domingo, 4 de janeiro de 2026

Personagens do mercado financeiro

 


De Volta ao Jogo


Para quem gosta do mercado financeiro ou para quem trabalha com finanças, recomendo a leitura do livro da Ariane Abdallah, que, como dito no subtítulo, conta “a história de sucesso, dramas e viradas do BTG Pactual”.

A narrativa é instigante, célere e muito interessante. Explica como personagens icônicos dos mercados financeiro e de capitais iniciaram suas carreiras e como se tornaram sócios do banco em distintos momentos da vida da instituição.

Tudo começa no Rio de Janeiro dos anos 1980, quando um banqueiro self-made, um trader fora da curva e um economista com credenciais acadêmicas, Luiz Cezar Fernandes, André Jakurski e Paulo Guedes, respectivamente, fundam uma distribuidora de valores mobiliários, que viria a se destacar por apostas precisas e pela retenção de talentos.

São histórias que envolvem muito trabalho, ousadia, visão de longo prazo, gestão de riscos, planejamento, estudo e muito poder e ambição. Demonstra também o quanto o sistema era (e de certa forma ainda é) um ambiente machista, predominantemente masculino, com pouquíssimas mulheres em posição de destaque.

A autora fez uma pesquisa minuciosa, entrevistou mais de 100 pessoas e trouxe muitas referências de artigos, entrevistas, relatórios e outros documentos públicos.

A história e o crescimento do banco ocorrem em meio a períodos de hiper inflação, crises cambiais, planos econômicos, trocas de moeda, quebra da Bolsa do Rio, graves crises econômicas no Brasil e no mundo e tantos outros momentos históricos.

A trajetória do BTG Pactual reforça como a cultura de "partnership", a agilidade no processo decisório e uma cuidadosa análise de risco foram essenciais para que o banco superasse turbulências e grandes crises, conseguindo se manter relevante no mercado.

A venda do antigo Pactual para o gigante suíço UBS, posteriormente recomprado pelo recém fundado BTG, parece roteiro de filme, de tão improvável. Igualmente espetacular foi como o banco reagiu rapidamente ao que seria a sua maior prova de fogo: a prisão de André Esteves durante a Operação Lava Jato.

O livro é um testemunho da grande capacidade de trabalho dos personagens envolvidos, do faro para identificar oportunidades de negócio, da ousadia para inovar e da disciplina na execução.

Há boas lições sobre empreendedorismo, formação de equipes, gestão de riscos, networking, bem como aprendizados relevantes com os percalços e erros cometidos ao longo da bem sucedida trajetória do banco.

Ao longo da minha carreira em finanças corporativas, tive a oportunidade de conhecer alguns dos personagens citados no livro, mas não conhecia os bastidores dessa história incrível.

Amilton de Aquino

 Sobre a Venezuela, o resumo da ópera é o seguinte: num país democrático, o poder emana do povo. Entre nações a conversa é outra: o poder emana da força.

O problema é que o uso da força tem um custo — em dinheiro, em vidas e na imagem internacional do país que opta por esse caminho. Além disso, esse tipo de decisão pode desencadear reações contrárias e escalar para conflitos maiores, como já vimos tantas vezes na história.
Acontece que, hoje, a porra da maioria dos países é autoritária. Não estão nem aí para o direito internacional. Ponto. No mundo ideal, teríamos as nações mais poderosas dando suporte, com poder militar, ao cumprimento da legislação internacional. Mas o problema é que, entre essas potências, sempre coexistiram democracias e regimes autoritários. Nunca foi possível, portanto, construir consensos duradouros em favor de um mundo regido por regras internacionais, baseadas na democracia.
O que sobrou foram cartas de boa intenção que, no final, só servem para hipócritas — como Lula, aiatolás e Putins da vida — ficarem arrotando soberania enquanto promovem ou dão sustentação à barbárie ao redor do mundo.
Durante décadas, as democracias liberais, capitaneadas pelos EUA, tentaram construir um arcabouço de leis internacionais que garantisse o mínimo de estabilidade global. Durante todos esses anos, a porra da esquerda torceu o nariz para essa tentativa, pois sempre esteve mais interessada em promover as famigeradas ditaduras do proletariado e demonizar o único império da história da humanidade que, desde que assumiu a liderança, nunca anexou um único quilômetro quadrado ao seu território. Quando os equerdistas hipócritas perceberam que estavam apostando numa miragem, o comunismo, mudaram o foco para o identitarismo, radicalizando pautas liberais, deturpando-as com os mil identitarismos e, mais recentemente, apostando na globalização da intifada contra a única democracia liberal rodeada por ditaduras muçulmanas.
Portanto, não me venham agora posar de democráticos.
Pela primeira vez em décadas, os EUA têm um presidente que está cagando para a ONU, assim como a esquerda esteve por décadas, quando passava pano para a nação mais imperialista da história: a Rússia. Se esse sujeito chegou ao poder justamente na nação que capitaneou o mínimo de ordem que o mundo conheceu em milênios, a culpa é principalmente da esquerda hipócrita, que nunca falou um pio sobre as invasões de Putin na Chechênia, na Geórgia e, agora, na Ucrânia.
Enquanto vcs destilam hipocrisia, os venezuelanos, na Venezuela e espalhados pelo mundo, na maior diáspora do mundo conteporâneo, comemoram.
O que vem daqui por diante? Não sei. Só sei que se houvesse uma disposição dos mais poderosos em tirar do poder tiranos que oprimem seus povos o mundo seria um lugar bem melhor.
Ah, sim, tem o petróleo e blá blá blá. Pois é. Como disse no início, tudo tem custos. Os EUA certamente vão querer compensar os bilhões gastos na operação e, claro, na restituição das empresas norte-americanas confiscadas pelo chavismo. Realpolitik

Pensatas sobre a Venezuela

 


O que vem a seguir na Venezuela?


Artur Wichmann, CIO da XP


A experiência histórica mostra que remover um ditador costuma ser muito mais fácil do que construir, posteriormente, um governo funcional e estável



Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.


“May you live in interesting times” — suposta praga chinesa


Não era este o texto que gostaríamos de escrever como o primeiro do ano. No entanto, é essa a realidade que se impõe: iniciamos o ano com mais um evento de grande relevância geopolítica.


Escrevemos imediatamente após os acontecimentos e, por isso, o que pode ser afirmado de forma definitiva ainda é limitado. Ainda assim, alguns fatos parecem estar fora de dúvida. O governo norte-americano conduziu uma operação que resultou na captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa. Até o momento, as acusações divulgadas referem-se ao tráfico internacional de drogas.


Há precedentes para esse tipo de ação? Sim, embora nenhum com características exatamente idênticas. O caso mais próximo é a invasão do Panamá, em 1989, que removeu do poder o ditador Manuel Noriega, posteriormente levado aos Estados Unidos, julgado e condenado a 40 anos de prisão. Portanto, embora rara, a ação atual não é inédita.


A questão central, porém, diz menos respeito ao passado e muito mais ao futuro: o que vem a seguir? A partir daqui, entramos no terreno da especulação. Quem governa a Venezuela agora? O presidente norte-americano afirma que os Estados Unidos exercerão controle temporário até a realização de eleições para um novo governo. Em contrapartida, a vice-presidente venezuelana declara que o país resistirá a qualquer tentativa de controle externo.


Aqui surge o primeiro grande problema. Do ponto de vista americano, declarar que exercerá o controle é a parte simples. Para que esse controle se concretize, seria necessária alguma forma de ocupação militar — o que os próprios americanos chamam de boots on the ground. Já do lado venezuelano, resistir significaria enfrentar a força militar mais poderosa do planeta e, talvez mais relevante, fazê-lo sem apoio popular significativo.


No horizonte, devem surgir questionamentos institucionais relevantes, especialmente sobre a capacidade do presidente norte-americano de conduzir ações militares ofensivas sem aprovação do Congresso — algo que, segundo nosso entendimento, seria inconstitucional. Esse debate, no entanto, pertence ao futuro.


No momento, nosso objetivo não é emitir juízos morais sobre se os fins justificam os meios, mas sim analisar os possíveis impactos econômicos e de mercado.


Na verdade, o governo americano parece ter copiado as páginas da doutrina de “realpolitik” do saudoso Henry Kissinger.


As ações foram baseadas no:

Realismo;

Uma visão de interesse nacional acima de ideologia;

Legitimidade acima de justiça;

Pragmatismo e flexibilidade.


Em suma, pura realpolitik.


O que nos cabe é analisar os possíveis impactos econômicos e de mercado.


O canal mais direto é o preço do petróleo, embora o efeito esteja longe de ser claro. Segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA), a produção venezuelana gira em torno de 945 mil barris por dia. O mercado físico de petróleo encontra-se atualmente bem abastecido, e países da OPEP dispõem de capacidade ociosa mais do que suficiente para compensar essa eventual perda de oferta.


Paradoxalmente, no longo prazo, o efeito pode ser o oposto. A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, estimadas em mais de 300 bilhões de barris. Nos anos 1990, sua produção chegou a quase 3,5 milhões de barris por dia. O presidente norte-americano já declarou que um dos objetivos da operação é garantir o acesso de empresas americanas a essas reservas. Evidentemente, isso demandará tempo, dada a condição altamente depreciada da infraestrutura local.


Do ponto de vista de contágio regional e instabilidade geopolítica, os efeitos iniciais parecem limitados. A Venezuela já era um país isolado, com um governo amplamente considerado ilegítimo pela comunidade internacional após fraudes eleitorais. O risco de contágio poderia aumentar caso os Estados Unidos optem por estender esse tipo de ação à Colômbia — um ator ainda mais relevante no narcotráfico global e cujo presidente vem antagonizando o governo Trump há algum tempo.


De modo geral, portanto, os impactos imediatos sobre os mercados parecem restritos.


É importante deixar claro: isso não significa minimizar o risco de uma crise humanitária. Há, neste momento, um vácuo de poder que pode desencadear uma onda de violência. A economia local, já profundamente deprimida, pode praticamente paralisar, e a interrupção de serviços básicos e do abastecimento de alimentos é uma possibilidade concreta.


O desfecho dependerá, em grande medida, da existência — ou não — de um plano americano para o day after. A experiência histórica mostra que remover um ditador costuma ser muito mais fácil do que construir, posteriormente, um governo funcional e estável.

Doutoramento na China

 


Universidades chinesas como o Instituto de Tecnologia de Harbin começaram a mudar a lógica do doutoramento: em vez de exigir apenas uma tese clássica, alguns programas já aceitam tecnologias reais e operacionais como resultado final.


Não é sobre escrever mais.
É sobre construir.

Sistemas, protótipos, soluções aplicadas: coisas que funcionam fora do PDF.

Isto contrasta com o padrão dominante no Ocidente, onde o doutoramento ainda é medido sobretudo por papers, citações e prestígio académico.

Na China, o critério começa a deslocar-se: valor é aquilo que se traduz em capacidade prática.
E isto não acontece por acaso.

O país está a apostar em áreas tecnológicas críticas e precisa de investigadores capazes de transformar conhecimento em produção, inovação e autonomia.

Não basta compreender, é preciso executar.
Não basta argumentar, é preciso entregar.

Com isso, a universidade deixa de ser apenas um espaço de validação intelectual e passa a ser parte ativa da estratégia nacional de inovação.

O doutoramento, nesse modelo, deixa de ser o fim da teoria. Torna-se o começo de algo que vai para o mundo.

No fundo, a China parece estar a responder uma pergunta que muitos evitam: para que serve formar doutores hoje?

E talvez a mensagem seja dura, mas clara: numa corrida tecnológica, o conhecimento que não vira capacidade fica para trás.

Fabio Alves

 *A ofensiva de Trump na Venezuela e o risco político subestimado pelos investidores para 2026*


Tensões entre as grandes potências devem se acirrar para níveis que colocam os mercados globais contra a parede neste ano


Fábio Alves


A ofensiva militar dos Estados Unidos na Venezuela, com a captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, não foi uma surpresa completa para muitos investidores e analistas, diante da escalada recente das tensões entre os dois países.


Mas ainda assim, uma crise geopolítica global mais grave - na América Latina e em outras partes do planeta - segue sendo o risco mais subestimado nos cenários dos investidores para 2026.


Muita atenção tem sido dada pelo mercado aos riscos envolvendo a Inteligência Artificial, especialmente após as ações das gigantes do setor de tecnologia terem acumulado ganhos impressionantes. Também há a preocupação sobre como o Federal Reserve (Fed) irá conduzir sua política monetária em 2026, quando, em maio, assumirá seu comando um nome a ser indicado pelo presidente Donald Trump em substituição a Jerome Powell.


O que parece ainda não estar devidamente precificada é uma maior volatilidade geopolítica, com novos focos de tensão.


O mercado já tem no radar a complexa e arrastada negociação para a paz entre a Rússia e a Ucrânia.


Todavia, a postura agressiva de Trump na política externa, perdendo pouco tempo em sanções ao petróleo venezuelano e pressões com ataques pontuais a petroleiros, pode mudar o xadrez de outros embates e disputas geopolíticas mundo afora.


Basta ver a reação de duas grandes potências nucleares aos ataques ordenados por Donald Trump na Venezuela. A Rússia condenou o que chamou de “agressão armada”.


Em comunicado, o Ministério das Relações Exteriores da China declarou: “Tais atos hegemônicos dos EUA violam gravemente o direito internacional e a soberania da Venezuela, e ameaçam a paz e a segurança na América Latina e na região do Caribe. A China se opõe firmemente a isso”.


Não há dúvida que as tensões entre as grandes potências devem se acirrar para níveis que colocam os mercados globais contra a parede em 2026.


E, por tabela, o movimento de busca por proteção deve seguir dando suporte para ativos considerados refúgio para turbulências, como o ouro.


O estrategista global do banco francês Société Générale, Albert Edwards, projeta a cotação do ouro a US$ 5.000 a onça-troy no fim de 2026, citando, entre os principais motivos, riscos geopolíticos. Na sexta-feira passada, o metal fechou cotado a US$ 4.329,60 por onça-troy.


Em 2025, o preço do ouro disparou impressionantes 64%, maior ganho desde 1979. No dia 26 de dezembro, o ouro atingiu a cotação recorde histórica de US$ 4.549.


Se a volatilidade geopolítica for maior do que está precificado pelos investidores, gerando tensão e abalos nos mercados, as projeções de uma cotação do ouro a US$ 5 MILpoderão estar defasadas.


O fator que complica mais o cenário é que em novembro deste ano acontecerão as eleições de meio de mandato para renovar o Congresso americano. O partido republicano domina a Câmara e o Senado. Mas a taxa de aprovação de Trump vem caindo e gerando um alerta em relação ao desempenho dos republicanos na eleição de novembro. Perder o controle de uma das Casas no Congresso poderá ser um tiro fatal para o restante do mandato de Trump.


Assim, se essa perda de popularidade continuar, Trump poderá ficar acuado e tomar decisões intempestivas na política externa para desviar o foco de eleitores americanos insatisfeitos. E esse risco talvez não esteja adequadamente dimensionado no mercado, como o ataque militar a Venezuela mostrou.



https://www.estadao.com.br/economia/fabio-alves/trump-e-o-risco-politico-subestimado-nos-cenarios-dos-investidores-para-2026/?utm_source=estadao:app&utm_medium=noticia:compartilhamento

Dan Kawa

 *Dan Kawasaki: "A Whole New World"*

By *Dan Kawa* 


"A whole new world. A dazzling place I never knew" - Tim Rice


O principal destaque deste início de ano foi o ataque militar conduzido pelos EUA na Venezuela, acompanhado da prisão de Nicolás Maduro, ditador que dominava o país por décadas.


Trata-se de um evento de elevada relevância geopolítica, que deve ser interpretado como mais um passo no processo de reconfiguração da chamada “nova ordem mundial”.


Nesse contexto, observa-se uma ampliação da influência norte-americana no continente americano, associada ao avanço de agendas de viés liberal e de direita em diversos países da região. Sem entrar no mérito normativo ou avaliativo sobre a legitimidade dessa postura, a análise aqui se limita à leitura objetiva dos fatos e de suas implicações para o equilíbrio geopolítico regional e global.


Do ponto de vista econômico, o controle do setor de petróleo venezuelano pelos EUA tende a resultar em mais oferta estrutural ao mercado global, menor volatilidade e preços com viés mais baixo no médio prazo, ao mesmo tempo em que aumenta a previsibilidade e a segurança do fornecimento. Ao reduzir riscos políticos, sanções e interrupções recorrentes, parte do prêmio geopolítico embutido no preço do petróleo tende a ser comprimida, com efeito desinflacionário marginal e maior estabilidade para cadeias energéticas alinhadas à órbita americana.


O avanço da influência dos EUA sobre mais um país das Américas reforça a leitura de uma região cada vez mais alinhada a políticas econômicas liberais e a agendas de direita, ao menos no plano institucional e regulatório. Sem juízo de valor, o movimento aponta para maior abertura a capital privado, integração aos mercados internacionais e redução do espaço para modelos intervencionistas, consolidando um eixo regional mais próximo da órbita econômica americana.

Paulo Baia

 Encontrei, no fim da tarde, em Copacabana, um velho conhecido. Um homem de cerca de cinquenta anos, advogado, professor universitário, inte...