Sou Economista com dois mestrados, cursos de especialização e em Doutoramento. Meu objetivo é analisar a economia, no Brasil e no Mundo, tentar opinar sobre os principais debates da atualidade e manter sempre, na minha opinião essencial, a independência. Não pretendo me esconder em nenhum grupo teórico específico. Meu objetivo é discorrer sobre varios temas, buscando sempre ser realista.
quarta-feira, 7 de outubro de 2026
Daniella Marques
Edilson Salgueiro para a Oeste:
Aos 13 anos, ainda longe da Faria Lima e mais longe ainda de Brasília, Daniella Marques tinha o hábito de pôr os planos no papel. A menina nascida em Barra Mansa, município localizado no sul do Rio de Janeiro, não economizava nas metas. “Quero ter US$ 1 milhão”, escrevia frequentemente no diário. Conseguiu. A ambição vinha de uma família de classe média. O pai construiu carreira no Banco do Brasil, onde começou como escriturário. A mãe era professora da rede estadual.
Daniella nasceu em 16 de outubro de 1979. Formou-se em Administração pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, concluiu pós-graduação em Finanças no Ibmec e entrou no mercado financeiro. Antes dos 30 anos, já havia feito fortuna. Passou oito anos na Mercatto Asset, uma das principais gestoras de recursos do país, da qual se tornou sócia e chefe do setor de renda variável. Em 2013, a Mercatto se uniu a outras duas empresas do setor: a BR Investimentos, fundada por Paulo Guedes, e a Trapezus Asset Management. Essa operação deu origem à Bozano Investimentos. Daniella tornou-se sócia do futuro ministro da Economia e passou a responder pelas áreas de risco, compliance e operações.
A relação profissional entre os dois se estendeu até 2018. Na época, Daniella estava no topo da carreira. Tinha rendimentos anuais na casa dos milhões de reais, carro blindado e vida confortável no Rio. Foi quando tudo mudou. Em julho daquele ano, Guedes levou Daniella ao lançamento da candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência pelo PSL, no Centro de Convenções SulAmérica, na capital fluminense. De acordo com o economista, a então sócia se impressionou com o ambiente, as músicas, as placas, as faixas e o entusiasmo dos cidadãos. Ao fim do evento, Daniella pediu para integrar o projeto. “Quero ir para Brasília te ajudar a transformar o Brasil”, disse.
Separada e com um filho de 4 anos, Daniella deixou o Rio e se mudou sozinha para a capital federal. Trocou os rendimentos milionários do mercado financeiro por cerca de R$ 25 mil mensais no serviço público. Depois da vitória de Bolsonaro, Guedes montou uma equipe de 21 dos chamados “supersecretários”. Daniella, nomeada para chefiar a Assessoria Especial de Assuntos Estratégicos do Ministério da Economia, era a única mulher do grupo. Em Brasília, passou a ser chamada de “superego” de Guedes.
Atuação sem holofotes
Entre antigos colegas de governo, Daniella é lembrada pela capacidade de ler o ambiente político. Essa habilidade se tornou especialmente útil para Guedes, que chegara a Brasília com uma agenda extensa e pouca experiência na política. Daniella passou a ajudá-lo na interlocução com parlamentares, em que uma frase mal colocada podia comprometer a aprovação de propostas importantes. Agia dessa forma sem buscar holofotes. Não gostava de aparecer.
Ela tinha acesso direto a Guedes e despachava com Bolsonaro mesmo quando o ministro não estava presente. Esse protagonismo cresceu sobretudo quando a relação entre Guedes e Rodrigo Maia, então presidente da Câmara, atravessava sucessivos atritos. Daniella servia de ponte. Entre outros projetos de relevância, participou das articulações no Congresso para a aprovação da reforma da Previdência, em 2019, e da PEC dos Precatórios, em 2021.
Mas a atuação de Daniella nem sempre se restringiu aos bastidores. Em abril de 2019, Guedes foi à Comissão de Constituição e Justiça da Câmara para debater a proposta de reforma da Previdência apresentada pelo governo. Na sessão, o deputado federal Zeca Dirceu (PT-PR) afirmou que o ministro era “tigrão” com aposentados e professores e “tchutchuca” com privilegiados e banqueiros. Guedes reagiu. A sessão virou tumulto. Daniella saiu em defesa de Guedes e discutiu com a deputada Maria do Rosário (PT-RS). A parlamentar acusou a assessora do ministro de tê-la agredido e pediu a intervenção da Polícia Legislativa. Daniella acabou conduzida pelos seguranças, mas nenhuma ocorrência foi registrada.
Em fevereiro de 2022, Daniella ganhou mais espaço no Ministério da Economia. Deixou a função de assessora de Guedes para comandar a Secretaria Especial de Produtividade e Competitividade, uma das principais áreas da pasta. Ali, passou a cuidar de políticas voltadas à produtividade e ao ambiente de negócios. Mas durou pouco tempo. Apenas cinco meses depois, Daniella enfrentaria um desafio ainda maior.
Uma mulher na Caixa
Pedro Guimarães deixou a presidência da Caixa Econômica Federal em junho de 2022, depois de denúncias de assédio sexual e moral. O governo precisava escolher um substituto para comandar um dos maiores bancos do país em meio à crise. Escolheu Daniella, a primeira mulher a ocupar o cargo mais alto da instituição. Ela já começou anunciando mudanças. Disse que as denúncias seriam investigadas “com independência, com rigor, com seriedade” e que, se comprovadas, haveria punições. Além disso, criou o Diálogo Seguro Caixa, canal voltado ao acolhimento das funcionárias, à apresentação de denúncias e ao recebimento de sugestões. Nos primeiros 30 dias, as funcionárias passaram a ter um canal direto com a nova presidente. “Sou mulher, entendo o que é ser mulher no ambiente de trabalho”, disse às colaboradoras.
Controvérsias também marcaram a trajetória de Daniella à frente da Caixa. Na campanha eleitoral de 2022, o banco começou a conceder empréstimos a beneficiários do Auxílio Brasil, programa de transferência de renda que havia substituído o Bolsa Família no governo Bolsonaro. As parcelas eram descontadas diretamente do benefício. Na época, a iniciativa foi questionada pelo Tribunal de Contas da União, que pediu investigação sobre os empréstimos.
Esse assunto ressurgiu em agosto deste ano, durante uma entrevista de Daniella ao jornal Folha de S.Paulo. Na ocasião, a ex-presidente da Caixa reprovou o aumento de gastos e a expansão de crédito promovidos pelo governo Lula em ano eleitoral. Uma das entrevistadoras lembrou que Bolsonaro também havia ampliado gastos e crédito em 2022 e citou os cerca de R$ 5 bilhões em consignados do Auxílio Brasil liberados pela Caixa entre os dois turnos daquela eleição. A jornalista ainda formulava a pergunta quando Daniella a interrompeu. “Que foram arquivados, né?”, respondeu a entrevistada, referindo-se aos questionamentos do TCU. “Vamos ser corretos na pergunta.” Antes de devolver a palavra à jornalista, arrematou: “Obrigada por ser factual. Se fizer pergunta, detalha”.
De volta ao setor privado
O governo Bolsonaro terminou em dezembro de 2022. Daniella deixou a Caixa em janeiro do ano seguinte e retornou ao setor privado. Ainda em 2023, passou a integrar o grupo de serviços financeiros Legend Capital, inicialmente como integrante do conselho. Mais tarde, chegaria à presidência da empresa.
A parceria profissional com Guedes seguiu na nova casa. O ex-ministro também havia ingressado na Legend em 2023 e assumido a presidência do conselho de administração. Daniella, contudo, voltava à iniciativa privada com uma trajetória própria: havia presidido a Caixa e trabalhado no primeiro escalão do Ministério da Economia.
Nos bastidores da Faria Lima, a executiva ganhou um apelido que resume a reputação de firmeza construída nesse percurso: “Dama de Ferro”. A alcunha remete a Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica que se tornou mundialmente conhecida pelo mesmo epíteto. Daniella também é chamada de “Paulo Guedes de Saias”, referência à parceria entre os dois e à afinidade na defesa de uma agenda econômica liberal.
Esse currículo abriu caminho para a entrada de Daniella na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Guedes havia sido procurado, mas não demonstrou interesse em retornar a Brasília e incentivou o senador a buscar integrantes da antiga equipe do Ministério da Economia. Daniella aceitou. Ela compõe o núcleo duro da campanha do Zero Um. Lá, participa da formulação do programa econômico. Daniella olha para as contas do país como quem examina um balanço: quanto o Estado deve, quanto gasta e que recursos tem à disposição para reorganizar as finanças. Nesse cálculo entram cerca de 760 mil imóveis da União, avaliados em mais de R$ 1,5 trilhão. Como solução, Daniella propõe obter recursos com parte desses ativos e destiná-los à redução da dívida pública, que ultrapassa R$ 9 trilhões.
O mesmo pente-fino alcançaria as despesas. Segundo a chefe da campanha econômica de Flávio, cerca de 45 estatais custam em torno de R$ 30 bilhões por ano aos cofres públicos, enquanto a administração federal reúne 22,5 mil cargos comissionados. “Privatização ou não é consequência”, observa, ao explicar que as estatais precisam ser reavaliadas periodicamente. “A lógica não é necessariamente privatizar tudo.”
A conta que Daniella pretende fechar é de um corte de R$ 190 bilhões em despesas, o equivalente a cerca de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Para chegar lá, defende reduzir ministérios, combater supersalários e mudar a regra fiscal. Propõe ainda medidas para aumentar a produtividade, reduzir a burocracia, ampliar a digitalização dos serviços públicos e melhorar o ambiente de negócios.
É assim que Daniella liga as contas públicas à vida das famílias. Ela explica que, quando o governo gasta muito mais do que arrecada e aumenta a dívida, os efeitos inevitavelmente chegam ao bolso dos brasileiros. Juros altos encarecem o financiamento da casa, do carro e as compras parceladas. A inflação faz o dinheiro render menos no supermercado. “Quem não cuida das contas não cuida das pessoas”, costuma dizer em entrevistas.
O legado continua
A vida também mudou fora dos escritórios. Daniella se casou novamente e tornou-se mãe pela segunda vez, aos 45 anos. Chama Arthur, o filho mais novo, de “milagre”. Católica, costuma usar escapulários e fala abertamente sobre a importância da religião. “A fé é a base de tudo”, ressalta.
Nem o velho hábito de pôr os objetivos no papel desapareceu. Daniella garante que continua escrevendo o que pretende alcançar, como fazia ainda menina, aos 13 anos. Uma das metas daquela época era ter US$ 1 milhão. Teve êxito.
Agora, mais de três décadas depois, Daniella dá outro sentido à ambição. Quer retribuir o que conquistou na carreira e associa a volta à vida pública ao desejo de deixar um legado para os dois filhos. Mesmo com a rotina intensa da campanha, tenta reservar ao menos uma hora do dia para Arthur e Pedro Henrique, o primogênito.
Ao falar sobre o país que gostaria de deixar para os brasileiros, Daniella recorre à própria experiência como mãe. Afirma que cria os filhos para que estudem, cresçam e, no futuro, possam “voar” sozinhos. É a mesma lógica que tenta levar para a política: o Estado deve amparar quem precisa, mas também oferecer condições para que as pessoas conquistem autonomia.
Em 2018, Daniella disse a Guedes que queria ir a Brasília para ajudá-lo. Oito anos depois, pode retornar à capital federal para carregar o legado do ex-ministro.
Uma derrota cantada
Eu continuo esperando um diagnóstico "corajoso", honesto, de um cientista político sobre a realidade do país. Muitos, pela necessidade do "pertencer", de não serem cancelados, continuam neste muxoco q presenciamos no pós primeiro turno.
São vários fatores a explicarem a derrota do PT. O q derrubou a campanha do Lula não foi apenas a campanha do Flávio Bolsonaro, mas também um "sentimento anti PT", legítimo, "encroado" entre os corações e mentes da sociedade brasileira em todos os seus estratos.
O crescimento da religião evangélica também ajuda a explicar isso, na sua batalha "ética e moral". É entre aspas mesmo, pq eu não gosto deste movimento neopentecostal (para mim, é tudo charlatão, vendedor de fé, exploradores), mas é uma realidade.
É importante termos em mente, além dos vários erros de campanha, q o lulo-pestismo está desgastado e envelhecido. E possui uma mancha indelével, q é o seu histórico pesado de corrupção (Mensalão, Lava Jato, aposentados do INSS, Master, etc) e isso não é pouca coisa. Não deve ser naturalizado ou relativizado. São recursos desviados q poderiam financiar escolas e hospitais. Vão para o bolso dos "companheiros".
E tbem me causa asco o "populismo vagabundo" praticado, de esmola para os mais fragilizados.
Programas de governo ou projetos de poder pessoal? Infelizmente, o segundo. E
as gastanças em viagens internacionais reforçam isso, né Janja tatibitati...?? (muito chatinha, por sinal).
Merval Pereira
RECOMENDO MUITO, AMIGOS QUERIDOS.
Orgulho e preconceito
Dirigentes do PT têm a pretensão de ser os donos da verdade, os que sabem guiar o povo para sua redenção.
Por Merval Pereira
06/10/2026 04h30
Sempre se soube que o Brasil é um país conservador, mesmo que seja governado pela quinta vez por um presidente de esquerda (três vezes Lula e duas vezes Dilma). A supremacia surpreendente de Flávio Bolsonaro no primeiro turno da eleição presidencial, no domingo, não quer dizer, porém, que a maioria dos cidadãos seja de extrema direita. Assim como as vitórias de Lula não comprovam que a maioria daqueles momentos era de esquerda, agora também a extrema direita não define a maioria dos que votaram em Flávio.
Lula só foi eleito presidente, nas três vezes anteriores, porque voltou-se para o centro. Do “Lulinha, Paz e Amor” ao apelo a um governo de união nacional para proteger a democracia, adaptou sua agenda pública ao centro, dando lugar até à direita em certos momentos. A insinuação agora de que pode nomear o vice Geraldo Alckmin para o Ministério da Fazenda num eventual quarto mandato vai nessa direção.
Talvez seja tarde demais, pois um dos seus erros fundamentais foi vender um governo de união nacional e entregar um governo petista como os demais que montou, com exceção do primeiro, que, sob a égide do ex-ministro Antonio Palocci, foi inteligente para manter-se ao centro, continuando a política econômica do seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Assim como o economista Joaquim Levy foi engolido pela máquina do PT quando nomeado ministro da Fazenda da então presidente Dilma Rousseff, também Alckmin terá o mesmo destino se Lula conseguir dar a volta por cima e vencer a eleição no segundo turno.
Talvez a razão mais profunda para o desgaste do governo do PT seja exatamente esta, a pretensão de seus dirigentes de ser os donos da verdade, os que sabem guiar o povo para sua redenção. O cansaço com Lula vem desse sentimento de subalternidade com que os não petistas são tratados por seus governos. Ou são manipulados pelas benesses sociais que o governo distribui, ou são relegados a segundo plano.
Há um sentimento de desprezo pelos não convertidos, que transmite uma sensação de não pertencimento a essa parte da sociedade. Lula tem sido incapaz de governar para todos, de ampliar sua base de apoio, trata com superioridade condescendente os que não o seguem. Nem ele nem o PT tentam entender os que os criticam, considerando-os inimigos, nem sequer adversários. A arrogância esteve presente até as últimas semanas da campanha, enquanto Lula considerava uma afronta à sua história a previsão de que poderia perder para Flávio.
O desprezo pelos que consideram inferiores contrasta com o fervor com que trata os excluídos. Se tivesse a mesma empatia com os que discordam de suas políticas, talvez pudesse encontrar o diálogo que o alçaria à altura dos estadistas. Não falo dos que o consideram comunista ou dos extremistas que conseguiram manipular a direita e os centristas. Exemplar dessa arrogância petista é a frase de Lula:
— Se vocês tivessem de escolher entre mim e um gênio, é uma coisa. Mas não é isso que está na mesa.
Claro que Flávio não é um gênio, longe disso, mas também Lula não é imbatível. O que falta a ele e aos seus é tentar entender por que votaram no outro, e não nele. Lembro-me de quando Lula tinha mais de 80% de aprovação, e seus acólitos provocavam:
— Em que planeta vivem os críticos?
Viviam neste planeta que foi se formando à medida que o governo Lula os foi desprezando e se esqueceu de ampliar sua base política para fechar-se numa redoma com os seus.
A união nacional que mobilizou os eleitores independentes na eleição de 2022 foi um estelionato eleitoral. Os que representavam a centro-direita em seu ministério foram relegados a segundo plano, assim como no governo Dilma Rousseff, a ponto de o vice-presidente Michel Temer ter se queixado por escrito de que era tratado como “um vice decorativo”. O mesmo acontecera com Levy, e aconteceu agora com as ministras Marina Silva e Simone Tebet.
Sergio Garschagen
De Sergio Garschagen.
Relato interessante e valioso.
Também fui exchange student e fez muito sentido.
"Anos 70. Eu era contra a ditadura militar. Simpatizava com as esquerdas. Em suma, seguia, sem saber, a máxima do estadista francês George Clemenceau; "Aquele que aos 20 anos não é socialista não tem coração, mas aquele que continua socialista aos 40 anos, não tem cérebro".
Creio ter perdido a ilusão quando fui para os Estados Unidos com a então namorada, Regina, onde nos casamos.
Para sobreviver trabalhei como faxineiro noturno na fábrica de tratores John Deere, em Waterloo/Cedar Falls, no estado de Iowa.
Na primeira semana de trabalho fui cercado por três ou quatro outros trabalhadores que me dirigiram perguntas básicas:
- Você é refugiado político da ditadura brasileira?
Respondi que não. Estava no país para aprender o idioma.
- Você sabe que tira o trabalho de um americano?
Sim. Sabia, mas seria por pouco tempo, pois não pretendia ficar nos EUA mais quer um ano.
- ok. Se fosse um refugiado político iríamos trata-lo mal como um covarde.
Eram típicos red necks locais, simplórios, que após as perguntas me convidaram para sentar à mesa com eles. Sinal de que fora aceito. Até então me sentava sozinho no refeitório, na hora do lanche.
Também costumava me sentar ao lado de uma companheira negra, simpática, de riso fácil, enorme de gorda que queria me apresentar aos filhos. Acho que ela me via como um ET e por isso queria me mostrar à família. Brasil? Que planeta é este? Ria muito quando eu dizia que não iria ao bairro dela sozinho. Era perigoso para um branquelo.
Só ousava ir ao bairro negro com o Fred, mineiro moreno que se passava por mexicano. Íamos, nos fins de semana, aos bares onde se apresentava grupos de jazz. Era de bom tom pagar uma rodada de cerveja, nas mesas coletivas.
Mas foi na Universidade de Cedar Falls que comecei a me livrar das ideias socialistas. Sei lá como, meio na cara de pau, arranjei uma bolsa para o curso de inglês para estrangeiros. Aulas no curso de Literatura Americana, onde sofria para acompanhar as aulas. Fui convidado pela professora duas vezes para ler um trecho de uma obra. Na segunda leitura um jovem americano pediu a palavra e disse:
- Na sua primeira leitura não entendi uma única palavra. Hoje entendi muitas palavras. Seu inglês melhorou muito. Parabéns.
Morri de vergonha ao me lembrar que anos antes, no Liceu "Muniz Freire", a classe inteira riu da pronúncia do português de um menino americano, do intercâmbio cultural do American Fields.
Fiquei chocado também com duas palestras na universidade: a primeira da Ku Klux Klan e a réplica, na semana seguinte, dos Panteras Negras. Auditório repleto de estudantes negros e brancos, todos em silêncio absoluto. Ao final dos discursos de ódio das duas correntes opostas, nenhuma vaia, nenhum aplauso.
Nesta época fizera um bom amigo na universidade: o professor cubano Nodarse, a quem procurei para entender a razão das duas palestras de ódio. Para minha surpresa, ele disse que estava surpres, decepcionado mesmo, era com a minha pergunta.
- Sérgio, uma universidade forma os futuros dirigentes de um país. Eles devem conhecer todos os fatos políticos, bons ou ruins, com que terão de lidar no futuro. Por isso estas palestras.
E concluiu: estudante que vaiar ou tentar proibir estas manifestações podem ser expulsos. Fazem parte da grade curricular.
Sempre me lembro desta aula do professor Nodarse quando leio que estudantes brasileiros proíbem, com vaias e quebra-quebra, palestras de convidados que eles não gostam. Sergio. Moro, à época da Lava-jato não conseguiu falar na PUC. Acho que foi no Rio de Janeiro.
Não é à toa que não temos um única universidade no ranking das 100 melhores do mundo.
Mas, apesar da bronca que levei, o que me deixou muito envergonhado, o professor Nodarse me convidou para trabalhar com ele, legalmente, com direito a green card, no Departamento de Espanhol da universidade. Os seus alunos ficavam fascinados com a semelhança da língua espanhola com o nosso. Português. Muitos conversavam comigo em espanhol e entendiam a resposta em português.
Nodarse era um ex-comunista ligado aos irmãos Castro. Disse-me que marcharam juntos desde Sierra Maestra até Havana. Foi preso por um desentendimento com Raul Castro e colocado em um barco, por Fidel, com outros cubanos, muitos doentes, para Miami.
De dia prestava depoimentos à CIA; à noite sua casa era apedrejada por cubanos fugidos do regime. Por isso seguiu para Iowa, bem longe de Miami. Um dia desabafou comigo:
- Hoje lamento os anos perdidos como comunista."
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