quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Sobre o fundo soberano da Noruega

 Pegaram em dinheiro que podia ter desaparecido em uma década — e transformaram-no em 2 biliões de dólares que durarão para sempre.

Noruega, 1969. Pescadores ao largo da costa avistaram algo invulgar: plataformas petrolíferas a surgir no horizonte. O campo de Ekofisk tinha acabado de ser descoberto — uma das maiores jazidas de petróleo offshore do mundo.

O país estava prestes a ficar muito, muito rico.

É aqui que a maioria dos países produtores de petróleo comete o mesmo erro fatal. Gastam tudo. Constroem projectos de vaidade. Criam bolhas económicas. Enriquecem poucos enquanto muitos sofrem. E quando o petróleo acaba, ficam apenas com dívida e instabilidade.

Nigéria. Venezuela. Líbia. Iraque. Todos descobriram enormes riquezas petrolíferas. Todos as desperdiçaram.

A Noruega olhou para esses países e decidiu fazer algo diferente.

Em 1990, o Parlamento norueguês tomou uma decisão que mudaria para sempre a trajectória do país: poupar o dinheiro do petróleo em vez de o gastar.

Não uma parte. Quase todo.

Criaram o Government Pension Fund Global — embora toda a gente lhe chame simplesmente o Fundo do Petróleo. As regras eram simples, mas revolucionárias: todos os lucros do petróleo entrariam no fundo. O fundo investiria globalmente. E a Noruega só poderia retirar uma pequena percentagem por ano — originalmente 4%, hoje mais perto de 3%.

O resto permaneceria investido. Para sempre.

Muitos acharam que estavam loucos.

“Estão sentados em cima de uma fortuna petrolífera e não a vão usar?”, perguntavam os críticos. “As pessoas podiam ter impostos mais baixos, melhores estradas, programas públicos maiores agora. Porque estão a acumular dinheiro para pessoas que ainda nem existem?”

O governo norueguês tinha uma resposta: “Porque vão existir. E vão precisar deste dinheiro mais do que nós.”

Em 1996, foi feito o primeiro depósito no fundo: 150 milhões de dólares.

Depois fizeram algo ainda mais notável: mantiveram-se fiéis ao plano.

Ano após ano, as receitas do petróleo fluíram para o fundo. Ano após ano, o fundo investiu nos mercados globais — acções, obrigações e imobiliário em mais de 70 países. Ano após ano, os políticos resistiram à tentação de usar o fundo para ganhos políticos de curto prazo.

Isto exigiu uma disciplina extraordinária. Em cada ciclo eleitoral, havia promessas de gastar mais. Em cada recessão económica, exigia-se que o governo recorresse ao fundo. Em cada crise, surgiam apelos para quebrar as regras “só desta vez”.

A Noruega disse não. Todas as vezes.

Os gestores do fundo não tentavam bater o mercado. Não apostavam em acções da moda nem assumiam riscos excessivos. Compravam simplesmente pequenas participações em milhares de empresas em todo o mundo — cerca de 8.700 empresas em 2025 — e mantinham-nas. Diversificaram entre sectores, continentes e classes de activos.

Jogaram o jogo de longo prazo.

Em 2000, o fundo valia cerca de 50 mil milhões de dólares. Em 2010, tinha crescido para 500 mil milhões. Em 2020, ultrapassou 1 bilião.

Hoje, no final de 2025, o Fundo do Petróleo norueguês vale aproximadamente 2 biliões de dólares — tornando-se o maior fundo soberano do mundo.

2.000.000.000.000 de dólares.

Para um país com apenas 5,6 milhões de habitantes, isto equivale a cerca de 357.000 dólares por cidadão. Não que alguém receba um cheque — o fundo pertence tanto às gerações futuras como à actual. Mas os números são impressionantes.

E aqui está a parte extraordinária: mais de metade do valor do fundo não veio do petróleo. Veio dos retornos dos investimentos. Hoje, o fundo gera mais rendimento com os seus investimentos globais do que a Noruega ganha com a venda de petróleo e gás.

O país transformou riqueza petrolífera temporária em riqueza financeira permanente.

O fundo detém cerca de 1,5% de todas as empresas cotadas em bolsa no mundo. Possui imóveis em Manhattan, Londres, Paris e Tóquio. Detém participações na Apple, Microsoft, Nvidia, Amazon e milhares de outras empresas. Quando compra quase qualquer coisa de quase qualquer grande empresa, uma pequena fracção desse dinheiro regressa ao fundo da Noruega.

O governo norueguês não pode simplesmente retirar o que quiser. A regra de levantamento — cerca de 3% ao ano — garante que o fundo dure indefinidamente. Em 2024, esses 3% financiaram cerca de 25% do orçamento nacional da Noruega, sustentando educação, saúde, infra-estruturas e pensões sem esgotar o capital.

Entretanto, outros países produtores de petróleo enfrentam dificuldades. A economia da Venezuela colapsou apesar de ter as maiores reservas de petróleo do mundo. A Nigéria continua a enfrentar pobreza apesar de décadas de exportações de petróleo. Na Rússia, a riqueza petrolífera concentrou-se nas mãos de oligarcas. A Arábia Saudita tenta desesperadamente diversificar-se para reduzir a dependência do petróleo.

A Noruega? Está bem. Mais do que bem.

O petróleo acabará por se esgotar — talvez em 30 anos, talvez em 50. Não importa. Quando o último barril for extraído, a Noruega terá um fundo de 3, 4, talvez 5 biliões de dólares a gerar rendimentos para sempre.

Transformaram um ganho temporário em prosperidade permanente.

O fundo tem regras que vão além do simples retorno financeiro. Não investe em empresas que produzem tabaco, certas armas ou que causem danos ambientais graves. Em 2025, desinvestiu de empresas que operam em colonatos israelitas e daquelas com ligações ao exército de Myanmar. Exclui empresas de carvão e aquelas com emissões de gases com efeito de estufa inaceitáveis.

Sim, há ironia num fundo financiado pelo petróleo evitar investimentos em combustíveis fósseis. Mas esse é precisamente o objectivo: a Noruega está a usar dinheiro do petróleo para construir um futuro pós-petróleo.

O génio não esteve em descobrir petróleo. Muitos países descobriram petróleo. O génio esteve na decisão radical de poupar quase tudo, investir com prudência e resistir a todas as pressões políticas para gastar imediatamente.

Foi preciso visão para ver além do próximo ciclo eleitoral.

Foi preciso disciplina para seguir as regras durante três décadas sem excepções.

Foi preciso humildade para admitir que os futuros noruegueses mereciam esta riqueza tanto quanto os actuais.

A maioria dos países não consegue fazer isto. A maioria dos políticos não resiste à tentação. A maioria das sociedades exige gratificação imediata.

A Noruega olhou para a maldição que destruiu outros países petrolíferos e decidiu construir algo diferente: uma bênção que se multiplicaria ao longo das gerações.

Em 1996, começaram com 150 milhões de dólares.

Hoje, têm 2 biliões — e a crescer.

Dentro de 50 anos, quando os campos petrolíferos estiverem vazios e as plataformas silenciosas, as crianças norueguesas frequentarão universidades gratuitas, os doentes receberão cuidados de saúde de classe mundial e os idosos reformar-se-ão com segurança — tudo financiado por petróleo que deixou de fluir décadas antes.

Porque, em 1990, a Noruega fez uma escolha que a maioria dos países nunca faz.

Escolheu os seus netos em vez de si própria.

E esses netos — e os seus netos — viverão em prosperidade por causa disso.

Isto não é apenas boa política. É uma verdadeira lição magistral de pensamento a longo prazo.

A Noruega provou algo profundo: não é preciso ser o país mais rico para ser o mais sábio. Basta ter coragem para poupar, disciplina para esperar e visão para construir para pessoas que nunca iremos conhecer.

Descobriram petróleo em 1969.

Criaram um fundo em 1990.

Hoje, detêm 1,5% do mundo.

E conseguiram-no fazendo aquilo que quase ninguém consegue: dizer não ao dinheiro fácil hoje e sim à riqueza permanente de amanhã.

Anderson Nunes

 *TRUMP INCENDEIA DAVOS - MC 21/01/26*

*Por Anderson Nunes - Analista Político.*


O apetite agressivo de Donald Trump contra a Europa e sua insistência em anexar a Groenlândia aceleram uma fuga de capitais dos Estados Unidos que beneficia o Ibovespa.


*REAÇÃO EUROPEIA E DAVOS*


O Parlamento Europeu suspendeu a tramitação de um acordo comercial com os EUA após as ameaças de anexar a Groenlândia e imposição de tarifas sobre aliados. A Alemanha avalia boicotar a Copa do Mundo de 2026 em protesto contra a postura agressiva da Casa Branca na economia e na diplomacia.


*LULA NA MIRA DA DIPLOMACIA AMERICANA*


O presidente brasileiro foi convidado por Trump para integrar um Conselho de Paz sobre o conflito em Gaza, visando legitimar as iniciativas de Washington. O Planalto avalia os termos da proposta com cautela para evitar um alinhamento que comprometa a neutralidade diplomática.


*RESTRIÇÃO DE VISTOS NOS EUA*


O Departamento de Estado suspendeu novos vistos de imigração para 75 países com o objetivo declarado de reduzir gastos com assistência social. A medida reflete o endurecimento da política externa republicana e acerta diretamente os planos de brasileiros que buscam residência legal na América do Norte.


*FISCALIZAÇÃO BANCÁRIA RECORDE*


O Banco Central realizou quase mil processos de interferência em instituições financeiras desde 1966 com foco em liquidações extrajudiciais para proteger o sistema. O caso do Banco Master marca o maior ressarcimento da história financeira do país com estimativa de R$ 41 bilhões a serem pagos pelo FGC.


*TCU EXIGE TRANSPARÊNCIA FISCAL*


A área técnica do tribunal deu um ultimato ao governo para corrigir gastos realizados fora do Orçamento em prazos de até 180 dias. A medida tenta restaurar a credibilidade da política fiscal brasileira após a identificação de manobras contábeis em programas sociais.


*CONFLITOS EM BRASÍLIA*


O ministro Dias Toffoli agendou depoimentos de diretores do Banco Master enquanto a CVM rejeitou a proposta de transferir a regulação de fundos para o Banco Central. No Legislativo, o deputado Nikolas Ferreira lidera uma caminhada até a capital para protestar contra as prisões relacionadas aos atos de 8 de janeiro.


*RADAR CORPORATIVO*


1. Petrobras investirá R$ 6 bilhões para transformar a refinaria Riograndense na primeira biorrefinaria do consórcio com Braskem e Ultrapar.

2. Netflix encerrou 2025 com 325 milhões de assinantes e lucro líquido anual de quase 11 bilhões de dólares.

3. Sony e TCL fecharam parceria para que a gigante chinesa assuma a produção e o controle da divisão de televisores da marca japonesa.

4. Multiplan: A companhia confirmou um ataque cibernético no aplicativo Multi com vazamento de dados de cartões de crédito, o que gera alerta sobre segurança digital.

5. Setor de Educação: Yduqs e Ser Educacional enfrentam pessimismo do mercado após o Enamed reprovar mais de 30% dos cursos de medicina avaliados.

6. BRB: A Mastercard adquiriu cerca de 7% do capital do banco, movimento que fortalece a capitalização e a governança da instituição brasiliense.

7. Sabesp: A empresa informou que a aquisição do controle da Emae avançou após o aval do Cade, restando apenas formalidades contratuais para a conclusão.

8. Copasa: O Citi elevou o preço-alvo da ação para R$ 55 após incorporar os dados finais da revisão tarifária que favorecem a geração de caixa.

9. Minerva: O conselho homologou um novo aumento de capital, reforçando a estrutura financeira da companhia para sustentar suas operações de exportação.


O Canal Auxiliando usa as seguintes fontes de notícias: 'Monitor do Mercado, BDM, Broadcast, Valor Econômico, Folha de São Paulo, Estadão, O Globo, BM&C, B3, Revista Oeste, Poder 360, Money Times, Agência CMA, Agência Brasil, Bloomberg, Infomoney, CNN, The Washington Post, The Wall Street Journal, Fox Business, Reuters, Oil Price, Investing e Yahoo Finance'.

BDM Matinal Riscala

 *Rosa Riscala: Trump discursa às 10h30 em Davos*


Ao meio-dia, em um teste à independência do Fed, a Suprema Corte julga o caso da diretora Lisa Cook, de quem Trump quer se livrar.

… O tombo da Netflix no after hours em Nova York após a decepção com o guidance no balanço pode acentuar o sell-off das techs, que derrubou as bolsas americanas, ampliando a aversão ao risco com o aumento das tensões de Washington contra a Europa. Nesta terça-feira, Trump intensificou sua ofensiva diplomática e comercial, ao ameaçar com tarifa de 200% sobre vinhos e champanhes franceses. Hoje, o presidente discursa em Davos, às 10h30, em mais uma agenda de volatilidade envolvendo sua determinação em anexar a Groenlândia. Ao meio-dia, em um teste à independência do Fed, a Suprema Corte julga o caso da diretora Lisa Cook, de quem Trump quer se livrar.

O FATOR TRUMP – Os mercados não têm um dia de paz com o presidente dos Estados Unidos ocupando a mídia em tempo integral para reforçar sua retórica contra todo aquele que ouse contrariar os seus objetivos, hoje focados na conquista da Groenlândia.

… Nesta terça, a ameaça foi feita diretamente a Macron, que tem sido a voz de maior resistência entre os europeus à nova investida.

… Além de anunciar a ideia de taxar os vinhos franceses, Trump disse que não vai a uma reunião do G7 nesta quinta-feira, em Paris. “Eu me dou muito bem com Starmer e Macron, me tratam bem, mas ficam um pouco mais valentes quando não estou por perto.”


… Questionado sobre até onde está disposto a ir para adquirir a Groenlândia, Trump disse aos repórteres: “Vocês vão descobrir”.


… Logo em seguida, porém, disse que, quando falar com a Groenlândia, tem certeza de que “eles ficarão entusiasmados”. Trump disse que tem muitas reuniões agendadas sobre a Groenlândia em Davos e que acredita que chegarão a um acordo que agradará a Otan.


… Enquanto isso, o primeiro-ministro da Groenlândia avisava a população para se preparar para possível invasão dos Estados Unidos. “Não é provável que haja um conflito militar, mas isso não pode ser descartado”, afirmou Jens-Frederik Nielsen, em entrevista em Nuuk.


… Uma força-tarefa, composta por representantes das autoridades locais, será formada para ajudar a população a se preparar para lidar com quaisquer interrupções na vida cotidiana. Entre as recomendações está manter alimentos suficientes para cinco dias em casa.


… Já em Davos, o secretário de Comércio, Howard Lutnick, disse que a Casa Branca taxaria ainda mais os países europeus em caso de retaliação, mas está confiante de que tudo se resolverá numa conversa de Trump com a presidente da Comissão Europeia.


… Sem mencionar Trump diretamente, Ursula von der Leyen destacou a necessidade de responder a mudanças no cenário global.


… Apesar das manifestações em favor da Groenlândia, alguns banqueiros e executivos de alto escalão presentes em Davos disseram considerar que a resposta dos líderes europeus às ações de Trump tem sido mais emocional do que pragmática.


… Foi um dia difícil em Wall Street na volta do feriado de Martin Luther King, que atrasou a reação dos mercados às ameaças de Trump contra os países da Europa, deflagradas no fim de semana. Além da queda das bolsas, o dólar perdeu e os juros dispararam (leia abaixo).


NÃO É PARA JÁ – Suprema Corte dos Estados Unidos está frustrando qualquer esperança de uma rápida reversão das tarifas de Trump.


… Os juízes devem iniciar um recesso de quatro semanas a partir de segunda-feira sem terem se pronunciado sobre os recursos pendentes contra a maioria das tarifas impostas ao longo do último ano. A próxima data para uma possível decisão é 20 de fevereiro.


O NOVO FED – O presidente Trump pode anunciar sua escolha para substituir Powell na próxima semana, informou Scott Bessent.


… A disputa está entre quatro nomes: Rick Rieder, da BlackRock; Kevin Hassett, diretor do Conselho Econômico Nacional; Christopher Waller, do Federal Reserve; e o ex-membro do Fed Kevin Warsh.


EU GOSTO DELE – Na entrevista para um balanço do seu primeiro ano de mandato, Trump confirmou o convite a Lula para integrar o Conselho de Paz, uma iniciativa para discutir soluções para o conflito entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza.


… “Eu convidei. Eu gosto dele”, afirmou Trump.


… Mas, ao contrário do que pode parecer, não se trata de uma especial deferência, já que foram enviados convites a mais de 60 líderes mundiais.


… Lula foi convidado para o Conselho da Paz no início desta semana e, segundo fontes da cúpula do governo ouvidas pelo Valor, o presidente ainda não decidiu se aceitará fazer parte e estaria estudando pontos previstos no documento proposto por Trump.


A PRESSÃO DO TCU – Em reportagem exclusiva do Valor, a área técnica do Tribunal de Contas da União propôs prazos que variam de 30 dias a 180 dias para que ministérios, órgãos de controle e estatais corrijam gastos e financiamentos fora do Orçamento e das regras fiscais.


… O documento reúne determinações e alertas ao governo para coibir a execução de despesas públicas à margem do orçamento, uma prática que, na avaliação da equipe, compromete a transparência e a credibilidade da política fiscal.


… As medidas constam no relatório final elaborado pela “AudFiscal” do TCU, no âmbito da auditoria relatada pelo ministro Bruno Dantas, que teve início a partir do Pé-de-Meia, após a Corte constatar a execução de parte dos recursos do programa sem trânsito pelo Orçamento.


… O processo foi enviado para o gabinete do relator, que vai decidir sobre os próximos encaminhamentos antes de levar o caso ao plenário.


AFTER HOURS – Netflix derreteu 5%, frustrada pela previsão de lucro de US$ 0,76 por ação sobre vendas de US$ 12,16 bilhões neste primeiro trimestre, abaixo do consenso dos analistas de US$ 0,81 e US$ 12,19 bi, respectivamente.


… O guidance decepcionante acabou ofuscando as boas notícias do balanço, com lucro líquido de US$ 0,56 por ação diluída no quatro trimestre, ligeiramente acima do projetado pelo mercado financeiro, de US$ 0,55.


… O faturamento da companhia de streaming, de US$ 12,05 bilhões no período, superou a projeção de US$ 11,97 bilhões e apontou um crescimento de 17,6% no comparativo com igual período de 2024.


… A Netflix ainda informou ontem à noite, em carta aos acionistas, que decidiu suspender as suas recompras de ações para acumular caixa, como parte do esforço para financiar a aquisição pendente da Warner Bros.


AGENDA FRACA – Dia esvaziado aqui prevê a segunda prévia do IGP-M (8h) e o fluxo cambial semanal, às 14h30. Em meio à crise do Master, Galípolo tem reunião, às 11h, com o vice-presidente do TCU, ministro Jorge Oliveira.


LÁ FORA – Com todas as atenções voltadas ao discurso de Trump em Davos, os indicadores nos Estados Unidos são fracos: vendas pendentes de imóveis em dezembro e investimentos em construção em setembro e outubro (12h).


… A AIE divulga o relatório mensal de petróleo às 6h30. O CPI de dezembro do Reino Unido sai cedinho (4h).


BUY BRAZIL, SELL AMERICA – Parece um paradoxo, mas não é, que o Ibovespa tenha cravado novas marcas inéditas, justamente num dia em que as bolsas americanas afundaram com o desejo de Trump de anexar a Groenlândia.


… O movimento que se desenrola parece ser de uma rotação global de carteiras, com o sell-off de ativos americanos desencadeando uma onda de fluxo positivo de recursos para outros mercados, especialmente aos emergentes.


… Pela primeira vez na história, o Ibovespa fechou acima dos 166 mil pontos, em alta de 0,87%, aos 166.276,90 pontos, depois de ter estabelecido também o melhor patamar intraday de todos os tempos, a 166.467,56 pontos.


… O giro de R$ 23,6 bilhões foi enriquecido pela presença estrangeira, que colocou as blue chips das commodities e financeiras em canal de alta. Vale ignorou a baixa de 1% do minério, virou e engatou rali de 1,92%, para R$ 80,08.


… Merrill Lynch, UBS e Morgan Stanley lideraram as compras do papel, confirmando o apetite do capital externo.


… Também a Petrobras (ON +0,85%, a R$ 34,45; e PN +0,37%, a R$ 32,29) ajudou a turbinar a bolsa, enquanto lá fora o petróleo Brent subiu 1,53%, a US$ 64,92, impulsionado pelo dólar fraco com a investida tarifária de Trump.


… Os bancos despontaram com o interesse renovado dos gringos: Santander (+2,01%; máxima de R$ 34,00);  Bradesco (PN +1,43%, a R$ 19,17; e ON +1,29%, a R$ 16,45); BB (+1,08%; R$ 21,54); e Itaú (+0,94%; R$ 39,92).


… Os frigoríficos refletiram alívio com a decisão da China de voltar a comprar frango do Rio Grande do Sul, após uma interrupção de um ano e meio. Minerva ganhou 1,80% e MBRF subiu 0,16%. Em Nova York, JBS disparou 4,36%.


… Em teoria, se o k estrangeiro está entrando aqui, diante da fuga dos Estados Unidos e a diversificação das aplicações, o dólar deveria ter caído ontem. Mas o câmbio pode ter sido usado como hedge contra a tensão externa.


… A moeda norte-americana chegou a cair pela manhã, até a faixa de R$ 5,35 (mínima de R$ 5,3596), mas encontrou piso nesta região e voltou. Fechou em alta moderada de 0,31% com a percepção de risco global, cotada a R$ 5,3805.


… Os juros futuros domésticos colaram no estresse das taxas dos Treasuries mais longos e na escalada para níveis recordes dos rendimentos dos títulos do Japão, diante das preocupações fiscais, em meio às eleições antecipadas.


… No fechamento, o contrato do DI para Janeiro de 2027 marcava 13,810% (de 13,757% no ajuste anterior); Jan/29 subia a 13,280% (contra 13,168% na véspera); Jan/31, a 13,610% (de 13,483%); e Jan/33, a 13,800% (de 13,661%).


… Faltando uma semana para o Copom, o Inter adiou o call de corte da Selic de janeiro para março.


… O banco acredita que a convergência lenta da inflação à meta e os riscos fiscais em ano de eleição devem encurtar o ciclo de afrouxamento monetário. A projeção agora é de juro terminal este ano em 12,50%, e não mais em 12%.


O VALENTÃO DA ESCOLA – As declarações de Trump contra a Europa ontem foram dadas em coletiva sobre o seu primeiro ano de mandato, quando ele ainda conseguiu derrubar o petróleo no pregão eletrônico…


… Afirmou que as petrolíferas americanas estão preparando “investimentos massivos” na Venezuela.


… A metralhadora giratória do presidente americano impôs nesta terça-feira o pior pregão às bolsas em Wall Street desde o colapso do “Dia da Libertação”, no início de abril do ano passado, quando Trump decretou o tarifaço.


… Além de as ameaças terem derrubado ontem as bolsas, acionaram uma corrida de proteção que levou o ouro a disparar quase 4% e cruzar a barreira de US$ 4.700 a onça-troy pela primeira vez na história, a US$ 4.765,80.


… Investidores globais reduziram a exposição aos ativos americanos, desbancando o dólar e os Treasuries.


… Rumores de que os líderes europeus podem retaliar os Estados Unidos se as ameaças de tarifas adicionais de até 25% se confirmarem ampliam a tensão, segundo o Swissquote Bank. A Europa tem cerca de US$ 10 trilhões em ativos americanos, incluindo US$ 4 trilhões em títulos.


… O fundo de pensão dinamarquês Akademiker Pension afirmou que venderá suas participações em Treasuries, avaliadas em US$ 100 milhões, até o fim deste mês, citando a fragilidade fiscal dos Estados Unidos.


… Com a fuga do império americano, o yield do T-Bond de 30 anos foi impulsionado ao maior nível desde setembro: 4,917%, contra 4,835% antes do feriado de Martin Luther King. A taxa da Note-10 anos foi a 4,289%, de 4,226%.


… O movimento foi potencializado pela alta expressiva dos retornos dos títulos do governo japonês (JGBs) com o fiscal no radar, após o mercado rejeitar a proposta eleitoral da premiê de reduzir os impostos sobre alimentos.


… O iene continuou fraco (-0,10%), a 158,26/US$. Com os ativos dos Estados Unidos sob a mira dos vendedores, o índice DXY fechou em queda de 0,76%, a 98,641 pontos. O euro subiu 0,57%, a US$ 1,1722, e a libra foi a US$ 1,3435.


… Enquanto Trump comprava briga com os europeus, o S&P 500 zerava os ganhos acumulados no ano e registrava a sua maior queda desde outubro (-2,06%), aos 6.796,92 pontos. O Dow Jones caiu 1,76%, para 48.488,65 pontos.


… O Nasdaq perdeu 2,39%, aos 22.954,32 pontos, e hoje pode renovar a tensão com a Netflix e Trump em Davos.


… Para a Capital Economics, só uma liquidação tripla ainda mais intensa das bolsas, dos Treasuries e do dólar, com uma saída em massa de investidores estrangeiros de ativos americanos, convenceria o republicano a recuar.


CIAS ABERTAS NO AFTER – BRB destituiu a diretora executiva de Controles e Riscos (DICOR), Luana de Andrade Ribeiro, e anunciou a eleição para o cargo de Ana Paula Teixeira, que terá o nome encaminhado ao BC…


… Antônio José Barreto de Araújo Júnior foi eleito para a diretoria executiva de Finanças, Controladoria e Relações com Investidores (DIFIC)…


… O BRB informou que a Mastercard Brasil adquiriu 33.684.706 ações, o equivalente a 6,93% do capital social do banco. O montante é distribuído em 11.750.000 ações ordinárias (3,67%) e 21.934.706 ações preferenciais (13,21%).


SABESP se manifestou sobre a transferência do controle societário da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae), após aval do Cade sem restrições, com anuência prévia da Aneel…


… Segundo a companhia, a transferência do controle da Emae ainda depende do cumprimento de formalidades contratuais previstas nos acordos de compra e venda, processo que se encontra em fase de implementação…


… A operação, divulgada inicialmente em 5 de outubro do ano passado, prevê a aquisição das ações da Emae, hoje detidas pela Vórtx Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários e pela Axia Energia, antiga Eletrobras.


MINERVA. Conselho aprovou homologação do aumento do capital social no valor de R$ 44.593,40, dentro do limite do capital autorizado. Aumento decorre do exercício de bônus de subscrição por determinados titulares…


… Com a operação, capital social da empresa passou de R$ 3.133.366.108,72 para R$ 3.133.410.702,12, mediante a emissão de 8.909 novas ações ordinárias.


MULTIPLAN confirmou que seu aplicativo, o Multi, sofreu um ataque cibernético no dia 10 de janeiro e que houve vazamento de alguns dados de clientes, como os quatro últimos dígitos dos cartões de crédito.


EDUCAÇÃO. Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) entrou na Justiça para invalidar os dados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), que reprovou mais de 30% dos cursos de medicina…


… Entre analistas de mercado, Yduqs e Ser Educacional são apontadas como as instituições que tiveram maior exposição negativa aos resultados do Enamed…


… Em contrapartida, empresas como Cogna, Anima e Vitru possuem exposições significativamente menores e são vistas como mais protegidas nesse cenário.


TENDA realizou uma reorganização estratégica em sua diretoria executiva para elevar a eficiência operacional das duas unidades de negócio, Tenda e Alea, além de acelerar sinergias…


… O movimento inclui a criação da diretoria executiva de Digital e Marketing da holding, que será ocupada por Luis Gustavo S. Martini, até então diretor-executivo da Alea…


… Demais diretores da subsidiária se reportarão diretamente ao presidente-executivo da Tenda, Rodrigo Osmo.


ONCOCLÍNICAS informou que Cinthia Maria Ambrogi deixará o cargo de diretora executiva jurídica, de compliance e ESG da companhia, permanecendo no posto até 1º de fevereiro.


MOTIVA. Citi cortou preço-alvo da ação de R$ 16 para R$ 15, mantendo recomendação neutra, com avaliação refletindo uma taxa interna de retorno real (IRR) de 10% para o papel.


COPASA. Citi reiterou recomendação de compra para a ação e elevou o preço-alvo de R$ 45 para R$ 55, após incorporar números finais da revisão tarifária da companhia divulgados em dezembro.


SIMPAR fechou 2025 com receita bruta de R$ 48,1 bilhões, alta anual de 6,5%, segundo prévia operacional.


DEXCO celebrou contrato de venda de excedente de madeira em pé, referente a aproximadamente 1,2 milhão de metros cúbicos de ativos florestais, para um player do setor de madeira; empresa não divulgou valores.

Bankinter Matinal Portugal

 Análise Bankinter Portugal 


NY -2,1% US tech -2,1% US semis -1,7% UEM -0,6% España -1,3% VIX 20,1% Bund 2,86% T-Note 4,27% Spread 2A-10A USA=+69pb B10A: ESP 3,25% PT 3,24% FRA 3,53% ITA 3,46% Euribor 12m 2,236% (fut.2,392%) USD 1,172 JPY 185,4 Ouro 4.848$ Brent 64,2$ WTI 59,8$ Bitcoin -1,7% (89.540$) Ether -4,8% (2.977$).


SESSÃO: Estamos numa fase curta de retirada tática por medo, na qual os semis aguentam melhor do que o resto. Esta é uma mudança relevante. Este medo passará rapidamente, já que o desenvolvimento sobre a Gronelândia será bom de uma perspetiva geoestratégica e dará apoio ao mercado com uma perspetiva de médio prazo: consistirá num acordo de defesa conjunto EUA/UE liderado pelos EUA e submetido aos critérios militares dos EUA que se financiará (porque defender o Ártico será muito caro) com as matérias-primas extraídas na Gronelândia, cuja política sobre este assunto deverá mudar, a não ser que prefira ser um território de ultramar chinês ou russo, ao estilo dos territórios de ultramar do século XIX. Por isso, a nossa estratégia/recomendação perante esta fase de instabilidade, consequência da imprevisibilidade dominante, é não alterar nenhuma posição: permanecer investido em ativos de qualidade (semis, cibersegurança, tech, defesa, bancos e utilities) sem tomar nenhuma decisão diferente, mas aguentar. Em todo o caso, comprar algo mais do mesmo a preços um pouco melhores. Quem diz agora que é preciso procurar refúgio no ouro, na prata, no franco suíço e similares está  a dizer uma obviedade, típica de  uma visão de curto prazo e que todos já sabem, porque todos já perceberam e sofrem com isso nesta altura. Em situações como esta, não tomar nenhuma decisão diferente é uma boa decisão... mais difícil do que parece, porque manter a calma no meio da confusão tem o seu mérito. Isso é o mais importante. A seguir, vamos aos detalhes do dia. Em flashes, para abreviar.


12:30 h/14:15 h Trump fala em Davos. Ele vai chegar, mesmo que o avião tenha avariado. Vai ser tão imprevisível quanto divertido. No fundo, não importa muito o que diga. Por isso, o mercado hoje pode terminar de qualquer forma ou o contrário. Mas, sim, é o evento do dia e talvez da semana.


Netflix publicou ontem, no fecho de Nova Iorque, batendo expetativas, mas guidance fraco e, além disso, melhora a sua oferta sobre Warner. Por isso, -5% em aftermarket.


Publicam na abertura de Nova Iorque: Halliburton (EPS 0,545 $), J&J (2,471 $), Travelers (8,817 $) e Charles Schwab (1,393 $).


Elon Musk pondera comprar Ryanair, não se sabe se é verdade, já que perguntou isso no X/Twitter (de sua propriedade) aos seus seguidores depois da companhia aérea rejeitar empregar Starlink para dar cobertura de internet.


Reino Unido. Inflação de dezembro: +3,4% vs. +3,3% esperado vs. +3,2% anterior. Subjacente repete em +3,2% vs. +3,3% esperado. Não é uma inflação boa, mas parece compatível com as 2 descidas de taxas de juros do BoE que estimamos para este ano, também porque o emprego não avança bem (desemprego 5,1%, máx. de 5 anos): 2 x -25 p.b., até 3,25% vs. 3,75% atual.  


CONCLUSÃO: Não fazemos ideia, sinceramente. Os futuros vêm a subir um pouco (+0,1%/+0,2%) depois do golpe de ontem, que parece excessivo, mas é impossível estimar algo fiável porque a intervenção de Trump (13:30) é a única coisa que conta e a imprevisibilidade faz parte da sua estratégia. É o equivalente militar ao fator surpresa, mas em versão muito vulgarizada. A lógica convida a pensar que, conhecendo o seu padrão de comportamento, já tenha a dialética sobre a Gronelândia no limite e que, por isso, começará a enfraquecer a partir de agora. Pode ser hoje mesmo, em Davos. Isso pode proporcionar uma falsa impressão de serenidade progressiva, quando, na realidade, será um tempo de descanso até à sua próxima etapa de histrionismo. Isto parece o mais razoável… mas o seu desenvolvimento pode ser o contrário. O mais importante é não perder a perspetiva, não tomar nenhuma decisão importante e, principalmente, não perder o bom humor. 


FIM

Ailton Braga

  Hoje, 02/02/2026, saiu no Blog do IBRE da FGV, artigo meu em que faço análise da interação entre política fiscal e política monetária, a p...