domingo, 7 de junho de 2026

Soma de todos os medos

 “*Soma de todos os medos” pressiona o Ibovespa e não tem prazo para terminar*


Ivan Ryngelblum05/06/26 14:35


“Soma de todos os medos” pressiona o Ibovespa e não tem prazo para terminar


Principal índice da B3 recua 14,26% desde recorde, puxado pela saída dos investidores estrangeiros, política monetária mais dura, fiscal e tarifas dos Estados Unidos. Analistas colocam queda da taxa Selic em revisão


Após meses de forte alta, a bolsa de valores brasileira passa por um período de correção acentuada, levando muitos a reconsiderar o otimismo em relação a uma retomada do mercado de renda variável em 2026.


Desde a máxima histórica registrada em abril, o Ibovespa recuou 14,26%, saindo do recorde de 198.657,33 pontos, apurado em 14 de abril, para 170.330,63 pontos em 3 de junho - recuando para o mesmo nível de janeiro deste ano.


Trata-se de uma perda de 28.326,70 pontos em apenas 50 dias, segundo levantamento da consultoria Elos Ayta. No período, um grupo de 305 empresas da Bolsa perdeu, em conjunto, R$ 778,1 bilhões em valor de mercado.


No ano, o Ibovespa ainda está em campo positivo, acumulando alta de 5,96%. Mas uma confluência de fatores negativos, internos e externos, faz com que o pessimismo ganhe espaço entre os analistas.


“É que nem o nome daquele filme, ‘A Soma de Todos os Medos’”, diz Flávio Conde, head de renda variável na Levante Investimentos, ao NeoFeed. “Tudo aconteceu ao mesmo tempo, e os estrangeiros estão vendendo.”


Um dos principais temores vem da política monetária. Em meio à deterioração do quadro inflacionário, os economistas passaram a revisar suas projeções para a taxa Selic no fim do ano. A perspectiva de alívio monetário vinha ajudando a atrair mais investidores para a Bolsa.


Com as projeções para o IPCA subindo pela 12ª semana consecutiva no Boletim Focus, atingindo 5,09% na última edição, a expectativa é de que a taxa básica de juros não caia tanto quanto o inicialmente esperado.


A equipe de economistas da XP Investimentos passou a prever apenas dois cortes de 0,25 ponto percentual na taxa Selic, de 14,5% para 14%, seguidos por uma pausa para avaliação. Antes, a expectativa era de três reduções, para 13,75%. O BTG Pactual revisou a Selic terminal de 13% para 14,25% em 2026, com um último corte de 0,25 ponto percentual em junho.


O tema da inflação não é apenas local. Conde destaca que o mundo vive um momento de alta dos preços, com a guerra no Irã pressionando os preços da energia globalmente, em meio à indefinição de um acordo entre Washington e Teerã.


Nos Estados Unidos, a inflação medida pelo CPI (Índice de Preços ao Consumidor) avançou 0,6% em abril em relação a março. Em 12 meses, a taxa atingiu 3,8%, superando as expectativas do mercado e gerando dúvidas sobre o que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) fará, dado seu papel como balizador das taxas globais.


“A parte de inflação prejudicou todos os mercados, inclusive o Brasil, porque fez com que todos os bancos centrais — e o nosso vamos descobrir daqui a duas semanas — dessem uma pivotada na estratégia, não cortando mais; na melhor das hipóteses, mantendo, mas até pensando em elevar”, diz Conde.


No caso do Brasil, um ponto que segue pesando é a questão fiscal e as eleições. Os gastos do governo Luiz Inácio Lula da Silva e as perspectivas eleitorais, após Flávio Bolsonaro ser atingido por notícias sobre um suposto relacionamento com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, prejudicaram o humor dos investidores.


Esses fatores estão drenando os recursos dos estrangeiros da B3, principal motor da alta do Ibovespa entre o segundo semestre de 2025 e o início deste ano.


O movimento começou em meados de abril e ganhou força em maio. Segundo levantamento da Elos Ayta, com base em dados da B3, os investidores estrangeiros retiraram R$ 14,9 bilhões da Bolsa no mês passado, considerando apenas operações no mercado secundário e desconsiderando aportes em IPOs e follow-ons.


Trata-se da maior saída mensal de recursos desde janeiro de 2022 e supera o recorde anterior de R$ 13,2 bilhões registrado em agosto de 2023, de acordo com a Elos Ayta. Os investidores internacionais aproveitaram para realizar lucros após a valorização que levou o Ibovespa à máxima histórica em abril.


Segundo Conde, os estrangeiros têm direcionado seus recursos para as Treasuries, que vêm apresentando taxas atrativas. Os títulos de dez anos estão na casa dos 4,54%, enquanto os de 30 anos pagam 5,02%. “Teve uma volta de dinheiro aos Estados Unidos, prejudicando até o Bitcoin”, diz.


Para piorar, dois novos “medos” se juntaram recentemente para pressionar o Ibovespa: as novas tarifas aplicadas pelo governo de Donald Trump ao Brasil e a decisão de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas.


Na segunda-feira, 1º de junho, o governo americano propôs uma tarifa punitiva de 25% sobre uma série de produtos importados do Brasil, alegando políticas e práticas brasileiras “irrazoáveis” que “oneram ou restringem” o comércio americano. No dia seguinte, o país foi incluído em uma lista de 60 países, além da União Europeia (UE), que apresentam falhas no combate ao trabalho forçado e que receberão uma taxa adicional de 12,5%.


“A classificação de grupos terroristas pesa na decisão de alocar mais dinheiro no Brasil, porque o Brasil não está na lista de amigos dos Estados Unidos na América Latina; está ao lado de Venezuela, Cuba e Nicarágua, sendo que o país nunca fez nada para estar nesse grupo. Se você é analista ou gestor de fundos de ações dos Estados Unidos, não vai recomendar ao cliente investir no inimigo dos Estados Unidos”, diz Conde.


Pensar em uma reversão dessa situação, nas condições atuais, exige bastante otimismo. O principal alívio pode vir de fora, caso Trump mude de opinião sobre o Brasil e feche um acordo com o Irã. Já a situação fiscal é um tema que ainda deve demorar para se resolver.


“A Bolsa vai ficar andando de lado. E não adianta falar: ‘ah, está barato, está exagerado’. Enquanto o Brasil não sair da lista de inimigos e as tarifas não forem revertidas, o dinheiro não vem”, afirma. “E o fiscal piorou demais e pode ficar ainda pior, se as políticas atuais não forem revertidas.”



https://neofeed.com.br/economia/soma-de-todos-os-medos-pressiona-o-ibovespa-e-nao-tem-prazo-para-terminar/

Leitura de sábado 2

 *Leitura de Sábado: governo terá de leiloar 2 rodovias por mês para atingir meta de 13 no ano*


Por Elisa Calmon e João Caíres


São Paulo e Brasília, 02/06/2026 - O governo federal terá de realizar cerca de dois leilões rodoviários por mês para cumprir a meta de 13 certames em 2026. A agenda combina novos projetos e repactuações em um momento de aperto orçamentário para os órgãos responsáveis pela estruturação e regulação das concessões.


Das concessões previstas inicialmente para este ano, duas foram a mercado até o momento: Rotas Gerais (MG) e Rota dos Sertões (PE/BA). Com isso, aproximadamente 85% dos certames previstos para 2026 estão concentrados no segundo semestre. Sem leilões federais programados para junho até o momento, a agenda será retomada em julho com a concessão da Régis Bittencourt (BR-116/SP/PR), único certame com data já definida.


Se todos os ativos previstos forem leiloados, o Ministério dos Transportes repetirá o recorde de 13 certames alcançado em 2025. No ano passado, a agenda acelerou na reta final, com cinco disputas promovidas até junho e outras oito realizadas no segundo semestre.


Apesar do ritmo mais lento no início de 2026, o ministro dos Transportes, George Santoro, reforçou a projeção para este ano. "Faremos 13 leilões este ano", disse após o certame da Rota dos Sertões, na semana passada, destacando que a atual gestão realizou 24 leilões rodoviários federais desde 2023, que somaram mais de R$ 260 bilhões em investimentos.


Após a Régis Bittencourt, a agenda inclui projetos como a Rota 2 de Julho (ViaBahia), a Rota Vale do Café e os lotes 1 e 3 das Rodovias Integradas de Santa Catarina. A carteira também contempla repactuações de contratos como Arco Norte e Transbrasiliana.


O diretor-presidente da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR), Marco Aurélio Barcelos, vê espaço para que o governo cumpra a meta prevista. "Vai ser preciso dar uma acelerada para fazer o que se espera nos próximos meses, mas dá tempo ainda", reforçou.


No entanto, para Luís Felipe Valerim, sócio do VLR Advogados, o sucesso da agenda dependerá mais da consistência dos projetos do que do número de certames. "Mais importante do que fazer 13 ou 10 leilões é manter um compasso com qualidade", afirmou. Segundo o especialista, a pressão para cumprir metas pode acelerar estudos e modelagens, aumentando o risco de problemas nos primeiros anos dos contratos.


Mesmo com a intensa agenda de concessões dos últimos anos, o interesse dos investidores pelos ativos rodoviários permanece elevado, com forte competição nos leilões recentes e a entrada de novos investidores no setor, avalia Diogo Nebias, sócio do Panucci, Severo e Nebias Advogados. "O principal risco não está na demanda do setor privado, mas nas questões institucionais para colocar os leilões de pé, como a modelagem e a estruturação dos projetos", ponderou.


Perspectivas


O avanço dos projetos ocorre em meio a restrições orçamentárias nos órgãos responsáveis pelas concessões. O governo federal bloqueou R$ 8,3 bilhões das pastas de infraestrutura para cumprir as metas fiscais previstas no Orçamento. O Ministério dos Transportes teve R$ 1,7 bilhão contingenciado, enquanto a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) perdeu R$ 56 milhões em recursos destinados às atividades regulatórias.


As repactuações também adicionam incertezas à agenda. Das 11 concessões rodoviárias previstas para este ano, cinco envolvem contratos já existentes. "É um cronograma difícil de prever porque não depende só do governo, mas também da construção de consenso entre as partes e, só depois disso, da estruturação do processo competitivo", afirmou Valerim.


Por outro lado, o calendário eleitoral não é visto como um obstáculo relevante para a agenda de concessões. "A carteira de projetos já vem sendo anunciada há algum tempo e, apesar de atravessarmos um período eleitoral em breve, isso não deve afetar a agenda de leilões", disse João Paulo Pessoa, sócio do Toledo Marchetti Advogados.


Valerim, por sua vez, explica que as restrições normalmente associadas ao período eleitoral afetam principalmente contratações de obras públicas, e não concessões. Na avaliação do advogado, a proximidade das eleições pode até acelerar a conclusão de projetos já em fase avançada de estruturação. "A máquina pública tende a fazer um sprint final para entregar projetos e mostrar resultado antes das eleições", afirmou.


Para Barcelos, a carteira de projetos já estruturada para os próximos dois anos reduz o risco de descontinuidade da agenda de concessões após as eleições. "Quem sentar na cadeira de ministro a partir de 2027 vai viver o melhor dos mundos, com uma forte agenda de inaugurações, e não vai querer retroceder", disse o presidente da ABCR.


Contatos:elisa.ferreira@estadao;com; joao.caires@broadcast.com.br 


Broadcast+

Leitura de sábado

 *Leitura de Sábado: brilho de 'big techs' reduz atratividade de ativos locais e tira força do real*


Por Antonio Perez


São Paulo, 01/06/2026 - Sinais de esgotamento da tendência de diversificação global de investimentos que favoreceu ativos emergentes ao longo dos primeiros meses do ano ajudam a explicar o tropeço do real em maio, em meio à maior atratividade das ações das 'big techs', afirmam analistas ouvidos pelo Broadcast.


Dados mais recentes da B3 mostram que os investidores estrangeiros retiraram R$ 14,104 bilhões da bolsa doméstica em maio, após ingresso líquido de R$ 3,179 bilhões em abril. Em 2026, o fluxo de capital externo ainda é positivo em R$ 42,44 bilhões. Com a saída do investidor estrangeiro, o Ibovespa amargou perda de 7,22%, embora ainda avance 7,86% no ano.


O estrategista-chefe da Avenue, William Castro Alves, destaca que houve uma volta do apetite por ações de tecnologia nos EUA no mês passado, com o anúncio de investimentos pesados por parte das empresas de inteligência artificial. O índice Nasdaq, que concentra as ações das big techs, bateu sucessivos recordes ao longo de maio, acumulando ganhos de mais de 8% no mês.


“Os Estados Unidos voltaram a atrair capitais, o que ajuda a fortalecer o dólar. As bolsas americanas estão nas máximas históricas”, afirma Alves. “Os fluxos para emergentes foram direcionados a países com alguma ligação a setores relacionados à inteligência artificial. O Brasil não é um player nesse sentido. Vimos os fluxos para a bolsa brasileira diminuírem bastante nas últimas semanas.”


O gestor de multimercados da AZ Quest, Eduardo Aun, observa que o bom desempenho das big techs pode trazer de volta a tese do “excepcionalismo americano”, que reinava antes do início da diversificação global de carteiras, o que reduziria o apelo de ativos emergentes. Esse quadro se soma à postura mais conservadora do Federal Reserve em relação à inflação, em um ambiente de atividade resiliente e impulso fiscal nos EUA.


"São vetores para alta do dólar. A dúvida é como o real vai reagir nos próximos meses caso haja um fortalecimento global da moeda americana e se confirme um quadro desfavorável à oposição na eleição presidencial", afirma Aun.


Os economistas Álvaro Frasson e Arthur Mota, do BTG Pactual, afirmam que o real se beneficiou, em boa parte do ano, de um fluxo “nunca antes visto” para economias emergentes, sobretudo para países distantes do conflito no Oriente Médio e com elevada exposição a commodities. Além disso, havia incertezas em torno dos "valuations" das empresas de tecnologia nos EUA.


“Prospectivamente, acreditamos que um cenário de distensionamento dos conflitos geopolíticos deveria provocar um movimento de ajuste ao fluxo recente, seja pela normalização do preço do petróleo, seja pelo 'momentum' positivo para ativos de crescimento e tecnologia”, afirmam os economistas, em relatório.


Para o Bradesco, apesar de o fluxo global de realocação de portfólio ter perdido força, o movimento segue oferecendo suporte ao real. A instituição prevê taxa de câmbio ao redor de R$ 5,00 no fim deste ano e do próximo.


“Uma rápida normalização dos preços do petróleo ou um fluxo de retorno aos EUA por conta dos investimentos em empresas de tecnologia são ameaças de curto prazo à moeda, mas não deveriam alterar o quadro mais estrutural de não fortalecimento do dólar globalmente”, afirma o Bradesco, ressaltando que o Brasil segue no radar dos investidores por ser “exportador líquido de petróleo e pelo diferencial de juros elevado”.


Contato: antonio.perez@estadao.com


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 “*Soma de todos os medos” pressiona o Ibovespa e não tem prazo para terminar* ​ Ivan Ryngelblum05/06/26 14:35 “Soma de todos os medos” pres...