda mais os recursos operacionais das companhias, especialmente as mais alavancadas, pontua Mazini, do Citi.


Há, contudo, uma esperança para as empresas e para os investidores: com os primeiros sinais de desaceleração da atividade doméstica, o debate se desloca para o momento em que o BC vai cortar os juros.


O estrategista-chefe de ações de Brasil e LatAm do Itaú BBA, Daniel Gewehr, lembra que o mercado antecipa a precificação da política monetária entre três e cinco meses, o que pode trazer otimismo em breve.


"O primeiro trimestre estava com a economia forte, mas os juros ainda não tinham pesado, no segundo vimos uma economia ainda forte, mas influenciada pelos juros. Para o terceiro trimestre, a perspectiva é de desaceleração da economia, com juros altos, mas com perspectivas de corte em breve", diz.


Contatos: ana.machado@estadao.com, beth.moreira@estadao.com, caroline.aragaki@estadao.com, isabela.mendes@estadao.com e mateus.fagundes@estadao.comCS


Broadcast+

Paulo Baía

 A crosta sígnica da existência humana **


      * Paulo Baía 


“Compreender, interpretar é traduzir um pensamento em outro pensamento num movimento ininterrupto”, escreve Lucia Santaella, em um de seus trechos mais luminosos sobre a semiótica. E prossegue: “É porque o signo está numa relação a três termos que sua ação pode ser bilateral: de um lado representa o que está fora dele, seu objeto, e de outro lado, dirige-se para alguém em cuja mente se processará sua remessa para um outro signo ou pensamento onde seu sentido se traduz”. Santaella, nesse gesto de precisão conceitual e lirismo poético, revela o que somos: seres aprisionados e libertos por signos, criaturas que respiram significados, que só existem porque habitam símbolos que, ao mesmo tempo, nos aproximam e nos afastam do real.


Essa formulação ecoa o núcleo da semiótica de Charles Sanders Peirce. O signo, em sua concepção, é triádico: há sempre um objeto, um signo e um interpretante. E não há fim no processo. Cada interpretação conduz a outra, num encadeamento infinito de semiose. O mundo, portanto, não é dado em sua nudez, mas sempre envolto por representações, como uma pele que recobre o sensível. Santaella lembra: a palavra “mesa” não é a mesa em si, mas remete a um outro signo, a outro conceito, a uma cadeia de significações. Esse deslocamento incessante constitui, ao mesmo tempo, a miséria de nossa condição, pois jamais tocamos o real puro, e sua grandeza, pois é esse movimento que nos permite construir ciência, poesia, memória, política, religião.


Claude Lévi-Strauss, em sua antropologia estrutural, mostrou que o signo é mais do que mediador: é a própria estrutura do mundo social. O mito, para ele, não é simples relato, mas gramática de pensamento, linguagem condensada que organiza o caos e institui o sentido. A crosta sígnica, que em Santaella é camada que nos afasta do contato direto com o sensível, em Lévi-Strauss é matriz simbólica, condição de inteligibilidade, a arquitetura invisível que nos permite dar forma à experiência. A leitura estruturalista da cultura mostra como os signos classificam, ordenam e estabilizam, tornando o real habitável.


Clifford Geertz levou esse raciocínio adiante ao definir cultura como “teias de significados que o homem mesmo tece e nas quais está suspenso”. A análise cultural, disse ele, não é ciência experimental em busca de leis, mas ciência interpretativa em busca de significados. A metáfora do dicionário usada por Santaella, cada palavra se explica por outra palavra, é o exemplo mais simples dessa condição. Para Geertz, o etnógrafo deve produzir uma “descrição densa”, captar não apenas o gesto visível, mas o campo de significados que o envolve, porque o humano nunca é apenas ação, mas sempre interpretação.


Pierre Bourdieu acrescenta outra dimensão ao problema: os signos são também instrumentos de poder. O capital simbólico estrutura a vida social tanto quanto o econômico, porque títulos, rituais, estilos de linguagem e marcas de distinção produzem hierarquias, naturalizam desigualdades e legitimam a dominação. A crosta sígnica de Santaella, sob a lente de Bourdieu, é campo de luta: um espaço onde se disputam sentidos, onde se define o legítimo e o ilegítimo, o culto e o vulgar, o válido e o descartável.


Roland Barthes, por sua vez, alerta que o mito moderno transforma o contingente em eterno, o histórico em natural. Para ele, os signos são sempre políticos, porque nunca são neutros: já carregam ideologias, já transmitem interpretações mascaradas de obviedade. Santaella fala da miséria da condição simbólica; Barthes lembraria que é nessa miséria que se instala a ideologia, que se naturalizam narrativas, que se legitima o poder. O signo, ao designar, já interpreta, e ao interpretar, já oculta.


Jacques Derrida radicalizou essa percepção ao falar da différance, esse jogo incessante em que o sentido nunca se fixa, mas se adia, sempre remetido a outro signo. O que Santaella chama de fuga interminável do significado encontra, em Derrida, sua formulação filosófica mais extrema: não existe presença plena, apenas vestígios e rastros que se diferem e se diferenciam. A condição humana é, assim, ser habitante de um campo de adiamentos, condenada à tradução interminável.


Se olharmos para Michel Foucault, o problema se transforma em arqueologia do saber. Os signos não apenas traduzem o real, mas constituem regimes de verdade, sistemas discursivos que delimitam o que pode ser dito, visto e pensado em determinada época. O signo é dispositivo, e como tal, é também prática de poder e saber. A crosta sígnica de Santaella, lida com Foucault, é a episteme: o campo invisível de regras que organizam discursos e determinam a inteligibilidade de uma sociedade.


Durkheim, no nascimento da sociologia, também compreendeu a centralidade dos símbolos. Para ele, as representações coletivas eram a alma das sociedades, e os ritos eram momentos de efervescência nos quais os indivíduos experimentavam o poder do coletivo simbolizado. O totem não era apenas um objeto, mas a materialização do grupo, a condensação simbólica da força social. Nesse sentido, a crosta sígnica não é apenas obstáculo, mas experiência de sacralidade, mediação necessária entre indivíduos e sociedade.


George Herbert Mead, precursor da escola interacionista, destacou que o self humano só emerge no campo da linguagem e da interação simbólica. A identidade não é algo dado, mas algo produzido no jogo de signos, na constante interpretação do olhar e da fala dos outros. A crosta sígnica, aqui, é condição de subjetividade: só nos tornamos sujeitos porque somos atravessados por signos.


Norbert Elias, em sua análise da civilização, mostrou como os processos sociais se traduzem em códigos simbólicos de comportamento: etiquetas, modos de falar, formas de vestir e comer. A sociedade se escreve sobre os corpos por meio de signos e símbolos que disciplinam gestos e regulam interações. O indivíduo, imerso nessa rede, internaliza regras como se fossem naturais. O signo, nesse caso, é o próprio mediador da civilidade.


Max Weber também ofereceu contribuições importantes. Para ele, a ação social é sempre orientada por significados. O sociólogo deve interpretar o sentido que os atores atribuem às suas ações, e é esse sentido, sempre simbólico, que organiza as condutas sociais. O mundo humano não se define apenas pela causalidade, mas pelo tecido de interpretações que atribuem finalidade às práticas.


Erving Goffman, com sua sociologia dramatúrgica, revelou como a vida cotidiana é estruturada em encenações simbólicas. Cada interação social é uma performance de signos: gestos, expressões, modos de vestir, posturas, que transmitem significados e produzem identidades diante de plateias sociais. A crosta sígnica é, então, o próprio palco da vida, onde se encenam papéis e se negociam legitimidades.


Victor Turner, estudando ritos de passagem e símbolos em sociedades tradicionais, mostrou como os signos condensam múltiplos significados e atuam como operadores de transformação. O símbolo, para Turner, é polissêmico, processual, capaz de organizar transições de estado social e de produzir momentos de comunhão. A linguagem simbólica não é apenas representação, mas força de transformação.


No presente, percebemos que nunca vivemos de maneira tão intensa a condição descrita por Santaella. Nas redes digitais, nos algoritmos, na circulação vertiginosa de imagens, memes, palavras, slogans e narrativas, a semiose infinita se torna experiência cotidiana. Cada enunciado é já outro enunciado, cada sentido se multiplica, cada narrativa se contradiz, cada símbolo se volatiliza em mil versões. A crosta sígnica se torna oceano de signos, sem centro nem borda, onde cada interpretação é provisória e cada significado é disputado com ferocidade.


Esse é o paradoxo essencial: somos seres condenados a nunca alcançar o real em sua nudez, mas também seres agraciados pela possibilidade infinita de criação. A crosta sígnica, que ao mesmo tempo nos aprisiona e nos liberta, é a superfície onde se inscrevem nossas práticas sociais, nossas instituições, nossas artes, nossas religiões, nossas ciências, nossas lutas políticas.


Ler Santaella, ao lado de Peirce, Lévi-Strauss, Geertz, Bourdieu, Barthes, Derrida, Foucault, Durkheim, Weber, Mead, Goffman, Turner e Elias, é compreender que o humano não existe fora da linguagem, que não há sociedade fora dos signos, que não há cultura fora das redes de significados. Nossa miséria é nunca estar diante das coisas mesmas. Nossa grandeza é poder reinventar incessantemente os mundos que habitamos. Talvez seja nesse intervalo, nesse hiato entre signo e coisa, entre sentido e real, entre palavra e corpo, que resida o núcleo mais belo e mais doloroso da experiência humana: a certeza de que o real nunca se oferece puro, mas também a esperança de que, ao transformar os signos, possamos transformar o próprio real.


             * Sociólogo , cientista político e professor da UFRJ 

            

             ** Este texto foi apresentado em uma palestra na cidade de Canoas, no Rio Grande do Sul, na Universidade Luterana do Brasil (ULBRA), em outubro de 2018.

Amilton Aquino

 Hora de superar Lula e Bolsonaro: lições e desafios para 2027


O editorial do Estadão deste domingo, intitulado “Hora de acordar, Brasil”, faz coro a uma demanda cada vez mais urgente: precisamos nos livrar dos populismos que nos dividem. O problema é: como?

A teoria dos jogos, infelizmente, nos diz que ainda teremos de conviver por um bom tempo com a odiosa polarização que nos impede de chegar a consensos mínimos sobre o que é melhor para o país.


Ao que tudo indica, porém, o eleitor chegará à urna menos empolgado e mais desconfiado do que está por vir, temendo inclusive uma vitória de pirro. E sim, isso já representa um avanço — um primeiro passo rumo à contagem regressiva para a superação de Lula e Bolsonaro, cada dia mais envelhecidos e mais expostos diante das contradições que se acumulam.


O certo mesmo é que 2027 será um ano difícil. A dívida pública, que em proporção ao PIB recuou de 88,6 % em 2020 para 76,1% % em 2022, voltou a se expandir rapidamente a partir da nova temporada de estímulos artificiais do governo Lula. Isso compromete boa parte dos recursos públicos com o pagamento de juros. 


Como sair dessa enrascada? Aumentando ainda mais a carga tributária — já muito acima da média dos emergentes e comprometendo nossa competitividade no mercado internacional, como aposta o governo Lula? Ou reduzindo gastos e apostando na eficiência da máquina pública, como têm feito alguns governadores de direita que sonham herdar o espólio de votos bolsonaristas?

Não tenho a menor dúvida de que a segunda opção seria a melhor para o país — caminho trilhado, sobretudo, pelos estados governados pela direita nas regiões Sul e Centro-Oeste. 


Naturalmente, por estar à frente do estado mais rico da federação, Tarcísio de Freitas é visto como o principal candidato anti-PT na próxima eleição. Mas não descartaria Ratinho Jr., que, até o final do seu segundo mandato, terá elevado o PIB do Paraná em cerca de 63 %, passando de aproximadamente R$ 440 bilhões para R$ 718 bilhões em 2024, apostando não apenas no agronegócio, mas também na diversificação da economia. Confesso que fiquei bem impressionado com uma entrevista que vi recentemente. Se Tarcísio desistisse e Ratinho Jr. herdasse o espólio bolsonarista, acredito que suas chances aumentariam significativamente ao longo da campanha. Arrisco dizer até que teria mais potencial de crescimento que Caiado ou Zema.


O que me preocupa mesmo, no entanto, é 2027. Se Lula for reeleito, a parte positiva será a lição que o povo brasileiro aprenderá sobre o custo das políticas expansionistas, abrindo caminho para um pós-Lula mais duradouro. Se, por outro lado, um candidato da oposição mais moderado vencer, como reagirá diante da pressão dos bolsonaristas radicais e da fúria petista diante dos cortes necessários? Se for bem-sucedido, ótimo para o Brasil. Se fracassar, o PT volta com força para repetir a dose, voltando a raspar o tacho — como agora.


O mais provável, infelizmente, é que o Brasil continue crescendo abaixo da média mundial, sustentado pelo agronegócio, pela mineração e por algumas ilhas de excelência industrial. No mais, seguirá sendo beneficiado pela evolução tecnológica, que reduz custos de forma geral na economia e, claro, torna a Receita Federal ainda mais eficiente em extrair recursos do setor produtivo para sustentar o elefante estatal.

Paulo Cursino

  Não, eu não gostaria de ver a América de Trump tirando o presidente da Venezuela do poder. Eu gostaria de ver o Brasil fazendo isso. O paí...