terça-feira, 6 de outubro de 2026

Ódio autorizado

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 *Ódio autorizado* 


Alex Pipkin, PhD em Administração e Consultor Empresarial


"Aconteceu no Bom Fim.

Não em Berlim, 1938. Em Porto Alegre, 2026. No corredor de um supermercado.


Uma jovem berrava "sionistas, genocidas, vermes".

Um homem parou. Não se escondeu. Disse: "Eu sou judeu e sou sionista".

Foi o suficiente para liberar o esgoto.

"Verme." "Nazista." "Judeu de merda."


Veio a ameaça. Depois, a ordem de despejo com o “vai embora daqui”.

E as pessoas aplaudiram.

É aqui que a gente apodreceu.

Nunca mais?


Quando "judeu de merda" é gritado em público e a resposta é aplauso, o problema já não é só quem grita. É quem bate palma e ainda se acha moralmente superior.


Existe uma militância que não sabe nada sobre judaísmo. Nada sobre sionismo. Nada sobre Israel. Menos ainda sobre Oriente Médio.

Mas sabe de cor quem tem que odiar hoje.


Estudar dá trabalho. Honestidade intelectual também. Pertencer é fácil. E, para muita gente, pertencer importa muito mais do que pensar.

A tribo te entrega três palavras, aponta o inimigo e te dá um certificado de gente boa. Você terceiriza a consciência, humilha o vizinho e volta pra casa achando que salvou o mundo. Horror.


Goebbels conhecia essa engenharia. Primeiro você transforma o judeu em verme. Depois aparece o idiota útil convencido de que esmagar verme é virtude.


Não sei o que aquela mulher pensa sobre as atrocidades contra civis em 7 de Outubro. Sei o que demonstrou ali.


Diante de um judeu que nunca tinha visto, ela já sabia exatamente como tirar a humanidade dele.

A barbárie não precisa de tanque. Precisa de voluntários.


Chega de covardia semântica.

Criticar Netanyahu é política. Debater Gaza, com fatos e dados, é legítimo e necessário.

"Judeu de merda" é antissemitismo.

Puro. Cru. Nojento.


Se fosse "preto de merda" ou "viado de merda", a indignação seria imediata e ruidosa.

Mas quando é judeu, pode. Basta colar "Palestina Livre" por cima do preconceito e o ódio ganha certificado de virtude.


Chega de nota de repúdio.

Eu quero B.O., investigação e processo. Com o crime provado, quero condenação na forma da lei. 


No Brasil, antissemitismo pode configurar crime de racismo. Racismo é imprescritível.

Digo honestamente. Não sei como reagiria se alguém me chamasse de "judeu de merda" nessas circunstâncias. Não partiria para a violência. Isso eu sei. Mas também não iria embora. 

Chamaria a polícia. Registraria ocorrência. Iria até o fim. Não deixaria aquilo morrer no corredor de um supermercado como se nada tivesse acontecido.


Há uma hora para desprezar o insulto. E há uma hora em que desprezá-lo significa ajudar a normalizá-lo.

Essa hora passou. Transbordou.

Sou judeu.

Não vamos baixar a cabeça. Não vamos pagar humilhação como pedágio para existir. Não vamos recuar um centímetro do Bom Fim, de Porto Alegre ou do Brasil.


O ódio já perdeu a vergonha.

Agora vai ter que aprender a ter medo da lei. Não há outra saída.

Porque tolerância com o intolerável também é uma forma de autorização."

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