terça-feira, 22 de setembro de 2026

Thomas Traubman

Crítica - “O Tesoureiro”, de Xico Sá (Publicado originalmente em O Globo)

Mais de trinta anos atrás, um outro gangster saiu das sombras, comprou Brasília inteira, acumulou bilhões e a sua queda mergulhou o país numa crise sem precedentes. Como o banqueiro Daniel Vorcaro, Paulo César Siqueira Cavalcante Farias (1945-1996), o PC, era um homem de soluções. Podia ser o aluguel de um avião para campanha, as compras da primeira-dama, a licitação da construtora ou o resultado de uma votação no plenário. PC resolvia tudo até que a disputa entre os irmãos Fernando e Pedro Collor o transformou num estorvo, na memória viva de que tantos os derrotados quantos os vencedores do processo de impeachment de 1992 lhe deviam demais.

Em o “O Tesoureiro – O esquema de corrupção, a fuga espetacular e a morte de PC Farias” (Editora Todavia; 144 páginas; Livro: R$73,74; e-book: R$ 54,90) o repórter Xico Sá revira os garranchos dos cadernos de anotação de papel reciclado da Folha de S. Paulo nos anos 1990, a poeira das memórias perdidas nas boates de Maceió e acorda o fantasma do morto para recontar a sua versão particular de como um ex-seminarista se tornou o homem mais poderoso do Brasil.

Sá escreve como uma Xerazade bebendo uísque duplo e entretendo prostitutas enquanto os clientes não chegam no bar de bar de beira de estrada. É nítida a sua inspiração no jornalismo gonzo do norte-americano Hunter S. Thompson (1937-2005), o estilo de narração em primeira pessoa em que a aventura da busca da notícia é a notícia em si. Pobre Thompson que nunca bebeu o café ruim da Dona Olinda nos corredores da Folha ou teve como fonte a garota de programa Brigitte Monfornt.

Assim que PC Farias fugiu para Londres, em outubro de 1993, fugindo de Buenos Aires por medo de ser sequestrado pelos guerrilheiros das Farc, Brigitte telefonou para Xico Sá:

_ Tem um quinto Beatle atravessando a Abney Road _ ela lhe escreveu.


Com a informação, o repórter negociou com a família um telefonema de PC:

- Alô, dom Xico, quanto tempo, como está esse Brasil velho de guerra?”, disse PC, confirmando que havia fugido para o Reino Unido, que à época não mantinha tratado de extradição com o Brasil.

Xico Sá é um animal em extinção. Suas fontes são garçons, taxistas, prostitutas, policiais corruptos, gente que os repórteres com camisas de monograma nem enxerga. Ele não entrevista processos, conta histórias.
Foi Xico Sá quem mostrou pela primeira vez como funcionava a tabela de preços da campanha Collor: os empresários que doassem US$ 1 milhão teriam direito a serem ouvidos pelo governo; por US$ 2 milhões, seriam ouvidos e teriam voz; por US$ 3 milhões, poderiam indicar nomes para os ministérios e estatais. A maioria escolheu a terceira opção.

O livro prova que o Brasil de PC Farias é diferente do Brasil de Daniel Vorcaro. Os valores inflacionaram muito desde então.

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