sexta-feira, 11 de setembro de 2026

BO em sala de aula

Uma aula de uma turma do 9º ano terminou de uma forma que os alunos provavelmente não esperavam. Depois de ouvir ofensas racistas contra uma colega, o professor decidiu interromper a atividade e registrar um Boletim de Ocorrência ali mesmo, diante da turma.
Segundo o relato, um grupo de estudantes chamava uma adolescente negra de “Zé Gotinha da Petrobras”. Enquanto os alunos riam e continuavam com as provocações, a menina chorava.

O professor parou a aula, conectou o notebook ao datashow e acessou o sistema eletrônico da Polícia Civil para registrar o B.O. relatando o episódio. Em seguida, projetou informações sobre racismo e as possíveis consequências jurídicas desse tipo de conduta.

A reação dos alunos mudou imediatamente. O que antes era motivo de risadas deu lugar à preocupação. Depois do episódio, algumas mães procuraram a escola e acusaram o professor de constranger os adolescentes e praticar “terrorismo psicológico”.

Por orientação jurídica recebida pelo sindicato da categoria, os nomes da escola e da rede de ensino não foram divulgados.

O episódio também levanta uma discussão maior sobre o chamado preconceito recreativo, quando ofensas contra características como raça, peso ou orientação sexual são tratadas como simples apelidos, memes ou “brincadeiras”.

Dependendo da apuração, da conduta praticada e da idade dos envolvidos, o caso pode gerar consequências previstas na legislação, incluindo medidas socioeducativas e possíveis responsabilidades civis pela reparação dos danos causados à vítima.

Ser adolescente não significa estar livre de consequências pelos próprios atos.

E apoiar um filho quando ele erra não significa transformar em culpado o adulto que estabeleceu um limite. Também faz parte da educação ensinar que determinadas atitudes podem ferir outras pessoas e que é preciso assumir a responsabilidade por elas.

Naquela sala, havia adolescentes que precisavam entender que racismo não deixa de ser racismo porque foi apresentado como uma piada.

E havia uma menina chorando, esperando que algum adulto dissesse que aquilo precisava parar.

Cora Ronai


Ontem escrevi no Globo comentando como é dura a vida de quem escreve coluna semanal num país como o Brasil, onde escândalos e realidade mudam a cada 24 horas. Nem se eu tivesse coluna diária daria mais conta; as prioridades se embaralham, os sentimentos são atropelados.
No dia 26 de agosto, uma geleira se desprendeu no Himalaia e levou vilarejos inteiros. Os mortos já passam de mil e trezentos; os desaparecidos, de cinco mil. Vi vídeos de gente morta, bichos mortos, pedaços de gente morta, gente viva tirando os brincos de gente morta — porque a gente viva precisa continuar viva.
Viajei de carro do Nepal para o Tibete em 2011. Me apaixonei por aquelas montanhas, pelas pontes precárias sobre os despenhadeiros, pelas mulheres carregando o mundo enquanto os homens fumavam, acocorados e contemplativos.
Se eu morasse na Suíça, teria escrito sobre o vale do Trishuli.
Mas moro no Brasil. Na noite anterior, um estudante da UFRJ foi arrancado de uma sala e linchado por uma camiseta de mau gosto que uma turma decidiu ser apologia ao nazismo. Violência inaceitável em qualquer lugar, mas imperdoável numa universidade, onde deveria haver diálogo.
Há vídeos.
E há alunos e professores defendendo os agressores.
Escrevi sobre a UFRJ. E imaginei que agora, enfim, escreveria sobre o apocalipse no teto do mundo.
E aí, pronto: STF.
Um espetáculo de autodestruição, um conto moral sobre homens sem moral, sobre uma instituição que fracassou e um país que perdeu definitivamente a vergonha na cara.
Lamento pelo digno Ministro Edson Fachin, que preside aquela casa desmoralizada; lamento pela Ministra Cármen Lúcia, que só nos dá motivos de orgulho; e lamento sobretudo pelo Brasil, que há tempos se afoga como os vilarejos do Nepal, numa enxurrada de lama e dejetos.

Pablo Ortellando

(...) Há duas semanas escrevi aqui na coluna sobre a agressão contra Diego Araújo, o estudante de História da UFRJ arrancado da sala de aula por uma turba sob a acusação de fazer apologia ao nazismo. Ele foi agredido em três momentos por mais de dez pessoas até ser expulso do prédio onde estudava. Depois de linchado com socos e pontapés, foi linchado moralmente numa campanha de difamação sórdida e covarde. Reportagens posteriores e o avanço das investigações permitem ver agora como as instituições agiram não apenas para não punir os agressores, mas também para imputar culpa à vítima, duplicando a agressão a Diego Araújo.

Quando o escândalo eclodiu, nenhum elemento sustentava as alegações dos agressores de que haviam expulsado da universidade um provocador nazista. Naquele momento, tudo o que havia eram dois vídeos. No primeiro, Diego exibia um broche antinazista e explicava que a caveira da SS na sua camiseta tinha função crítica, como faziam artistas “como David Bowie”. No segundo vídeo, mais de dez pessoas espancavam um Diego tombado na escada. Apesar de tudo indicar que a turba não foi capaz de entender a simbologia antinazista e que tinha resolvido fazer justiça com as próprias mãos, uma onda de solidariedade institucional com os agressores se disseminou na universidade.

No mesmo dia das agressões, uma postagem em colaboração entre a UNE e o DCE da UFRJ reiterava a tese do estudante com símbolo nazista “retirado” da universidade. UFRJ e Instituto de Filosofia e Ciências Sociais soltaram notas ambíguas criticando o nazismo e a violência. Os diversos sindicatos e movimentos sindicais — Sintufrj, Asduerj e CSP-Conlutas — se solidarizaram com os agressores e condenaram o nazismo, o racismo e o fascismo. Embora o linchamento estivesse documentado e a apologia ao nazismo fosse alegada e contestada, as instituições da UFRJ não tiveram coragem de enfrentar os movimentos sociais e condenar com a devida força um linchamento em suas dependências.

O que veio depois foi pior. Um manifesto de “docentes em defesa da UFRJ”, com mais de 200 assinaturas, inclusive de um ex-reitor, posicionou-se “em solidariedade aos estudantes agredidos por um neonazista” e repudiou “a caracterização da reação de autodefesa dos estudantes como um ato de linchamento”. Um grupo de pesquisa em direitos humanos ponderou que “a violência do oprimido não é a violência do opressor” e que “uma reação coletiva de estudantes diante de símbolos que celebram o extermínio” não pode “ser lida na mesma chave que o gesto que a provoca”. 

(Agradeço ao projeto Disputas por Expressão nas Universidades, da UFF, pelo levantamento dessas manifestações.)
(...) O mais inquietante, no caso de Diego Araújo, não é que uma multidão tenha se convencido de que fazia justiça, mas que tantas instituições tenham se empenhado em convencê-la de que tinha razão.

BDM Matinal Riscala

Sexta-feira, 11 de Setembro de 2026.

*CPI DECIDE FED COM BRENT A US$ 107 E JUROS A 5%*
Por Rosa Riscala e Mariana Ciscato*

*O IPCA deve mostrar deflação, enquanto investidores esperam uma nova pesquisa Datafolha após o fechamento*

… O petróleo acima dos US$ 100 volta a elevar a temperatura dos mercados nesta sexta-feira, com o Brent já em US$ 107 e os juros americanos de 10 anos perto dos 5%. Nesse ambiente, o CPI de agosto será o grande teste para as apostas de alta dos juros pelo Fed na próxima semana e para a pressão sobre os ativos globais. No Brasil, porém, o trade eleitoral vem conseguindo manter os mercados descolados da aversão ao risco no exterior. O IPCA deve mostrar deflação, enquanto investidores esperam uma nova pesquisa Datafolha após o fechamento. A agenda tem ainda relatório da AIE, em meio às crescentes dificuldades para a oferta de petróleo.

GUERRA LONGA – A escalada da guerra no Oriente Médio e o risco crescente para a oferta levaram o petróleo a um novo patamar nesta quinta-feira, com o Brent disparando 6,34%, a US$ 107,63, e o WTI subindo 6,7%, a US$ 102,48, nas máximas em três meses.

… Depois do fechamento, dois navios foram atingidos por projéteis desconhecidos perto da costa de Omã, segundo a UKMTO.

… A tensão aumentou também no Estreito de Ormuz, onde a Guarda Revolucionária afirma ter destruído uma embarcação americana não tripulada e voltou a advertir que qualquer presença considerada hostil será atacada.

… Do outro lado da Península Arábica, os Houthis tomaram a cidade portuária de Mokha, no Iêmen, ampliando o controle nas proximidades de Bab al-Mandeb, rota estratégica para as exportações de energia pelo Mar Vermelho.

… O grupo lançou ainda um novo ataque com mísseis contra o sul da Arábia Saudita, que recebe apoio de inteligência dos Estados Unidos e mais de 100 conselheiros militares americanos na campanha contra os Houthis.

… Enquanto crescem as dúvidas sobre a duração da guerra, as dificuldades nas rotas de exportação já atingem a oferta. A Arábia Saudita informou à Opep que sua produção caiu 1,9 milhão de barris por dia em agosto, para o menor nível desde 1990.




… Repercutiu a informação do Wall Street Journal de que o Irã retomou a produção de mísseis balísticos em instalações subterrâneas e que assessores alertaram Trump de que o conflito pode se estender até o fim do seu mandato, em 2029.




… O cenário contrasta com a previsão feita pelo próprio presidente de que a guerra terminaria depois das eleições legislativas de novembro. À noite, Trump manteve sua previsão, acrescentando que não se arrepende de ter iniciado o confronto em fevereiro.




… A pressão sobre o Irã também aumentou no campo econômico.




… O Tesouro americano ampliou as sanções contra redes ligadas a Teerã, ao Hezbollah e ao Kataib Hezbollah, e Scott Bessent antecipou que os Estados Unidos sancionarão um “grande banco” na próxima segunda-feira.




PERTO DOS 5% – O CPI de agosto, às 9h30, será o teste decisivo para as apostas de alta dos juros pelo Fed na próxima quarta-feira, depois que a disparada do petróleo voltou a aumentar a preocupação com a inflação, apesar da leitura sem grandes surpresas do PPI.




… O índice de preços ao produtor veio praticamente em linha com as expectativas, nesta quinta-feira, mas a alta de tarifas aéreas e serviços de saúde preocupou. O PPI subiu 0,4% no mês e 5,4% em 12 meses. O núcleo avançou 0,2% e 4,6%, respectivamente.




… Para a inflação ao consumidor, o CPI, a mediana do Projeções Broadcast prevê alta de 0,4% no mês, acima dos 0,2% de julho, e manutenção da taxa anual em 3,4%. O núcleo deve subir 0,2%, com desaceleração de 2,5% para 2,4% em 12 meses.




… O ING acredita que o avanço dos preços da energia em agosto, somado à nova arrancada do petróleo, aumenta o risco de repasse para o núcleo da inflação por meio dos fretes e tarifas aéreas e deve ser suficiente para levar o Fed a uma alta “preventiva” dos juros.




… O BofA também espera um CPI firme o bastante para justificar o aperto monetário, enquanto investidores reforçaram as apostas em alta do juro em setembro. A ferramenta do CME Group já indica quase 70% de chance de mais 25 pontos-base, ante 60% na véspera.




… O aumento da preocupação com a inflação levou o rendimento da T-note de 10 anos para perto dos 5%, ampliando a pressão sobre os ativos de risco. O ING avalia que a taxa caminha para romper esse patamar e que, nesse caso, uma discussão sobre 6% pode entrar no radar.




… A Capital Economics observa que parte do mercado vê os 5% como uma linha divisória a partir da qual os ativos financeiros podem sofrer uma correção mais forte, embora a própria consultoria não considere esse patamar um “número mágico”.




… Depois do BCE, que elevou os juros ontem em meio às pressões inflacionárias agravadas pelo petróleo, os investidores globais esperam agora por uma possível alta do BoJ na semana que vem, logo depois da decisão do Fed, no primeiro minuto de sexta-feira.




DÍVIDA EXPLOSIVA – A ex-secretária do Tesouro Nacional Ana Paula Vescovi voltou a alertar para a trajetória fiscal brasileira e afirmou que o aumento do juro neutro global torna o problema ainda mais difícil – em debate promovido pela Meridiana, em São Paulo.




… Vescovi disse que o País convive com uma “dívida explosiva” e um Estado tomado por despesas obrigatórias que “crescem sozinhas”, sem espaço para atuar de forma estratégica. Para ela, o ajuste exige acordos para que os gastos cresçam pelo menos no ritmo da economia.




… Afirmou ainda que a baixa poupança doméstica, o baixo crescimento e a baixa produtividade ajudam a explicar o juro neutro elevado e o prêmio de risco do Brasil e impedem comparar a nossa dívida com a de economias avançadas, mesmo quando elas têm endividamento maior.




… No mesmo evento, a ex-diretora de Desestatização do BNDES Elena Landau afirmou que o Orçamento e a LDO deixaram de funcionar como instrumentos efetivos de planejamento e definição de prioridades e defendeu que a reforma da Previdência volte ao centro da agenda.




MUNDO À PARTE – No Brasil, o IPCA de agosto (9h) vem com deflação, enquanto os mercados seguem conduzidos pelo trade eleitoral e descolados do forte aumento da aversão ao risco no exterior.




… A mediana do Projeções Broadcast prevê queda de 0,29% do IPCA, após alta de 0,07% em julho, com desaceleração de 4,44% para 4,26% em 12 meses. Todas as estimativas captadas pela pesquisa apontam deflação, entre 0,37% e 0,20%.




… O recuo será puxado principalmente pelo bônus de Itaipu nas tarifas de energia elétrica e deve ser parcialmente devolvido em setembro. A média dos núcleos deve repetir a alta de 0,26%, enquanto os serviços subjacentes seguem pressionados, com avanço estimado de 0,41%.




… A inflação mais baixa pode contribuir na margem para o debate sobre a taxa Selic, mas dificilmente deve tirar o mercado do eixo que vem comandando os ativos brasileiros nas últimas sessões: a eleição presidencial.




… Ontem, nem a disparada do petróleo e a forte alta dos rendimentos dos Treasuries impediram o recuo dos juros intermediários e longos, enquanto o Ibovespa recuperou os 188 mil pontos e dólar voltou para a faixa de R$ 5,10 (leia abaixo).




CRESCEM AS APOSTAS – O mercado descolou ainda pela manhã, com as casas de apostas no exterior mostrando avanço de Flávio Bolsonaro e rumores de que a AtlasIntel traria números favoráveis ao candidato. Não trouxe uma virada, mas confirmou o empate com Lula.




… Divulgada no início da tarde, a pesquisa mostrou Flávio crescendo 3,8 pontos porcentuais e empatado com Lula: 46,4% a 46,2%.




… O mercado vem associando o fortalecimento da oposição à possibilidade de mudança na política fiscal em 2027.




AS CHANCES DE LULA – A Eurasia Group reduziu de 60% para 55% a probabilidade de vitória de Lula, e considera a eleição especialmente difícil de prever porque seus modelos apontam, desta vez, em direções opostas.




… Enquanto a vantagem histórica dos presidentes que disputam a reeleição com aprovação semelhante favorece Lula, preocupações dos eleitores com segurança, corrupção, desordem e pessimismo em relação ao futuro beneficiam a oposição.




… Para a Eurasia, o movimento mais recente favoreceu Flávio, mas o candidato ainda não enfrentou o teste dos ataques da campanha.




… Durante o Agro Summit, promovido pelo Bradesco BBI, Christopher Garman resumiu como “abandono” o atual clima eleitoral no Brasil e disse ver um pessimismo com o futuro que não observava há muito tempo nas pesquisas.




… Segundo ele, esse desalento atinge os dois principais campos políticos, mas hoje favorece mais a oposição.




LULA ENTRA NO JOGO – Pressionado pelo avanço da oposição nas pesquisas e pela crise do STF, Lula entrou ontem diretamente nos temas que vêm pesando sobre sua campanha: as investigações do Banco Master e a crise no Supremo.




… Em entrevista ao SBT News, o presidente afirmou que Alexandre de Moraes e André Mendonça devem ser punidos caso sejam considerados culpados nas investigações do Master e elogiou Edson Fachin pela tentativa de “colocar ordem na casa”.




… O presidente também procurou afastar do governo o desgaste provocado por sua reunião com Daniel Vorcaro em 2024. Disse que avisou ao banqueiro que o Master seria investigado “como qualquer banco” e lembrou que Vorcaro foi preso e a instituição fechada no seu governo.




… Lula criticou ainda os vazamentos seletivos das investigações em período eleitoral e disse que a crise no Supremo não deveria interferir na escolha do próximo presidente. Ele vinha evitando comentar sobre a crise por ter sua imagem mais associada a Moraes.




… O presidente também falou do fiscal – a grande crítica do mercado financeiro. Rebateu as dúvidas sobre as contas públicas, afirmando que em seu governo “não tem essa de ficar discutindo ajuste fiscal” e que faz o ajuste “na prática”.




… Reivindicou seus 12 anos de governo como demonstração de responsabilidade fiscal e atacou a Faria Lima, dizendo que a elite financeira “só chora” ao discutir o aumento da dívida pública. Na sabatina do Jornal Nacional, Lula disse que a dívida não o preocupava.




FACHIN ABRE O MASTER – Ainda ontem à noite, Edson Fachin determinou a André Mendonça o levantamento do sigilo do caso Master e o envio aos demais ministros do STF de todos os procedimentos relacionados à investigação.




… A decisão foi tomada porque o processo das mensagens trocadas entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro deriva do caso Master. Mendonça atendeu à solicitação de Fachin e retirou o sigilo do caso Master.




… O relatório da Polícia Federal será julgado pelo plenário do Supremo na próxima terça-feira, 15, com grande expectativa.




MAIS AGENDA – Além do IPCA (9h) e do CPI nos Estados Unidos (9h30), a Universidade de Michigan divulga às 11h a preliminar de setembro da confiança do consumidor, com previsão de alta de 51,7 para 52,5 pontos, além das expectativas de inflação de um e cinco anos.




… Mais cedo, às 6h, a AIE publica seu relatório mensal sobre o mercado de petróleo, que ganha importância adicional com a escalada dos preços e as dificuldades de oferta provocadas pela guerra no Oriente Médio.




… No Brasil, sem mais indicadores previstos, o mercado vai esperar pelo Datafolha após o fechamento dos mercados.




GALÍPOLO –Retorna de Mumbai, na Índia, onde participou da reunião de ministros das Finanças e Presidentes dos Bancos Centrais do BRICS.




AFTER HOURS – A Oracle subiu 4,13% no pregão estendido em Nova York, depois de superar as expectativas de lucro e receita, impulsionada pelo forte crescimento dos negócios de nuvem.




… A receita de infraestrutura em nuvem mais que dobrou, com alta de 121%, enquanto a companhia informou ter fechado mais de US$ 30 bilhões em novos contratos de nuvem voltados para inteligência artificial no trimestre.




… A Oracle manteve a previsão de receita de pelo menos US$ 90 bilhões no ano fiscal e elevou de US$ 8,05 a US$ 8,10 a projeção de lucro/ação.




FORÇA NA PERUCA – Mesmo com o petróleo explodindo, os mercados domésticos operam em sua bolha particular de otimismo com o trade eleitoral e a “crise da toga no STF”, que pode prejudicar as apostas de reeleição de Lula.




… Com todas as pesquisas apontando para o mesmo lado, de disputa acirrada para o Palácio do Planalto e chances de reeleição da chapa da direita, os ativos domésticos estão claramente descolados do cenário de piora externa.




… A maior prova é o EWZ, principal ETF de ações brasileiras negociado em Nova York, que subiu 1,29%, apesar do pessimismo lá fora. Entre os próprios emergentes, o Brasil se destaca, comprovando de novo que a festa é nossa.




… Mais descontado do que os demais ativos domésticos, o Ibovespa performou melhor ontem do que o câmbio e os juros futuros e, tendo a AtlasIntel como gatilho, deu por liquidada a tímida realização ensaiada um dia antes.




… Descolado da aversão a risco global, o índice à vista saltou 1,42%, aos 188.269 pontos, com volume financeiro de R$ 22,9 bilhões. O melhor giro individual ficou com a Petrobras (R$ 2 bilhões), com JPMorgan liderando as compras.




… Segundo o Broadcast, a petrolífera está apenas R$ 6 bilhões abaixo do recorde histórico em valor de mercado de R$ 680,1 bilhões, registrado em abril. O papel ON ganhou 1,77% ontem, a R$ 54,64, e o PN subiu 1,45%, a R$ 49,12.




… No caso da Petrobras, a escalada do petróleo ajudou a turbinar os ganhos. Mas não dá para dizer que a bolsa tenha subido só por causa da Petrobras, porque das 76 ações do Ibovespa, apenas sete terminaram no vermelho.




… Uma delas foi Vale, que caiu 1,10%, a R$ 78,23, aproveitando para corrigir junto com o minério de ferro (-0,95%).




… Não faltou apetite entre os bancos: Bradesco PN disparou 3,88% (R$ 18,48); BTG unit avançou 2,35% (R$ 60,45); BB ON, +2,80% (R$ 22,80); e Itaú PN, +1,83% (R$ 42,35). A exceção foi Santander unit, que caiu 0,13% (R$ 29,92).




… Setembro nem chegou à metade e o Ibovespa acumula alta superior a 6%, na onda de euforia eleitoral, enquanto o dólar cai 1,5% este mês, blindado da pressão externa, com o Fed em córner para subir o juro por causa da inflação.




NÃO SOLTA A MÃO – Dominado pela esperança de alternância de poder, o dólar furou R$ 5,10 na mínima intraday ontem, negociado a R$ 5,0830, embora tenha desacelerado a queda no fechamento para 0,19%, a R$ 5,1027.




… A exemplo do Ibovespa, que chama a atenção contra os seus pares, também o real conquista terreno e ontem figurou na terceira melhor colocação entre as 33 moedas mais líquidas do mundo. É tudo sobre o trade eleitoral.




… Para ver como o cenário eleitoral está fazendo toda a diferença, também os juros futuros caíram ontem, ignorando o estresse das taxas dos Treasuries, que reproduziram o rali do petróleo, o PPI e o aperto do BCE.




… No fechamento, só o DI para janeiro de 2027 subiu, a 13,595% (de 13,572% no ajuste anterior). Já o Jan/28 caiu a 13,615% (contra 13,629%); Jan/29, 13,810% (de 13,860%); Jan/31, 14,010% (14,091%); e Jan/33, 14,135% (14,204%).




… Na véspera da deflação esperada para o IPCA, a pesquisa de serviços do IBGE reforçou a perspectiva de corte da Selic. O dado veio estável em julho, na margem, abaixo da previsão de 0,2%, antecipando PIB trimestral mais fraco.




SOBE O SARRAFO – Perigosamente, a taxa da Note de 10 anos se aproxima de 5% e a do T-Bond de 30 anos já rompeu 5,30%, no movimento que não é considerado trivial, especialmente quando o Fed parece mais hawkish.




… O normal seria estar observando a pressão concentrada no trecho mais curto da curva dos Treasuries, que é mais sensível às decisões de política monetária. A anomalia, segundo Valor, é sinal de provocação do mercado a Bessent.




… Frustrado pela recompra ontem pelo Tesouro de US$ 5,19 bilhões em títulos, abaixo do teto de US$ 6 bilhões anunciado e já bem inferior aos US$ 10 bilhões especulados, o investidor testa os limites do secretário de Trump.




… O mercado se aproveitou ontem do salto do petróleo, do PPI forte e BCE conservador para botar para quebrar e medir forças com Bessent, que vê seus instrumentos de controle da curva se esgotarem com alguma facilidade.




… O rendimento da Note de dez anos avançou para 4,950% (contra 4,838% no pregão da véspera), o do T-Bond de 30 anos tomou impulso para 5,363% (de 5,288% no dia anterior) e o de dois anos foi para 4,565% (de 4,425%).




… Para piorar, a promessa de Trump de pagar US$ 5 mil para quem votar nos republicanos acendeu um ruído fiscal.




… No dia de PPI, o choque de energia reforçou os temores de inflação e levou o índice DXY do dólar a cruzar a linha dos 99,000 pontos e marcar alta de 0,23%, aos 99,048 pontos. O iene realizou lucro e caiu para 154,32 por dólar.




… A força da moeda americana com a pressão inflacionária enfraqueceu o euro, apesar de o BCE ter elevado o juro em 25 pontos, para 2,50%. Um novo aumento pode ser debatido já em outubro, segundo fontes do Financial Juice.




… O euro caiu 0,23%, para US$ 1,1609, e a libra esterlina perdeu 0,29%, negociada a US$ 1,3509.




… Faltando menos de uma semana para a decisão do Fed, a leitura elevada da inflação do PPI e a disparada do petróleo e dos yields dos Treasuries provocaram o quarto pregão negativo para as bolsas em Wall Street.




… O Dow Jones registrou desvalorização de 0,60%, aos 52.064,10 pontos, o S&P 500 recuou 0,58%, para 7.591,70 pontos, e o Nasdaq fechou em baixa de 0,65%, aos 26.081,72 pontos, com o papel da Nvidia recuando mais de 2%.




CIAS ABERTAS NO AFTER – PETROBRAS firmou acordo com a PPSA para atuar como comercializadora do gás natural da União no pré-sal. Acordo de três anos viabiliza primeiro leilão, previsto para outubro.




ITAÚ emitiu R$ 5 bilhões em letras financeiras subordinadas, com vencimentos em 2036 e 2037. Operação terá impacto estimado de 0,3 ponto porcentual no índice de capital nível 2.




CAIXA e BANCO DO BRASIL enfrentam paralisações de bancários por impasse nas negociações trabalhistas. Greve na Caixa é nacional e por tempo indeterminado; no BB, adesão é parcial.




GERDAU. BofA reduziu participação de 5,04% para 4,12% das ações PN.




AXIA fará emissão de R$ 1,5 bilhão em debêntures, podendo chegar a R$ 2 bilhões. Recursos serão usados para refinanciar dívida.




ÂMBAR ENERGIA investirá R$ 5,5 bilhões na distribuição de energia no Amazonas até 2031, sendo R$ 3,9 bilhões de capital próprio e o restante de recursos federais.

REDE D´OR. Itaú BBA elevou preço-alvo de R$ 50 para R$ 53 e manteve compra, destacando rentabilidade resiliente dos hospitais e perspectivas para a SulAmérica.

BRADSAÚDE. Citi reiterou compra e preço-alvo de R$ 19, com potencial de alta de 22,5% em relação ao fechamento desta quinta-feira, apoiado por crescimento lucrativo e perspectiva de dividend yield de 8%.

HYPERA. Citi reiterou compra e preço-alvo de R$ 28, destacando potencial do Semavy e melhora esperada da geração de caixa.

COPASA pagará R$ 96,9 milhões em JCP, equivalentes a R$ 0,255646 por ação. Papéis ficam “ex” em 22/9.

3TENTOS. S&P rebaixou rating de brAA para brA+, com perspectiva negativa, citando piora da rentabilidade e da liquidez e risco de novo corte.

ALPARGATAS fará emissão de R$ 300 milhões em debêntures, com prazo de seis anos. Recursos serão destinados principalmente ao refinanciamento de dívida.

GPA. Helene Bitton renunciou ao conselho e será substituída por Yann Fourmy. Companhia também elegeu Fabiana Zotini como diretora jurídica.

Bankinter Matinal Portugal

 Análise Bankinter Portugal 

NY -0,6% US tech -1,1% US semis -2,7% UEM -0,7% España -0,2% VIX 17,8% Bund 3,50% T-Note 4,95% Spread 2A-10A USA=+39pb B10A ESP 3,98% PT 3,87% FRA 4,44% ITA 4,38% Euribor 12m 3,14% (fut. 3,65%) USD 1,161 JPY 178,9 Ouro 4.344$ Brent 106$ WTI 101$ Bitcoin 0,0% (77.170$) Ether +0,7% (2.465$)

:: SESSÃO: A chave hoje será o IPC americano de agosto (13:30 h). Em princípio, a taxa geral repetirá em +3,4% enquanto a subjacente se modera até +2,4% (desde +2,5% anterior). Mas com o preço do petróleo em alta (gasolina +3,1% em agosto), o risco de uma leitura superior não é descartável. Após uns dados de emprego sólidos, um IPC pior do que o estimado aumentaria o receio de uma Fed mais dura e impulsionaria em alta as rentabilidades das obrigações num momento em que o T-Nota já roça os 5,0%. E o conflito no M. Oriente continua firme e nada faz prever um relaxamento no curto prazo imediato. Nas últimas horas, a tensão mudou para o Mar Vermelho, onde os huthis, aliados do Irão no Iémen, continuam a prejudicar a produção de petróleo saudita, em mínimos desde 1990. Ontem tomaram a cidade portuária de Mocha, chave para controlar o Estreito de Bab-el-Mandeb, acrescentando pressão ao preço do petróleo bruto (Brent 106 $). Por isso, ontem, o BCE mostrou um tom bastante duro após aumentar novamente taxas de juros em +25 p.b. até 2,50%/2,65%.


Além disso, esta madrugada, Oracle publicou bons resultados (EPS +30% a/a vs. +19% estimado) e avança quase +5% em aftermarket. Esta temporada de resultados demonstrou que os lucros não são o problema do mercado, mas um claro apoio e o principal catalisador para as bolsas.


CONCLUSÃO: O determinante é a inflação americana, que será publicada às portas da reunião da Fed, na próxima quarta-feira. Por isso, esperamos uma sessão de baixa intensidade até ao dado e um fecho condicionado pela sua evolução. Se o IPC não mostrar uma derivação má, poderemos ver uma recuperação nas bolsas após 4 sessões consecutivas de retrocessos em Nova Iorque.

Declaração de Mary del Priori a propósito das ameaças que recebeu

"Quando anunciei aos meus confrades da Academia Paulista de Letras que, junto com o historiador e professor Gian Mello, estava lançando uma coletânea de especialistas intitulada *História das mestiçagens no Brasil*, um deles me felicitou “pela coragem”. Seria cômico se não fosse sério. 

Afinal, trata-se de um livro escrito por historiadores sobre uma evidência de nossa formação social: somos, como indivíduos e como cultura, uma sociedade profundamente mestiça. Desde os primeiros séculos, encontros, conflitos, deslocamentos, casamentos, concubinatos, alianças e violências misturaram populações, costumes, crenças, palavras, comidas e formas de viver. 

Estudar esse processo não significa celebrá-lo nem condená-lo. Significa fazer História.

Mas meu confrade tinha razão. Foi preciso coragem para suportar insultos, palavrões e até ameaças físicas que nos levaram a solicitar à Editora Unesp a presença de segurança no lançamento do livro na Bienal de São Paulo. 

Coragem também tiveram os autores que aderiram à coletânea sabendo que poderiam enfrentar, dentro de seus próprios departamentos, maledicências, boicotes e até convites para se retirar de grupos de pesquisa. A resposta dos leitores foi outra: o livro esgotou-se em menos de três dias. A violência e as tentativas de silenciamento não conseguiram sufocar a curiosidade de milhares de pessoas interessadas em conhecer um tema que pertence à história de todos nós.

Quando anunciado nas redes sociais, porém, o livro foi arrastado pela mesma intolerância que acabamos de assistir no episódio envolvendo um aluno de História de um dos mais tradicionais centros de pesquisa, o IFCS da UFRJ. Uma instituição de onde saíram grandes pesquisadores, entre eles notáveis especialistas em escravidão, como o saudoso Manolo Florentino, que tanto explicou nossa mestiçagem. 

O episódio revela, para além de suas implicações policiais, um problema que deveria preocupar todos nós: o enfraquecimento do próprio ofício do historiador.

A História, que viveu extraordinária expansão entre as décadas de 1980 e 1990, perdeu espaço e prestígio. Teses encontram dificuldades para chegar às livrarias. Traduções de grandes obras estrangeiras, outrora disputadas pelas editoras, rarearam. Arquivos municipais e estaduais sobrevivem com recursos insuficientes. O IHGB, fundado em 1838 e durante quase dois séculos uma das grandes casas da memória brasileira, enfrenta dificuldades. Professores do ensino público e privado relatam o esforço para entusiasmar os alunos por uma disciplina que deveria ajudá-los a compreender o mundo em que vivem.

Enquanto isso, a internet fabrica, da noite para o dia, falsos especialistas e influencers dispostos a transformar o passado em frases de efeito. Filmes e novelas arrancam acontecimentos de seus contextos. Nas redes sociais, anacronismos circulam como verdades históricas e opiniões se apresentam fantasiadas de conhecimento. 

Até o jornalismo, pressionado pela velocidade da informação, nem sempre encontra tempo para buscar as raízes históricas dos acontecimentos que noticiam. E assim mitos, simplificações e falsidades ganham a velocidade de um clique.

Talvez tudo isso me doa especialmente porque sempre fui apaixonada pela História. Deixei a carreira acadêmica para escrever livros de divulgação, convencida de que nosso ofício não termina nos departamentos universitários. Ele começa de novo quando conseguimos despertar num leitor o desejo de conhecer aqueles que vieram antes dele. 

Por isso me pergunto o que pensarão os pais de nossos alunos ao ver estudantes e futuros professores de História admitirem a violência como forma de silenciar aquilo de que discordam. Que História ensinarão amanhã? 

Haverá assuntos proibidos? Temas dos quais será melhor não falar? Documentos que não deverão ser lidos porque suas conclusões desagradam? Deixaremos de estudar como o Brasil se tornou mestiço porque a palavra “mestiçagem” incomoda determinados grupos?

Mais inquietante ainda é o silêncio dos próprios historiadores. Professores em atividade ou aposentados deveriam ser os primeiros a se insurgir quando a violência invade o espaço que deveria pertencer à pesquisa, à crítica, à controvérsia e ao argumento. Pois, a História, como disciplina intelectual e memória coletiva, é justamente uma arma contra a violência. E, no entanto, assistimos à paradoxal transformação da própria História em vítima, no sentido figurado e, agora, no sentido literal.

Precisamos lembrar que onde a violência simplifica o mundo numa luta entre bons e maus, a História restitui nuances. Onde a propaganda fabrica inimigos, ela pergunta quem os fabricou e por quê. Onde o ódio desumaniza, ela devolve nomes, rostos, circunstâncias. Onde uma versão única pretende se impor, ela abre arquivos, confronta documentos, compara testemunhos e multiplica perspectivas. 

A História nos ensina a reconhecer os primeiros sinais da violência coletiva: a desumanização do adversário, a transformação da diferença em ameaça, a polarização sem saída, a crença de que certos fins justificam quaisquer meios. Conhecer esses mecanismos não garante que sejamos capazes de evitá-los. Mas ignorá-los nos torna muito mais vulneráveis a eles.

É justamente aí que o conhecimento histórico oferece algo de que as redes sociais nos privam: distância. 

O passado nos obriga a sair do instante, a desconfiar da reação impulsiva, a perguntar de onde vieram as palavras, os gestos e os ódios que parecem ter nascido naquela sala de aula. Ele nos ensina que nada começa hoje. Mas a História, sozinha, não basta. Para se tornar um verdadeiro anteparo contra a barbárie, precisa caminhar ao lado da educação cívica, da cultura, da liberdade de investigação e, sobretudo, do diálogo. Mal ensinada, falsificada ou submetida a interesses ideológicos, ela própria pode se transformar em arma. Bem praticada, faz exatamente o contrário: ensina a duvidar das certezas fáceis, a conviver com a complexidade e a substituir o punho pelo argumento.

Talvez seja essa a coragem de que meu confrade falava. Não a coragem de escrever sobre mestiçagem, pois historiadores não deveriam precisar de coragem para estudar um fato histórico. A coragem necessária hoje parece ser outra e muito mais elementar: defender o direito de pesquisar, discordar, argumentar e conhecer o passado sem medo. Quando historiadores precisam de proteção para lançar um livro e um estudante precisa de proteção para expressar uma ideia, não são apenas eles que estão ameaçados." 

É a própria História que começa a sangrar.

Mary del Priore

BO em sala de aula

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