domingo, 20 de julho de 2025

Guerra comercial

 *HORA DO MERCADO: BRICS TENTA ACABAR COM DOMINÂNCIA DO DÓLAR E BLOCO SERÁ TAXADO EM 10%, DIZ TRUMP*


Por Caroline Aragaki


*Trump x dólar* - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou há pouco que o Brics "tenta acabar com a dominância do dólar" e, com isso, irá aplicar tarifas de 10% em todos os países que fazem parte do bloco. "Não podemos deixar que ninguém brinque com a gente, com o nosso dólar."


*Acordos comerciais* - Segundo Trump, os EUA têm "grandes acordos comerciais para anunciar muito em breve", pontuando que o anúncio pode ocorrer ainda nesta sexta-feira. "Toda carta que enviamos já é um acordo comercial. Depois, podemos negociar de novo", acrescentou.


*Recuo sobre IOF* - - Em nova decisão publicada hoje, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes recuou da determinação de cobrança retroativa do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Esse trecho constava da decisão de quarta-feira, que restabeleceu a maior parte do decreto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que elevou o tributo.


*Recesso* - O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), divulgou um comunicado em que diz que o recesso parlamentar de julho está confirmado e que a volta dos trabalhos ocorrerá em 4 de agosto.


*Licença prévia* - A Prio informou há pouco via Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) concedeu licença prévia para o Sistema de Desenvolvimento da Produção do Campo de Wahoo e a interligação dos poços ao FPSO Frade.


*Termômetro Broadcast* - Depois de duas semanas consecutivas de perdas do Ibovespa, o mercado financeiro volta a considerar uma reação do índice na próxima semana. É o que mostra a edição de hoje do Termômetro Broadcast Bolsa.


*Nos mercados*


Os ativos domésticos seguem pressionados pela tensão política entre Brasil e Estados Unidos, com temores de que o presidente dos EUA, Donald Trump, anuncie sanções ao Brasil ou até mesmo a autoridades brasileiras, após medidas restritivas impostas pelo Superior Tribunal Federal (STF) ao ex-presidente Jair Bolsonaro. O dólar, que chegou a se aproximar do nível de R$ 5,60 na última hora, consegue voltar a R$ 5,58; o Ibovespa recua aos 133 mil pontos; e os juros futuros operam em alta de 6 pontos-base nos contratos mais longos.


No cenário micro, as ações da Prio viraram o sinal e passaram a subir após a empresa confirmar que o Ibama concedeu a licença prévia do campo de Wahoo e a interligação dos poços ao FPSO Frade.

Leitura de sábado 2

 Leitura de Sábado: Trump amplia ataques a Powell e ameaça ao Fed pode estar substimada


Por André Marinho


São Paulo, 15/07/2025 - Quase que diariamente, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aparece com um novo adjetivo para se referir ao presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell. No arsenal do republicano, variações leves como "Atrasado Demais" convivem com insultos mais ofensivos: "burro", "desgraça", "idiota", "terrível". Mas as palavras têm ecoado com cada vez menos força nos ouvidos de investidores, mais sensíveis a anúncios sobre tarifas ou à própria política monetária do banco central americano.


Mesmo com as movimentações, os índices acionários S&P 500 e Nasdaq renovaram sucessivos recordes na semana passada. O dólar também oscilou sem muita correlação com as declarações de Trump. A possibilidade  de Powell encerrar este ano fora da presidência do Fed é vista como improvável - na bolsa de apostas Kalshi, por exemplo, essa chance ronda a casa dos 20%. Em meados de 2024, antes da volta de Trump à Casa Branca, tal hipótese chegou a bater 50%.


A aposta é de que o banqueiro central conseguirá cumprir o mandato na presidência do BC americano até o final, previsto para maio do ano que vem. O estrategista George Saravelos, do Deutsche Bank, porém, acendeu o alerta: "Consideramos a remoção do presidente Powell como um dos eventos de risco mais subprecificados nos próximos meses".


A pressão de Trump pela renúncia de Powell já não se limita ao campo da retórica. Embora o republicano garanta não ter planos de demiti-lo, a Casa Branca abriu uma nova linha de ataque legal contra o chefe da autoridade monetária. Começou com figuras do segundo escalão, que apontaram supostas irregularidades no projeto de reforma da sede do Fed, em Washington D.C. Segundo eles, a obra está orçada em US$ 2,5 bilhões e prevê itens de luxo como um elevador privativo.


Os argumentos foram subindo ao longo da escada de poder no governo, reproduzidos pelo diretor do Conselho Econômico Nacional, Kevin Hassett, até finalmente chegarem ao próprio presidente. Os aliados de Trump, agora, pressionam por uma investigação formal do Congresso sobre o tema. Powell nega irregularidades.


Em paralelo, as discussões sobre um sucessor no cargo máximo do Fed estão ganhando força. Hasset estaria emergindo como um dos principais favoritos para o posto, de acordo com uma reportagem do Washington Post. Os nomes do secretário do Tesouro, Scott Bessent, e do ex-diretor do Fed Kevin Warsh também já apareceram como cotados na imprensa americana. Michelle Bowman, que recentemente assumiu a liderança da supervisão bancária do Fed, também figura entre os especulados.


Apesar de toda a pressão, Powell se mantém firme na visão de que ainda não é hora de cortar juros. Na reunião do final deste mês, a expectativa ainda é pela manutenção da taxa básica no nível atual (entre 4,25% e 4,50%), conforme sugere a curva futura refletida na plataforma FedWatch, do CME Group.


Para analistas do BBH, Trump parece saber que não pode destituir Powell, mas os ataques reforçam a visão de que o sucessor será alguém alinhado à Casa Branca. "Qualquer erosão da independência da Fed não seria bem recebida pelos mercados, para dizer o óbvio", afirmam.


'E se Powell sair?'


Saravelos, do Deutsche Bank, lembra a pressão do ex-presidente Richard Nixon sobre o então presidente do Fed, Arthur Burns, em 1972, para argumentar que a ameaça à autonomia da política monetária não é tão incomum quanto parece. O estrategista vai além e calcula o impacto de uma eventual saída turbulenta de Powell. Nas primeiras 24 horas após o anúncio, o dólar despencaria até 4% e os retornos dos Treasuries saltariam até 40 pontos-base, de acordo com ele.


Para Saravelos, neste cenário, um prêmio de risco estaria permanentemente incorporado ao câmbio e à renda fixa. Ele destaca ainda a posição vulnerável do financiamento externo americano. "Isso aumenta o risco de movimentos de preços muito maiores e mais disruptivos do que os que descrevemos", adverte.


Na mesma linha, o analista Kit Juckes, do Société Générale, diz que uma substituição brusca no comando do Fed seria vista como uma medida política e, assim, passaria a se sobrepor aos efeitos das tarifas nos mercados - com o dólar como a principal vítima.


Em um relatório intitulado "E se Powell Sair?", o ING reconhece que a chance de uma destituição ainda é "muito baixa". Mas o banco holandês discute consequências de longo prazo negativas para os EUA. Entre as principais delas, a posição do dólar como moeda de reserva global estaria severamente questionada. Haveria fluxos de fuga da divisa americana piores que os observados no "Dia da Libertação", em abril, avalia.


A instituição acredita que o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) ficaria mais inclinado a relaxar a política, mas não assumiria cortar juros automaticamente. "No final, é uma decisão majoritária, e o Comitê provavelmente permanecerá tão dividido quanto sugerem as últimas atas, mas com uma tendência a manter as taxas inalteradas até que a situação esteja livre para cortá-las", especula.


Contato: andre.marinho@estadao.com


Broadcast+

Leitura de sábado

 Leitura de Sábado: Guerra comercial de Trump engorda bolsos de Wall Street apesar dos riscos


Por Aline Bronzati, correspondente


Nova York, 18/07/2025 - Os banqueiros de Wall Street enxergam um horizonte mais desanuviado à frente para os negócios de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês) e ofertas de ações, após a retomada das conversas para essas transações no segundo trimestre. E ainda que os riscos sigam presentes, a guerra comercial capitaneada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, garantiu receitas recordes nas mesas de operações do principal mercado financeiro do mundo, com investidores realocando os seus portfólios para lidar com o noticiário frenético de Washington.


O impulso ajudou os maiores bancos americanos a superar as projeções de mercado para os resultados do segundo trimestre. Juntos, JPMorgan Chase, Bank of America, Wells Fargo, Goldman Sachs, Morgan Stanley e Citi reportaram lucro líquido de cerca de US$ 39 bilhões no segundo trimestre. A cifra representa uma queda de 1% na comparação anual, quando o resultado do JPMorgan teve o impacto de US$ 7,9 bilhões com a venda de ações da Visa. Se excluído o ganho atípico, os lucros tiveram um salto de quase 24%.


"Neste momento, a economia e os mercados estão respondendo positivamente ao ambiente de políticas em evolução", disse o presidente do Goldman, David Solomon, ao falar a investidores e analistas, nesta semana.


O banco liderou o aumento nas receitas com trading no segundo trimestre, turbinado pela elevada volatilidade dos mercados por conta do vai e vem do tarifaço de Trump, anunciado no dia 2 de abril, que ficou conhecido como o 'Dia da Libertação'. De lá para cá, os investidores continuaram ajustando os seus portfólios por conta da nova política comercial americana.


"A mudança no sentimento, no ambiente, nas posições políticas e na geopolítica, apenas nos últimos três meses, foi significativa", avaliou o CEO do Goldman. As receitas do banco no segundo trimestre atingiram US$ 14,58 bilhões, US$ 1 bilhão maiores do que as próprias projeções de Wall Street. Somente os ganhos com trading saltaram 22%.


A mesma novela se repetiu nos balanços dos rivais JPMorgan, Bank of America, Citigroup e Morgan Stanley. Em geral, as receitas cresceram na casa dos dois dígitos entre abril e junho frente a um ano.



 Lucro dos grandes bancos dos EUA no segundo trimestre* 

   

 1tri25 

 2tri25 

 2tri24 


JPMorgan Chase

14,643

14,987

18,149


Bank of America

7,4

7,1

6,9


Wells Fargo

4,894

5,494

4,910


Goldman Sachs

4,738

 3,723

3,043


Morgan Stanley

4,315

3,539

3,076


Citigroup

4,108

4,019

3,217


Total:

40,098

38,862

39,295


Fonte: Resultados do período

* Em bilhões - US$



Outra área que começou a apontar resultados mais promissores no segundo trimestre foi a de banco de investimento, com a retomada das negociações a despeito das incertezas quanto ao rearranjo comercial global. No Goldman Sachs, as receitas cresceram 26% no comparativo anual. "Os mercados de capitais estão finalmente respirando aliviados, e para os grandes bancos de centros financeiros, isso significa uma recuperação significativa nas receitas", diz o líder de prática da Indústria Bancária da Moody's, Laurent Birade.


O primeiro semestre ainda foi marcado por uma queda no volume de negócios. Transações de fusões e aquisições se reduziram no período, o que fez os EUA perderem participação no mercado global, para 26,6%, mesma fatia da Ásia, segundo dados da consultoria Kroll. No Morgan Stanley, as receitas com banco de investimento tiveram queda de 5%, enquanto no Bank of America se reduziram em 9%.


Mas, olhando para frente, Birade, da Moody's, nota um "claro desbloqueio" dos pipelines de M&A e aberturas de capitais em meio a um cenário um pouco mais claro em termos das políticas do governo Trump. A verdadeira história para os grandes bancos na temporada de resultados do segundo trimestre é o ressurgimento de seus motores de banco de investimento, avalia.


"Acredito que se continuarmos no outono com o que vimos no último mês, deveremos ter um segundo semestre bastante forte a caminho de 2026", reforçou o presidente do Morgan Stanley, Ted Pick, ao falar a investidores e analistas, nesta semana.


Mas os riscos persistem. "Riscos significativos persistem, incluindo tarifas e incerteza comercial, piora nas condições geopolíticas, déficits fiscais e preços elevados de ativos", alertou o presidente do JPMorgan, Jamie Dimon, conhecido por suas previsões sempre um tanto catastróficas.


A CEO do Citigroup, Jane Fraser, projetou preços de bens subindo em algum momento durante o verão nos Estados Unidos em reflexo das tarifas do presidente Donald Trump. "Esperamos ver os preços dos bens começarem a subir durante o verão, à medida que as tarifas entram em vigor, e vimos pausas em capex (investimentos) e contratações na nossa base de clientes", alertou a única banqueira de Wall Street.


Nesta semana, os múltiplos relatos na imprensa americana quanto à demissão do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell, agravaram a tensão entre os investidores. "Essa transição, combinada com as negociações comerciais, pode sim criar mais volatilidade, aumentando as preocupações sobre a independência do Fed e o potencial de interferência política em questões-chave da economia", diz o chefe da mesa de operações internacionais do Inter, Mauricio Garret.


O CEO do JPMorgan defendeu a importância da independência do Fed, ao falar a jornalistas sobre os resultados. "Brincando com o Fed, pode haver consequências adversas, exatamente o oposto do que se espera. É importante que eles sejam independentes", disse o maior banqueiro do mundo.


As grandes vozes de Wall Street também reforçaram a resiliência da economia americana, e também global, além de um melhor olhar do regulador para a estrutura de capital dos bancos. No fim do dia, pode liberar mais recursos para fazer negócios e para turbinar os lucros de Wall Street. Para Pick, do Morgan, houve avanços, mas ainda há mais trabalho a ser feito. "Espera-se que o afrouxamento regulatório libere capital", prevê o analista do Swissquote Bank, Ipek Ozkardeskaya.


Contato: aline.bronzati@estadao.com


Broadcast+

Incorporadoras em crise

 Especial: Renegociações e calotes de incorporadoras no mercado de capitais disparam


Por Circe Bonatelli * Colaboração de Cynthia Decloedt


São Paulo, 18/07/2025 - Há uma disparada nos casos de inadimplência e renegociação de dívidas de incorporadoras que acessaram o mercado de capitais nos últimos anos para tomada de empréstimos via emissões de Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs). O quadro indica que as empresas estão enfrentando dificuldades crescentes para efetivar as vendas de imóveis após a elevação dos juros no País.


Os CRIs são instrumentos que cumprem um papel importante para apoiar o crescimento das empresas, especialmente quando elas não conseguem tomar o financiamento bancário tradicional. Eles respondem por 10% dos recursos destinados ao crédito imobiliário no País, o que representa uma montanha de R$ 240 bilhões. Por meio desses instrumentos, as incorporadoras recebem uma antecipação do dinheiro esperado com a comercialização de casas, apartamentos, lotes e quartos de hotéis, entre outros. O grande problema é quando as vendas não saem como planejado.


O estoque de CRIs em situação de "estresse" chegou a 191 casos em maio. Isso quer dizer que as incorporadoras descumpriram obrigações até a data de vencimento das dívidas e passaram a renegociar os termos com seus credores. O número é 89% maior do que no mesmo mês de 2024, quando havia 101 casos assim; e 247% acima de igual período de 2023, com 55 casos. Ao todo, os 191 CRIs ?estressados? correspondem a R$ 9,6 bilhões em dívidas considerando o valor de face no momento das emissões.


Os dados foram compilados para o Broadcast pela plataforma CR Data, do Clube dos FIIs, que monitora a base de dados públicos de CRIs no Brasil. O levantamento também aponta que houve crescimento em termos proporcionais. O estoque de CRIs "estressados" neste ano representa 4,6% de todas as séries em circulação, contra 2,8% em 2024 e 1,9% em 2023. A parcela de CRIs problemáticos não é desprezível. A título de comparação, a inadimplência da carteira de financiamento imobiliário dos bancos é bem menor, na faixa de 1%, e segue estável nos últimos trimestres, de acordo com o Banco Central.


  

 Quantidade de CRIs "estressados" em alta 

   

 2023 

 2024 

 2025 


CRIs em fluxo regular

2826

3519

4115


CRIs vencidos e não repactuados

55

101

191


Porcentual de vencidos e não repactuados

1,9%

2,8%

4,6%


Fonte: CR Data, plataforma de monitoramento de CRIs do Clube dos FIIs



Raiz dos problemas 


O sócio-diretor de investimentos alternativos do Clube dos FIIs, Felipe Ribeiro, aponta que o problema está concentrado nos fundos de investimento imobiliário "high yield", que miram retornos mais altos para os cotistas, mas para isso têm de lidar com riscos maiores. Muitos fundos desse tipo adquiriram CRIs em que as empresas estão pagando caro pelo dinheiro, com taxas anuais acima de IPCA + 10% a 15%, ou CDI + 4% a 5% (o equivalente a um juro nominal na ordem de 20% ao ano, um patamar pesado para financiar a produção).


"Todos os CRIs que deram pau de 2024 para 2025 são ?high yield?", apontou Ribeiro. "Quando a taxa de juro sobe no País, os empresários ficam mais apertados, as obras ficam mais caras, cai a velocidade de vendas e o fluxo de caixa seca. Os primeiros a abrir o bico são os ?high yield?".


O risco/retorno desses CRIs é maior porque as operações envolvem incorporadoras pequenas, com governança mais simples, mais endividadas e/ou com menor capacidade de obter capital de giro em caso de urgência, o que eleva o risco de uma eventual inadimplência. Em outros casos, o risco tem mais a ver com o empreendimento em si e as chances de as vendas falharem. Boa parte dos CRIs problemáticos vêm do setor de multipropriedades - em que o direito de uso de cada apartamento é vendido para vários proprietários, que se revezam na ocupação. Esses imóveis são um bem de mero lazer, e o comprador desiste do negócio na primeira dificuldade que surgir, ao contrário da aquisição da casa própria.


Dis

Análise Econômica

 *ANÁLISE ECONÔMICA/GALHARDO: INVESTIGAÇÃO SOBRE INFORMAÇÕES PRIVILEGIADAS NO CÂMBIO DARÁ EM NADA*


Por Francisco Carlos de Assis


 São Paulo, 20/07/2025 - Informações privilegiadas no mercado financeiro como as que, supostamente, ocorreram no mercado de cambial brasileiro horas antes e depois de Donald Trump elevar a 50% a tarifa sobre produtos importados do Brasil são mais comuns do que imaginam pessoas de fora do circuito financeiro, diz o professor de economia e chefe do Departamento Econômico da Análise Econômica, André Galhardo. Por isso ele diz acreditar que dará em nada a investigação pedida ontem (19) pela Advocacia-Geral da República (AGU) ao Supremo Tribunal Federal (STF) para que apure se houve ou não vazamento de informações prévias, por parte do deputado licenciado e auto exilado nos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro.


 Galhardo, que concedia entrevista à TV Globo pouco antes do anúncio feito por Trump, no dia 9 de julho, ao ser questionado sobre o porquê do movimento do dólar disse apenas que não via fundamentos para a volatilidade do câmbio naquele momento. O problema, de acordo com o economista da Análise Econômica, é que mais uma vez a investigação, caso seja mesmo levada adiante, provavelmente dará em nada. Para ele, esse pedido de investigação agora está associado a um momento de elevada conturbação política pelo qual passa o Brasil neste momento.


“Não é incomum no Brasil as informações privilegiadas, eu não tenho provas, mas eu já vi em diversas outras ocasiões movimentos atípicos do mercado às vésperas de um anúncio importante que, teoricamente, ninguém sabia ou, e aparentemente, só alguns poucos sabiam de forma antecipada. O Brasil tem muito essa questão da influência. E aí as pessoas acabam sabendo antes, acabam espalhando a informação, que é o que é gravíssimo”, disse Galhardo.


 O economista apontou duas ocasiões recentes em que o mercado se antecipou a anúncios que nem a imprensa especializada sabia. Um deles foi a reação do mercado cambial ao anúncio da ampliação das faixas de salários, que passariam a contar com a isenção do Importo de Renda, juntamente com a divulgação dos cortes de gastos pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O outro foi a queda sofrida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no banheiro da residência oficial da Presidência da República. "Em resumo, acho que esse episódio, o do Eduardo Bolsonaro, é mais um entre tantos que a gente teve, lamentavelmente. Então, assim, o que a AGU está pedindo para ser investigado é isso, né? Porque essas informações podem ter vindo dele, inclusive, né? Isso vira alguma coisa? Acho que não porque, como eu disse, sempre acontece e vai ser bem difícil provar algum tipo de irregularidade e alguém ser julgado como culpado”, afirmou Galhardo.


 O anúncio de que os Estados Unidos devem elevar a 50% a taxação de produtos importados do Brasil a partir de 1º de agosto foi feito no dia 9 de julho por meio de carta enviada por Donald Trump ao governo brasileiro na sua rede social, Truth Social. Mas horas antes do anúncio da sobretaxa, segundo disse ao Jornal Nacional, da TV Globo um dono de fundo de investimentos em Nova York, se observou um volume de US$ 3 bilhões a US$ 4 bilhões em compra de dólares, num movimento que o mercado considerou atípico.


 Ainda, de acordo com o gestor, mais tarde ocorreu um movimento contrário, o que levantou à dedução de que algum investidor pode ter lucrado com o sobe e desce do preço do ativo com base em conhecimento prévio da sobretaxa.


 O pedido da AGU foi feito no âmbito do inquérito instaurado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e que apura a conduta de Eduardo Bolsonaro para estimular o governo norte-americano a coagir o judiciário brasileiro.

Amilton Aquino

 Cruzamos o Rubicão?


Depende de qual Rubicão estamos falando. O Rubicão macro, que poderia nos colocar no mesmo patamar de párias como Irã, Coreia do Norte e Venezuela, ainda não — pelo menos não totalmente. Mas, certamente, alguns rubicões foram cruzados nesta semana.


A começar pela decisão esdrúxula do imperador Alexandre de Moraes sobre o IOF, que não apenas “legalizou” a função arrecadatória de um imposto cujas diretrizes deveriam restringir-se à regulação, como também passou por cima da decisão do Congresso, que tentou corrigir a canetada do governo. Ou seja, a exemplo do que aconteceu na Venezuela, foi oficialmente inaugurado o regime “dois contra um”, no qual Executivo e Judiciário decidem tudo, enquanto o Congresso cumpre o papel protocolar de “instituição democrática” — assim como as eleições forjadas.


O segundo foi Lula, em entrevista à CNN Internacional, dobrando a aposta na crise com os EUA. Sim, ele teve a cara de pau de insinuar que nossas leis são mais rigorosas que as norte-americanas (conjecturando que Trump poderia ser preso no Brasil), além da pachorra de afirmar que o norte-americano “não tem nem 10% de sua experiência em negociações”! Pois é: um dos homens mais ricos do mundo, autor do best-seller A Arte da Negociação, não seria páreo para Lula — o cara que acha que consegue resolver os mais difíceis conflitos mundiais numa mesa de boteco. Haja autoestima!


O terceiro envolveu novamente Alexandre de Moraes, que, como tem feito desde que assumiu a função de macho alfa do STF para assuntos aleatórios, resolveu também dobrar a aposta contra Trump, ao decretar não apenas a busca e apreensão na casa de Bolsonaro, como também sua prisão domiciliar.


O quarto veio com Marcos Rubio, secretário de Trump, que reagiu imediatamente, afirmando que o governo norte-americano revogará os vistos não apenas de Alexandre de Moraes, mas também de outros ministros do STF e seus familiares.


O quinto foi Eduardo Bolsonaro, novamente fazendo chacota sobre o uso da força — agora com a marinha norte-americana contra o Brasil! O inconsequente que está demolindo a candidatura de Tarcísio, um dos poucos capazes hoje de distensionar o ambiente que sua família instigou, não aprendeu nada com o seu fatídico “basta um cabo e um soldado”.


Ou seja: são muitas linhas vermelhas cruzadas em apenas uma semana. Isso depois de o Brasil fazer o papel de bobo da corte na reunião esvaziada do BRICS, confrontando o gigante norte-americano, enquanto a Rússia (uma das principais interessadas na desdolarização) jogava toda a culpa em Lula, e a China (alvo principal de Trump na sua guerra de tarifas) fechava um acordo com seus arquirrivais — com uma taxação agora bem menor que a do Brasil!


Parabéns aos envolvidos!


A questão agora é saber quem serão os adultos na sala para esfriar os ânimos. Lula, ao que parece, está adorando tudo isso — principalmente depois das pesquisas que lhe deram um fôlego na campanha antecipada, principalmente entre a galera do centro. Vai triplicar a aposta e ficar sujeito a sanções dos EUA? A pequena recuperação de aprovação se sustentará quando a economia começar a desaquecer? E quanto aos  bolsonaros? Continuarão insistindo na estratégia suicida de sacrificar o país para escapar da cadeia?


Pois é. Por incrível que pareça, Lula animou a extrema esquerda, que andava meio decepcionada com ele. Muitos já estão na torcida por um rompimento diplomático, e alguns já apresentam soluções russas e chinesas para substituir serviços gratuitos norte-americanos, como o GPS, por exemplo.


Enfim, se depender dessa turma, mergulharemos de vez no grupo dos párias mundiais, atravessando de vez o rubicão. Mais “independentes” dos norte-americanos — direto para o colinho de Putin e Xi! Que tal?

Paulo Cursino

  Não, eu não gostaria de ver a América de Trump tirando o presidente da Venezuela do poder. Eu gostaria de ver o Brasil fazendo isso. O paí...