De Sergio Garchagen.
Relato interessante e valioso.
Também fui exchange student e fez muito sentido.
"Anos 70. Eu era contra a ditadura militar. Simpatizava com as esquerdas. Em suma, seguia, sem saber, a máxima do estadista francês George Clemenceau; "Aquele que aos 20 anos não é socialista não tem coração, mas aquele que continua socialista aos 40 anos, não tem cérebro".
Creio ter perdido a ilusão quando fui para os Estados Unidos com a então namorada, Regina, onde nos casamos.
Para sobreviver trabalhei como faxineiro noturno na fábrica de tratores John Deere, em Waterloo/Cedar Falls, no estado de Iowa.
Na primeira semana de trabalho fui cercado por três ou quatro outros trabalhadores que me dirigiram perguntas básicas:
- Você é refugiado político da ditadura brasileira?
Respondi que não. Estava no país para aprender o idioma.
- Você sabe que tira o trabalho de um americano?
Sim. Sabia, mas seria por pouco tempo, pois não pretendia ficar nos EUA mais quer um ano.
- ok. Se fosse um refugiado político iríamos trata-lo mal como um covarde.
Eram típicos red necks locais, simplórios, que após as perguntas me convidaram para sentar à mesa com eles. Sinal de que fora aceito. Até então me sentava sozinho no refeitório, na hora do lanche.
Também costumava me sentar ao lado de uma companheira negra, simpática, de riso fácil, enorme de gorda que queria me apresentar aos filhos. Acho que ela me via como um ET e por isso queria me mostrar à família. Brasil? Que planeta é este? Ria muito quando eu dizia que não iria ao bairro dela sozinho. Era perigoso para um branquelo.
Só ousava ir ao bairro negro com o Fred, mineiro moreno que se passava por mexicano. Íamos, nos fins de semana, aos bares onde se apresentava grupos de jazz. Era de bom tom pagar uma rodada de cerveja, nas mesas coletivas.
Mas foi na Universidade de Cedar Falls que comecei a me livrar das ideias socialistas. Sei lá como, meio na cara de pau, arranjei uma bolsa para o curso de inglês para estrangeiros. Aulas no curso de Literatura Americana, onde sofria para acompanhar as aulas. Fui convidado pela professora duas vezes para ler um trecho de uma obra. Na segunda leitura um jovem americano pediu a palavra e disse:
- Na sua primeira leitura não entendi uma única palavra. Hoje entendi muitas palavras. Seu inglês melhorou muito. Parabéns.
Morri de vergonha ao me lembrar que anos antes, no Liceu "Muniz Freire", a classe inteira riu da pronúncia do português de um menino americano, do intercâmbio cultural do American Fields.
Fiquei chocado também com duas palestras na universidade: a primeira da Ku Klux Klan e a réplica, na semana seguinte, dos Panteras Negras. Auditório repleto de estudantes negros e brancos, todos em silêncio absoluto. Ao final dos discursos de ódio das duas correntes opostas, nenhuma vaia, nenhum aplauso.
Nesta época fizera um bom amigo na universidade: o professor cubano Nodarse, a quem procurei para entender a razão das duas palestras de ódio. Para minha surpresa, ele disse que estava surpres, decepcionado mesmo, era com a minha pergunta.
- Sérgio, uma universidade forma os futuros dirigentes de um país. Eles devem conhecer todos os fatos políticos, bons ou ruins, com que terão de lidar no futuro. Por isso estas palestras.
E concluiu: estudante que vaiar ou tentar proibir estas manifestações podem ser expulsos. Fazem parte da grade curricular.
Sempre me lembro desta aula do professor Nodarse quando leio que estudantes brasileiros proíbem, com vaias e quebra-quebra, palestras de convidados que eles não gostam. Sergio. Moro, à época da Lava-jato não conseguiu falar na PUC. Acho que foi no Rio de Janeiro.
Não é à toa que não temos um única universidade no ranking das 100 melhores do mundo.
Mas, apesar da bronca que levei, o que me deixou muito envergonhado, o professor Nodarse me convidou para trabalhar com ele, legalmente, com direito a green card, no Departamento de Espanhol da universidade. Os seus alunos ficavam fascinados com a semelhança da língua espanhola com o nosso. Português. Muitos conversavam comigo em espanhol e entendiam a resposta em português.
Nodarse era um ex-comunista ligado aos irmãos Castro. Disse-me que marcharam juntos desde Sierra Maestra até Havana. Foi preso por um desentendimento com Raul Castro e colocado em um barco, por Fidel, com outros cubanos, muitos doentes, para Miami.
De dia prestava depoimentos à CIA; à noite sua casa era apedrejada por cubanos fugidos do regime. Por isso seguiu para Iowa, bem longe de Miami. Um dia desabafou comigo:
- Hoje lamento os anos perdidos como comunista."