segunda-feira, 27 de abril de 2026

Gilmar e a derrota auto-infligida

 Gilmar e a derrota autoinfligida

Marcus André Melo

Folha de São Paulo, 26/4/26


“Entrevistas recentes do ministro Gilmar Mendes têm causado perplexidade pelo tom defensivo e pelos ataques desferidos. Em vários momentos, não fica claro se suas falas constituem narrativas retóricas em reação à onda de críticas ao Supremo, avaliações efetivas dos fatos ou simplesmente atos falhos.


Dentre estes últimos, sua afirmação que oSupremo é parlamentarista deixa entrever uma visão da corte como governo ou estado dentro do estado, no qual ele próprio seria uma espécie de primeiro ministro que já teria iniciado démarches com chefes do poder executivo e das casas do legislativo para um "pacto republicano".


A imagem sinaliza também a pouca importância do Presidente Fachin, que seria mero chefe de estado, uma rainha da Inglaterra. E mais: o ministro afirmou que os pesos das vozes dentro da instituição são diferentes, que a representatividade delas é distinta: algumas delas podem paralisar iniciativas. Em bom português, alguns ministros valem mais que outros.


A outra face da moeda nessa toada é que para o ministro o ambiente externo do tribunal parece não importar ou importar pouco, o que contrasta marcadamente com os achados da literatura, como analisei aqui. Em "Judicial Reputation: A Comparative Theory", Garoupa e Ginsburg argumentam que a reputação é crítica para a autoridade e eficácia das cortes, especialmente porque os juízes carecem, "do poder da espada e do dinheiro". Por isso seria o "poder menos perigoso" como diria Hamilton. E deveria, segundo um analista famoso, cultivar "virtudes passivas", e.g. autocontenção.


Gilmar faz tudo ao contrário. Convoca a imprensa. E borra a defesa de indivíduos e instituição. Mas por quê? Quem busca mobilizar e para qual batalha? Quem mobiliza tipicamente está perdendo, mas não sabemos para que ou contra quem. Inimigos internos? Os novos senadores eleitos em novembro?


O ministro atacou a imprensa e comparou descabidamente a reputação desta última com a do próprio tribunal. Minimizar aqui a magnitude do escândalo é uma autossabotagem. A reputação não se mede apenas em pesquisas de opinião. Embora seja fato que a maioria da população —a estimativa é de algo entre 60% (Atlas Intel) e 53% (Datafolha) da população— não tem confiança na instituição. Como Garoupa e Ginsburg mostram, a reputação na audiência interna da corte —a comunidade jurídica— é crucial. E nela o impacto tem sido colossal. Idem, na imprensa.


Na imprensa nacional, já se acumulam dezenas de editoriais críticos dos principais veículos; na internacional, a cobertura aponta para uma crise de grande envergadura. A The Economist traz manchetes como "Impropriedade Suprema" e "Vasto escândalo na corte; o El País afirma que o caso "abala a confiança no Supremo" e "projeta uma sombra sobre o juiz mais poderoso do país"; e o Financial Times alerta para "riscos à integridade institucional".


A escala do impacto reputacional é consistente com a natureza dos malfeitos: trata-se de escândalo absolutamente inédito em nossa história. E mais: envolve não apenas um membro do tribunal, mas dois. A mobilização pelo ministro é uma espécie de derrota autoinfligida. Quanto mais intervém, maior o dano reputacional.”

Bankinter Portugal Matinal

 Análise Bankinter Portugal 


NY +0,8% US tech +2% US Semis +4,3% UEM -0,2% Espanha -1,1% VIX 18,7% Bund 3,01%. T-Note 4,32%. Spread 2A-10A USA=+52pb B10A: ESP 3,46% PT 3,41% ITA 3,78% FRA 3,65% Euribor 12m 2,735% (fut.12m 2,926%) USD 1,172 JPY 186,9/€ 159,5/$. Ouro 4.714$. Brent 107,4$. WTI 96,1$. Bitcoin -0,2% (77.749$). Ether -0,1% (2.323$). 


SESSÃO. Tom positivo. Excelente sessão americana na sexta-feira (não tanto a europeia), sobretudo para os semicondutores (+4,3%), que acumulam nada menos do que 18 subidas consecutivas. Continuam a ser a nossa recomendação nº1. Devido a essa subida tão forte na sexta-feira, a sessão de hoje deverá ser de estagnação ou mesmo de ligeira correção como reação natural. Mas muito limitada (cerca de -0,2%) e apenas para algum descanso, porque nesta fase o mercado já assumiu que irá conviver por tempo indefinido com o conflito no Irão e com um petróleo errático, mas não incomportável (insistimos que deverá recuar progressivamente para os 85$ em dezembro). Os resultados empresariais dão suporte, o ciclo económico mantém-se expansionista, ainda que com menor impulso, a inflação sobe mas é suportável e deverá desacelerar gradualmente, e é pouco provável que os bancos centrais subam taxas (apesar do suposto consenso nesse sentido).


GEOESTRATÉGIA. Tom tendencialmente positivo. O Irão pede um acordo para reabrir Ormuz, desde que a questão nuclear seja excluída. Este gesto evidencia que necessita de vender petróleo para garantir a sobrevivência do regime (tal como temos vindo a defender do ponto de vista geoestratégico), pelo que agora é claro que são os EUA que detêm a chave de qualquer acordo… e é pouco provável que cedam facilmente, uma vez que já não estão pressionados pelo consumo de armamento, dado que, na prática, a guerra terminou (não há combates nem ataques). Podemos dizer que os objetivos militares dos EUA (essencialmente neutralizar o Irão) já foram alcançados.


A tentativa de atentado contra Trump poderá favorecer a sua popularidade, enquanto Kevin Warsh poderá obter rapidamente aprovação do Senado para substituir Powell na Fed, uma vez que já não existe processo legal contra este último após a retirada das acusações.


COMPANHIAS. Tom positivo. Com cerca de 30% das empresas americanas já a reportar, o BPA médio cresce +26,8% vs +14,4% esperado, pelo que o balanço é francamente positivo. Esta semana o fluxo de resultados atinge o pico, com 5 das “7 Magníficas”: na quarta-feira Alphabet, Microsoft, Meta e Amazon, e na quinta-feira Apple.


MACRO. Tom neutro, mas com impacto positivo dos indicadores recentemente divulgados. Esta semana reúnem-se os bancos centrais do Japão (terça-feira), Canadá e EUA/Fed (quarta-feira) e UEM/BCE e Banco de Inglaterra (quinta-feira)… todos deverão manter taxas, o que, de certa forma, reforça a nossa estimativa de que não haverá subidas adicionais, mesmo com alguma pressão inflacionista… e que a Fed poderá até cortar uma vez este ano. A nossa estimativa vai contra o consenso, mas temos uma convicção relativamente elevada.


CONCLUSÃO. Mantemos a perceção de consolidação em tendência ascendente, o que significa que o cenário negativo seria lateralização e o positivo a continuidade do movimento de recuperação. Wall Street destaca-se positivamente face à Europa e deverá continuar a fazê-lo, mas a nossa estratégia de investimento já está mais exposta aos EUA do que à UEM, pelo que não surpreende. A sessão americana de hoje poderá ser mais fraca (cerca de -0,2%), mas apenas como reação natural após as fortes subidas de sexta-feira. Obrigações e divisas permanecem relativamente estáveis, praticamente laterais nos últimos dias. O tom dos próximos dias será sobretudo condicionado pelos resultados e guidance de 5 das “7 Magníficas” entre quarta e quinta-feira. Não antecipamos um mercado negativo — pelo contrário — salvo alguma surpresa negativa pouco provável.


FIM

Gilmar e a derrota auto-infligida

 Gilmar e a derrota autoinfligida Marcus André Melo Folha de São Paulo, 26/4/26 “Entrevistas recentes do ministro Gilmar Mendes têm causado ...