terça-feira, 7 de abril de 2026

Mentor de Vorcaro

 Confira

https://www.estadao.com.br/economia/quem-e-o-cerebro-por-tras-da-arquitetura-de-criacao-do-banco-master/


*Quem é o cérebro por trás da arquitetura de criação do Banco Master*

*Benjamin Botelho, dono da gestora Sefer, estava com Vorcaro à época da compra do Banco Máxima, futuro Master, e é apontado como a mente por trás da cadeia de fundos que possibilitou as fraudes; procurados, a Sefer defendeu a legalidade de seus fundos e Vorcaro não se manifestou*


Andreazza: Master cresceu rápido graças a teia de ‘boas consultorias e serviços’ criada por Vorcaro


Colunista fala sobre a teia de influência de Daniel Vorcaro nos três poderes da República. Crédito: TV Estadão


Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

Gerando resumo


Habitué de alguns dos hotéis mais luxuosos do mundo, dono de jatinhos e de mansões multimilionárias e anfitrião de festas com políticos no Lago Sul, em Brasília, o banqueiro Daniel Vorcaro teve à sua sombra um discreto operador do mercado financeiro, que o auxiliou desde a arquitetura inicial do Banco Master até seus primeiros negócios com a Fictor, empresa que propôs, em 2025, comprar o banco às vésperas da liquidação dele pelo Banco Central (BC). Alvo da Polícia Federal e dono de uma longa ficha na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a mente por trás da complexa teia de fundos de investimentos, captação de dinheiro de pensionistas e compra e venda de títulos podres a valores duvidosos é Benjamim Botelho de Almeida, dono da gestora Sefer Investimentos.


A Sefer, empresa de Botelho, afirma, por meio de sua assessoria de imprensa, que as operações com fundos são regulares (leia mais abaixo). A defesa de Vorcaro, por sua vez, afirmou que não iria se manifestar.


Nas milhares de páginas de documentos da Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes bilionárias no Master, há centenas de menções ao nome de Botelho na condição de operador de Vorcaro e de seus familiares desde antes do início do banco, em 2019. A PF afirma que a “grande maioria das operações suspeitas” da família Vorcaro “envolve também as empresas de Benjamim Botelho”.


Entre essas operações, segundo a PF, estão “compra e venda de fundos imobiliários, debêntures e outros títulos de origem duvidosa, constituição de empresas de fachada e conflitos de interesses entre empresas da mesma família”.


Botelho mora há cinco anos em Portugal e viaja com frequência ao Brasil. É dono de um cipoal de empresas de capital multimilionário, muitas delas com conexões com paraísos fiscais, como Delaware, nos Estados Unidos. Sedia algumas das empresas em Cascais, reduto de endinheirados na costa de Portugal.


Sempre levou uma vida discreta, sem redes sociais nem extravagâncias como as de Vorcaro. No dia a dia, ex-associados do empresário na Sefer contam que ele não tirava por nada seus óculos escuros e gostava de ficar isolado em sua sala envidraçada no escritório. Usava o termo “chinese wall” para descrever o tamanho do distanciamento que queria dos empregados.


Além de investigado pelas fraudes em fundos ligados ao Master, Botelho é protagonista em uma transação de mais de R$ 500 milhões entre uma empresa de Vorcaro nas Ilhas Cayman e a Fictor, nebulosa empresa do mercado financeiro que anunciou a compra do Master na véspera da liquidação do banco e no dia da operação que prendeu Vorcaro pela primeira vez, em 2025.


Pouco mais de um mês após o anúncio de que compraria o banco, foi a própria Fictor que pediu recuperação judicial, com R$ 4 bilhões em dívidas. Em razão de negócios com Vorcaro, a empresa listou a empresa de Botelho como sua segunda maior credora à Justiça de São Paulo.


Documentos mostram que o verdadeiro credor da Fictor, por trás de um fundo administrado pela Sefer, é uma holding de Vorcaro nas Ilhas Cayman. Com isso, na condição de segundo maior credor da Fictor, ele terá peso no destino da recuperação judicial da empresa (leia mais detalhes abaixo).


Se Vorcaro era um novato no mercado financeiro em 2019, quando assumiu o Master, Botelho já tinha anos de experiência como estruturador de fundos de investimentos. Trabalhou para o lendário Banco Garantia, nos anos 1990. Botelho fundou a gestora e administradora de fundos de investimentos Sefer, sediada na Avenida Faria Lima, em São Paulo, em 2003.


A Sefer teve antes outros dois nomes: Foco DTVM e Índigo DTVM. A empresa foi rebatizada ao longo dos anos ao passo em que seu fundador era enredado, mais e mais, em processos sancionadores da CVM e em investigações da Polícia Federal.


Entre 2019 e 2021, Botelho foi alvo de pelo menos cinco processos sancionadores — abertos quando técnicos da autarquia acreditam ter evidências suficientes para levar um executivo a julgamento. Entre os casos, estão investimentos de fundos de pensão que teriam beneficiado empresas de Daniel Vorcaro.


Hoje, a Sefer administra 102 fundos, com patrimônio de mais de R$ 20 bilhões. Desses, pelo menos R$ 9,6 bilhões (48% do total), possuem alguma relação financeira com o ecossistema formado pelo Master, seja pelo investimento direto em empresas ligadas ao banco, seja por manter nas carteiras ativos que já foram alvos da instituição, como precatórios de usinas.


Um desses fundos da Sefer, o Nazaré, integra esse grupo e já registrou, por exemplo, investimentos de R$ 14 milhões na Super Empreendimentos, empresa apontada pela Polícia Federal como dona de bens de luxo de Vorcaro, como sua mansão em Brasília, de R$ 36 milhões.


*Operação Fundo Fake*

Botelho atua para o Master desde a época em que o banco ainda não pertencia a Vorcaro e se chamava Máxima. Ele foi alvo da Operação Fundo Fake, que investigou desfalques do Máxima em fundos de pensão. O Tribunal Regional Federal da 1ª Região, porém, acolheu pedidos de investigados na Operação e anulou as investigações. Em 2019, quando Vorcaro assumiu o Máxima e mudou seu nome para Master, já conhecia Botelho. A relação se aprofundou ainda mais depois disso.


Tudo aquilo que a Fundo Fake investigou voltou a ser objeto de escrutínio da PF na Operação Compliance Zero, que levou Vorcaro à prisão duas vezes, em novembro de 2025 e em março de 2026, pelas fraudes no Master. Nas investigações mais recentes, Botelho voltou a ser tido por investigadores como um operador de fraudes contábeis de Vorcaro desde a gênese do Master.


Segundo narra a PF, Botelho gere fundos de investimentos que compram imóveis e outros ativos duvidosos e jogam seus preços para as alturas. Invariavelmente, esses imóveis, empresas e outros bens são revendidos a empresas de Vorcaro e familiares. O resultado da tabelinha entre Vorcaro e Botelho é que ambos ganham, mas outros investidores — o que inclui fundos de pensão — saem prejudicados.


Em parte, essas operações inflaram também ativos que foram parar no patrimônio do Máxima e, posteriormente, do Master. Em uma dessas operações, descrita pela Polícia Federal, um fundo administrado pela Sefer comprou um terreno em Aracaju onde se propagandeava que seria construído um condomínio residencial. Nada foi construído, nem a empresa dona das terras, que recebeu investimentos do fundo, podia ser qualificada com segurança como proprietária do terreno. Isso porque a Justiça chegou a dar razão a um casal, que nada tinha a ver com a empresa, mas reivindicou ser dono daquela área desde os anos 1990.


A PF apontou que transações envolvendo esse terreno e empresas da família Vorcaro deram prejuízos milionários ao fundo da Sefer, que teve como investidores fundos de pensão. Este mesmo fundo foi usado, mais tarde, para capitalizar o Master quando os Vorcaro adquiriram o banco.


*A ‘holding ostentação’ e a Fictor*

As digitais de Benjamim Botelho estão, também, na Titan, a famosa “holding ostentação” que Vorcaro usa para abrigar seus investimentos pessoais. A holding fica localizada em dois andares de um dos ícones da Faria Lima, o “prédio da baleia”.


É um escritório de 4 mil metros quadrados, divididos em duas lajes e com apenas cerca de dez funcionários — sendo que empresas no mesmo prédio costumam colocar de 150 a 200 pessoas por andar. Um elevador privativo liga a Titan ao heliponto. Formalmente, a Titan é sediada em um prédio comercial em Georgetown, nas Ilhas Cayman. Ela também já se chamou Master Holding — Sefer Investimentos. Todos os seus contatos no Brasil são da gestora de fundos de Botelho.


A Titan e a Sefer foram os veículos de um primeiro negócio, no valor de R$ 500 milhões, entre Vorcaro e a Fictor, empresa que era mais conhecida por patrocinar o Palmeiras e anunciou, em 17 de novembro de 2025, um dia antes da liquidação do Master, que compraria o banco.


No mês anterior à tentativa de compra do Master, a Fictor acertou a compra de R$ 566 milhões em precatórios que pertenciam à Titan Holding. Os precatórios eram valores a serem recebidos por usinas de açúcar que quebraram nos anos 1980 em razão do congelamento de preços pelo governo federal e que obtiveram a condenação da União a indenizá-las em razão da política econômica.


Na prática, a Titan havia comprado dos autores da ação judicial e dos advogados que aguardavam o pagamento pelo governo o direito de receber essa indenização. E vendeu à Fictor esses recebíveis. O negócio envolveu um fundo de investimentos da Sefer, e o pagamento pela Fictor, por contrato, seria feito em uma conta da empresa de Botelho. O negócio foi revelado pelo Estadão. E detalhes do contrato foram revelados pelo ICL Notícias.


Depois da tentativa fracassada de comprar o Master, a Fictor pediu recuperação judicial, em janeiro deste ano. A empresa listou como uma de suas principais credoras a Sefer Investimentos.


A dívida de R$ 430 milhões, segundo apurou o Estadão, na verdade, corresponde a valores que não haviam sido pagos ainda pela aquisição dos precatórios da Titan Holding. Como a Sefer administra o fundo de investimentos que foi usado na transação entre a Titan e a Fictor, ela foi listada de maneira equivocada como credora da empresa. Na verdade, esta é uma dívida da Fictor com a Titan.


Na condição de uma das maiores credoras da empresa, a holding de Vorcaro terá um importante peso na assembleia que vai aprovar, ou não, o plano de recuperação judicial proposto pela Fictor.


A lista de credores enviada pela Fictor à Justiça, na prática, escondeu o tamanho da influência que o próprio banqueiro investigado, e também o próprio negócio de mais de meio bilhão de reais às vésperas de a empresa tentar comprar o banco.


*Paraísos fiscais*

Vista de Oeiras, em Portugal Foto: Moedas1/Adobe Stock

Em Portugal, onde reside ao lado de sua mulher, Botelho é dono de um cipoal de empresas. Uma delas, a Zeal Capital, fica em uma sala de um centro comercial em Cascais. Está em nome de sua mulher, que declara residir em uma rua bucólica na sofisticada cidade de Oeiras, espécie de Vale do Silício português, região com concentração de empresas de tecnologia, boa qualidade de vida e localizada a menos de 20 quilômetros da capital, Lisboa. O capital da empresa é equivalente a R$ 3,8 milhões.


No mesmo escritório, ainda sedia outra empresa, a Drako, cuja controladora é uma empresa de Zug, na Suíça, onde vivem pouco mais de 20 mil habitantes e estão instaladas companhias que buscam impostos baixos e altíssima discrição.


A empresa suíça, por sua vez, tem a Hoag Investments, que tem a mulher de Botelho como conselheira, segundo documentos obtidos pelo Estadão. Seu capital é de R$ 63 milhões, decorrente da aquisição de duas empresas em Delaware, Estado conhecido como um paraíso fiscal norte-americano.


*Defesas*

A Sefer Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários Ltda. (Sefer DTVM) afirmou que “são inverídicas as informações que atribuem a determinadas pessoas físicas a condição de cotistas dos fundos de investimento por ela administrados”.


“A composição do quadro de cotistas de fundos de investimento é informação protegida por sigilo bancário e fiduciário, nos termos da legislação aplicável, razão pela qual não pode ser divulgada a terceiros, inclusive à imprensa. Todavia reafirmamos que as pessoas mencionadas na reportagem não constam como cotistas desses fundos ou ainda beneficiários finais”, afirmou.


A Sefer ainda diz que, “no que se refere à constituição de fundos de investimento e às operações de aquisição, cessão ou alienação de ativos realizadas no âmbito desses veículos, a Sefer DTVM destaca que todas as operações observam rigorosamente a legislação do mercado de capitais, os regulamentos dos respectivos fundos, bem como as normas emanadas dos órgãos reguladores e autorreguladores, sendo lícitas, regulares e pautadas por critérios técnicos e de mercado”.


“Por fim, a Sefer DTVM reafirma seu compromisso com a legalidade, a transparência regulatória e o cumprimento integral de seus deveres fiduciários, permanecendo à disposição das autoridades competentes para quaisquer esclarecimentos que se façam necessários, nos canais apropriados”, afirma.

A farsa do PT anti-sistema

 A farsa do PT ‘antissistema’-------


O presidente do PT, Edinho Silva, publicou um vídeo numa rede social no qual defende que o partido deve “enfrentar a polarização” dialogando, ora vejam, “com quem está do outro lado”. O discurso, que em outra boca poderia soar como um raro sopro de sensatez em meio à crispação do ambiente político brasileiro, mal esconde o cinismo de quem o profere. Mais ainda quando, no mesmo fôlego, o dirigente petista sustentou que o PT seria o verdadeiro partido “antissistema”, rótulo que, obviamente, tenta colar à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição.


É difícil saber por onde começar a desmontar essa mistificação. Talvez pelo que é mais evidente: o PT exerceu o poder central por 18 dos últimos 24 anos.


Não é nem jamais pode ser associado a qualquer coisa que soe “antissistema”. O PT não apenas governou o País por longos períodos desde a redemocratização, como moldou práticas políticas, apresentou ou sancionou leis que construíram o “sistema” tal como isso se apresenta hoje, povoou órgãos públicos e influenciou decisivamente o funcionamento das instituições. Se há algo que não cabe em qualquer petista, a começar pelo mais poderoso e proeminente deles, é essa fantasia de outsider.


A tentativa de Edinho Silva de promover uma espécie de rebranding do PT seria risível, não fosse tão ofensiva à memória coletiva da Nação. Este jornal não nega a legitimidade de um partido político

que venceu eleições limpas e que assumiu e deixou o poder, alternadamente, de acordo com as regras do jogo democrático. Mas não podemos aceitar calados essa deliberada distorção da realidade factual. Esse “sistema” que ora tanto se critica – com seus vícios, distorções e afastamento do interesse público – foi, em grande medida, construído sob governos petistas.


O segundo ponto é ainda mais desconcertante. O apelo ao diálogo feito por Edinho Silva contrasta frontalmente com o comportamento de seus próprios correligionários petistas. Foi sob a liderança de Lula, é sempre bom lembrar, que se consolidou no Brasil a divisão simplista da sociedade entre “nós” e “eles” como método de atuação política. Após o escândalo do “mensalão”, que desconstruiu o mito do PT como o partido da “ética na política”, o recurso à polarização – vale dizer, a negação da voz de adversários políticos – passou a ser um instrumento de mobilização e ação política desde o Palácio do Planalto.


Essa lógica atravessou governos e campanhas. Nem Dilma Rousseff nem Lula, enquanto presidentes da República, notabilizaram-se por esforços consistentes de pacificação nacional. Ao contrário: a retórica de confronto permanente com críticos e adversários do PT é que foi estimulada. Nem membros históricos do partido escaparam da virulência petista – Marina Silva que o diga. A radicalização posterior, insuflada por Jair Bolsonaro, não tem o condão de apagar esse passado.


Hoje, um petista de quatro costados,

como o sr. Edinho Silva, chamar ao diálogo depois de anos de incentivo ao dissenso entre os cidadãos soa menos como autocrítica e mais como cálculo eleitoral.


Não se está diante de um reconhecimento sincero da parcela de responsabilidade que cabe ao PT por essa polarização estéril que paralisa o Brasil, mas de uma tentativa de explorar o genuíno mal-estar de um eleitorado cansado de conflitos e descrente de que as instituições republicanas – o tal “sistema” – trabalham em seu benefício, e não em prol dos interesses corporativos das castas que as ocupam.


Ademais, flertar com o ideário “antissistema”, sobretudo em se tratando de um partido estruturado e representativo como o PT, tem consequências nefastas que vão muito além da disputa eleitoral.


Ao sugerir que a concertação entre a miríade de interesses da sociedade pode ser feita fora do “sistema” – vale dizer, fora da política e das instituições republicanas –, abre-se perigoso espaço para a negação da ordem democrática. A história recente, não só do Brasil, mostra que esse tipo de discurso, quando levado às últimas consequências, não dá em coisa boa.


O País precisa de diálogo. Mas precisa também de reformas que aproximem o Estado da sociedade. Quando um partido central para a política nacional, como o PT, tenta se vender como a antítese do sistema que ajudou a moldar, não só ofende a inteligência do eleitor, como agrava a desordem que marca o debate público.

Revista Piauí - Uma chance para Flávio

 *Uma chance para Flávio*


O arranjo – aquele arranjo, com “terceira via”, com PowerPoint, com editorial, com tudo – já está operante


Como era previsível, o escândalo do Banco Master se misturou ao processo eleitoral. Na pororoca que define o atual momento do país, ficou difícil discernir onde acaba um e onde começa o outro. Tem razão quem desconfia que as investigações podem ser prejudicadas pela disputa política; tem ainda mais razão quem acredita que o andamento e os resultados das eleições serão impactados pelas investigações. As duas coisas não são excludentes. Lembremo-nos dos efeitos da Lava Jato e no acordão que a estrangulou depois que o PT foi varrido do poder e ferido de morte na sucessão de Michel Temer, o Breve.


Muita coisa ainda virá à tona neste pântano que se formou em torno de Daniel Vorcaro. Com aquilo que já se sabe, pode-se dizer, sem medo de errar, que a crise tem potencial para provocar grandes estragos na vida nacional e deixar como saldo um cenário de terra arrasada, nivelando tudo por baixo. Já vimos isso antes.


Em 2018, o descrédito das instituições e a descrença nos políticos conduziram ao topo da República um deputado de extrema direita que havia feito carreira vociferando contra a Nova República e a democracia. Saudoso da ditadura e entusiasta da tortura, ele defendia o fuzilamento de adversários e se apresentava como vingador de um sistema corrompido.


À classe dominante, que o via com reservas – mas não em razão de suas credenciais antidemocráticas; isso, a rigor, não fazia nenhuma diferença –, Jair Bolsonaro ofertou os serviços de Paulo Guedes, seu Posto Ipiranga – “Pergunta lá”, ele sabe. Banqueiro com perfil agressivo e fama de apostador, Guedes se transformou no fiador do salto no escuro, o elo entre as taras autoritárias do capitão e as taras antipopulares do mercado.


Um pouco antes da eleição, no perfil publicado pela piauí, Guedes elogiava o candidato e se gabava de sua capacidade de domesticá-lo. Ao ser indagado se era possível amansar Bolsonaro, ele responde: “Acho que sim, já é outro animal.”


Paulo Guedes sempre pertenceu à segunda divisão dos economistas brasileiros. Mas, num governo de párias, alimentado pelo ressentimento e vocacionado para a destruição – das normas legais, do meio ambiente, das conquistas sociais, dos avanços civilizatórios –, ele despontava como uma espécie de sábio. Um sábio duvidoso, que se vangloriava de ter lido Keynes “três vezes no original”, arrotando erudição de almanaque, na mesma reunião ministerial em que Bolsonaro expôs as tripas do governo e praticamente demitiu Sergio Moro na frente dos demais, ao reclamar, em tom exaltado, que não conseguia aparelhar a Polícia Federal.


O encontro se deu em abril de 2020, com a pandemia escalando. Os termos usados pelo presidente e a forma com que se dirige a seus auxiliares diretos compõem a fisionomia daquele governo e explicitam a essência do bolsonarismo. Vale a pena refrescar a memória. Com a palavra, o pai do senador Flávio Bolsonaro:


É a putaria o tempo todo para me atingir, mexendo com a minha família. Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro, oficialmente, e não consegui. E isso acabou. Eu não vou esperar foder minha família toda de sacanagem, ou amigos meus, porque não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha – que pertence à estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele; não pode o chefe dele? Troca o ministro. E ponto final! Não estamos aqui para brincadeira.


Poucos dias depois, Sergio Moro pediu demissão do Ministério da Justiça: “Tenho que preservar minha biografia”, disse, ao anunciar sua saída do governo.


Moro desistiu rápido de sua biografia. Sim, a coisa é mais antiga, mas fiquemos por aqui. Já em 2022, voltou a apoiar Bolsonaro contra Lula, elegendo-se senador. No mês passado, trocou o União Brasil pelo PL para concorrer ao governo do Paraná. Ao lado de Flávio, pré-candidato à Presidência da República, e de Valdemar Costa Neto, presidente do partido, o ex-juiz disse em seu discurso de recepção que “política se faz com pessoas de palavra”. A seguir, dirigiu-se a Flávio chamando-o de “presidente” e “vossa excelência”. Só faltou pedir escusas por não ter ajudado o rapaz a se livrar das investigações das rachadinhas, como o pai dele havia lhe solicitado gentilmente naquela reunião memorável.


A um só tempo paroquial e grotesca, a cerimônia de filiação do herói (e depois vilão) da Lava Jato ao partido de Bolsonaro, cobrindo de mesuras o filho presidenciável do próprio Bolsonaro, aponta para algo maior, de alcance nacional. Mesmo preso, Jair Messias engoliu a terceira via, ou o que a imprensa hegemônica insiste em chamar assim, mais por conveniência – para preservar sua autoimagem ou alimentar ilusões de civilidade – do que lastreada na realidade.


O centro político, aquilo que justificaria esse nome, terceira via, está em grande parte incorporado ao governo Lula, expressando-se, por exemplo, em figuras como Geraldo Alckmin, vice-presidente, e Simone Tebet, que acaba de deixar o Ministério do Planejamento. A ideia de terceira via no Brasil deveria estar vinculada – deveria – ao compromisso inegociável com a democracia, e não a negociações oportunistas em torno da anistia aos que tentaram instaurar um regime autoritário no país. Quando a terceira via vira isso, ela funciona como linha auxiliar da extrema direita golpista, legitimando-a como opção de poder em nome de um ideal de vida comum: o antipetismo.


Historicamente, a terceira via está ligada aos esforços feitos a partir dos anos 1980, e sobretudo na década de 1990, para criar uma alternativa de poder socialmente responsável, ou minimamente comprometida com a coesão social, capaz de fazer frente ao liberalismo desenfreado da era Reagan e Thatcher, autora da célebre máxima “Não existe sociedade, existem homens e mulheres individualmente, e existem famílias”.


A terceira via seria uma espécie de aggiornamento da social-democracia num momento em que o velho Estado de bem-estar social, o welfare state, já havia se esgotado. Em termos substantivos, ela tem pouco a ver com o negocismo ecumênico de um Gilberto Kassab e rigorosamente nada a ver com um tipo como Tarcísio de Freitas, que tem Bolsonaro como grande referência e se deixa fotografar vestindo o boné do Maga.


A imprensa local, no entanto, alimentou a esparrela de que o governador de São Paulo seria o cara da terceira via. Menos hipócrita, o mercado sempre viu em Tarcísio a possibilidade de um bolsonarismo sem Bolsonaro. Mas, sem Bolsonaro, é Tarcísio quem não sabe andar. Ele fez muitas concessões ao padrinho, submetendo-se a cenas constrangedoras de vassalagem. Não foi suficiente. O chefe preferiu buscar sua opção dentro do clã. Com Eduardo inviabilizado, e sendo Carlos desde sempre inviável, sobrou para o primogênito. Tem a mansão em Brasília, tem a loja-lavanderia de chocolates, tem o escândalo das rachadinhas bem documentado, tem o vínculo umbilical com a banda podre da polícia e a milícia do Rio de Janeiro. Mas, como diria Bolsonaro, e daí?


No início de dezembro, quando, na cadeia, o pai deu ao filho Zero Um a missão de representá-lo na chapa presidencial, a reação predominante foi de desconfiança e contrariedade, algo entre “não parece sério, tomara que não seja sério”. Houve quem dissesse, com razão, que Bolsonaro preferia perder com Flávio a ganhar com Tarcísio. Quatro meses depois, o cenário da sucessão é outro. Começou a mudar ainda em dezembro, com a revelação do contrato suspeitíssimo do Master com o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do algoz de Bolsonaro.


Com o Supremo Tribunal Federal capturado na teia de Vorcaro – com Xandão, com Toffoli, com tudo –, o enredo falacioso de que Bolsonaro seria prisioneiro de um sistema corrompido ganhou tração e furou a bolha. A vitimização do golpista conquistou novos adeptos. Flávio subiu nas pesquisas e até segunda ordem se transformou no adversário de Lula.


Era previsível que os bolsonaristas aproveitassem o presente histórico para associar o escândalo ao atual governo, apontando o presidente petista como grande beneficiário da orgia xando-vorcaro-tantrayayônica. Não importa quão fantasiosa seja essa versão. É  assim que eles operam, é disso que Carluxo gosta. Da imprensa profissional, espera-se outra coisa.


Falou-se muito nas últimas semanas a respeito do PowerPoint que foi ao ar no programa Estúdio i, da GloboNews, na tarde de 20 de março. Sob o título de um quadro que anunciava as “Conexões de Daniel Vorcaro”, destacavam-se, praticamente coladas à foto do ex-banqueiro, as imagens de Lula (com a faixa presidencial), de Gabriel Galípolo (atual presidente do Banco Central) e a estrela do PT (com a inscrição “PT da Bahia” embaixo, em letras miúdas), além de Guido Mantega (ministro da Fazenda dos governos Lula e Dilma entre 2006 e 2014).


Havia, além deles, mais oito personagens, entre os quais Alexandre de Moraes, todos conectados a Vorcaro, a diferentes distâncias, por barbantinhos. A estética do material, bastante rudimentar, destoava do padrão das artes da emissora, mais parecendo um trabalho escolar, ou uma daquelas lives bolsonaristas. Mas essa é uma observação lateral e subjetiva. Escandalosa, objetivamente falando, foi a inclusão de Lula e de Galípolo no quadro. Nada, nenhum critério jornalístico, justificaria tais escolhas. Fica até difícil tratar como um simples “erro” algo tão grosseiro e carregado de intenções.


A jornalista Andréia Sadi, apresentadora do programa, se retratou no ar, três dias depois, lendo uma nota institucional durante pouco mais de 1 minuto. O material exibido, disse ela, estava “errado e incompleto”. E voltou a repetir no final: “Diante de um material incompleto e em desacordo com os nossos princípios editoriais, a gente pede desculpas.”


É claro que a retratação foi positiva. A ressalvar, talvez, que a ênfase do mea culpa tenha recaído sobre o caráter “incompleto”, e não sobre o que estava “errado” no PowerPoint. E o mais grave: o espectador sai da nota tendo que adivinhar qual era, afinal, o erro, ou os erros, uma vez que a emissora não menciona nomes nem publica o quadro “certo e completo”, ou pelo menos um quadro certo, ainda que necessariamente incompleto.


Bem menos comentado foi o editorial que o jornal Folha de S.Paulo publicou em sua primeira página, na edição de 15 de março, um domingo. Editoriais na capa são parte da tradição do jornal. Mas foi-se o tempo em que tinham capacidade de fazer diferença no debate público. Essa perda de influência tem a ver com o declínio progressivo e acentuado das edições impressas, não há dúvida. A ideia de capa ficou obsoleta, e a própria edição dominical perdeu parte de seu prestígio. Não será o texto em questão que vai reverter essa tendência.


PF e imprensa implodem pacto de silêncio – este é o título do editorial. O texto começa assim: Foi abalado o pacto de silêncio tacitamente firmado nos últimos anos entre altas autoridades e a elite política do país em torno das evidências de alastramento da corrupção. As “altas autoridades”, ficamos sabendo na sequência, são os ministros do STF – o texto cita quatro deles nominalmente. Já a “elite política” se resume a… quem adivinha? Sim, a Lula e ao governo do PT. Ao longo de oito parágrafos, e depois de 404 palavras, o editorial da Folha se refere a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, duas vezes, em dois parágrafos distintos. Mas, apesar de tratar de Daniel Vorcaro, não menciona nenhuma vez os partidos da direita – nenhum deles –, nem inclui na sua “elite política” nomes como Ibaneis Rocha, Ciro Nogueira, Davi Alcolumbre, Cláudio Castro, Antonio Rueda ou Nikolas Ferreira.


Numa primeira leitura, o que salta aos olhos é essa omissão, ou o pacto de silêncio entre o jornal e o Centrão. É algo escandaloso, mas o problema mais grave não está aí. Ele reside na mensagem subliminar que coloca Lula e o STF no mesmo saco na largada da corrida eleitoral. Associar o escândalo do Master à esquerda é fichinha. Associar o STF desmoralizado a Lula é coisa de profissionais. O editorial da Folha realiza, na capa do jornal de domingo, a operação que os golpistas tentam fazer o tempo todo no submundo das redes sociais. E assim, com esse duplo twist carpado, em nome do combate à corrupção, a Folha, que já se definiu como um jornal a serviço da democracia, dá as boas-vindas a Flávio Bolsonaro.



https://piaui.uol.com.br/materia/uma-chance-para-flavio-bolsonaro/um

Flavio e seu vice

 *Opções a vice de Flávio Bolsonaro se afunilam em Tereza e Zema; MG pode ser peça-chave para decisão*


Tarifaço de Trump patrocinado por Eduardo pesa na decisão pela senadora, enquanto costura em Minas Gerais deixa situação de ex-governador complexa


Guilherme Caetano


'Nunca fui convidada, se for, vamos pensar’, diz senadora sobre ser vice de Flávio Bolsonaro


BRASÍLIA – Cresce dentro da pré-campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a certeza de que o posto de vice na chapa sairá da disputa entre dois nomes: a senadora Tereza Cristina (PP-MS) e o ex-governador mineiro Romeu Zema (Novo). Cada uma das opções tem prós e contras, e Minas Gerais deve ser o fiel da balança nesse cálculo.


Aqueles que defendem Tereza alegam que sua escolha pode ser um aceno importante ao agronegócio depois de o setor ser atingido pelo tarifaço do governo americano defendido pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).



Eduardo largou seu mandato como deputado federal em março de 2025 para se autoexilar nos Estados Unidos, onde passou a trabalhar por sanções contra o Brasil e o Supremo Tribunal Federal (STF), principalmente o ministro Alexandre de Moraes. O magistrado é o relator da ação que culminou na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.


Mencionando uma suposta perseguição contra Bolsonaro, o governo de Donald Trump impôs sanções contra ministros do STF e um carga de 50% de tarifas sobre produtos brasileiros. O prejuízo recaiu sobre setores exportadores, em especial da agricultura e da pecuária.


O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, tem dito que torce para que Flávio escolha uma mulher como vice na chapa, de olho em conquistar o eleitorado feminino, em geral refratário à figura de Bolsonaro.


“Nossa senhora, esse assunto não sai da minha frente. Nunca fui convidada. Se eu for, lá na frente nós vamos pensar. Nunca chegou esse convite”, afirmou Tereza Cristina em entrevista ao Estadão.


Já outros avaliam que ter Tereza como vice seria um desperdício, uma vez que os ruralistas votarão em Flávio de qualquer jeito. Também argumentam que a figura do senador é mais palatável às mulheres, diferentemente do pai.


Em relação a Zema, joga a seu favor o peso eleitoral que tem Minas no cenário nacional. Em 2022, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) derrotou Bolsonaro no Estado por 50,20% contra 49,80% – quase um empate numérico, depois de o então presidente virar o resultado em 66 cidades mineiras entre o primeiro e o segundo turnos –, enquanto Zema foi reeleito naquele pleito com 56,18% dos votos.


Aliados de Flávio dizem acreditar que, se Zema tivesse conseguido transferir para Bolsonaro ao menos um ponto porcentual desses votos, o então presidente teria sido reeleito. Isso porque Lula saiu nacionalmente vitorioso por uma margem estreita, de 50,90% contra 49,10% do oponente.


O lado negativo, no entanto, está na composição nas chapas no Estado. Se o Partido Novo se coligar com o PL, Zema como vice teria dificuldades para apoiar o seu candidato a sucessor, o ex-vice e atual governador Matheus Simões, cujo partido, o PSD, lançou Ronaldo Caiado à Presidência da República.


Para não perder terreno e se manter competitivo no Estado, o PL filiou na semana passada o presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe, visando a disputa pelo governo mineiro.


Roscoe é cotado tanto para disputar o governo de Minas Gerais quanto para compor como vice na chapa. Os nomes do atual vice-governador, Matheus Simões (PSD), e do senador Cleitinho (Republicanos) são os mais citados para a composição dessa alternativa.


Sendo vice de Simões (aliança PSD-PL), o movimento de Roscoe possibilitaria a Zema também integrar a chapa de Flávio (numa eventual aliança PL-Novo) e manter o apoio ao seu aliado sem enfrentar desgaste. Por isso, a campanha bolsonarista vê Minas como essencial para se fortalecer na corrida ao Palácio do Planalto.


“Vocês viram hoje o movimento, um senador da República (Carlos Viana) vai para o PSD. O governador do Estado (Simões) é do PSD. O PT hoje tem uma dificuldade de montar o seu palanque lá em Minas, que é um Estado-pêndulo, onde há uma necessidade de fazermos uma escolha certa para termos a vitória não só em Minas, mas em nível nacional, porque Minas reflete o Brasil”, afirmou o senador e secretário-geral do PL, Rogério Marinho (RN), durante a filiação de Roscoe.


Na semana passada, a esquerda também moveu suas peças para tentar se posicionar bem na eleição mineira. O ex-presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, trocou o PSD pelo PSB do vice-presidente Geraldo Alckmin, de olho em disputar o governo de Minas com apoio do presidente Lula.


Em seu discurso, Pacheco afirmou que o evento se tratava de um ato de filiação, e não de lançamento de pré-candidatura, e que as negociações para a montagem da chapa em Minas Gerais começavam a partir daquele momento.


Pacheco já vem se colocando como um contraponto ao bolsonarismo. Ele afirmou naquela ocasião que, à frente do Senado, enfrentou a pandemia de covid-19 (“em que morreram 700 mil brasileiros diante de uma reticência em relação à vacina”) e uma tentativa de golpe (“quando alguns grupos minoritários pretendiam uma ruptura democrática e institucional”), numa crítica velada a Bolsonaro.




https://www.estadao.com.br/politica/opcoes-a-vice-de-flavio-bolsonaro-afunilam-em-tereza-e-zema-e-mg-pode-ser-peca-chave-para-decisao/

Galipolo no Ibre FGV

 ANÁLISE: Galípolo responde aos ataques da ala política do governo Lula ao BC


Alex Ribeiro De São Paulo


 


Num discurso técnico e recheado de parábolas históricas, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, deu hoje uma resposta às alas políticas do governo que dizem que a política de juros altos poderá prejudicar a reeleição do presidente Lula.


Em evento na Fundacão Getúlio Vargas (FGV), no Rio, Galípolo disse que a alta de preços da economia - que corroeu o poder de compra da população nos últimos anos - pode estar por trás da sensação do eleitorado de desconforto com a economia, mesmo com os melhores indicadores no mercado de trabalho da série histórica.


"Os banqueiros centrais não apanham mais só por derrubar a popularidade ou custar a reeleição de um presidente ao subir demais os juros", afirmou. "[Também apanham] porque cortaram demais, provocando impactos na inflação."


Galípolo falou a uma plateia de acadêmicos e economistas no tradicional Seminário Anual de Política Monetária, promovido pelo Centro de Estudos Monetários da FGV/Ibre - e em nenhum momento fez qualquer referência direta às críticas de integrantes do governo Lula à política de juros altos patrocinada pelo Banco Central. A edição deste ano é uma homenagem ao economista José Júlio Senna, principal mobilizador do centro de estudos.


Mas, num discurso que discorreu sobre a conjuntura internacional e o trabalho de banqueiros centrais estrangeiros nas últimas décadas, o subtexto de Galípolo foi a situação do Brasil. O BC brasileiro.:dotou uma postura de cautela no corte de juros depois do início da guerra contra o Irã.


O presidente do BC disse que a dissonância entre os números oficiais da economia - que são positivos - e o sentimento de frustração da população está relacionada ao aumento dos níveis de preços dos últimos anos, depois dos choques causados pela pandemia, pela guerra na Ucrânia, pelo tarifaço de Trump e, mais recentemente, pela nova guerra.


"Nós, banqueiros centrais, somos focados na meta de inflação, enquanto a população está focada no nível de preços", disse Galípolo.


A inflação é medida como o aumento de preços em um determinado período - por exemplo, um ano. Hipoteticamente, um banco central considera que há estabilidade de preços se, num ano, a inflação sobe 10% e, no seguinte, cai para a meta de 3% e se mantém ancorada nesse percentual. Já a população se sente mais pobre depois desses dois anos de inflação, já que os preços subiram mais de 13%.


O desconforto cresce quando a renda não acompanha a alta de preços. Segundo Galípolo, cabe aos bancos centrais evitar esse descompasso, assegurando o ajuste de preços relativos e prevenindo uma espiral de preços e salários que tornaria a inflação mais persistente. A fala é uma resposta indireta a alas políticas do governo que vêm defendendo, junto ao presidente Lula, que a política de juros altos do BC tem prejudicado a popularidade presidencial. O presidente do BC fez um pequeno histórico da política monetária nos Estados Unidos nas últimas décadas para mostrar como, hoje, um banqueiro central pode atrapalhar os planos de reeleição de um presidente também por ter sido descuidado com a inflação.


Décadas atrás, lembrou, alguns banqueiros centrais foram acusados de serem lenientes com a inflação, ajudando politicamente alguns presidentes - esse seria o caso de Arthur Burns, nos anos 1970, que teria cedido às pressões de Richard Nixon para praticar uma política monetária muito relaxada.


Outros teriam sido duros demais, seguiu Galípolo, custando a reeleição de presidentes - caso de George Bush pai, que credita seu fracasso em 1992 a juros muito apertados administrados por Alan Greenspan.


Esse padrão mudou. A sequência de choques ocorridos desde a pandemia fez com que a população passasse a ter maior intolerância com a inflação. Isso teria custado a reeleição de Joe Biden na sua disputa contra Donald Trump, em 2024.


Galípolo lembrou que, no Brasil, alguns especialistas acham que a política monetária leniente com a inflação poderia ter custado a reeleição de Jair Bolsonaro em 2022.


O problema, disse, não teria sido a alta de 11,75 pontos percentuais na taxa Selic nos 18 meses que antecederam a eleição - e sim o fato de o BC ter cortado os juros a 2% ao ano no período imediatamente anterior, levando a um surto inflacionário que corroeu a renda da população. "Essa não é mais a sociedade dos anos 80", disse Galípolo. "As pesquisas mostram que essa é uma sociedade que não tolera mais a inflação." O presidente do BC disse muito pouco no evento sobre como vai reagir ao novo choque causado pela guerra. Mas pontuou que, depois do que aconteceu nos últimos anos, todos os banqueiros centrais estão muito mais reticentes a tomar o novo choque de preços como um evento temporário que não precise de combate específico da política monetária. Ao longo do discurso, Galípolo também mandou um recado aos setores do governo que estudam limitar os juros dos cartões de crédito — iniciativa que parte de um diagnóstico de setores da equipe econômica de que a população está descontente com o governo porque um bom pedaço de sua renda está escoando no pagamento de juros altos nessa linha de crédito. Um dos riscos de colocar um teto nos juros é os bancos fazerem uma restrição de crédito. Galípolo citou esse efeito colateral de uma forma muito indireta. Ele lembrou que o ex-presidente americano Richard Nixon fez uma cruzada contra o endividamento e os cartões de crédito nos Estados Unidos — pedindo que a população destruísse seus cartões e enviasse os pedaços à Casa Branca. O resultado foi agravar os efeitos do aperto monetário então levado a cabo por Paul Volcker — e o Produto Interno Bruto (PIB) americano sofreu uma queda anualizada de 8% no terceiro trimestre de 1980. No fim, Nixon acabou perdendo as eleições daquele ano para Ronald Reagan.

BDM Matinal Riscala

 *Bom Dia Mercado* Segunda Feira,27 de Abril de 2.026. *Impasse no Oriente Médio pressiona supersemana* A superquarta reúne Fed e Copom, enq...