sexta-feira, 25 de setembro de 2026

BDM Matinal Riscala

*Rosa Riscala: Petróleo reacende pressão sobre juros globais*

… A escalada do petróleo volta a ditar o humor dos mercados nesta 6ªF, depois de o Brent superar US$ 106 com o impasse entre Estados Unidos e Irã e novos sinais de tensão no Oriente Médio. O choque de energia já endurece o discurso dos BCs e levou os Treasuries a máximas de décadas, enquanto emergentes sentem a saída de capital. No Brasil, o IPCA-15 testa hoje as apostas em novos cortes da Selic, com previsão de aceleração a 0,53%, enquanto repercute o Datafolha, que mostrou Lula numericamente à frente de Flávio Bolsonaro, mas empate técnico no 2º turno. Na reta final da campanha, Lula anuncia ainda medidas contra as bets e um programa para dívidas das famílias.

A PRESSÃO DO PETRÓLEO – Sem horizonte para o fim da guerra no Oriente Médio, o petróleo retomou a trajetória de alta e reforçou os temores de inflação mais persistente e juros elevados por mais tempo nos Estados Unidos e na Europa.

… O Brent/dezembro subiu 3,41% nesta quinta-feira, a US$ 106,60, acumulando quase 4% na semana. O WTI avançou 2,65%, a US$ 94,61.

… O petróleo chegou a se afastar das máximas após a agência Reuters informar que negociadores americanos e iranianos discutem em Nova York um acordo em etapas para encerrar o conflito e reabrir o Estreito de Ormuz. Mas o alívio não se sustentou.




… Pelo desenho em negociação, Teerã permitiria gradualmente a retomada da navegação por Ormuz em troca do fim do bloqueio econômico americano e de possível acesso a ativos congelados. O principal obstáculo é que nenhum dos lados quer fazer a primeira concessão.




… O impasse se aprofundou após Donald Trump e o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, endurecerem o tom na Assembleia Geral da ONU e mais uma rodada de negociações em Nova York terminar sem acordo nesta semana.




… Já à noite, Pezeshkian adotou tom mais conciliador. Em entrevista à Fox News, disse que o Irã não deseja prolongar a guerra e está disposto a fechar um acordo com Trump, afirmando que cabe aos Estados Unidos decidir se querem fazer o mesmo.




… Enquanto a diplomacia tenta avançar, aumentaram os sinais de escalada em outra frente importante para a oferta de energia.




… Os houthis afirmaram ter lançado mísseis e drones contra instalações da Saudi Aramco em Yanbu, no Mar Vermelho, e contra um “alvo sensível” em Riad. Mais cedo, a coalizão liderada pelos sauditas informou ter interceptado seis mísseis balísticos disparados contra Yanbu e Taif.




… A pressão da energia ajudou a levar os rendimentos dos Treasuries a máximas de décadas e reforçou as apostas em nova alta dos juros pelo Fed, enquanto o dólar ganhou força e a aversão ao risco voltou a contagiar os ativos no Brasil (leia abaixo).




XI E TRUMP – A guerra no Oriente Médio também esteve no centro do encontro entre Donald Trump e Xi Jinping na Casa Branca. O presidente americano classificou a reunião como “ótima”, mas não detalhou os resultados.




… Mais tarde, durante jantar de gala, Xi afirmou que os dois países alcançaram “amplo acordo sobre diversas questões” e disse que a relação bilateral atingiu um “novo marco histórico”, também sem anunciar medidas concretas.




… Segundo a agência Xinhua, Xi defendeu a retomada das negociações entre Washington e Teerã e pediu prudência na questão de Taiwan. IA, segurança e comércio também estiveram na pauta, após a trégua comercial entre os dois países ter sido novamente prorrogada (até 10/1).




… Os magnatas da tecnologia americana compareceram ao jantar. Entre os convidados, estiveram Jeff Bezos (Amazon), Elon Musk (X e SpaceX), Jensen Huang (Nvidia), Tim Cook (Apple) e Sam Altman (OpenAI).




BCS EM ALERTA – O risco de um choque de energia mais prolongado preocupa não só os dirigentes do Fed, como também do BCE. Isabel Schnabel afirmou que os efeitos da guerra estão se mostrando mais persistentes que o esperado e já atingem, além do petróleo, diesel e gás.




… No BoE, Clare Lombardelli manifestou preocupação, dizendo que, quanto mais prolongado o choque de energia, maior o risco de efeitos secundários sobre a inflação e a necessidade de responder com alta dos juros.




… Já a Capital Economics alertou que a disparada dos juros dos Treasuries começa a provocar saída de capital dos mercados emergentes. A estimativa de fluxo líquido passou de entrada de US$ 1 bilhão no fim de agosto para saída de US$ 20 bilhões, na soma móvel de um mês.




… A consultoria também alertou para a escassez de diesel e avalia como provável alguma restrição às exportações americanas do derivado antes das eleições de meio de mandato, em novembro, o que poderia agravar o choque.




BRASIL – Aqui, estão consolidadas as apostas em pelo menos mais um corte da Selic. O RPM divulgado ontem reforçou a percepção de que o BC ainda vê espaço para dar continuidade ao ciclo de afrouxamento, embora condicionado à evolução dos dados.




… Das 32 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast, 26 esperam corte de 0,25 ponto em novembro, para 13,50%, enquanto seis projetam manutenção. A mediana prevê ainda outro corte de 0,25 ponto em dezembro, levando a Selic a 13,25% no fim do ano.




… Mas petróleo, câmbio e eleições podem interferir nesse roteiro. Economistas destacaram que o Relatório de Política Monetária deu peso relevante aos choques de oferta e aos riscos de efeitos mais persistentes sobre a inflação.




… Na entrevista para comentar o RPM, Galípolo reforçou que o BC segue dependente dos dados e disse que a precificação dos cortes da Selic vem mudando gradualmente, à medida que os indicadores apontam desaceleração da economia.




… Disse ainda que o Banco Central prepara medidas para limitar a oferta “predatória” de crédito, especialmente de linhas mais caras oferecidas a consumidores que poderiam ter acesso a modalidades mais adequadas.




… Segundo Galípolo, as mudanças não ficarão restritas ao cartão de crédito e serão implementadas de forma progressiva, com medidas de prevenção, transparência e maior rigor na contratação dessas operações.




FISCAL – Já o Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias, divulgado também nesta quinta, trouxe pela primeira vez no ano projeção de superávit das estatais federais em 2026, de R$ 2 bilhões. No relatório anterior, a estimativa era de déficit de R$ 95 milhões.




… O resultado, porém, considera R$ 10 bilhões relacionados ao plano de reestruturação dos Correios e R$ 5 bilhões em investimentos do PAC excluídos da meta. Sem essas exceções, a projeção indica déficit de R$ 11,1 bilhões.




… Para os Correios, a estimativa de déficit neste ano melhorou de R$ 7,45 bilhões para R$ 6,79 bilhões.




ELEIÇÃO PESA – Além do estresse externo, o cenário eleitoral voltou a pressionar os ativos brasileiros nesta quinta-feira, em meio a novas informações sobre as ligações de Flávio Bolsonaro com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.




… O dólar chegou às máximas, na casa de R$ 5,20, e os juros futuros acentuaram a alta após o Estadão revelar que Flávio tentou contato telefônico com Vorcaro quatro dias antes da prisão do ex-controlador do Banco Master, em novembro do ano passado.




… Também veio à tona que o candidato do PL viajou da Flórida a Brasília, em 2025, em um avião que tinha Vorcaro entre os cotistas.




MAIS UM – Ontem à noite, o caso Vorcaro ganhou mais uma frente. Segundo a Veja, mensagens encontradas pela PF no celular do ex-banqueiro indicam uma relação de proximidade com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.




… As conversas entre os dois incluem referências a encontros privados e articulações políticas. A Veja relata ainda que Vorcaro ofereceu delação mencionando supostos pagamentos a Alcolumbre, que nega as acusações.




DATAFOLHA – Após o fechamento, a nova pesquisa mostrou o presidente Lula com 40% das intenções de voto no primeiro turno, ante 36% de Flávio Bolsonaro. Na pesquisa anterior, o presidente tinha 39% e o candidato do PL, 36%.




… No segundo turno, Lula aparece com 47% e Flávio, com 45%. Há uma semana, os placares eram de 46% e 44%, respectivamente.




… A rejeição dos dois candidatos oscilou de 47% para 45%, mantendo o empate nesse quesito. Já a avaliação ruim/péssima do governo Lula recuou de 42% para 40%, enquanto a ótima/boa permaneceu em 34%. O Datafolha ouviu 2.002 eleitores.




… Outra pesquisa divulgada nesta quinta-feira, a Futura/100% Cidades mostrou Flávio com 49,4% contra 43,7% de Lula em eventual segundo turno. No primeiro turno, Flávio aparece com 40,4% e Lula, com 38,4%, em empate técnico.




VOTO ÚTIL, BETS E MERCADO – Na reta final da campanha, os dois principais candidatos intensificam suas estratégias para tentar ampliar votos já no primeiro turno. Flávio prega o voto útil entre eleitores da direita, mirando principalmente os apoiadores de Caiado e Zema.




… Já Lula deve assinar em São Paulo uma MP proibindo apostas esportivas online e cassinos digitais no País, em anúncio previsto para as 17h. A medida entra na agenda após pesquisa Atlas/Bloomberg indicar que 75% dos entrevistados apoiam a proibição das bets.




… À noite, o presidente participa de jantar com empresários e banqueiros. Entre os convidados estão executivos de Vale, Itaú, BTG Pactual, Petrobras, JBS, Banco do Brasil, Bradesco e Santander, além de representantes de grandes grupos empresariais.




LEILÃO DE DÍVIDAS – O presidente Lula também deve anunciar nesta sexta-feira um novo programa para limpar o nome de famílias inadimplentes, por meio da compra de dívidas antigas com recursos do Tesouro Nacional.




… O programa funcionaria como um leilão, no qual o governo assumiria débitos que podem chegar a cinco anos de atraso e já são considerados irrecuperáveis pelas instituições financeiras, com deságio de 95% ou mais.




… O desenho e os prazos ainda não estão definidos. A proposta, que até a semana passada estava em estágio inicial e era prevista apenas para 2027, teve sua elaboração acelerada nos últimos dias.




… Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, a medida será executada dentro do Orçamento, sem comprometer a trajetória fiscal.




IPCA-15 – Principal indicador do dia (9h), a inflação preliminar de setembro é mais um teste importante para as apostas na Selic.




… A mediana do Projeções Broadcast aponta alta de 0,53%, após queda de 0,40% em agosto, com estimativas entre 0,45% e 0,66%. Em 12 meses, a inflação deve acelerar de 4,24% para 4,31%.




… Boa parte da virada deve refletir a saída do efeito do bônus de Itaipu sobre as tarifas de energia. Também são esperadas pressões em alimentação, com altas de arroz, feijão, leite e carnes, e em transportes, puxados pelas passagens aéreas.




… A média dos núcleos deve acelerar de 0,23% para 0,28%, enquanto os serviços passam de 0,07% para 0,27%. Já os serviços subjacentes devem aliviar de 0,50% para 0,27%.




… Os combustíveis ainda devem mostrar leve queda nesta leitura, mas economistas já alertam para pressão nos índices seguintes, em meio à nova escalada do petróleo.




MAIS AGENDA – Além do IPCA-15, saem o terceiro IPC-Fipe de setembro e dois indicadores da FGV, INCC-M e Confiança da Construção (8h).




… Nos Estados Unidos, a agenda volta a testar a combinação de atividade e inflação que vem pressionando os Treasuries. Às 9h30, as encomendas de bens duráveis de setembro devem cair 0,3%, após alta de 1,1% em agosto.




… Às 11h, sai a leitura final de setembro do sentimento do consumidor da Universidade de Michigan, com previsão de queda a 47,8, de 51,7 em agosto. Atenção também às expectativas de inflação, que estavam em 4% para um ano e 3,3% para cinco anos.




… A agenda de BCs começa cedo. Às 6h15, John Williams, do Fed de NY, e Andrew Bailey, do BoE, participam de conferência em Oxford. Às 15h, Beth Hammack, do Fed de Cleveland, e Boris Vujcic, do BCE, participam de evento sobre inflação.




… Os mercados financeiros ficaram fechados na China continental, em Taiwan e na Coreia do Sul por feriado.




OMC – Brasil e Estados Unidos iniciam nesta sexta-feira, em Genebra, consultas formais na OMC sobre o novo tarifaço de até 37,5% imposto pelo governo Trump às exportações brasileiras.




… A reunião abre o prazo de 60 dias para uma tentativa de acordo antes que o Brasil possa pedir a instalação de um painel. A primeira rodada será técnica e não terá a participação da China, que pediu para integrar as consultas, mas teve a solicitação recusada pelos Estados Unidos.




CENÁRIO DE PERDE-PERDE – Emparedado de um lado pela fuga do risco global, com o rali do petróleo e a inflação persistente, e de outro pelas novas revelações do caso Master, o mercado doméstico operou sem válvula de escape.




… O estouro das novidades de Vorcaro é particularmente sensível aos negócios, quando parte dos investidores teme que a candidatura de Flávio tenha atingido um platô nas intenções de voto, estagnado no empate técnico.




… Operando no susto, o Ibovespa queimou quase 2 mil pontos e entregou os 184 mil pontos, o miolo e a ponta longa do DI chegaram a disparar 15 pontos no auge do nervosismo e o dólar virou para alta no acumulado de setembro.




… Dá para dizer que o câmbio continua comportado para um período em que se espera maior efervescência eleitoral. Só não dá para negar que o fato de o real ter zerado os ganhos no mês é um indicativo de cautela.




… O Citi manteve a recomendação “overweight” (exposição acima da média do mercado) para a moeda brasileira nesta reta final para o primeiro turno da eleição, mesmo concordando que a campanha é o principal fator de risco.




… Segundo o relatório de estratégia para mercados emergentes divulgado nesta quinta-feira pela instituição financeira, os dados de fluxo continuam indicando entradas nas últimas semanas, apesar da incerteza política.




… Seja como for, o dólar à vista passou a subir ligeiramente (+0,26%) em setembro. Ontem, registrou alta de 0,49%, embora não tenha ultrapassado R$ 5,20 no fechamento, negociado a R$ 5,1937, na maior cotação em quase um mês.




… O envolvimento de Flávio no círculo do Master potencializou o impacto da pressão externa nos juros futuros.




… No fechamento, o DI para Janeiro de 2026 marcava 13,565% (contra 13,541% no ajuste anterior); Jan/28, 13,675% (de 13,573%); Jan/29, 13,880% (de 13,787%); Jan/31, 14,045% (de 13,965%); e Jan/33, 14,105% (de 14,044%).




BALA NA AGULHA – Na rotina hawkish, os Fed boys têm falado a mesma língua e o que se interpreta é que está praticamente contratado pelo menos mais um aperto dos juros antes de o ano acabar, com a inflação que não alivia.




… John Williams não endossa um novo aumento já em outubro, mas vê expectativa “razoável” de outra alta de juros em 2026 e reconhece que o grande desafio do Fed é levar a inflação de volta à meta de 2% “em tempo hábil”.




… Em defesa de um aperto monetário, Anna Paulson diz que a inflação subjacente segue “teimosamente alta”, diante da economia resiliente e do impacto da expansão da Inteligência Artificial nas pressões inflacionárias.




… Para Beth Hammack, os choques de oferta representam um risco relevante para a política monetária.




… O discurso conservador dos dirigentes do Fed é compatível com o petróleo a US$ 106 e com a força da atividade econômica, que têm mantido os rendimentos dos Treasuries esta semana nas máximas em duas décadas.




… A taxa da Note de 10 anos raspou em 5,20% ontem. Tocou em 5,199% na máxima intraday e não fechou longe desta marca, a 5,195% (contra 5,105% na véspera), no nível mais elevado em quase vinte anos, desde julho de 2007.




… No pico da sessão, o rendimento do T-Bond de 30 anos atingiu 5,484%, maior nível desde 2004, para fechar a 5,479% (de 5,395% no pregão anterior). O retorno da Note de 2 anos subiu para 4,920%, contra 4,891% no ajuste.




… Contaminado pela tensão, no câmbio, o índice DXY superou o maior nível em oito semanas. Ampliou os ganhos (+0,18%) para 101,285 pontos, com os Fed boys não deixando a menor dúvida sobre a extensão do ciclo de aperto.




… O euro fechou de lado (-0,07%), a US$ 1,1381, a libra perdeu 0,18%, a US$ 1,3221, e o iene caiu a 158,86 por dólar.




O RINGUE DO IBOVESPA – Durante evento da Monte Bravo Experience, ontem, o CEO da Verde Asset, Luis Stuhlberger, projetou chance de 60% de vitória de Flávio e previu uma “porrada insana” na bolsa se isso acontecer.




… Pegou mal, no entanto, a intimidade revelada entre o senador e Vorcaro. A novidade terá seu impacto eleitoral medido pelas próximas pesquisas e conturbou o ambiente no Ibovespa, que caiu 1%, aos 183.965,91 pontos.




… As blue chips financeiras, que já sofriam os efeitos colaterais da pressão do petróleo nos juros futuros, tiveram que administrar o estresse adicional de que a candidatura da chapa da direita possa sofrer um abalo com o caso Master.




… BB ON recuou 2,84% (R$ 21,54), BTG unit perdeu 1,49% (R$ 62,70), Bradesco PN caiu 1,39% (R$ 17,78) e Itaú PN, -1,18% (R$ 41,87). A exceção no segmento foi Santander unit, que registrou valorização de 0,51%, para R$ 29,60.




… Petrobras subia em torno de 1% antes de piscar a notícia sobre o contato de Flávio com Vorcaro, que virou os papéis da estatal para queda, na contramão do petróleo: ON -0,86%, na mínima de R$ 54,12; e PN -0,69% (R$ 49,26).




… Vale caiu firme (-1,15%; R$ 70,66), ampliando a desvalorização de ontem, apesar do minério de ferro estável.




… RD Saúde amargou a segunda pior queda entre as ações que compõem a carteira do Ibovespa, depois de o Mercado Livre anunciar a entrada na venda de remédios com receita e entregas ultrarrápidas, em até uma hora.




… Em Nova York, as bolsas driblaram bem a escalada do petróleo e dos juros dos Treasuries. O Dow Jones caiu só 0,31%, a 51.349,98 pontos. S&P 500 (-0,02%; 7.704,13 pontos) e Nasdaq (+0,01%; 26.939,37 pontos) ficaram de lado.




CIAS ABERTAS NO AFTER – Justiça congelou o envio de recursos da BRASKEM para a subsidiária no México (Idesa), em decisão que pode tirar subsidiárias da empresa da proteção contra credores, segundo fontes do Broadcast.




AXIA captou R$ 1,4 bilhão em debêntures incentivadas, com prazo de 20 anos e taxa de 7,8934% ao ano. Recursos financiarão parques eólicos do Complexo Coxilha Negra.




LIGHT realizará emissão de R$ 1 bilhão em notas comerciais, com vencimento em setembro de 2029 e remuneração de DI + 4,75% ao ano. Recursos serão destinados à concessão de distribuição de energia.




ENEVA. Aneel afirmou que rejeitou acordo sobre térmicas por não ter segurança quanto aos benefícios apresentados. Companhia retomará conversas em busca de nova solução.




RENOVA ENERGIA elegeu Alexandre Marcelo Marques Cruz como presidente do conselho de administração e conselheiro independente.




AZEVEDO & TRAVASSOS ENERGIA produziu 133 boe/d em agosto, ante 154 boe/d em julho. Barrinha e Porto Carão deixarão de constar nos boletins após encerramento do acordo com a Brava.




MAGAZINE LUIZA. S&P reafirmou rating brAA-, com perspectiva estável, citando expectativa de melhora operacional e redução gradual da alavancagem.




AZZAS 2154. Farm Rio planeja ampliar presença na América Latina em 2027, com franquias e parceiros locais, segundo a Bloomberg Línea. Marca abriu recentemente sua primeira loja na Colômbia.




MOVIDA emitiu R$ 1,275 bilhão em debêntures, com prazo de seis anos e taxa de DI + 2,50%. Recursos serão usados para fins corporativos e gestão de passivos.




BLAU pagará R$ 17,5 milhões em JCP, equivalentes a R$ 0,07576 por ação. Pagamento será em 8/10, considerando posição acionária de 29/9.




ROMI pagará R$ 26 milhões em JCP, equivalentes ao valor líquido de R$ 0,231 por ação. Pagamento será feito até dezembro de 2027, com papéis “ex” em 30/9.




BTG PACTUAL lançou carteira de reserva de valor que combina bitcoin e ouro tokenizado, com rebalanceamento trimestral conforme a volatilidade dos ativos.

Bankinter Matinal Portugal

Análise Bankinter Portugal

NY 0,0% US tech -0,1% US Semis -0,3% UEM -0,5% España -0,4% VIX 15,7% Bund 3,60% T-Note 5,20%. Spread 2A/10A USA=+28pb B10A: ESP 4,08% PT 3,98% ITA 4,54% FRA 4,71% Euribor 12m 3,31% USD 1,138 JPY 180,8/€ 158,2/$. Ouro 4.275$ Brent 106,6$ WTI 94,6$. Bitcoin +0,1% (84.343$) Ether +0,6% (2.687$).

SESSÃO: Sessão previsivelmente de mais a menos nas bolsas… Os futuros vêm em alta (Europa +0,6%, Nova Iorque plano), embora com o petróleo em 105 $/barril, as yields das obrigações em máximos e um calendário macro intenso na próxima semana, é difícil que vejamos fortes avanços na sessão.

Ontem, o mais relevante foi novamente a geoestratégia. Petróleo +3,4% até 107 $/barril, depois dos novos ataques dos huthies a bases militares sauditas. Como consequência, as yields aumentaram de forma geral: T-Note +8 p.b. até 5,20%, obrigação 30A americano 5,48% (nível mais alto desde 2004), Bund +5 p.b. até 3,60%...

Na frente geopolítica, o encontro Trump/Xi ocorreu mais ou menos como o esperado: tom construtivo, mas sem novidades nos principais pontos de conflito (IA, Taiwan, terras raras, Irão). Foi uma espécie de “bola para a frente” após prolongar a trégua comercial em dois meses, até 10 de janeiro de 2027.

Para a sessão de hoje, quase não há referências na frente macro. Apenas os Pedidos de Bens Duráveis nos EUA, às 13:30 h (-0,3% m/m vs. +1,1% ant.), que dificilmente serão capazes de dirigir o mercado. Portanto, o foco do mercado está já na próxima semana, em que a intensidade no plano macro será elevada. Inflações na Europa (+3,5% vs. +3,2% ant. com a subjacente +2,6% vs. +2,4%...), Deflator Consumo Privado PCE (leitura subjacente +3,4% vs. +3,3%) e resultados de emprego (Payrolls 104k vs. 162k)…

CONCLUSÃO: Sessão de menos a mais e à espera de novidades no M. Oriente.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Pai de uma criança de 7 anos



Carta aberta à Direção do Colégio Santa Cruz




Sobre um livro e uma criança de sete anos

São Paulo, 23 de setembro de 2026.




À Direção do Colégio Santa Cruz,




Escrevo como pai de uma aluna da Educação Infantil do Santa Cruz, e em nome próprio. No dia 22 de setembro, um aluno de sete anos do 1º ano voltou para casa com uma leitura indicada pela professora: Che Guevara para meninas e meninos, da Coleção Anti-heróis, com texto de Nadia Fink e ilustrações de Pitu Saá, edição brasileira da Sur Livro.




O livro apresenta Che como um libertador que conquistou um mundo mais justo e ensina à criança que "Che Guevara era um homem muito corajoso, sonhador e de alma livre". A Cuba que ele ajudou a construir aparece como um lugar onde ninguém passa fome, porque tudo é dividido. A autora disse ao jornal La Capital, de Rosário, que o livro fala claro com as crianças e não distorce a história. Sobre o restante, o livro não diz nada.




O restante está documentado, e boa parte foi escrita por ele. Na Sierra Maestra, em fevereiro de 1957, Che matou com um tiro na cabeça Eutimio Guerra, um guia camponês acusado de traição, e descreveu a execução no próprio diário. De janeiro a junho de 1959, comandou a fortaleza de La Cabaña e decidiu os recursos dos condenados pelos tribunais revolucionários, que julgavam sem devido processo. Foram fuziladas sob a sua jurisdição 55 pessoas, segundo Jon Lee Anderson, autor da biografia de referência, e 105, segundo o Cuba Archive. Na Assembleia Geral da ONU, em dezembro de 1964, disse: "Fusilamientos, sí, hemos fusilado, fusilamos y seguiremos fusilando mientras sea necesario." Na mensagem à Tricontinental, de 1967, defendeu o ódio intransigente ao inimigo como fator de luta, capaz de transformar o combatente em uma "máquina de matar".




Nas notas de viagem de 1952, que deram origem a Diários de motocicleta, escreveu que os negros de Caracas haviam conservado a pureza racial graças ao pouco apego ao banho, e opôs "el negro indolente y soñador" ao europeu, com sua tradição de trabalho e poupança. O filme deixou a passagem de fora. Em 1963, na embaixada cubana em Argel, encontrou sobre uma mesa o Teatro completo de Virgilio Piñera, dramaturgo cubano e homossexual, atirou o livro longe e quis saber quem lia aquele maricón. Juan Goytisolo estava presente e contou o episódio em suas memórias. Régis Debray, que conviveu com ele, escreveu que Che, como Fidel, nunca tolerou homossexuais por perto.




Confrontei esse registro com o que o Santa Cruz escreve sobre si. O Plano Diretor de 2019 diz que a escola quer formar cidadãos capazes de reconhecer e fazer valer os direitos humanos, de se abrir à diversidade racial e de gênero e de repudiar qualquer tipo de discriminação [pp. 4–5]. Diz também que, ao tratar de temas complexos, a escola não se exime de transmitir valores humanos e cristãos, entre eles o respeito ao próximo e a tolerância. Desde 2021, o programa Santa Plural reserva vagas e bolsas para crianças negras e indígenas a partir do G4 e declara como objetivo a educação antirracista. Em 2025, a escola suspendeu 34 alunos do ensino médio por mensagens racistas e homofóbicas em um grupo de WhatsApp — e fez bem. Neste ano, indicou a um aluno de sete anos a biografia elogiosa de um facínora que escreveu que os negros eram indolentes e que desprezava homossexuais. Penso nas famílias que o Santa Plural trouxe para a escola. Se uma delas perguntar o que o homem do livro do 1º ano escreveu sobre os negros de Caracas, o que a escola responderá?




Não peço que Che desapareça do Santa Cruz. No ensino médio, com o registro completo diante dos alunos, estudá-lo é coerente com o livre-pensar e com a diversidade de ideias que a escola defende. Quase ninguém chega às próprias crenças pela lógica, e quase ninguém sai delas por ela. Aos sete anos, a admiração chega antes de qualquer argumento; quando os fatos vierem, no ensino médio, encontrarão a crença já defendida. O Plano Diretor, quando fala em formar pensamento autônomo, pressupõe um leitor capaz de discordar do que lê.




Em casa, minhas filhas aprendem a medir as pessoas pelo que fizeram. O livro mede Che pelo que ele sonhou. E ignora o que fez, falou, escreveu e quem foi. Sei também o que é escolher o que uma criança dessa idade pode ler. Adaptei para as duas um livro de histórias de filósofos: na versão da mais nova, de seis anos, a morte de Sócrates fica de fora; na da mais velha, de treze, ele bebe a cicuta. Nessa idade, pode-se omitir. O que um livro para crianças não pode é afirmar o que as fontes negam — e este afirma que em Cuba ninguém passa fome, em um país que distribui comida por caderneta de racionamento desde 1962.




Proponho um teste. A escola indicaria a uma criança de sete anos uma biografia ilustrada e elogiosa de Augusto Pinochet, ou de um general da ditadura brasileira, que o apresentasse como herói de alma livre? Imagino que não, e com razão. Qual é, então, o critério que admite Che Guevara? O padre Paul-Eugène Charbonneau, que a própria escola trata como formador da sua identidade pedagógica, aplicava a mesma régua à esquerda e à direita. Em Cristianismo, sociedade e revolução, dizia estar à esquerda no que ela tem de justiça social e recusava a esquerda que troca a democracia por uma ditadura de tipo soviético, com um aparato policial que destrói as liberdades.




Em junho de 1961, o regime que Che ajudou a construir nacionalizou o ensino em Cuba e tomou cerca de 350 escolas católicas. Três meses depois, deportou 131 padres no navio Covadonga, entre eles canadenses, como os fundadores do Santa Cruz. Em Cuba, escolas como esta não passaram de 1961.




Sei qual será a resposta: ele lutou contra uma ditadura, e era uma guerra. O argumento prova demais. Se a guerra justifica os fuzilamentos de La Cabaña, justifica também os crimes pelos quais os policiais e militares de Batista foram fuzilados. E o projeto do Santa Cruz, lido nos seus próprios documentos, recusa que os fins autorizem os meios.




Peço à Direção quatro providências:




i. que explique por qual critério pedagógico o livro foi indicado a um aluno do 1º ano e se a indicação passou pela coordenação;

ii. que retire o título das leituras dessa faixa etária;

iii. que torne público o critério para biografias de figuras políticas na Educação Infantil e no Ensino Fundamental 1; e,

iv. que responda às famílias por escrito.




Minha filha continua no Santa Cruz porque confio na escola que o Plano Diretor descreve, e é a essa escola que escrevo. Um aluno de sete anos levou para casa um livro que diz que Che Guevara era corajoso, sonhador e de alma livre. Quem o indicou tinha a obrigação de conhecer o resto.




Atenciosamente,




Daniel Caldeira

Pai de uma aluna da Educação Infantil do Colégio Santa Cruz

Augusto de Franco

Democracia não é só haver eleições.

Augusto de Franco estuda há anos e escreveu Como Nascem as Democracias, postou:
"Há um razoável consenso (entre os democratas liberais) sobre quais são os critérios que se aplicam à democracia como regime político ou modo político de administração do Estado, no caso atual, do Estado-nação moderno.

Pode-se listar dez critérios para caracterizar um regime democrático em sua plenitude (liberal):

1 - Liberdade de associação, liberdade de expressão e liberdade de imprensa (existência de fontes alternativas de informação).
2 - Proteção dos direitos individuais e das minorias contra a tirania do Estado e a tirania da maioria (recusa ao majoritarismo e ao hegemonismo).
3 - Eleições limpas e periódicas, sufrágio universal, governos e parlamentos eleitos.
4 - Rotatividade ou alternância no governo (não apenas de pessoas, mas também de partidos ou forças políticas).
5 - Cultura política pluralista, oposições políticas democráticas reconhecidas e valorizadas como players legítimos e fundamentais para o bom funcionamento do regime.
6 - Publicidade ou transparência nos atos do governo (capaz de ensejar uma efetiva accountability).
7 - Instituições estáveis, equilíbrio entre os poderes e sistemas atuantes e efetivos de freios e contrapesos.
8 - Império da lei e judiciário independente (e autocontido em suas atribuições).
9 - Forças armadas subordinadas ao poder civil.
10 – A sociedade controla o governo e não o contrário (a qualidade da democracia é medida pelos limites e condicionamentos impostos pela sociedade às instituições do Estado - o que pressupõe recusa ao estatismo)."

José Pastore


José Pastore resume a tese do livro de Joaquim Falcão: a crise da democracia brasileira nasce também dentro do Estado, quando autoridades dos três Poderes passam a servir a interesses próprios e de seus aliados. Para o autor, essa captura forma uma oligarquia capaz de se proteger mutuamente.

Pastore descreve um equilíbrio de ameaças: parlamentares têm pedidos de impeachment contra magistrados, enquanto magistrados têm ações contra parlamentares. Na sua leitura, essa dependência favorece a autoproteção e dificulta a responsabilização. Ele atribui a esse ambiente um custo econômico: a imprevisibilidade afasta investimentos, reduz o crescimento e limita a criação de bons empregos.

A distinção central do artigo é entre legalidade e legitimidade. Uma autoridade pode ocupar legalmente o cargo, mas, segundo Pastore, só conquista legitimidade quando sua atuação produz benefícios para a população. Daí sua crítica à frase “as instituições funcionam”: ele argumenta que, hoje, elas funcionam sobretudo para quem integra a rede de poder que chama de “lobbycracia”.

O título, “O Estado sou eu”, sintetiza a denúncia do autor: agentes públicos agiriam como donos das instituições que deveriam servir ao país. Sua conclusão é pessimista — enquanto prevalecer essa lógica de autoproteção, o Brasil terá dificuldade de progredir.

Grande Zu

 


Crédito oculto



*🚨🚨🚨Ação contra crime organizado atinge Banco Genial e grupo envolvido com dinheiro do filme Dark Horse*




Operação Crédito Oculto ataca esquema de lavagem de dinheiro para a compra de usinas e ocultação de imóveis da máfia dos combustíveis; defesa não foi encontrada




Promotores, policiais e auditores fiscais estão vasculhando na manhã desta quinta-feira, 24, um total de 32 locais em onze cidades de seis estados e no Distrito Federal para desbaratar o esquema de lavagem de dinheiro da máfia dos combustíveis acusada de manter ligações com o Primeiro Comando da Capital (PCC). Entre os 40 alvos da Operação Crédito Oculto estão o sócio proprietário do Banco Genial Humberto Tupinambá, o empresário Antonio Carlos Freixo Junior, o Mineiro, delator do Banco Master, e o Grupo Entre, usado pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro para enviar US$ 12,33 milhões para financiar o filme Dark Horse, a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.




A reportagem procurou a defesa dos investigados, mas não conseguiu localizá-los. O espaço segue aberto.




As buscas foram pedidas pelo Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, e autorizadas pelo juiz Sandro Nogueira de Barros Leite, da 2.ª Vara Criminal de Catanduva, e ocorrem em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Distrito Federal.




A ação está fundamentada em provas obtidas na primeira fase da Operação Carbono Oculto, como contratos, documentos, mensagens e áudios apreendidos em celulares e computadores dos investigados. Eles demonstrariam o esquema que teria permitido dissimular a fortuna dos empresários Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, o Primo, para a compra da distribuidora de combustíveis Terrana.




A empresa é do Rio de Janeiro e chegou a figurar entre as dez maiores distribuidoras do País. A aquisição pode ter custado até R$ 153 milhões, de acordo com as investigações. Beto Louco e Mohamad tentaram esconder das autoridades que eles estavam por trás da operação. Os dois estão foragidos desde a deflagração da primeira fase da Operação Carbono Oculto, em 28 de agosto de 2025, quando tiveram a prisão decretada no Paraná.




O Gaeco aprofundou as investigações sobre como a dupla de empresários usou fundos de investimentos para também esconder que são os verdadeiros proprietários de imóveis de valores multimilionários. Eles teriam continuado o esquema que já tinham com a Reag Investimentos, que geria e administrava fundos suspeitos.




A empresa do mercado financeiro foi liquidada pelo Banco Central após ser alvo da Polícia Federal na Carbono Oculto. Seu dono, João Carlos Mansur, fechou no começo do mês um acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República (PGR). A reportagem procurou a defesa de Mansur, mas não conseguiu localizá-lo. O espaço segue aberto.




De acordo com os investigadores, ”o projeto criminoso” demonstra “um intrincado esquema de lavagem de capitais com a articulação dolosa entre múltiplos agentes” – nove fundos de investimentos e 27 empresas, 16 das quais tiveram seus bens tornados indisponíveis pela decisão da 2.ª Vara de Catanduva. A Terrana teve suas atividades suspensas pela Justiça do Rio em 9 de julho. Ela é o nome fantasia da Tobrás Distribuidora de Combustíveis, uma das maiores empresas do setor, que opera nas regiões Centro-Oeste e Sudeste.




Na época em que foi adquirida, em 2024, ela tinha um faturamento mensal de R$ 445 milhões e um capital social de R$ 245 milhões. Beto Louco e Primo já enfrentavam, então, as consequências da Operação Cassiopéia, que investigou as fraudes em combustíveis praticadas pela Copape, que teve sua autorização de funcionamento revogada pela Agência Nacional do Petróleo (ANP).




Apontados como líderes da organização criminosa, Beto Louco e Primo teriam adquirido a Terrana por meio de uma sofisticada “arquitetura de lavagem de capitais”, de acordo com os investigadores, construída pelo banqueiro Humberto Tupinambá e sócio e fundador da administradora de fundos Altinvest, o advogado Rogério Garcia Peres, apontado como “operador criminoso de lavagem de capitais” da máfia dos combustíveis. Os dois teriam procurado um executivo do mercado Paulo Narcélio Simões do Amaral, que teria concordado em emprestar seu nome para duas empresas que seriam usadas na compra da distribuidora e na ocultação dos imóveis.




Procurados, Garcia Peres e Narcélio não responderam à reportagem. O espaço segue aberto.




De acordo com os promotores, o Banco Genial “se ofereceu como estrutura financeira fraudulenta para mascarar a ocultação dos valores que financiaram a compra, bem como ocultar os seus reais proprietários e em contraprestação seria remunerado pelos instrumentos contratuais dissimulados constituídos formalmente para financiar o negócio jurídico”. E o empresário Paulo Narcélio “emprestaria a sua imagem à negociação para garantir perante os vendedores e terceiros a legitimidade do negócio jurídico”.




*Mensagens no celular*




Mensagens encontradas no telefone celular de Narcélio revelam que o objetivo da fraude era impedir que grupo americano Tramp Oil, proprietário da Terrana, e a ANP soubessem que Beto Louco e Primo estavam comprando a distribuidora para manter em funcionamento as centenas de postos de gasolina abastecidos pela organização, inclusive aqueles onde integrantes do PCC lavavam o dinheiro do tráfico de drogas. Em troca, o executivo receberia 0,75% do total da operação e R$ 100 mil mensais durante os três meses que devia permanecer à frente das holdings Branson e Berna, que teriam sido idealizadas por Garcia Peres.




De acordo com as investigações, os acusados montaram três estruturas de empresas para esconder os verdadeiros donos do dinheiro. A primeira delas tinha o Fundo Celebration, administrado pela Reag. Ele possuía um único cotista, a empresa Insight participações, que estava em nome de um primo de Mohamad, Himad Mourad. A segunda era formada pelo Radford Fundo de Investimentos Multimercado, que teria sido montado e administrado pela Altinvest e, posteriormente, transferido para administração e custódia do Banco Genial, permanecendo a Altinvest como cogestora.




A Altinvest teria reestruturado os fundos de investimento da dupla Beto Louco e Primo depois que eles deixaram a Reag, em 2024. O fundo Radford tinha como cotista a usina sucroalcooleira Itajobi, no interior paulista, uma das cinco controladas pelos empresários. A usina teria sido financiada pelo Grupo Aster, de postos de gasolina, que pertencia aos dois empresários. Por meio do grupo, eles enviaram R$ 100 milhões à usina, passando antes pelas contas de duas outras empresas. A Usina recebeu ainda R$ 20 milhões da Entre Investimentos, empresa de Freixo, o delator do Banco Master.




O passo seguinte foi o “empréstimo” do dinheiro da Usina Itajobi, por meio do fundo Radford, ao banco por meio de Certificado de Depósito Bancário Vinculado (CDBV). O Genial, por sua vez, emprestou o mesmo dinheiro à Berna e à Branson por meio de um Cédula de Crédito Bancário (CCB), ocultando assim a origem do dinheiro usado para a compra da Terrana. Em tese, o banco seria pago por meio de depósitos semestrais de R$ 18,7 milhões, totalizando R$ 150 milhões. As duas empresas usaram ainda o dinheiro para comprar 100% das cotas do Fundo Derby 44 – atual Fundo Wels – e apresentaram como garantia da dívida os imóveis de outro Fundo, o Los Angeles 01, atual Lucerna.




Os promotores ainda notaram que o dinheiro recebido pela holding Branson e usado para a compra da Terrana equivalia apenas a metade do capital social da distribuidora. As provas de toda operação foram obtidas durante buscas feitas na Usina Itajobi, em Marapoama (SP), e em empresas ligadas a Mohamad e Primo em Senador Canedo (GO), Duque de Caxias (RJ) e em Iguatemi (MS), que demonstraram ainda ligação delas com empresas do Grupo Refit, do empresário Ricardo Magro.




Ao ser questionado pelo Gaeco a respeito da administração do Fundo Radford, o Banco Genial respondeu que ele foi constituído em sua origem sob a forma de “condomínio fechado, por tempo indeterminado de duração, com uma classe única de cotas e políticas de investimentos voltadas majoritariamente ao investimentos em créditos privados, destinados a receber aplicações de um único investidor“.




O banco informou ainda que as cotas do fundo somavam cerca de R$ 169,7 milhões no momento da deflagração da Operação Carbono Oculto. E informou que sua área de crédito deu o aval ao empréstimo às empresas Berna e Branson em razão da boa fama de Narcélio no mercado, mas não teria prestado atenção que as empresas foram constituídas um mês antes da operação com capital social de apenas R$ 1 mil e tinham como sede o mesmo endereço usado pelo grupo de Mohamad Mourad, o Primo, em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo.




Com a Carbono Oculto, o banco informou aos promotores que havia renunciado à administração do Radford e liquidado o CDBV, cedendo sua posição no CCB ao fundo. Mas os promotores acreditam que toda a operação era uma forma de encobrir a participação dos acusados na fraude. O Gaeco obteve mensagens do advogado Garcia Peres e de João Eduardo Gomes Santiago, ligado à corretora Banvoxx e sócio da Altinvest, para Paulo Narcélio. Elas demonstrariam o vínculo entre os acusados.




Em uma delas, Santiago questiona se o patrimônio declarado de Narcélio seria suficiente para demonstrar sua capacidade econômica para ser sócio da empresa. Em outra mensagem, Narcélio diz a uma advogada que é Garcia Peres quem detém o token para movimentar as contas da holding Branson.




As mensagens demonstrariam ainda participação de Humberto Tupinambá e de seus irmãos André e Bruno, que também foram alvos de buscas nesta quinta-feira, na montagem da estrutura de ocultação de patrimônio. Em uma delas, Narcélio diz a Paulo Tupinambá que a proposta inicial pela Terrana seria de R$ 93 milhões, mas que poderia chegar até a R$ 153 milhões. Mais tarde diz que seria preciso conversar com Primo para saber como ele “gostaria de conduzir a aquisição”. Paulo sugere reuniões com Primo e com Beto Louco.




É com André ainda que Paulo Narcélio acerta sua comissão e pagamento no negócio em 2024. No começo de 2025, ele procura André e faz um pedido: queria deixar as holdings, pois já teria cumprido sua missão. Mas é convencido a ficar enquanto os irmãos Tupinambá cuidavam da reestruturação da Terrana. “Torna-se nítido que o papel do Banco Genial não se restringiu à operação financeira”, escreveram os promotores. André e Bruno foram, além disso, segundo o Gaeco, remunerados pela Aster, empresa da máfia do combustíveis.




Em outra mensagem, Narcélio deixa claro que quem tomava as decisões na Terrana era Primo, cujo telefone em sua agenda era identificado como “João Chefão”. Por meio do PIX foi possível ver que o número de telefone de Mohamad Mourad era a chave associada a uma conta bancária em nome de um ladrão condenado a oito anos de prisão por roubo.




Nas conversas, Narcélio se mostra preocupado com uma reportagem sobre Primo e Beto Louco serem os novos donos da Terrana. O texto levantava a suspeita de ligações dos dois com o PCC. “O Primo está mais nervoso do que eu”, escreveu.




Em 30 de abril de 2025, Humberto lhe diz que havia conversado com Primo sobre o plano de negócios da empresa, que Paulo Narcélio queria que fosse transferida para a Rede Sol Fuel, ligado aos empresários. Os dois também discutem como burlar a fiscalização da Secretaria da Fazenda de São Paulo, caso ela solicitasse a quitação dos “empréstimos”.




Narcélio então orienta que o dinheiro deve vir diretamente para sua conta ou fazer algum outro movimento. E diz que vai se queixar diretamente com o “Beto”. Humberto responde e apaga as mensagens do diálogo. Só não esperava que tudo ficasse registrado no celular de seu interlocutor. Por fim, no dia da Operação carbono oculto, Paulo Narcélio manda a Humberto uma mensagem afirmando que estava “aumentando os preços”. Tudo devidamente documento em laudo da perícia.




https://www.estadao.com.br/politica/blog-do-fausto-macedo/acao-contra-crime-organizado-atinge-banco-genial-e-grupo-envolvido-com-dinheiro-do-filme-dark-horse/

Elio Gaspari

A íntegra: Elio Gaspari Jornalista, autor de cinco volumes sobre a história do regime militar, entre eles "A Ditadura Encurralada...