sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Cora Ronai


Ontem escrevi no Globo comentando como é dura a vida de quem escreve coluna semanal num país como o Brasil, onde escândalos e realidade mudam a cada 24 horas. Nem se eu tivesse coluna diária daria mais conta; as prioridades se embaralham, os sentimentos são atropelados.
No dia 26 de agosto, uma geleira se desprendeu no Himalaia e levou vilarejos inteiros. Os mortos já passam de mil e trezentos; os desaparecidos, de cinco mil. Vi vídeos de gente morta, bichos mortos, pedaços de gente morta, gente viva tirando os brincos de gente morta — porque a gente viva precisa continuar viva.
Viajei de carro do Nepal para o Tibete em 2011. Me apaixonei por aquelas montanhas, pelas pontes precárias sobre os despenhadeiros, pelas mulheres carregando o mundo enquanto os homens fumavam, acocorados e contemplativos.
Se eu morasse na Suíça, teria escrito sobre o vale do Trishuli.
Mas moro no Brasil. Na noite anterior, um estudante da UFRJ foi arrancado de uma sala e linchado por uma camiseta de mau gosto que uma turma decidiu ser apologia ao nazismo. Violência inaceitável em qualquer lugar, mas imperdoável numa universidade, onde deveria haver diálogo.
Há vídeos.
E há alunos e professores defendendo os agressores.
Escrevi sobre a UFRJ. E imaginei que agora, enfim, escreveria sobre o apocalipse no teto do mundo.
E aí, pronto: STF.
Um espetáculo de autodestruição, um conto moral sobre homens sem moral, sobre uma instituição que fracassou e um país que perdeu definitivamente a vergonha na cara.
Lamento pelo digno Ministro Edson Fachin, que preside aquela casa desmoralizada; lamento pela Ministra Cármen Lúcia, que só nos dá motivos de orgulho; e lamento sobretudo pelo Brasil, que há tempos se afoga como os vilarejos do Nepal, numa enxurrada de lama e dejetos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Um ato terrorista q não se consumou

 *Pela primeira vez em mais de 20 anos, alguém tentou sequestrar um avião com destino a Israel.*  _Milagrosamente, o agressor, um piloto de ...