quinta-feira, 4 de junho de 2026

Fórum de Lisboa: para que? para quem? Marcelo Guterman

O tal Fórum de Lisboa me parece algo totalmente fora de contexto e, mais do que isso, fora do lugar. São todos, agradecidos desta formidável "boca livre". Mas me desculpem, não faz o menor sentido. Apenas para constar...Daniel Vorcaro cansou de fazer isso...cooptando autoridades, intelectuais e profissionais, que se dobrariam a estes acebípes, estas mordomias. Lamentável. Honestidade? Passou longe.


O economista Felipe Salto foi um dos agraciados com o ar puro de Lisboa. Bateu ponto no Gilmarpalooza e nos brindou com um artigo sobre a palestra do Nobel de economia Joel Mokyr.


Salto certamente não notou a profunda contradição em termos que seu artigo representa. Mokyr ganhou o seu prêmio Nobel pela sua análise da interação entre ciência e inovação tecnológica como propulsor do crescimento econômico, e do papel das instituições de um país para que esse processo ocorra. Segundo Mokyr, não foi acaso a Revolução Industrial ter ocorrido inicialmente na Inglaterra, primeiro lugar em que o Rule of Law, e não o Rule of King, encontrou lugar. Segundo Salto, “é o progresso técnico, aliado a estruturas democráticas e confiáveis, sob instituições à altura, o caminho para elevar o crescimento ao longo prazo”. Perfeito, não estivesse Salto em um evento que representa a antítese desse conceito.

O economista não consegue perceber que Gilmar Mendes não é somente “uma mente privilegiada, cujo espírito público é gigantesco”. Ele é o mais influente ministro da mais alta Corte do país, com poder de vida e morte sobre cidadãos e empresas. Uma pessoa em sua posição deveria resguardar-se de qualquer suspeita de conflitos de interesses, o justo oposto do que esse festival de Lisboa representa. Nunca vamos saber se a presença de empresários brasileiros é motivada pela pura busca por conhecimento (como certamente é o caso do articulista), ou há outros interesses envolvidos. Afinal, Gilmar tem uma caneta poderosa, e não é possível separar uma coisa da outra.

Não para por aí. Gilmar Mendes é o principal responsável, na Corte, pelo fim da Lava Jato, a primeira operação policial que realmente chegou aos próceres da República. Por um breve período, sentimos a gostosa sensação de vivermos nesse país de Mokyr, onde as instituições garantem o Rule of Law, e não a proteção de quem domina a máquina do Estado. Juntar os termos “Gilmar Mendes” e “instituições” no mesmo artigo chega a ser um insulto à inteligência.

O fato de o Gilmarpalooza ocorrer em Lisboa e não em São Paulo ou Brasília é somente pitoresco. Não há noção do quão ridículo que é juntar brasileiros para discutir o Brasil na capital do colonizador. Ou até há, mas é vencida pela tentação de ter um bom motivo para viajar para a Europa em classe executiva. Salto acha isso tudo muito normal, até louvável, mas não percebe que é a mais pura tradução do patrimonialismo jeca q
ue nos define como nação, e que verdadeiramente impede o nosso desenvolvimento econômico.

Alessandro Gagnor

 Logos e Bios.

Há uma pergunta que a filosofia ocidental, em seus momentos de maior honestidade, não consegue evitar: o que vale o pensamento que não se faz vida? É uma pergunta antiga — tão antiga quanto Sócrates recusando a fuga e bebendo a cicuta —, mas é também uma pergunta que a modernidade tratou sistematicamente de tornar irrelevante, transformando a filosofia em produção de doutrinas e a ética em disciplina especializada, separada da epistemologia, da política e da estética como se cada uma dessas regiões do saber habitasse um compartimento estanque.

É precisamente contra essa compartimentalização que se levantam, por caminhos muito distintos, a hermenêutica de Gadamer, a antropologia crítica de Ashis Nandy e o projeto filosófico que Afranio Campos desenvolve em seu novo livro,ainda no prelo, "O Hiato entre o Logos e o Bios". O que os une não é uma tese comum, mas uma intuição partilhada: que a ruptura entre o que se pensa e o que se vive não é apenas uma falha moral do pensador, mas um empobrecimento do próprio pensamento.

Quando Gadamer, em Verdade e Método, recupera a phronesis aristotélica como modelo do compreender hermenêutico, ele não está fazendo arqueologia conceitual. Está diagnosticando uma patologia. A modernidade construiu seu ideal de racionalidade à imagem da ciência matemática da natureza: universal, metódica, independente do sujeito que conhece. A hermenêutica foi arrastada por esse ideal e passou a se perguntar como metodologizar a compreensão, como neutralizar o intérprete para que o sentido do texto emergisse em sua pureza objetiva.

O erro, para Gadamer, é estrutural. O intérprete não é um obstáculo à compreensão; é sua condição de possibilidade. Ele traz consigo uma tradição, preconceitos, uma situação histórica — e é precisamente esse estar-situado que abre o horizonte dentro do qual o texto pode falar. Compreender não é reconstruir o que o autor quis dizer; é deixar emergir um sentido novo no encontro entre dois horizontes, o do texto e o do leitor. A isso Gadamer chama fusão de horizontes.
Mas como descrever filosoficamente esse processo sem recair no arbítrio subjetivo? É aqui que Aristóteles reaparece. A phronesis é precisamente a capacidade de mover-se entre o universal e o particular sem que essa mediação seja mecânica. O prudente não deduz a ação correta a partir de uma regra geral; ele percebe o que a situação singular exige, e essa percepção é ela mesma uma forma de saber, não um mero instinto. O saber universal do bem só funciona porque está encarnado num agente cuja disposição — o seu caráter formado por virtudes habituais — o torna capaz de ver o particular com justeza.

A estrutura é a mesma no domínio hermenêutico: compreender um texto não é aplicar-lhe um método como um artesão aplica uma técnica ao material. É uma applicatio que transforma o intérprete, que o deixa diferente do que era antes do encontro. Assim como a phronesis não deixa o agente intocado — ela é uma virtude, uma disposição estável da alma que se forma e se refina no exercício —, a compreensão genuína é uma experiência no sentido radical que Gadamer herda de Hegel: aquela que muda quem a faz. Há, portanto, uma continuidade de sentido entre o ato de compreender e a vida de quem compreende. Não se pode separar o intérprete da sua interpretação como se separa o operário do produto que fabrica. E isso significa que a questão ética não é exterior à questão hermenêutica: o que o intérprete é — sua abertura ou fechamento, sua boa ou má fé, sua capacidade ou incapacidade de se deixar questionar — determina o que ele consegue compreender.
Esse mesmo nexo entre ética e epistemologia reaparece, por um caminho radicalmente distinto, na obra de Ashis Nandy. Num estudo sobre sua obra, lê-se a formulação que resume com precisão o argumento: "knowledge without ethics is not so much bad ethics as inferior knowledge." Conhecimento sem ética não é apenas eticamente deficiente; é intelectualmente inferior. A tese parece paradoxal à primeira vista. Estamos habituados a pensar que a ciência produz conhecimento verdadeiro ou falso, e que a ética avalia os usos que fazemos desse conhecimento. Nandy dissolve essa separação. Quando uma forma de conhecimento exclui sistematicamente certas experiências humanas — as dos colonizados, dos marginalizados, dos que habitam formas de vida não modernas —, ela não se torna apenas moralmente problemática; ela passa a conhecer pior o próprio objeto que pretende estudar. A exclusão ética é uma limitação cognitiva. A perda ética gera perda epistêmica.

O ponto é mais radical do que a crítica usual à ciência moderna, que se contenta em dizer que a ciência pode ser usada para o bem ou para o mal. Nandy vai mais fundo: certas premissas morais embutidas na própria ideia moderna de racionalidade — a separação sujeito/objeto, a desqualificação do saber experiencial, a imposição de categorias abstratas sobre realidades concretas — empobrecem o conhecimento produzido. A violência epistêmica e a violência ética, como Shiv Visvanathan argumenta sistematicamente em A Carnival for Science e no volume coletivo Science, Hegemony and Violence, são inseparáveis: uma ciência que violenta seus sujeitos está comprometida no próprio nível do conhecimento que produz.

O que é notável é que Nandy chega, por uma via pós-colonial, a uma conclusão que os antigos teriam reconhecido sem dificuldade. Para Platão, a deformação moral da alma distorce a sua capacidade de ver o real. Para Aristóteles, o vicioso não apenas age mal: ele julga mal, porque as suas paixões desordenadas falsificam a percepção do que é bom. Para Tomás, a malícia moral obscurece o intelecto. A ideia de que o sujeito cognoscente precisa de uma certa integridade para conhecer bem não é uma novidade pós-colonial; é uma das teses mais constantes da filosofia pré-moderna, que a modernidade descartou ao construir o ideal do observador neutro, sem corpo, sem história, sem comprometimento ético.

A história do pensamento ocidental moderno é, em parte, a história da dissociação entre o logos e o bios — entre o que se pensa e o que se vive. E os casos paradigmáticos são suficientemente perturbadores para que não se possa descartá-los como curiosidades biográficas. Schopenhauer descreveu com lucidez insuperável a compaixão como fundamento da ética, empurrou uma costureira escada abaixo e celebrou, em latim, a sua morte. Rousseau escreveu o tratado mais influente da modernidade sobre a formação do homem livre e abandonou, um a um, os cinco filhos que pôs no mundo nas portas frias de um orfanato parisiense. Heidegger pôde ver com precisão filosófica a essência da técnica moderna como Gestell — um modo de revelar que transforma tudo, incluindo o ser humano, em reserva disponível para exploração — e ao mesmo tempo aderir ao partido que mais completamente realizou esse modo de tratar o ser humano como material manipulável.

Seria fácil, e errado, concluir daí que as filosofias são invalidadas pelas vidas. O argumento ad hominem é uma falácia lógica. O pensamento de Schopenhauer sobre a compaixão não é refutado pelo episódio da costureira. Mas a pergunta que Afrânio coloca não é lógica; é civilizacional. Não se trata de saber se os argumentos são válidos. Trata-se de saber o que vale um pensamento que não encontra encarnação na vida de quem o pensa — e o que isso nos diz sobre a relação entre verdade, bondade e beleza que os antigos chamavam de kalokagathia, e que a modernidade dissociou com consequências que ainda não terminamos de calcular.

Pierre Hadot respondeu a essa pergunta com a história. Na Antiguidade, filosofar não significava produzir doutrinas; significava ajustar a vida ao logos descoberto por meio de exercícios concretos — meditação, atenção a si, exame de consciência. A filosofia era uma forma de vida, não uma disciplina acadêmica. Sócrates é a figura exemplar não porque tenha escrito as obras mais rigorosas, mas porque a sua morte foi a prova mais alta da sua filosofia: recusou a fuga, bebeu a cicuta, e nesse gesto o logos tornou-se bios.

O junzi confuciano e a phronesis aristotélica designam, por tradições inteiramente distintas, o mesmo fenômeno fundamental: o homem em quem o saber moral se fez disposição estável da alma, e em quem a vida se tornou a prova viva da doutrina. Não o homem que sabe o que é bom e age mal por fraqueza — o akrático de Aristóteles —, mas aquele em quem o saber e o querer e o agir se unificaram numa segunda natureza. Essa unidade não é fácil, e não é automática. É o resultado de uma formação longa — a paideia grega, a bildung alemã, o cultivo de si que Foucault reconheceria nos estoicos — em que o pensamento se vai lentamente encarnando em hábito, e o hábito vai pouco a pouco tornando-se caráter. A phronesis não é um dom; é uma conquista. E é uma conquista que só se realiza na articulação constante entre o universal e o particular, entre o princípio e a situação concreta, entre o logos e o bios.

Wittgenstein abandonou a herança e viveu com austeridade monástica. Soljenítsin suportou o gulag sem trair a verdade que depois escreveu. Simone Weil recusou o conforto intelectual e se pôs ao lado dos operários da fábrica. Scruton defendeu durante décadas, com coragem intelectual rara, verdades impopulares que custaram caro à sua carreira. João Paulo II viveu a teologia do corpo que ensinava. Em todos eles, o pensamento e a vida formam uma unidade que não é perfeição moral — nenhum deles era isento de falhas —, mas é algo diferente e mais importante: coerência, no sentido latino de co-haerere, de estar ligado consigo mesmo.

É a esse horizonte que aponta O Hiato entre o Logos e o Bios. O projeto não é autobiográfico nem edificante; é filosófico no sentido mais rigoroso. Trata-se de restituir à filosofia aquilo que ela perdeu ao tornar-se disciplina acadêmica: a capacidade de articular o que se pensa com o que se vive, de modo que o pensamento não paire sobre a existência como uma superestrutura ornamental, mas a atravesse, a interrogue, a oriente. A phronesis é o modelo dessa articulação porque ela é, precisamente, o saber que não existe fora do agente que o exerce — um saber que é, ao mesmo tempo, um modo de ser. E a hermenêutica de Gadamer aponta para a mesma estrutura no domínio da compreensão: compreender genuinamente é ser transformado pelo que se compreende, é deixar que o texto ou a tradição ou o outro falem de modo que o que me era estranho se integre no horizonte do que sou.

A questão que Afrânio coloca — o que vale o pensamento que não se faz vida? — não é retórica. É uma questão que a fragmentação moderna tornou urgente. Quando o logos se separa do eros e da ética, quando o verdadeiro se separa do belo e do bom, o pensamento pode tornar-se tecnicamente brilhante e a vida pode tornar-se materialmente confortável, mas a sabedoria — esse bem antigo e raro que os gregos chamavam de sophia e os confucianos de ren — se perde. E com ela se perde algo que nenhuma especialização disciplinar pode repor: a capacidade de habitar o tempo com inteireza. Ei, Catarina Rochamonte, talvez você se interesse.

Bankinter Portugal Matinal

 Análise Bankinter Portugal 


NY -0,7% US tech -0,3% US Semis +1,4% UEM -0,9% Espanha -0,5% VIX 18,7% Bund 3,04%. T-Note 4,49%. Spread 2A-10A USA=+42pb O10A: ESP 3,46% PT 3,40% ITA 3,77% FRA 3,67% Euribor 12m 2,79% (fut.12m 2,80%). USD 1,160 JPY 185,7/€. Ouro 4.434 $. Brent 97,4$. WTI 96,2$. Bitcoin -3,8% (64.906$). Ether -6,5% (1.779$).


SESSÃO: Iniciamos o dia com duas notícias relevantes: (i) Israel e o Líbano acordam um cessar-fogo, um avanço que poderá facilitar as negociações entre os EUA e o Irão. Até Trump considera agora plausível que seja alcançado um acordo já neste fim de semana. Este contexto está a favorecer uma ligeira correção do preço do petróleo (Brent: 97 USD/barril). (ii) Ontem, após o fecho da sessão norte-americana, a Broadcom e a CrowdStrike divulgaram os seus resultados. Ambas registam quedas superiores a -10%, em parte porque as suas perspetivas para os próximos trimestres ficaram ligeiramente aquém do esperado.


As restantes referências do dia deverão ter um impacto limitado, uma vez que se trata de indicadores relativos ao 1.º trimestre de 2026: Custos Laborais Unitários e Produtividade Não Agrícola (13h30). Além disso, o mercado deverá manter-se em compasso de espera antes da divulgação, amanhã, dos dados de Criação de Emprego nos EUA. A realidade é que a economia norte-americana continua a demonstrar resiliência: ontem mesmo verificou-se uma surpresa positiva em vários indicadores macroeconómicos, nomeadamente o Inquérito ao Emprego ADP, as Encomendas à Indústria e o ISM dos Serviços.


Ontem, as bolsas optaram por uma ligeira realização de mais-valias, num contexto marcado por um fluxo de notícias contraditório proveniente do Irão e pelo regresso da Administração Trump ao tema das tarifas aduaneiras. A Casa Branca estará agora a ponderar a aplicação de taxas que variariam entre 10% para aliados como a Europa, Canadá, México ou Taiwan e 12,5% para economias como a China, Índia ou Japão.


Contudo, hoje, com o acordo alcançado no Líbano e a moderação do preço do petróleo, o mercado poderá assistir a uma sessão que evolua de forma progressivamente mais favorável ao longo do dia, desde que o contexto geopolítico o permita.


A bolsa norte-americana continua próxima de máximos históricos, mas o investimento em tecnologia ganha tração e as estimativas de lucros para 2026 e 2027 continuam a ser revistas em alta. Neste enquadramento, torna-se difícil travar a tendência ascendente do mercado. A experiência recente demonstra que qualquer pausa ou correção tende a ser temporária. Adicionalmente, a estreia da SpaceX em bolsa, prevista para a próxima semana, deverá captar um interesse significativo por parte dos investidores.


FIM

Fórum de Lisboa: para que? para quem? Marcelo Guterman

O tal Fórum de Lisboa me parece algo totalmente fora de contexto e, mais do que isso, fora do lugar. São todos, agradecidos desta formidável...