quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Uma derrota cantada

 Eu continuo esperando um diagnóstico "corajoso", honesto, de um cientista político sobre a realidade do país. Muitos, pela necessidade do "pertencer", de não serem cancelados, continuam neste muxoco q presenciamos no pós primeiro turno. 


São vários fatores a explicarem a derrota do PT. O q derrubou a campanha do Lula não foi apenas a campanha do Flávio Bolsonaro, mas também um "sentimento anti PT", legítimo, "encroado" entre os corações e mentes da sociedade brasileira em todos os seus estratos. 


O crescimento da religião evangélica também ajuda a explicar isso, na sua batalha "ética e moral". É entre aspas mesmo, pq eu não gosto deste movimento neopentecostal (para mim, é tudo charlatão, vendedor de fé, exploradores), mas é uma realidade. 


É importante termos em mente, além dos vários erros de campanha, q o lulo-pestismo está desgastado e envelhecido. E possui uma mancha indelével, q é o seu histórico pesado de corrupção (Mensalão, Lava Jato, aposentados do INSS, Master, etc) e isso não é pouca coisa. Não deve ser naturalizado ou relativizado. São recursos desviados q poderiam financiar escolas e hospitais. Vão para o bolso dos "companheiros". 


E tbem me causa asco o "populismo vagabundo" praticado, de esmola para os mais fragilizados. 


Programas de governo ou projetos de poder pessoal? Infelizmente, o segundo. E 


as gastanças em viagens internacionais reforçam isso, né Janja tatibitati...?? (muito chatinha, por sinal).

Merval Pereira



RECOMENDO MUITO, AMIGOS QUERIDOS.




Orgulho e preconceito

Dirigentes do PT têm a pretensão de ser os donos da verdade, os que sabem guiar o povo para sua redenção.

Por Merval Pereira

06/10/2026 04h30




Sempre se soube que o Brasil é um país conservador, mesmo que seja governado pela quinta vez por um presidente de esquerda (três vezes Lula e duas vezes Dilma). A supremacia surpreendente de Flávio Bolsonaro no primeiro turno da eleição presidencial, no domingo, não quer dizer, porém, que a maioria dos cidadãos seja de extrema direita. Assim como as vitórias de Lula não comprovam que a maioria daqueles momentos era de esquerda, agora também a extrema direita não define a maioria dos que votaram em Flávio.




Lula só foi eleito presidente, nas três vezes anteriores, porque voltou-se para o centro. Do “Lulinha, Paz e Amor” ao apelo a um governo de união nacional para proteger a democracia, adaptou sua agenda pública ao centro, dando lugar até à direita em certos momentos. A insinuação agora de que pode nomear o vice Geraldo Alckmin para o Ministério da Fazenda num eventual quarto mandato vai nessa direção.




Talvez seja tarde demais, pois um dos seus erros fundamentais foi vender um governo de união nacional e entregar um governo petista como os demais que montou, com exceção do primeiro, que, sob a égide do ex-ministro Antonio Palocci, foi inteligente para manter-se ao centro, continuando a política econômica do seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Assim como o economista Joaquim Levy foi engolido pela máquina do PT quando nomeado ministro da Fazenda da então presidente Dilma Rousseff, também Alckmin terá o mesmo destino se Lula conseguir dar a volta por cima e vencer a eleição no segundo turno.




Talvez a razão mais profunda para o desgaste do governo do PT seja exatamente esta, a pretensão de seus dirigentes de ser os donos da verdade, os que sabem guiar o povo para sua redenção. O cansaço com Lula vem desse sentimento de subalternidade com que os não petistas são tratados por seus governos. Ou são manipulados pelas benesses sociais que o governo distribui, ou são relegados a segundo plano.




Há um sentimento de desprezo pelos não convertidos, que transmite uma sensação de não pertencimento a essa parte da sociedade. Lula tem sido incapaz de governar para todos, de ampliar sua base de apoio, trata com superioridade condescendente os que não o seguem. Nem ele nem o PT tentam entender os que os criticam, considerando-os inimigos, nem sequer adversários. A arrogância esteve presente até as últimas semanas da campanha, enquanto Lula considerava uma afronta à sua história a previsão de que poderia perder para Flávio.




O desprezo pelos que consideram inferiores contrasta com o fervor com que trata os excluídos. Se tivesse a mesma empatia com os que discordam de suas políticas, talvez pudesse encontrar o diálogo que o alçaria à altura dos estadistas. Não falo dos que o consideram comunista ou dos extremistas que conseguiram manipular a direita e os centristas. Exemplar dessa arrogância petista é a frase de Lula:




— Se vocês tivessem de escolher entre mim e um gênio, é uma coisa. Mas não é isso que está na mesa.




Claro que Flávio não é um gênio, longe disso, mas também Lula não é imbatível. O que falta a ele e aos seus é tentar entender por que votaram no outro, e não nele. Lembro-me de quando Lula tinha mais de 80% de aprovação, e seus acólitos provocavam:




— Em que planeta vivem os críticos?




Viviam neste planeta que foi se formando à medida que o governo Lula os foi desprezando e se esqueceu de ampliar sua base política para fechar-se numa redoma com os seus.




A união nacional que mobilizou os eleitores independentes na eleição de 2022 foi um estelionato eleitoral. Os que representavam a centro-direita em seu ministério foram relegados a segundo plano, assim como no governo Dilma Rousseff, a ponto de o vice-presidente Michel Temer ter se queixado por escrito de que era tratado como “um vice decorativo”. O mesmo acontecera com Levy, e aconteceu agora com as ministras Marina Silva e Simone Tebet.

Sergio Garchagen

 De Sergio Garchagen.

Relato interessante e valioso.

Também fui exchange student e fez muito sentido.


"Anos 70. Eu era contra a ditadura militar. Simpatizava com as esquerdas. Em suma, seguia, sem saber, a máxima do estadista francês George Clemenceau; "Aquele que aos 20 anos não é socialista não tem coração, mas aquele que continua socialista aos 40 anos, não tem cérebro".

Creio ter perdido a ilusão quando fui para os Estados Unidos com a então namorada, Regina, onde nos casamos.

Para sobreviver trabalhei como faxineiro noturno na fábrica de tratores John Deere, em Waterloo/Cedar Falls, no estado de Iowa.

Na primeira semana de trabalho fui cercado por três ou quatro outros trabalhadores que me dirigiram perguntas básicas: 

- Você é refugiado político da ditadura brasileira?

Respondi que não. Estava no país para aprender  o idioma. 

- Você sabe que tira o trabalho de um americano? 

Sim. Sabia, mas seria por pouco tempo, pois não pretendia ficar nos EUA mais quer um ano. 

-  ok. Se fosse um refugiado político iríamos trata-lo mal como um covarde. 

Eram típicos red necks locais, simplórios,  que após as perguntas me convidaram para sentar à mesa com eles. Sinal de que fora aceito. Até então me sentava sozinho no refeitório, na hora do lanche. 

Também costumava me sentar ao lado de uma companheira negra, simpática, de riso fácil,  enorme de gorda que queria me apresentar aos filhos. Acho que ela me via como um ET e por isso queria me mostrar à família. Brasil? Que planeta é este? Ria muito quando eu dizia que não iria ao bairro dela sozinho. Era perigoso para um branquelo. 

Só ousava ir ao bairro negro com o Fred, mineiro moreno que se passava por mexicano. Íamos, nos fins de semana,  aos bares onde se apresentava grupos de jazz.  Era de bom tom pagar uma rodada de cerveja, nas mesas  coletivas. 

Mas foi na Universidade de Cedar Falls que comecei a me livrar das ideias socialistas. Sei lá como, meio na cara de pau, arranjei uma bolsa para o curso de inglês para estrangeiros. Aulas no curso de Literatura Americana, onde sofria para acompanhar as aulas. Fui convidado pela professora duas vezes para ler um trecho de uma obra.   Na segunda leitura um jovem americano pediu a palavra e disse:

- Na sua primeira leitura não entendi uma única palavra. Hoje entendi muitas palavras. Seu inglês melhorou muito. Parabéns. 

Morri de vergonha ao me lembrar que anos antes, no Liceu "Muniz Freire", a classe inteira riu da pronúncia do português de um menino americano, do intercâmbio cultural do American Fields.

Fiquei chocado também com duas palestras na universidade: a primeira da Ku Klux Klan e a réplica, na semana seguinte, dos Panteras Negras. Auditório repleto de estudantes negros e brancos, todos em silêncio absoluto. Ao final dos discursos de ódio das duas correntes opostas, nenhuma vaia, nenhum aplauso.

Nesta época fizera um bom amigo na universidade: o professor cubano Nodarse, a quem procurei para entender a razão das duas palestras de ódio. Para minha surpresa, ele disse que estava surpres, decepcionado mesmo, era com a minha pergunta. 

- Sérgio, uma universidade forma os futuros dirigentes de um país. Eles devem conhecer todos os fatos políticos, bons ou ruins, com que terão de lidar no futuro. Por isso estas palestras.

E concluiu: estudante que vaiar ou tentar proibir estas manifestações podem ser expulsos. Fazem parte da grade curricular.

Sempre me lembro desta aula do professor Nodarse quando leio que estudantes brasileiros proíbem, com vaias e quebra-quebra,  palestras de convidados que eles não gostam. Sergio. Moro, à época da Lava-jato não conseguiu falar na PUC. Acho que foi no Rio de Janeiro.

Não é à toa que não temos um única universidade no ranking das 100 melhores do mundo. 

Mas, apesar da bronca que levei, o  que me deixou muito envergonhado, o professor Nodarse me convidou para trabalhar com ele, legalmente, com direito a green card, no Departamento de Espanhol da universidade. Os seus alunos ficavam fascinados com a semelhança da língua espanhola com o nosso. Português. Muitos conversavam comigo em espanhol e entendiam a resposta em português. 

Nodarse era um ex-comunista ligado aos irmãos Castro. Disse-me que marcharam juntos desde Sierra Maestra até Havana. Foi preso por um desentendimento com Raul Castro e colocado em um barco, por Fidel, com outros cubanos, muitos doentes, para Miami. 

De dia prestava depoimentos à CIA; à noite sua casa era  apedrejada por cubanos fugidos do regime.  Por isso seguiu para Iowa, bem longe de Miami. Um dia desabafou comigo:

-  Hoje lamento os anos perdidos  como comunista."

Uma derrota cantada

 Eu continuo esperando um diagnóstico "corajoso", honesto, de um cientista político sobre a realidade do país. Muitos, pela necess...