quarta-feira, 23 de setembro de 2026

José Paulo Kupfer

Muitos reverenciando, com absoluta razão, o jornalista Zuenir Ventura, que fez passagem nesta terça-feira (22), depois de bem vividos 95 anos. Quase unânimidade sobre a generosidade do profissional que acolhia e transmitia ensinamentos aos jovens que chegavam às redações em que ele dava expediente.




Acho que não cheguei a ser "acolhido" pelo Zuenir, de quem fui amigo e colega de redação - ele no Rio, eu em São Paulo -, anos 80, na Veja e na Istoé.




Conheci Zuenir nas aulas que deu num curso para jovens candidatos a jornalistas de um novo jornal em que bambas do Rio na profissão iriam se reunir, numa experiência tão empolgante quanto efêmera.




Eu estava nesse grupo, em 1967, aos 18 anos, e o jornal em formação era "O Sol", um vespertino (sim,o projeto do jornal era circular a partir do meio dia, acompanhando leitores na volta do trabalho para casa), aquele mesmo que Caetano canta em "Alegria, alegria", bancado pelo "Jornal dos Sports", se não me engano ainda então propriedade da familia de Mário e Nelson Rodrigues.




"O Sol", criação do designer Reinaldo Jardim, tinha Zuenir, Ana Callado, Martha Alencar e outros de que não lembro, na equipe. O conjunto era composto pelos melhores, mais modernos e mais progressistas jornalistas do Rio naquele ano já de ditadura, mas pré-AI 5.




Reinaldo bolou um negócio curioso. As páginas eram dividas em quatro partes dentro de um quadrante. A ideia era que as matérias não ocupassem mais do que um quadrado, no máximo dois, para que o jornal pudesse ser dobrado em quatro com o leitor pendurado no estribo do ônibus.




Mas Reinaldo e os jornalistas que bolaram "O Sol" parece que se esqueceram dos anúncios (ou não ligaram para esse "detalhe"), que não se adaptaram ao quarto de página em que deveriam se conter. Acho que o jornal não durou seis meses...




Zuenir fazia parte da resistência à ditadura nas redações, e do movimento pela retomada do sindicato dos jornalistas do Rio, então em mãos de pelegos. Foi nesse movimento que ficamos amigos, amizade que depois, quando trabalhamos nas mesmas revistas (Veja e Istoé) se estenderam às nossas companheiras - Mary Ventura e Cristina Kupfer.




Sempre soube que Zuenir era fluminense de Friburgo, mas lendo agora seus necrológios vi que era mineiro de Além Paraíba, na zona da mata, só chegou em Friburgo aos 11 anos. Mas, para mim, Zuenir sempre um carioca de caricatura, "apesar" (meus conterrâneos vão me matar...) da formação sólida e das preocupações sérias.




Mas essas virtudes, combinadas com honestidade e ética sem retoques, cada vez mais raras, conviviam como uma capa de carioca de caricatura. Aquele sujeito alegre, otimista, com um olhar e um jeito meio malandro. Sabe aquele carioca ultra-simpático que ao se despedir quanto conhece alguém manda aquela "passe lá em casa", mas não dá o endereço?




Neste momento de tristeza e saudade, me lembro de dois episódios com Zuenir, a quem conheci antes de ele passar a ser chamado, com justiça, de "mestre Zu".




O primeiro foi em março de 1972, quando Zuenir chefiava a redação carioca da então importante revista "Visão". Eu queria me transferir para São Paulo, depois que, numa viagem de férias do "Correio da Manhã" pelo Rio Francisco, tinha conhecido uma mocinha paulistana, estudante de psicologia na USP, com quem divido travesseiro, alegrias, perrengues, dois filhos e quatro netas, já lá vão fazer 54 anos.




Perguntei ao Zuenir se a "Visão" não tinha alguma vaga em São Paulo. "Rapaz, você caiu do céu!", respondeu ele, com o entusiasmo característico. "O Pimenta (Pimenta Neves, aquele mesmo, assassinado da namorada Sandra Gomide, era o diretor de redação), me pediu um jovem jornalista estudante de economia...". Mas Pimenta saiu da Visão na semana seguinte, e a transferência morreu ali.




Além de generoso e com o dom de professor, Zuenir também era craque nas pautas. Suas pautas que resultaram nas reportagens em livros pelos quais ele está sendo lembrado são prova disso.




No meu caso, a pauta que ninguém pensou e era um grande achado ocorreu numa reunião política de empresários, a IV Conclap - Conferência das Classes Produtoras - em fins de 1977. Em 1978, haveria eleição indireta para presidente.




Eu fui enviado ao Rio para cobrir a Conclap, sob as ordens de Zuenir. Zuenir inventou uma enquete com os participantes, centenas, talvez perto de mil, empresários de todo o país.




Apareceu como vitorioso um nome meio desconhecido, o general Euler Bentes. Bentes acabou sendo o candidato do partido de oposição permitido, o MDB, na eleição do ano seguinte. Perdeu para o general Figueiredo, candidato do Arena, o partido do governo militar.




Foi, afinal, um grande furo da Veja, fruto de uma pauta de um jornalista genial.




Meu abraço sentido à Mary, filhos, netos e legião de amigos e afilhados profissionais.

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José Paulo Kupfer

Muitos reverenciando, com absoluta razão, o jornalista Zuenir Ventura, que fez passagem nesta terça-feira (22), depois de bem vividos 95 ano...