quarta-feira, 8 de outubro de 2025

BDM Matinal Riscala

 *Rosa Riscala: MP do IOF em risco*


A votação na Câmara e no Senado ficou para hoje, com risco de perder a validade se não for votada até meia-noite, depois de ter sido quase derrotada na Comissão Especial


… Sem sinais de acordo para pôr fim ao shutdown do governo americano, que entra no seu oitavo dia, investidores começam a assumir posições defensivas, pressionando o dólar e os Treasuries, enquanto as bolsas em Wall Street interrompem os recordes. O cenário externo é ainda abalado pela crise política na França e incertezas no Japão, que afetam o câmbio global. Na agenda em Nova York, sai a ata do Fed, enquanto aqui o dia começa com uma nova pesquisa Quaest e a expectativa com a MP do IOF. A votação na Câmara e no Senado ficou para hoje, com risco de perder a validade se não for votada até meia-noite, depois de ter sido quase derrotada na Comissão Especial.


MP DO IOF – O plano era votar ontem à noite no plenário da Câmara e hoje no Senado, mas deputados aprovaram urgência para a PEC que trata da aposentadoria de agentes de saúde, que passou com mais de 400 votos em dois turnos, e a MP 1.303 ficou para hoje.


… No final da tarde, o governo passou sufoco na Comissão Mista, onde a MP do IOF foi aprovada por 13 votos a 12, apesar das concessões feitas pelo relator, deputado Carlos Zarattini (PT), que desidratou o texto, sob pressão das bancadas.


… Foi mantida a isenção das LCAs e LCIs, cuja tributação em 5% renderia R$ 2,6 bilhões em 2026, e retirado o aumento da tributação das bets, de 12% para 18%, com receita estimada de R$ 1,7 bilhão – segundo cálculos preliminares.


… Outra mudança alterou a tributação dos JCP, fixando a alíquota em 18%. O governo pretendia aumentar a taxa de 15% para 20%.


… O novo relatório reduz a arrecadação prevista de R$ 20,87 bilhões em 2026, já contabilizada no Orçamento, para cerca de R$ 17 bilhões, em uma estimativa ainda preliminar, segundo admitiu o ministro Fernando Haddad.


… Ao comentar a aprovação por só um voto de diferença na Comissão Especial, o deputado Carlos Zarattini disse que houve “quebra de acordo” na votação, o que teria impedido uma “votação expressiva”, como ele esperava.


… “Dialogamos muito com a Frente Parlamentar do Agronegócio, atendemos a praticamente todos os pleitos e eles não corresponderam.”


… Segundo o Broadcast Agro, o governo buscou uma articulação final para evitar que o texto fosse derrubado na Comissão Especial, e já admite que não terá o apoio da FPA, a maior e mais influente do Congresso, na votação do plenário.


… A FPA manteve posição contrária à MP, alegando viés arrecadatório da medida, mas optou por não encaminhar orientação de voto aos parlamentares. Zarattini promete trabalhar para que o texto não seja ainda mais desidratado hoje na votação do plenário.


AGENTES DE SAÚDE – Não há ainda estimativa precisa do impacto fiscal da PEC aprovada ontem à noite, já que… não foram solicitados dados oficiais da Previdência. Segundo o relator, deputado Antonio Brito (PSD), calcula-se R$ 1 bilhão/ano, ou R$ 5,5 bilhões até 2030.


… A Confederação Nacional de Municípios, no entanto, calcula um impacto de R$ 21,2 bilhões nos regimes de prefeituras. O texto agora vai ao Senado.


ÔNIBUS DE GRAÇA – Além da desidratação da MP 1.303, e até do risco de a Medida não ser aprovada hoje, a percepção de que o governo Lula tende a se aventurar em propostas populares, à medida que se aproxima o ano eleitoral, amplifica os receios fiscais no mercado.


… Nesse sentido, a gratuidade das passagens de ônibus surge como o melhor exemplo.


… Embora técnicos da área econômica tenham descartado a medida no curto prazo, o ministro Hadad admitiu que a Fazenda está mapeando o sistema de transporte público a pedido do presidente Lula. As declarações foram ao programa Bom Dia, Ministro, da EBC, nesta terça.


… “Estamos fazendo uma radiografia do setor para verificar quais são as chances de melhorar isso, que tem apelo social muito forte.”


A REFORMA DO IR – Escolhido para relatar no Senado o projeto de reforma do Imposto de Renda, Renan Calheiros (MDB) vai tentar desgastar o deputado Arthur Lira (PP), relator do texto na Câmara e seu arquirrival na política em Alagoas.


… Lira conseguiu um grande feito aprovando a proposta por unanimidade, com o voto de 493 deputados e nenhum contra. Renan quer botar sua digital nessa história e já prometeu fazer mudanças no projeto, mas não mudanças que obriguem o texto a voltar à Câmara.


… A ideia é usar as emendas “de redação” e “supressivas”, que servem apenas para ajustes no texto ou que visam excluir partes do projeto.


… Segundo apurou o Valor, um dos focos de Renan será a emenda que exclui da base de cálculo da tributação mínima do Imposto de Renda as taxas judiciais que os cartórios arrecadam e repassam aos tribunais de Justiça, que Lira diz ter incluído a contragosto.


… “O que tiver que ser emendado, será emendado. O que tiver que ser suprimido, será suprimido. O nosso esforço, no entanto, é para que a matéria não volte à Câmara dos Deputados”, disse o senador, que promete votação rápida, em cerca de 30 dias.


… Renan disse que, na Câmara, a matéria serviu como “instrumento de chantagem” e de pressão contra o governo e até sobre a pauta do poder Legislativo, com deputados utilizando a reforma do IR para conseguir a aprovação da PEC da Blindagem e o avanço do PL da Anistia.


… Sobre o calendário de tramitação, o senador disse que pretende fazer pelo menos quatro audiências públicas na CAE para debater o projeto. Renan disse que as audiências serão definidas já nesta quarta-feira, assim como quem vai participar delas.


BRASIL X EUA – Novos trechos do diálogo entre Trump e Lula, no telefonema de segunda-feira, revelam que o presidente dos Estados Unidos admitiu que os americanos estão sendo afetados pela elevação do preço do café por conta do tarifaço ao Brasil.


… Segundo interlocutores presentes, partiu de Trump a iniciativa de citar a questão do grão no mercado interno, mesmo sem o presidente Lula fazer qualquer tipo de referência à bebida, como exemplo negativo da contenda comercial entre os dois países.


… Desde que a tarifa de 50% entrou em vigor, em agosto, a alta total dos preços nos Estados Unidos foi de 0,4% e a do café, de 3,6%, após recuo de 17,5% do volume do produto brasileiro vendido aos Estados Unidos em relação a agosto de 2024.


… Lula, de seu lado, afirmou estar disposto a tratar de questões comerciais “sem impor restrições” a temas específicos.


… Entre os assuntos que poderão ser abordados nas negociações está a regulação das grandes empresas de tecnologia (big techs) e a possibilidade de uma parceria entre Brasil e Estados Unidos no setor de minerais críticos e terras raras.


MARCO RUBIO – Uma segunda leitura sobre a escolha do secretário de Estado americano para negociar com o Brasil está sendo feita por fontes do Itamaraty e integrantes do governo, que veem o lado positivo na indicação de Rubio, segundo Bela Megale (Globo).


… Um canal direto com ele permitirá enfrentar as questões já de saída; além disso, participando das negociações, Rubio não vai trabalhar para minar as tratativas. Outra avaliação é que o secretário não terá autonomia, já que o canal com o Brasil foi aberto por Trump.


EDUARDO – No Estadão, interlocutores de Tarcísio admitem que Eduardo Bolsonaro tem se tornado o “maior cabo eleitoral de Lula e só faz gol contra”, sendo um dos responsáveis pela recuperação da popularidade do presidente nos últimos meses.


… Hoje, a Genial/Quaest publica logo cedo, às 7h, a pesquisa sobre a avaliação do governo Lula, que já deve repercutir na abertura dos negócios, neste momento em que a popularidade do governo preocupa a Faria Lima.


MAIS AGENDA – Saem ainda hoje a primeira prévia de outubro do IPC-S (8h), a produção de veículos da Anfavea em setembro (10h), além dos dados do BC sobre o fluxo cambial semanal, às 14h30, enquanto o fiscal volta a estressar o câmbio.


… Lula sanciona a lei da Tarifa Social de Energia em cerimônia no Palácio do Planalto a partir das 15h.


… Pela manhã, às 10h, o presidente participa da Conferência Nacional Infantojuvenil pelo Meio Ambiente (CNIJMA), em Luziânia (GO).


LÁ FORA – Sem indicadores, diante da paralisação da máquina nos Estados Unidos, o investidor se guia hoje pela ata do Fed, às 15h, e pelos comentários dos integrantes do BC americano para projetar os cortes dos juros este ano.


… Dois dirigentes do Fed com direito a voto falam hoje: Alberto Musalem (10h20) e Michael Barr (10h30 e 18h45). Já Neel Kashkari, que não vota este ano, discursa às 16h15. Ontem, ele apontou sinais de estagflação (abaixo).


… Às 11h30, os estoques de petróleo do DoE têm previsão de alta semanal de 700 mil barris. Com mensagem pré-gravada, Lagarde participa de evento às 13h. As bolsas da China e da Coreia do Sul seguem fechadas para feriado.


SHUTDOWN – Em estratégia de pressão para forçar os senadores democratas a reabrirem seu governo, o presidente Trump fez circular na Casa Branca um memorando no qual diz que não há garantia de pagamento retroativo aos trabalhadores federais durante a paralisação.


… Os cerca de 750 mil funcionários públicos federais têm sido ressarcidos retroativamente em episódios anteriores de shutdown. Mesmo na paralisação de 2019, na primeira gestão Trump, que durou 35 dias, eles receberam os seus salários.


… Agora, no entanto, o memorando do Escritório de Gestão e Orçamento afirma que o pagamento retroativo deve ser fornecido pelo Congresso.


… Trump pretende anunciar em “quatro ou cinco dias” quais programas e funcionários serão cortados permanentemente.


PONTO FRACO – Tema sempre sensível ao mercado, o risco fiscal doméstico não poupou ontem os negócios de uma onda de estresse, que levou o Ibovespa a queimar mais de 2 mil pontos, disparou o DI e pressionou o dólar a R$ 5,35.


… A desidratação da MP alternativa ao aumento do IOF, depois das concessões do relator Carlos Zarattini ao agronegócio, ao setor imobiliário e às bets, ampliou os riscos potenciais de desequilíbrio das contas públicas.


… Também a confirmação pelo governo de que a gratuidade do transporte público está mesmo nos planos não pegou bem, na medida em que a medida de viés eleitoreiro acrescenta mais uma armadilha fiscal ao cenário.


… Primeiro, o Ibovespa perdeu os 143 mil pontos, depois entregou os 142 mil e, na mínima do dia, em 141.035,06 pontos, foi por pouco que não furou mais uma linha de pontuação. Fechou em queda de 1,57%, a 141.356,43 pontos.


… O giro mais forte, de R$ 24,4 bilhões, em um dia negativo sugere a atuação mais expressiva dos vendedores.


… Às voltas com as negociações na Câmara sobre um aumento das alíquotas de CSLL a instituições financeiras e eventual taxação maior aos Juros sobre Capital Próprio (JCP), os papéis dos bancos caíram em bloco na bolsa.


… Itaú, -1,59% (R$ 37,17); Bradesco PN, -1,65% (R$ 16,72); Santander, -2,06% (R$ 28,00); e BB, -0,93% (R$ 21,21).


… Um dia depois de ter encostado em R$ 60,00, Vale realizou lucros, perdeu 1,41% e fechou na mínima de R$ 58,75. MRV liderou as perdas do dia, com tombo de 12,12% (R$ 6,31), após anúncio de queda de 8,9% nas vendas do 3Tri.


… As ações da Petrobras subiram, mas não tiveram fôlego suficiente para fazer a diferença na bolsa. O papel PN registrou alta moderada de 0,36%, cotado a R$ 30,83, e o ON limitou a alta a 0,12%, negociado a R$ 32,92.


… Lá fora, o petróleo também operou travado, com o Brent praticamente estável (+0,03%), valendo US$ 65,45.


… No câmbio, deu para notar que a alta firme de 0,75% do dólar, para R$ 5,3506, não reproduziu apenas a pressão global, mas respondeu ainda à tensão interna, já que o real figurou na lista das moedas com pior desempenho do dia.


… O investidor não gostou nada de reprecificar no radar o risco de populismo fiscal e de menor arrecadação.


À FLOR DA PELE – A vulnerabilidade das contas públicas também induziu a curva do DI a elevar a guarda, especialmente nos contratos de longo prazo, que melhor refletem a percepção de risco fiscal pelos estrangeiros.


… No fechamento, o contrato de juro para Jan/31 saltou a 13,680% (de 13,565% na véspera); Jan/33 disparou para 13,790% (contra 13,670% no pregão anterior); Jan/29 foi a 13,460% (de 13,363%); e Jan/27, a 14,130% (de 14,081%).


… O vencimento mais curtinho, para Jan/26, ficou estável, em 14,898%. O mercado está amplamente convencido de que um o Copom não fará um corte antecipado da Selic, como tem ficado muito claro na comunicação dura do BC.  


… A XP informou ter adiado a expectativa de início do ciclo de relaxamento monetário de janeiro para março, diante das medidas de estímulo fiscal, que podem aquecer a demanda e a inflação, e elevar o déficit em conta corrente.


… Com o fiscal no foco, o DI operou na contramão da queda das taxas dos Treasuries, que já mostram desconforto com o impasse do shutdown. O juro da Note-2 anos caiu a 3,573% (de 3,597%) e o de 10 anos, a 4,129% (de 4,164%).


… O investidor começa a vender risco e comprar proteção, no movimento potencializado ainda pela turbulência política na França, com a renúncia do primeiro-ministro Sébastien Lecornu, defensor de cortes em gastos públicos.


… Também o Japão enfrenta o risco de expansionismo fiscal depois da eleição da nova líder do governista Partido Liberal Democrata, Sanae Takaichi. Se serve de consolo, não é só o Brasil que convive com os desafios fiscais…


… O iene caiu para 151,96 por dólar e o euro recuou 0,52%, para US$ 1,1651, levando o índice DXY a subir 0,47%, a 98,578 pontos. Isolado, Macron enfrenta pressões para convocar novas eleições legislativas ou renunciar ao cargo.


… Depois de aceitar a demissão de Lecornu, Macron deu ao seu aliado um prazo de 48 horas, que termina hoje, para o primeiro-ministro francês demissionário buscar negociações com as forças políticas para estabilizar a França.


… Nos Estados Unidos, Stephen Miran, indicado de Trump ao Fed, continua botando pressão para uma política monetária cada vez mais dovish e não vê o tarifaço como um fator determinante para o crescimento da inflação.


… De seu lado, Neel Kashkari defende que as decisões de juros continuem sendo baseadas em dados, não em questões políticas, e alerta sobre uma “explosão” da inflação se o Fed reduzir drasticamente as taxas.


… Segundo ele, os indicadores estão enviando “alguns sinais” de estagflação, com emprego fraco e preços elevados.


… Para Kashkari, é importante avaliar se a inflação americana será afetada por tarifas, o que ainda considera cedo para saber, e se o nível permanecerá por volta de 3%, persistentemente acima da meta do Fed, de 2% ao ano.


… Nas bolsas em Nova York, o shutdown que se prolonga começa a preocupar os investidores e quebrou ontem a sequência de seis pregões em alta do índice S&P 500, que encerrou em queda de 0,38%, aos 6.714,59 pontos.


… O Nasdaq caiu 0,67%, aos 22.788,36 pontos, depois de ter superado mais cedo a marca inédita dos 23 mil pontos. O Dow Jones recuou 0,20%, a 46.602,98 pontos, sem sinal de acordo entre os senadores democratas e republicanos.


COMPANHIAS ABERTAS – PETRORECÔNCAVO registrou produção média de óleo e gás de 26 mil boed em setembro, queda de 1,8% ante o mês de agosto.


ASSAÍ. BlackRock atingiu participação agregada de 5,033% na companhia, passando a deter 65.695.267 de ações ON e 485.120 ADRs.


KLABIN realizou a liquidação antecipada integral de contrato de empréstimo sindicalizado, com vencimento original em 2028…


… Valor pago foi de aproximadamente US$ 120 milhões, o que implicou na quitação total da obrigação contratual.


TIM estabeleceu parceria com a IHS Brasil para construção/operação de torres de comunicação; objetivo é construir até 3 mil unidades do modelo Make, com implantação inicial mínima de 500 torres de comunicação ou sites.


DESKTOP confirmou que teve conversas preliminares com a Claro sobre potencial transação. Segundo a empresa, ainda não foram definidas as condições de eventual acordo, como preço e estrutura da operação.


AMBIPAR prepara pedido de recuperação judicial para a próxima semana, em tribunal do Rio. (fontes da Bloomberg)

Bankinter Portugal Matinal

 Análise Bankinter Portugal


SESSÃO: Os futuros têm aguentado planos após Nova Iorque corrigir (finalmente!) um pouco ontem (-0,4%), depois de 7 sessões consecutivas de subidas. A sessão de hoje poderá ser de estabilização, mas com fundo em alta porque já começam a ser publicados resultados 3T americanos provavelmente decentes ou bons (EPS esperado +8,8%), e domina a perceção sobre a permanência de taxas de juros baixas após a descida de taxas de juros na NZ.


O ouro rompe 4.000 $/onça... como estimávamos, mas antes do que esperávamos (2026). Tem correlação inversa com o USD, é usado como cobertura de inflação e atua como refúgio quando a geoestratégia se complica, portanto só pode subir. A Fed de Nova Iorque publicou ontem as perspetivas de inflação a subirem até +3,4% desde +3,2% a 12 meses e até +3,0% desde +2,9% a 5 anos, embora estáveis em +3,0% a 3 anos. Isso deve ter sido o gatilho para a aceleração do ouro. NZ baixou taxas de juros em -50 p.b. em vez de -25 p.b. esperados. O yen continua a depreciar-se (177/€; 152,5/$). Pressão sobre Macron para que se demita e convoque eleições em FRA. A UE sobe o imposto alfandegário ao aço para 50% desde 25% e reduz -50% na quota de importações autorizadas (contingentes). Produção Industrial na Alemanha mais fraca do que o esperado, publicada às 7 h (-4,3% vs. -1,0% esperado vs. +1,3% anterior). O governo dos EUA continua parcialmente encerrado, sem parecer reabrir, porque Trump quer prolongar a situação para aproveitar para despedir funcionários e fechar agências federais, o que implicaria abrir outra frente legal para determinar se o Presidente tem autoridade legal para o fazer. 


TAXAS DE JUROS. 

NZ baixa -50 p.b. vs. -25 p.b. esperados, até 2,50%: coloca a reativação económica à frente da redução da inflação, que foi +2,7% em junho (NZ apenas publica dado trimestral) porque o seu PIB contrai-se ca.-1% (-1,1% 2T’25 -1,1% 1T’25 -0,6% 4T’24 0,0% 3T’24). O RBNZ (b.c.) afirma que continuará a baixar taxas de juros. Embora esteja geograficamente nas antípodas, este gesto tão dovish/suave reforçará o sentimento de que as taxas de juros continuam a mover-se em baixa, influenciando um pouco nesse sentido sobre as expetativas em relação à Fed. Não há relaçã direta, mas influenciará um pouco.


DIVISAS. O USD recupera um pouco (1,162/€), mas o yen continua a afundar-se (quase 177/€) ao descontar-se que Takaichi (nova PM in pectore) pressionará o BoJ para que não volte a subir taxas de juros (agora 0,50%; próxima reunião BoJ 30 de outubro) e priorizará a reativação do PIB mediante expansão fiscal (isto é, taxas de juros baixas + dívida pública = yen e obrigações a sofrerem).


EMPRESAS. 

Tesla caiu ontem -4,5% após apresentar versões mais acessíveis por 5.500 $/5.000 $ do Model 3 (36.990 $) e do Model Y (39.990 $). Contudo, custam mais do que as antigas porque em setembro foi retirada a subvenção de 7.500 $, portanto não serão um estímulo para a procura.

BMW realiza profit warning e cai -3% em pré-abertura. Margem EBIT em automóveis 5%/6% vs. 5%/7% anterior, ROCE automóveis 8%/10% vs. 9%/13% e BAI "ligeiramente inferior a 2024" vs. "em linha" anterior.

AÇO. A UE reduz quotas atuais de importação em -50% e sobe imposto alfandegário até 50% desde 25% para proteger a indústria europeia do aço, num contexto de sobrecapacidade global. Quer evitar que, após o imposto alfandegário de 50% aplicado pelos EUA, o aço barato da China ou da Índia se dirija para a Europa. Bom para ArcelorMittal e Acerinox.

Constellation Brands (bebidas alcoólicas, EUA) bateu expetativas (EPS 3T 3,63 $ vs. 3,38 $ esperados) no fecho de segunda-feira em Nova Iorque, portanto subiu ontem, terça-feira, +1% e introduz uma leve sensação positiva sobre os primeiros resultados a serem publicados.


CONCLUSÃO: Mercado estável, mas com vontade de subir um pouco, o que poderá conseguir com base na sensação de taxas de juros em baixa após a descida do RBNZ e o recorde do ouro. Poderão mover o mercado em positivo: uma possível convocatória de eleições na França e/ou reabertura do governo dos EUA, mas ambos são improváveis porque nem Trump nem Macron ganhariam. Estamos à espera do fluxo de resultados 3T americanos, que ganhará um pouco de ritmo amanhã (Delta, Pepsi…), mas principalmente na próxima semana (quase todos os grandes bancos). Enquanto esperamos, uma subida milimétrica parece o desenvolvimento mais provável.


NY -0,4% US tech -0,6% US semis -2,1% UEM -0,3% España -0,2% VIX 17,2% Bund 2,71% T-Note 4,12% Spread 2A-10A USA=+56pb B10A: ESP 3,26% PT 3,11% FRA 3,57% ITA 3,56% Euribor 12m 2,220% (fut.2,270%) USD 1,162 JPY 177,0 Ouro 4.029$ Brent 66,0$ WTI 62,3$ Bitcoin -2,4% (121.349$) Ether -5,4% (4.439$) 


FIM

Paulo Roberto de Almeida

 Escrever é uma mania, que se aprende na leitura precoce


        Comecei tarde. Só fui alfabetizado na idade “tardia” de sete anos, porque em casa não havia livros ou revistas, nem jornais. Meus avós, imigrantes perfeitamente (se ouso dizer) analfabetos da Itália do sul e do norte de Portugal, assim permaneceram toda a vida: trabalhavam em fazendas. Meus pais nunca terminaram o primário, pela necessidade de começar a trabalhar. Eu também comecei a trabalhar cedo, ainda antes de aprender a ler: recolhendo restos de metais nos fundos de uma fábrica de peças de bakelite, que despejava o lixo industrial nos fundos, num terreno baldio; eu e muitas outras crianças e jovens recolhíamos pequenas peças de metal, no meio da lixaria, guardávamos em latas usadas de leite condensado, e depois levávamos para nossos pais vender na reciclagem. Era uma forma de completar o miserável orçamento doméstico, indispensável para assegurar o arroz e feijão, o pedaço de gelo, trazido por um vendedor de carrocinha, coberto de serragem, que servia de “geladeira” num armário de madeira.

        Tive a sorte, a grandíssima sorte, de morar perto de uma biblioteca infantil municipal: a Biblioteca Anne Frank, no bairro do Itaim-Bibi, em São Paulo, e que antes se chamava Chácara Itaim: ruas de terra, muitos terrenos baldios, alguns transformados em campinhos de futebol improvisado, com duas pedras, ou latas de tinta, sinalizando o gol em casa extremo. 

        Comecei a frequentar a biblioteca antes de aprender a ler: joguinho de palitos, damas, filmes da Atlântida (Oscarito e Grande Otelo), ou os estrangeiros: Tarzan, Zorro, Hopalong Cassidy, Roy Rogers, Gordo e Magro, Charlie Chaplin, Buster Keaton, o outro Zorro (o do Tonto), as chanchadas nacionais e os mais elaborados de Cinecittà: Maciste, Hércules, aquelas paródias da mitologia grega, uma delícia.

        Finalmente aprendi a ler, primeiro as revistinhas da época (Bolão e Azeitona, Capitão Kid, logo em seguida Pato Donald e Mickey, publicados pela Abril). Quando aprendi a ler de verdade, comecei direto com Monteiro Lobato, e acho que isso mudou completamente a minha vida: em lugar de ficar jogando bola, ou brincando de taco com os outros meninos na rua, eu ficava na biblioteca até fechar; mais ainda, podia levar os livros para casa, para ler na cama até minha mãe apagar a luz, nunca muito tarde, para economizar, pois éramos de verdade muito pobres, de uma pobreza especial: minha mãe lavava roupa para fora, num tanque sob o sol, meu pai era por vezes operário, outras vezes entregador de café torrado e moido. Fui uma vez com ele à torrefação: o forte cheiro de café sendo torrado me deu um enjoo tão forte, que nunca tomei café, até a idade adulta.

        A frequência assídua na biblioteca não me impedia de trabalhar: pegar bolas de tênis no Clube Pinheiros, ou empacotar as compras em sacos de papel no supermercado Peg-Pag do começo da Marechal Floriano com a São Gabriel, só por gorgetas. Olhava cobiçoso os milk-shakes ou sorvetes de taça na esquina, mas nunca comprei com os meus tostões: tudo era entregue à minha mãe, para ajudar nas despesas da casa.

        Continuei lendo, intensamente, e a partir do meio do primário comecei a escrever, primeiro os trabalhos da escola, depois os resumos dos livros que lia. Tudo se perdeu, só sobrevivendo textos esparsos da fase ginasial. O grande impulso em meu futuro quase intelectual foi dado no Ginásio Estadual Vocacional Oswaldo Aranha, no Brooklin, um verdadeiro divisor de águas em minha vida. Tudo o que sou hoje, devo ao GEVOA, entre 1962 e 1965. 

        Minha primeira resenha “séria” já foi no colegial, com 15 ou 16 anos, um livro de Erich Fromm, publicada no boletim mimeografado do Colégio Estadual Ministro Costa Manso, ainda no Itaim. Trabalhando de dia, estudando à noite. Continuei lendo e escrevendo. Nunca mais parei. Hoje estou no trabalho de número 5080, com cerca de 1500 publicados, em todas as categorias. Milhares de páginas, manuscritas, datilografadas, digitadas, ou entrevistas gravadas, filmadas. Tudo agora para inserir em meu novo site pralmeida.net. Espero ter forças para fazê-lo. Não consigo parar de escrever.


Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 7/10/2025

A portuga por Tom Cardoso

 Minha mãe foi casada cinco vezes.


Um jornalista. Um economista. Um baterista do Raul Seixas. Um físico nuclear. Um artista plástico.


Na casa do marido economista, conheci a Conceição Tavares.


Uma vez por semana, ela chegava, sentava no sofá, acendia um cigarro, pegava o copo de uísque e começava a falar. Pelos cotovelos.


Pra mim, aquela portuga falava chinês. Boiava total.


No verão de 1990 eu tinha 17 anos e ainda cursava a oitava série.


Se tinha dificuldades com o bê ao quadrado menos quatro acê, imagina para entender o economês da época.


Uma cena e uma frase naquele sofá nunca saíram da minha cabeça.


A Conceição Tavares com o dedo na cara de uma loira dentuça, gritando:


 – Você vai é fuder com os pobres!!

 – Você vai é fuder com os pobres!!


 E um tiozinho de óculos, tentando evitar que a portuga batesse na dentuça.


Muitos anos depois, me dei conta que a dentuça era ninguém menos que a então Ministra Zélia Cardoso de Mello, responsável pelo pacote econômico batizado de Plano Collor - que, entre outras barbaridades, determinou o bloqueio das cadernetas de poupança.


O tiozinho: João Manuel Cardoso de Mello, primo da ministra da Fazenda e cunhado do meu padrasto.


Passaram-se 35 anos. 


Fui entrevistar a portuga do sofá para o Valor, no apartamento dela. 


E com quem ela falava, por telefone, aos berros? 


Fernando Haddad. 


“Ô Bonitão, os brasileiros estão morrendo de fome!!! . Déficit zero de cu é rola! ”


Parece história de pescador, mas não é. Desde que comecei na profissão, com 17 anos, presencio momentos assim. 


Foi pra mim, num encontro com um amigi em comum, Marcelo Yuka, que Mariele contou pela primeira vez que estava sendo ameaçado de morte por Carlos Bolsonaro, seu colega de câmera.


Deve ser sorte. Ou azar.


Maria da Conceição Tavares é personagem do meu livro “Vida de Gado - 30 anos pastando no jornalismo”, separado por verbetes de entrevistas que fiz e tentei fazer.


Quem quiser comprar diretamente com o autor é só dar um alô.

Paulo Cursino

  Não, eu não gostaria de ver a América de Trump tirando o presidente da Venezuela do poder. Eu gostaria de ver o Brasil fazendo isso. O paí...