domingo, 2 de agosto de 2026

Divida publica explodindo

 A íntegra: 

O pior cenário chegou para a dívida pública

Saldo bruto alcança R$ 10,8 trilhões, ultrapassa 81% do PIB e confirma cenário explosivo previsto

Candidatos deveriam colocar na mesa com detalhes o que vão fazer para resolver esse impasse econômico


Adriana Fernandes

Brasília

A poucos meses do fim do terceiro mandato do presidente Lula (PT), o pior cenário para a evolução da dívida pública brasileira se confirmou.


A dívida bruta fechou o mês de junho em 81,9% do PIB (Produto Interno Bruto), de acordo com dados divulgados pelo Banco Central na sexta-feira (31). O maior patamar desde 2021, durante a pandemia da Covid-19.


Esse era o cenário de trajetória explosiva que os técnicos do Tesouro Nacional previam, há exatos dois anos, que a dívida chegaria em 2026, último ano do Lula 3. A previsão estava em documentos encaminhados ao Congresso Nacional como complemento da proposta de Orçamento de 2025.


Não era a projeção de nenhum analista fiscalista do mercado financeiro, que tantas e tantas vezes ao longo dos últimos anos integrantes do governo e do PT insistiam em chamar de terroristas fiscais do caos.


Era a área técnica do próprio governo que já enxergava a dívida bruta acima de 80% do PIB, patamar que o próprio Tesouro em documentos oficiais indicava que seria de uma trajetória explosiva de endividamento.

A previsão era um alerta, ignorado pelo Executivo e Legislativo. A sua divulgação chegou até ser questionada por auxiliares do presidente como alarmista.


Como se observa agora, a projeção era até conservadora, porque os dados consideram uma trajetória de resultado primário das contas do governo no centro das metas estipuladas para o período 2025-2028, o que não está acontecendo.


Àquela altura, o governo e o Congresso tinham nas mãos a oportunidade de mudar o jogo nas discussões de medidas para contenção do crescimento das despesas obrigatórias.


A opção foi seguir pelo caminho da pequenez, de olho nas eleições que acontecem daqui a dois meses. Foi um momento decisivo para o governo e a economia, que mais tarde os historiadores da política econômica vão poder trazer luz.


O pacote de medidas de corte de contenção de despesas, que gerou grande discussão no Palácio do Planalto em meio à escalada do dólar e das turbulências do mercado pelas incertezas fiscais, foi minguado para o Congresso e lá desidratado, inclusive com o apoio da oposição que se autoproclama fiscalmente responsável.


O pacote continha medidas positivas e, algumas delas, eram duras. Mas o problema é que a economia de gastos obtida, ainda que insuficiente, foi usada para abrir espaço para novas despesas. Não era um corte de despesas.


Depois do pacote, ninguém mais acreditou que o governo e o Congresso fariam algo. Passaram a esperar por 2027. A turbulência diminuiu, mas a inação de Brasília em todas as esferas de Poder cobrou seu custo com alta dos juros pagos de longo prazo no Brasil em patamares em torno de 7% e 8% ao ano.


É um cenário insustentável para a economia real, para as empresas, os investimentos e os brasileiros em geral.


É preocupante que muitos no governo Lula não reconheçam as dificuldades e insistam em culpar esse cenário pelos juros praticados pelo Banco Central. Não aceitam cobranças e falam de subserviência às vontades da entidade "Faria Lima".


O aumento da dívida coloca na berlinda o arcabouço fiscal, a regra fiscal que o governo conseguiu aprovar após a PEC da Transição que expandiu as despesas logo no início de 2023.


O ministro da Fazenda, Dario Durigan, fez um movimento no mercado para sinalizar medidas de reforço no arcabouço para diminuir o teto de crescimento anual das despesas permitido nas regras em caso de vitória de Lula. Já há críticas dentro do governo a esse movimento do ministro.


Em 2023, na sua primeira entrevista no cargo, o então secretário do Tesouro, Rogério Ceron, disse à Folha que assumia o compromisso de evitar que o endividamento superasse o patamar de 80% do PIB. "Se nada for feito, pode atingir de fato uma trajetória explosiva, mas não é o que vai acontecer", disse à reportagem. Esse cenário chegou e não dá para ignorar.


O crescimento da dívida e as soluções para barrar a trajetória explosiva não vão decidir a eleição. Mas os candidatos deveriam colocar na mesa com detalhes o que vão fazer para resolver esse impasse econômico. Vale para Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e quem mais estiver na corrida ao Palácio do Planalto.

Inflação e banco central

 *Leitura de Domingo: IPCA-15 benigno deve ampliar dissonância entre projeções de Copom e mercado*


Por Cícero Cotrim


Brasília, 28/07/2026 - A surpresa negativa com o IPCA-15 de julho deve ampliar a dissonância entre as expectativas de inflação do mercado e as projeções do próprio Banco Central, a serem divulgadas no próximo dia 5, junto com o comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom).

Como informou o IBGE nesta terça-feira, o IPCA-15 desacelerou de 0,41% em junho para 0,06% em julho, muito abaixo da menor estimativa coletada pelo Projeções Broadcast, de 0,17%. A mediana da pesquisa apontava para uma inflação de 0,21%, 0,15 ponto porcentual acima do resultado efetivo.

É a terceira surpresa negativa consecutiva, seguindo o IPCA-15 e o IPCA cheio de junho. Além do desvio negativo na inflação cheia, a média dos núcleos e os serviços subjacentes - componentes mais sensíveis à atividade e à política monetária - também ficaram abaixo das medianas.

Seguindo a governança usual, com o dólar estável em torno de R$ 5,10 frente ao Copom anterior e a atividade desacelerando conforme o previsto pelo comitê, tudo aponta para uma queda nas projeções de inflação da autoridade monetária (5,2% em 2026, 3,7% em 2027 e 3,2% no primeiro trimestre 2028) na semana que vem.

Ao mesmo tempo, a provável queda deve ampliar o gap entre as projeções do BC e as do mercado. A mediana do relatório Focus para o IPCA de 2026 está em baixa, mas continua elevada, em 5,12%. As estimativas para 2027 e 2028 têm subido e estão em 4,22% e 3,8%, respectivamente - bem acima do centro da meta, de 3%, e das estimativas do Copom.

É muito improvável, para dizer o mínimo, que haja uma reversão rápida nessas tendências. Afinal, a preocupação com a política fiscal de um eventual governo Lula 4, considerado o resultado mais provável da eleição de outubro, é o fator que tem puxado para cima as expectativas mais longas de inflação.

Esse risco político-fiscal futuro - que sequer decorre de alguma medida concretamente anunciada pelo atual presidente - é um fator que o Copom não incorpora, e nem deve incorporar, nas suas projeções. Por isso mesmo, as estimativas do comitê não devem acompanhar o estresse do mercado.

Ao que os números correntes de inflação indicam, a política monetária restritiva aplicada pelo BC ao longo de 2025 (e até agora) está tendo sucesso em reduzir o ritmo de alta dos preços, por qualquer métrica mensurável. Os choques monitorados - incluindo El Niño e disparada dos preços de petróleo - não são suficientes para explicar a alta das projeções de inflação mais longas.

Não surpreende, portanto, que os agentes do mercado estejam reconhecendo espaço para que o BC reduza a Selic em 0,25 ponto porcentual mais uma vez, a 14%, na semana que vem, mesmo com as expectativas desancoradas e incertezas como o impacto do programa Brasil Soberano 3, de resposta ao tarifaço, no radar.


Contato: cicero.cotrim@broadcast.com.br

Broadcast+

Leitura de domingo

 *Leitura de Domingo: Santander lança oferta de ações na B3 e abre caminho para fechar capital*


Por André Marinho e Altamiro Silva Junior

São Paulo, 30/07/2026 - O anúncio da oferta de aquisição de ações do Santander Espanha para comprar o restante dos papéis que não tem da unidade brasileira, uma operação de R$ 11,2 bilhões em troca de ações, deixa o banco perto de fechar o capital na B3. A liquidez das ações deve se reduzir de forma drástica na Bolsa paulista.

Oficialmente, o Santander afirma que deve seguir listado na B3 e o que pode acontecer é a saída da Bolsa de Nova York, onde tem American Depositary Shares. Na prática, porém, uma eventual adesão elevada secaria o volume de papéis em circulação no mercado brasileiro.

"Ficam a um passo de fechar capital, a liquidez na B3 vai despencar", disse uma fonte. Para um analista, a operação é um "corner" para o acionista minoritário, ou seja, o controlador terá a totalidade das ações, ditando os preços e deixando o mercado sem chance de operar.

Em resposta à notícia, os depósitos de ações (ADRs) do Santander Brasil avançavam cerca de 9% nas negociações estendidas da Bolsa de Nova York, por volta das 20h30 (horário de Brasília).


Discussão antiga

Ao menos desde o final de 2024, analistas e investidores vêm colocando o banco espanhol entre os maiores candidatos a fechar o capital na B3.

A razão é que as ações do Santander Brasil eram negociadas a múltiplos mais baixos que os dos papéis da matriz em Madri. Foi uma análise parecida que levou o Carrefour francês a tirar a filial brasileira da Bolsa, no final de maio de 2025. Mais recentemente, essa distância de múltiplos se ampliou ainda mais, pois os papéis da subsidiária brasileira acumulam queda forte. Só este ano, acumulam baixa de 21%, em meio à piora dos resultados no Brasil.

O anúncio da compra das ações vem um dia após o banco divulgar um balanço considerado muito fraco pelo mercado, com queda anual de 17% do lucro, provisões adicionais de mais R$ 7,6 bilhões e retorno patrimonial (ROE, em inglês) caindo para 12,5%, se distanciando dos pares privados e da meta do banco de levar o indicador para 20%.

Os números foram recebidos com desconforto entre investidores e derrubou ainda mais os papéis da instituição financeira, que perdeu cerca de R$ 8 bilhões em valor de mercado entre ontem e hoje, 30. No final do pregão desta quinta-feira, o banco valia R$ 95 bilhões na B3, o equivalente a um quinto do Itaú e também atrás dos rivais Bradesco (R$ 190 bilhões) e até do pressionado Banco do Brasil (R$ 131 bilhões). O preço deprimido também ajuda a tornar o momento mais favorável para esse tipo de OPA, na avaliação de observadores.

Matriz vê perspectiva favorável

A presidente executiva do grupo Santander, Ana Botín, disse que o Brasil é um dos principais mercados do conglomerado e as perspectivas são favoráveis. "Esta transação faz parte da nossa estratégia de alocação de capital de forma disciplinada, simplificar o grupo e fortalecer ainda mais o nosso compromisso de longo prazo com o Brasil." O prêmio para os acionistas é de 15% e a adesão é voluntária.

Em junho de 2025, analistas chegaram a se reunir com o então presidente do banco, Mario Leão, que deixou o cargo em junho de 2026, e questionaram sobre um possível fechamento de capital. Participantes relataram que Leão disse que essa proposta não existia naquele momento, embora não tenha descartado que pudesse ocorrer no futuro. "Leão reconheceu que dada a atuação avaliação de mercado do banco, não ficaria surpreso se uma ideia como esta fosse considerada no futuro", afirmou a equipe liderada por Daniel Vaz, do Safra, em relatório enviado a clientes naquele momento.

Como parte da operação, o Santander solicitará registro como emissor estrangeiro e o registro de suas ações para negociação no Brasil por meio de um programa de BDR. Também buscará aprovação da Assembleia Geral para o aumento de capital correspondente.

Contato: andre.marinho@estadao.com; altamiro.junior@estadao.com


Broadcast+

Divida publica explodindo

 A íntegra:  O pior cenário chegou para a dívida pública Saldo bruto alcança R$ 10,8 trilhões, ultrapassa 81% do PIB e confirma cenário expl...