segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Marilda Sotomayor




"Aos 82 anos, ela organizou um congresso em São Paulo e viu três ganhadores do Nobel de Economia atravessarem o Atlântico só para sentar na plateia e ouvi-la.Ela mesma, quando perguntada sobre o prêmio, respondeu sem rodeios: "jamais vou ganhar o Nobel".

Não foi resignação. Foi constatação.
Marilda Sotomayor nasceu no Brasil, formou-se matemática, e na juventude pensava em ser professora primária. Em vez disso, tornou-se uma das poucas latino-americanas a construir carreira internacional relevante em Teoria dos Jogos — uma área dominada, até hoje, por universidades americanas e europeias.

No fim dos anos 1980, ela pegou um modelo criado por David Gale e Lloyd Shapley — o problema de "casamento estável", que explica como parear dois grupos (candidatos e vagas, por exemplo) de forma que ninguém tenha incentivo para trocar de par depois — e fez algo que ninguém tinha feito: estendeu a teoria para mercados com dinheiro envolvido.

Essa extensão não era um detalhe técnico. Ela tornou o modelo aplicável ao mundo real, onde quase todo emparelhamento envolve preço, salário ou custo.

Shapley ganhou o Nobel de Economia em 2012 por esse campo. Sotomayor, coautora de um dos textos mais citados da área, não.
O motivo prático por trás disso é simples: o Nobel não é dado a quem constrói sobre uma ideia, mesmo que a construção seja essencial. E isso trouxe à tona uma pergunta desconfortável sobre como o crédito circula na ciência — especialmente para pesquisadoras fora do eixo Estados Unidos-Europa.

Mas o mais interessante é onde essa matemática mora hoje, sem que quase ninguém perceba:

→ Nos algoritmos que alocam residentes de medicina a hospitais nos EUA
→ Nos sistemas de troca de rim entre doadores e receptores incompatíveis
→ Nos motores de matching de apps de transporte e entrega, que decidem em milissegundos quem atende quem
→ Nos sistemas de alocação de vagas escolares em cidades como Nova York e Boston

Toda vez que um algoritmo decide "quem fica com quem" de forma que ambos os lados prefiram não trocar depois, há uma linhagem que passa pela mesa de trabalho de Marilda.

Existe um tipo de contribuição que nunca aparece em prêmio, mas aparece em toda infraestrutura que usamos sem saber que existe. Talvez o reconhecimento mais duradouro não seja uma medalha — seja o fato de que o trabalho continua rodando, silenciosamente, décadas depois.

Uma homenagem a essa brasileira incrível e que nos dá tanto orgulho."

SBCE, IFRS, CVM, ETS, CBAM, GRI, NR-1, ISO, GHG Protocol, PR 2030: por onde começar nessa sopa de letrinhas?



Cristiane V Leme

Climate & Nature Risk | Sustainability Strategy | Project Leadership | Carbon & Nature-based Solutions


29 de julho de 2026


A vida do gestor empresarial tradicional já não é simples com metas de venda, gestão de pessoas, concorrência, financiamento, retorno do investimento, resultado, expansão ou retração de mercado, revolução IA, câmbio, inflação e macroeconomia, tarifas e geopolítica que tornam tudo mais emocionante!

Aí vem uma galera falar de impacto, carbono, risco climático e de natureza, saúde e segurança do trabalho, relatório de sustentabilidade, mercado regulado e gestão ESG. Já são termos que aparecem com mais frequência na mídia, pelas redes e cada vez mais nas decisões das organizações, isso não podemos negar. Mesmo que não estejam nomeadas assim, esses desafios aparecem!

Essas agendas se cruzam na regulação, na estratégia, no financiamento, na competitividade, na operação e na gestão de riscos e oportunidades.

O problema é que as siglas são muitas vezes apresentadas separadamente, aleatoriamente, e quando juntas, por vezes como se tratassem da mesma coisa. Não tratam. Desconectadas do negócio. Não são. Ou não deveriam ser.

Este artigo organiza alguns instrumentos e termos de forma introdutória. A proposta é criar uma base de letramento e ponto de partida para conteúdos posteriores sobre mercado de carbono, risco climático e adaptação, soluções baseadas na natureza, saúde, relatórios e estratégia empresarial, incluindo alguns mergulhos e suas aplicações ao setor de energia.

Embora seja um artigo longo, não trataremos aqui o aprofundamento em cada um desses termos, nosso objetivo por hoje é situar eles dentro do dia a dia empresarial.

Para começar…
1. A empresa precisa estruturar e demonstrar sua gestão ESG no Brasil

A ABNT PR 2030 é uma prática recomendada voltada à incorporação dos aspectos ambientais, sociais e de governança à gestão das organizações.

Sua aplicação considera temas e critérios ESG, além de uma jornada de maturidade baseada em planejamento, implementação, monitoramento e melhoria contínua. A planilha de autoavaliação utilizada pela ABNT avalia políticas, responsabilidades, processos, indicadores, metas, riscos, controles e evidências.

A PR 2030 não é uma norma para elaboração de um relatório de sustentabilidade. O relatório é um dos elementos avaliados dentro de uma estrutura mais ampla da gestão.

A que este instrumento responde: Como a organização estrutura, executa e aprimora sua gestão ESG?

Nesse contexto, onde entram as normas ISO? Enquanto a PR 2030 organiza a visão integrada do ESG e avalia a maturidade da gestão, normas ISO específicas podem oferecer estruturas operacionais para implementar e controlar partes dessa agenda. A ISO 14001, por exemplo, aprofunda e orienta a gestão ambiental, contribuindo para o “E” de ESG, enquanto a PR 2030 ajuda a integrar três eixos. A adoção da ISO 14001 pode fornecer evidências de processos estruturados, controles e melhoria contínua no eixo ambiental (E), mas não substitui a avaliação mais ampla exigida pela PR 2030. Consegue ver a complementaridade?

Importante destacar neste ponto para não falarmos mais de ESG como se fosse o todo que a Sustentabilidade aborda. Sustentabilidade Corporativa é criar valor e resultado no seu mercado e com os recursos necessários hoje garantindo que recursos e benefícios seguirão existindo para a empresa e a sociedade no futuro. O ESG é a forma que o mercado financeiro decidiu incorporar o tema, e isso reflete de maneira mais direta nas empresas porque, sim, vivemos num sistema capitalista e de rentabilidade. O que se mede em termos financeiros sempre ganha mais atenção. Não quer dizer que o que não tem medida financeira hoje não possa representar um grande número amanhã. Nossa dificuldade em precificar riscos e oportunidades hoje não pode nos limitar na visão de futuro que um modelo de negócio sustentável exige. Às vezes esse futuro nem é tão distante assim, é apenas efeito da miopia. Portanto, coloque a lente certa, não simplifique a análise, mas simplifique sua operação, e tente não se confundir ao longo do processo, ok?
2. OK. A empresa precisa divulgar riscos de sustentabilidade ao mercado financeiro?

As normas IFRS S1 e S2, emitidas pelo International Sustainability Standards Board (ISSB), são diretrizes de divulgação financeira relacionadas à sustentabilidade dentro de um consenso internacional. As informações são dirigidas principalmente a investidores, credores e outros provedores de capital. A normativa vem sendo cada vez mais recomendada em alguns países, inclusive no Brasil.

A IFRS S1 trata dos riscos e oportunidades de sustentabilidade que podem afetar as perspectivas da entidade. A aplicação da IFRS S1 considera orientações setoriais para apoiar a identificação de riscos, oportunidades e métricas potencialmente relevantes, mas a avaliação deve ser feita conforme as circunstâncias específicas da entidade.

A IFRS S2 aplica essa lógica especificamente aos riscos e oportunidades relacionados ao clima, incluindo riscos físicos, riscos de transição, governança, estratégia, gestão de riscos, métricas e metas.

A diferença em relação à PR 2030 está na finalidade:

a PR 2030 orienta e avalia a maturidade da gestão ESG;
as IFRS (S1 e S2) estabelecem requisitos para a divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade e clima.



Uma organização pode utilizar a PR 2030 para estruturar processos, responsabilidades, controles e indicadores. Isso pode apoiar a produção das informações necessárias à aplicação das IFRS S1 e S2, mas não assegura, por si só, conformidade com essas normas.

A que a IFRS responde: Quais riscos e oportunidades de sustentabilidade podem afetar economicamente a empresa e precisam ser informados aos provedores de capital? O que relacionado à sustentabilidade pode ser medido em termos financeiros para o negócio?
3. Onde entra a CVM nesta conversa?

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) é o órgão regulador do mercado de valores mobiliários brasileiro. Sua função, nesse contexto, é estabelecer as regras aplicáveis às companhias e aos demais participantes submetidos à regulação do mercado de capitais brasileiro.

A relação entre os instrumentos pode ser compreendida da seguinte forma:

o ISSB emitiu as normas IFRS S1 e S2;
a CVM, ao incorporar o modelo ao ambiente normativo brasileiro, estabelece (ou deveria estabelecer) as regras aplicáveis às entidades sob sua supervisão os padrões



Este órgão (CVM) determina: Quais regras de divulgação de sustentabilidade se aplicam às empresas de capital aberto no Brasil (submetidas à CVM)?

Atualmente a IFRS, que seria obrigatória a partir de 2026 pela CVM 193, voltou a se tornar voluntária (CVM 244 que alterou a 193), causando enorme repercussão no mercado, tanto dos que eram favoráveis à obrigatoriedade quanto dos que comemoram a flexibilidade de se manter voluntária. Esta semana o debate voltou a ficar quente, pois o Ministério Público entrou na jogada para tentar reverter e manter a obrigatoriedade. Vale um ponto de atenção e pelo qual aguardarei ansiosa o início do próximo ano: a empresa que optar por não seguir esta norma internacional, mesmo que o CVM a mantenha como diretriz voluntária, deve explicar o motivo do não uso ao mercado. Quem mais aí está curioso para ler as explicações? Eu to muito!

Embora a regulamentação da CVM alcance as companhias abertas e demais entidades sob sua supervisão, as IFRS S1 e S2 podem servir como referência para outras empresas, especialmente na identificação, gestão e comunicação de riscos e oportunidades de sustentabilidade.
4. A empresa precisa ou quer relatar seus impactos sobre a sociedade e o meio ambiente?

O Global Reporting Initiative (GRI) é um conjunto de padrões para relato de sustentabilidade. Seu foco está nos impactos mais significativos da organização sobre a economia, o meio ambiente e as pessoas, incluindo os direitos humanos. A determinação dos temas materiais considera impactos positivos e negativos, reais e potenciais, associados às atividades e às relações de negócios da organização. É um modelo que visa manter transparência e dialoga muito com a parte reputacional da empresa e suas marcas.

A comparação com as IFRS ajuda a compreender a diferença:

GRI: quais são os impactos mais significativos da organização sobre a economia, o ambiente e as pessoas? Como se comunica isso ao público geral e seus stakeholders?
IFRS S1 e S2: quais riscos e oportunidades de sustentabilidade podem afetar as perspectivas econômicas da entidade?



O mesmo tema pode aparecer nos dois sistemas, mas por razões diferentes.

Uma situação de escassez hídrica ou poluição pode ser relevante no GRI quando a organização causa, contribui ou está diretamente ligada a impactos sobre comunidades e ecossistemas. Nas IFRS, o mesmo fator pode ser relevante quando afeta as perspectivas econômicas da empresa, ainda que ela não seja a causadora do risco.

A que a GRI responde: Quais impactos a organização produz ou tem potencial de produzir, como eles são gerenciados e o que precisa ser comunicado às partes interessadas?
5. A empresa está sujeita a um mercado regulado de carbono?

Um ETS, ou Emissions Trading System, é um sistema de comércio de emissões. Em sistemas desse tipo, os participantes abrangidos precisam cumprir regras relacionadas às suas emissões de gases de efeito estufa e aos ativos reconhecidos pelo sistema. O sistema regula atividades econômicas em determinada Região, País ou Estado subnacional. Esse é o termo global e usual para este tipo de mecanismo. O EU ETS é o sistema de comércio de emissões da União Europeia.

O Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa — SBCE é seu equivalente no Brasil, instituído pela Lei nº 15.042/2024. Sua estrutura compreende regras, ativos e obrigações relacionados à mensuração, ao relato, à verificação e ao cumprimento das exigências de redução e remoção de emissões aplicáveis aos setores regulados pelo país. As atividades, fontes e instalações abrangidas terão obrigações definidas pela regulamentação, considerando os critérios de cobertura e os limites estabelecidos no sistema. Essas obrigações estão atualmente em regulamentação, dentro das fases previstas para a implementação do SBCE.

Os sistemas de comércio de emissões diferem entre si porque são desenhados de acordo com as características econômicas, institucionais, produtivas e ambientais de cada país ou região, bem como com seus perfis de emissão e suas metas climáticas. Embora existam mecanismos internacionais que busquem maior convergência e cooperação entre mercados, os países mantêm autonomia para definir o desenho, a cobertura e as regras de seus próprios sistemas, considerando suas circunstâncias nacionais e seus compromissos no âmbito do Acordo de Paris.

Também é necessário evitar generalizações. A criação do SBCE não significa que todas as empresas ou todos os agentes de um setor estarão automaticamente submetidos às mesmas obrigações. Mo Brasil a produção primária agropecuária e os bens e infraestruturas diretamente dentro dos imóveis rurais foram excluídos das obrigações do SBCE pela lei. Outras atividades ligadas às cadeias do agronegócio podem ter tratamento distinto conforme sua natureza e regulamentação. Embora a produção primária agropecuária esteja fora das obrigações do SBCE, suas emissões permanecem incluídas nos compromissos climáticos assumidos pelo Brasil. A redução dessas emissões dependerá, portanto, de políticas, mecanismos de monitoramento e estratégias setoriais distintas do sistema de comércio de emissões.

A incidência de um mercado regulado, portanto, depende das regras de implementação, das atividades abrangidas, dos custos e dificuldades de descarbonização e dos critérios aplicáveis na jurisdição a qual se propõe influenciar a transição. Pode ser um país, como o Brasil, uma região como a União Européia, ou um Estado, como o Estado da Califórnia (US).

A existência de um mercado regulado também não significa que o mercado voluntário de carbono acaba. As metas voluntárias de companhias e as transações deste mercado já consolidado seguem acontecendo pelo mundo todo, inclusive no Brasil. São mercados que podem ter pontos de intersecção, e avançar em convergência e interoperabilidade, mas não um não substitui o outro.

No Brasil, as obrigações de monitoramento, relato e verificação (MRV) no âmbito do SBCE teve consulta pública aberta dia 28/07/2026, e se encerra em 28/08/2026. É mais uma ação que exemplifica o esforço da Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono, criada para conduzir esta regulamentação vinculada ao Ministério da Fazenda, sendo a Subsecretaria de Regulação e Metodologias, Coordenação Geral de Regulação a responsável por este processo de escuta e consolidação. Também temos uma outra consulta pública sobre ITMOs, que se encerra dia 06 de Agosto, mas debateremos mais sobre esta sigla e outros aprofundamentos sobre SBCE em próximos artigos, na medida que as definições avançam.

Por que ter atenção ao instrumento que regula um mercado de carbono? A atividade, seus produtos e serviços, está submetida a regras de mensuração, relato, verificação e cumprimento relacionadas às emissões? No Brasil? Em algum mercado externo (ex: EU ETS)?
6. A empresa exporta ou participa de cadeias ligadas ao mercado europeu?

O Carbon Border Adjustment Mechanism (CBAM) é o mecanismo europeu de ajuste de carbono na fronteira. Está relacionado às emissões incorporadas em determinados bens importados pela União Europeia e busca aproximar o tratamento do carbono aplicado aos produtos importados daquele enfrentado por produtores europeus submetidos ao EU ETS.

O objetivo principal dele é manter os produtos internos europeus competitivos mesmo com o custo da descarbonização, ao mesmo tempo que influencia que uma produção com alta emissão lá não seja simplesmente transferida globalmente de um local para outro por questões de custos, e assim uma transição global e real de baixo carbono seja prejudicada.

O CBAM não é um padrão, não é um crédito de carbono ou um sistema voluntário de compensação. É um instrumento regulatório e comercial europeu relacionado ao carbono incorporado nos produtos abrangidos.

Para empresas brasileiras, sua relevância depende, entre outros fatores, do produto comercializado, do mercado de destino e da posição ocupada na cadeia de valor.

No setor de energia, o CBAM se relaciona a discussões sobre combustíveis renováveis, a eletricidade de baixa emissão usada em alguns processos, a intensidade de carbono da produção e distribuição dessa fonte de energia (que pode ser exportada) e a competitividade comercial e industrial do nosso país. Essa agenda se relaciona com: cimento, ferro e aço, alumínio, fertilizantes, eletricidade e hidrogênio. O SAF (combustível sustentável para aviação) embora integre a agenda mais ampla de transição e competitividade internacional do Brasil com novos combustíveis, não está atualmente entre os produtos cobertos pelo CBAM.

A que o CBAM responde: A empresa produz, exporta ou fornece insumos para cadeias afetadas pela regulação europeia de carbono e de barreiras comerciais? Qual o custo desta exportação e como compete com o mercado local?
7. NR-1. Mais uma sigla dentre tantas no repertório dos empresários e executivos

A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) estabelece disposições gerais e regras para o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. Ela integra a legislação brasileira de segurança e saúde no trabalho e estabelece obrigações relacionadas à identificação de perigos, avaliação de riscos e adoção de medidas de prevenção.

A NR-1 incluiu recentemente os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no gerenciamento de riscos ocupacionais. Isso não corresponde a uma avaliação genérica da saúde mental do trabalhador. O foco está nos riscos associados às condições e à organização do trabalho.

Parece tema desconectado de tudo que tratamos aqui? Não, não é! Primeiro porque toda a agenda da empresa e da sustentabilidade é feita por pessoas. Segundo porque uma normativa como essa reconhece e eleva a importância desse risco nas discussões de sustentabilidade da operação porque mexe em custo, eficiência, produtividade e impacto social.

A NR-1 é um tema atual e que tem rodado pelos Boards de muitas empresas. Pode se conectar à PR 2030 como evidência de gestão de riscos e conformidade, ao GRI pelo relato dos impactos sobre trabalhadores e à IFRS S1, quando riscos trabalhistas afetam custos, produtividade ou perspectivas econômicas relevantes da organização.

A que esta normativa responde: Quais perigos e riscos ocupacionais precisam ser identificados, avaliados, prevenidos e monitorados para manter a companhia sustentável?

—-- Uma parada na leitura, e convite à reflexão —-

"Uma única e mesma informação (de segurança hídrica a saúde mental) pode ser relevante em mais de um desses instrumentos, mas cada um possui finalidade, público e requisitos próprios. O que não se pode é ficar refém dos instrumentos e normas. Eles devem apenas ajudar a empresa a olhar, entender, priorizar, decidir. E vejam, tudo no final acaba se relacionando com custos, reputação, riscos e oportunidades para o próprio negócio e sua gestão eficiente, para agora e pra o futuro."
8. Créditos de carbono, CBIO e certificados de energia renovável. O que são, onde entram?

São todos atributos ambientais certificados, negociados em mercados próprios, mas não são equivalentes.

O crédito de carbono representa uma unidade (1 tCO₂e) associada a uma redução ou remoção de emissões de gases de efeito estufa, conforme as regras e metodologias do programa responsável por sua certificação e emissão (a mais amplamente utilizada no mercado voluntário é a Verra - VCS Program, mas existem outras metodologias e programas que seguem princípios similares). Importante entender que nem toda iniciativa ou projeto que reduz ou remove emissão é um crédito de carbono. Uma redução ou remoção de 1 tCO₂e só se torna um crédito de carbono negociável depois de quantificada, monitorada, validada ou verificada e emitida segundo as regras de um programa com integridade reconhecida. Créditos podem ser utilizados no mercado voluntário ou, quando expressamente reconhecidos pelas regras do sistema de emissões de um país, em mercados regulados.

O CBIO é um Crédito de Descarbonização do RenovaBio. Sua emissão é lastreada na comercialização de biocombustíveis por produtores ou importadores certificados e na eficiência energético-ambiental da produção do biocombustível. Possui negociação na B3 e aposentadoria para cumprimento das metas dos distribuidores. A ANP acompanha a geração de lastro, emissão, negociação e aposentadoria desses ativos.

Os certificados de energia renovável I-REC(E), estão relacionados à comprovação dos atributos da energia gerada e consumida. Cada usina de fonte renovável registra a energia gerada em um sistema autorizado. Cada 1 MWh recebe um certificado eletrônico que pode ser: 1. transferido ou comercializado | 2. comprado por uma empresa | 3. cancelado em nome dessa empresa para comprovar o uso do atributo renovável.

Todos estes instrumentos e atributos ambientais mensuráveis, rastreáveis e comparáveis podem integrar uma estratégia empresarial, mas não devem ser tratados como sinônimos ou comparados entre si. Cada qual tem seu próprio mecanismo, controle e mercado. A utilização inadequada pode gerar erros de contabilização, comunicação e tomada de decisão.

A que estes instrumentos respondem: Qual atributo ambiental pode ser adquirido ou contabilizado, como é quantificado e gerado, para qual finalidade pode ser utilizado dentro da estratégia e sustentabilidade da empresa?

Na mesma linha de atributos ambientais têm sido cada vez mais discutidos os créditos de biodiversidade. Ainda é, como mercado, considerado incipiente, embora as questões de metodologias, MRV, tecnologias e demais estruturas necessárias para se formar um mercado esteja evoluindo.
9. O tema emissões apareceu em vários pontos deste artigo. Mas, qual é a ordem das decisões em uma estratégia de descarbonização?

A existência de instrumentos como créditos de carbono, CBIOs e certificados de energia renovável não substitui a necessidade de reduzir emissões na própria operação e na cadeia de valor. Cada instrumento cumpre uma função diferente e deve ser utilizado de acordo com o objetivo, a metodologia e a obrigação aplicável.

Uma estratégia de descarbonização é algo muito maior do que estes mercados. Precisa distinguir diferentes tipos de ação, como:

mudanças operacionais e tecnológicas
aumento da eficiência energética
substituição de combustíveis e fontes de energia
contratação ou geração de energia renovável
eficiência logística
atuação sobre fornecedores e cadeia de valor
custos, receitas, diferenciais para o negócio de cada uma destas decisões
uso de instrumentos de compensação para finalidades limitadas e bem definidas
salvaguardas socioambientais desta composição entre transição e compensação



Cada ação dessa não produz necessariamente o mesmo resultado e não devem ser apresentadas como equivalentes. É um mosaico e um jogo de equilíbrio.

Em termos gerais, a organização deve primeiro medir suas emissões, depois identificar oportunidades de redução e substituição de fontes, atuar sobre a cadeia de valor e, por fim, avaliar o uso de instrumentos ambientais para finalidades específicas e bem definidas. Antes de optar por adquirir qualquer certificado, a organização precisa definir:

qual inventário ou indicador pretende tratar
qual emissão, impacto ou objetivo climático está sendo abordado
qual padrão, metodologia ou obrigação se aplica
qual alegação será feita publicamente
quais evidências sustentam essa alegação



A organização está reduzindo suas emissões ou apenas adquirindo instrumentos para tratar uma parte delas? Está fazendo compensação? Em qual proporção de esforço x impacto? Como seu setor e concorrência vem lidando com o mesmo tema? Seus clientes e fornecedores estão exigindo ou valorizam baixa emissão?

O básico e primeiro passo no desafio de descarbonização, é ter um bom inventário de emissões. O GHG Protocol Corporate Standard é uma referência amplamente utilizada para elaborar inventários corporativos de emissões de gases de efeito estufa. Ele não é o mercado de carbono, não gera crédito e não certifica energia renovável. Ele é uma metodologia de contabilização de emissões. O padrão ajuda a organização a responder: quanto emitimos, onde emitimos e quais fontes estão sob nossa responsabilidade direta ou indireta.

A empresa primeiro define o limite organizacional do inventário, escolhendo uma abordagem de consolidação: participação societária | controle financeiro | controle operacional. Depois define os limites operacionais, classificando as emissões em Escopos 1 (diretas), 2 (de energia) e 3 (da cadeia).
Caramba, depois de tanta sopa de letrinhas e definições, por onde começar?

Antes de escolher uma sigla ou aderir a uma norma de forma cega, no efeito de manada ou no hype corporativo, a organização precisa entender que, para trabalhar sustentabilidade, deve ser capaz de responder:

Quais obrigações se aplicam a mim?
Quais impactos, riscos e dependências gero e existem?
Quais emissões e recursos precisam ser medidos?
Quais públicos precisam receber quais informações?
Qual instrumento atende a cada finalidade ou ajuda a responder cada questão?



Espero com este artigo facilitar parte de suas respostas a estas perguntas (ou a entender as não respostas - sei que não terá todas), como podem se conectar ao negócio e em qual instrumento confiar para planejar, estruturar, monitorar e agir.

As siglas da sopa de letrinhas se conectam, mas não se substituem. Compreender a distinção que fomos trazendo neste artigo é o ponto de partida para compreender como os riscos ambientais, climáticos, sociais, ocupacionais e regulatórios entram na gestão e na decisão econômica das organizações. Não esquecer que essas análises precisam dialogar com custos, receitas, investimentos, riscos e resultados da empresa - DRE (demonstração de resultados do exercício) da empresa, e seu plano estratégico de negócio.

Nos próximos conteúdos, alguns desses temas serão aprofundados separadamente. Se quiser deixar nos comentários ou mandar DM com sugestões, dificuldades, contrapontos ou mesmo me contar qual assunto ligado a sustentabilidade corporativa ou clima quer debater mais, fica à vontade! 😉

(Esta publicação foi feita em parceria com a Nós Energia, onde atuo como consultora parceira).

Ajax Asset RESUMO

 03/08/2026 – AJAX ASSET


_Resumo: Na Europa, EuroStoxx sobe 1,0%; enquanto, nos EUA, S&P 500 avança 0,6% e Nasdaq ganha 0,3%. Na Ásia, Nikkei encerrou a sessão em baixa de 1,0%; e Shanghai caiu 0,6%. Nas moedas, DXY recua 0,1%, aos 99,8 pontos, e MXN deprecia 0,1%. Já nas commodities, brent recua 5,1%, aos USD 83,4/barril; e as taxas das treasuries fecham até 07 bps ao longo da curva_


CENÁRIO EXTERNO


• Geopolítica: Ontem, Trump disse que os EUA adiarão um novo ataque ao Irã, desde que um acordo seja alcançado rapidamente para interromper as ambições nucleares iranianas e reabrir o Estreito de Ormuz. Essa desescalada pressionou o petróleo para baixo, que recua mais de 5%, e dá suporte aos ativos de risco.


• Macro: (1) Alemanha – PMI de Manufatura atingiu 52,2 pontos, em linha com estimado; (2) Zona do Euro – PMI de Manufatura ficou em 51,9 pontos (vs consenso de 52,0 pontos); e (3) Reino Unido – PMI de Manufatura atingiu 51,9 pontos (vs consenso de 52,8 pontos).


• Agenda – EUA: (i) 10h45 tem PMI de manufatura de julho; e (ii) 11h tem ISM de manufatura de julho.


BRASIL


• Mercados: Lá fora, Petróleo tem forte queda, após os EUA adiarem um novo ataque ao Irã, dando fôlego aos ativos de risco, com as bolsas em alta e os juros em queda. Por aqui, mercados devem refletir bem humor internacional, com queda nos DIs e dólar, e alta na bolsa (exceção de Petrobras). 


• Política: Neste domingo, Lula formalizou sua candidatura à reeleição, em convenção nacional do PT. Destaques: (i) pretende deixar um legado para além do Bolsa Família; e (ii) indicou que o “Lulinha paz e amor” dará lugar ao “Lulinha porreta”, com relação aos embates envolvendo Congresso e controle das emendas parlamentares – necessário que o Planalto tenha mais controle sobre o orçamento e a destinação de verbas. Por fim, (iii) evitou apresentar promessas mais concretas que ampliem os gastos do governo, assim como evitou falar sobre mudanças na área econômica e medidas de ajuste fiscal a partir de 2027. Faltam 62 dias para o 1º turno das eleições.


• Sobre as eleições: Segundo a pesquisa Nexus, no cenário de 1º turno, Lula tem 41% das intenções de voto (vs 42% na sondagem anterior), enquanto Flávio Bolsonaro tem 37% (vs 33% na pesquisa anterior) e Ronaldo Caiado marca 5%. Já em cenário de 2º turno, Lula passou de 47% para 46% das intenções de voto, enquanto Flávio Bolsonaro avançou de 43% para 45%. Ou seja, vantagem de Lula recuou de 4 p.p. para 1 p.p. na última semana.


• Aneel: Na última 6ª feira (31), a Aneel manteve a bandeira tarifária amarela para agosto de 2026, preservando o adicional de R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos. A decisão reflete a continuidade das condições menos favoráveis de geração de energia durante o período seco, com redução dos níveis dos reservatórios e maior necessidade de acionamento de usinas termelétricas. A decisão veio em linha com as expectativas. Essa manutenção da bandeira amarela pelo 4º mês consecutivo prolonga o custo adicional já incorporado às tarifas de energia elétrica, sem gerar impacto adicional sobre as projeções para o IPCA.


• Setor Público Consolidado (jun/26): déficit primário de R$55,3 bilhões atingindo R$ 157,2 bilhões em 12 meses (1,2% do PIB). A surpresa negativa ficou concentrada principalmente nos governos regionais (déficit de R$6,6 bilhões), destoando do padrão de junho até mesmo nos últimos anos eleitorais. O déficit das estatais (R$1,5 bilhão) também pesou, mas com magnitude semelhante ao observado em jun/25. Na dívida, a DBGG avançou para 81,9% do PIB, reflexo principalmente pelos juros nominais apropriados e pelas emissões líquidas de dívida, parcialmente compensadas pelo crescimento do PIB nominal. Em suma, a leitura é de deterioração fiscal mais disseminada, com pressão adicional de juros e nova alta da dívida bruta. Essa combinação de primário fraco, juros elevados e DBGG em 81,9% do PIB mantém o fiscal como principal fator de risco para os ativos domésticos.


• Agenda: (i) 8h25 tem Boletim Focus; e (ii) 15h tem balança comercial semanal. 


EQUITIES


• Setor de Papel & Celulose: dados da última semana, segundo a Foex. Destaques: (1) China - preços da celulose de fibra curta caiu USD 2/ton, para USD 567/ton, e os preços de celulose de fibra longa recuaram em USD6/ton, para USD 646/ton. Os movimentos são reflexo da demanda ainda fraca, queda nos contratos futuros e maior volume de celulose de baixo custo para revenda, que continuaram a pressionar as importações. Vale notar: diferença de preços entre as celuloses caiu para USD 74/ton (vs média de 5 anos de USD 143/ton). Mais: os preços de revenda de fibra curta ficaram em USD 545/ton; e os preços de fibra longa recuaram USD 8/ton, para USD 587/ton. Na (2) Europa, os preços da celulose de fibra longa ficaram em USD 1.650/ton; enquanto os preços da fibra curta recuaram para USD 1.410/ton. Conforme temos abordado, se observa demanda à vista mais fraca e estoques mais elevados na Ásia, o que pode trazer novas preocupações no curto prazo.


Ajax Asset Management

BDM Matinal Riscala

 *Rosa Riscala: Semana do Copom começa com forte queda do petróleo*


… O petróleo caía quase 5% na abertura dos negócios nesta segunda-feira, reagindo ao anúncio de que as negociações entre os Estados Unidos e o Irã serão retomadas hoje, reduzindo, ao menos por ora, o risco de uma nova escalada militar, enquanto a Opep+ confirmou o aumento da oferta para setembro. Ainda no fim de semana, Trump e o Japão admitiram intervenção conjunta para socorrer o iene. Com o alívio na geopolítica, o investidor se ocupa da agenda intensa dos mercados, que inclui o Copom, quarta-feira, e dados do emprego nos Estados Unidos, que culminam com o payroll na sexta. Na B3, a temporada de balanços acelera com Itaú, Bradesco e Petrobras entre os destaques.


DE VOLTA À MESA – Estados Unidos e Irã recomeçam as negociações nesta segunda-feira à tarde, informou no domingo Donald Trump, que afirma ter suspendido um novo ataque após pedidos de Teerã, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar.


… A expectativa do presidente americano é avançar para um acordo envolvendo a reabertura do Estreito de Ormuz e a desnuclearização iraniana.


… A notícia ajuda a explicar a mudança de tom observada no fim de semana.


… Na sexta-feira, Trump havia endurecido o discurso, afirmando que o Irã “não terá mais nenhuma capacidade militar”, dizendo ter perdido a confiança em um acordo com Teerã e chegando a ameaçar novos ataques. No sábado, porém, anunciou que daria mais tempo à diplomacia.


… O Irã respondeu que continua preparado para reagir a qualquer nova ofensiva dos Estados Unidos ou de Israel, enquanto o governo de Benjamin Netanyahu reiterou que voltará a atacar se considerar necessário.


… Ao mesmo tempo, Teerã informou que as conversas com Omã para um protocolo de navegação no Estreito de Ormuz estão em fase final.


… Enquanto isso, seguiram os ataques pontuais, incluindo novos incidentes envolvendo embarcações em Ormuz e ofensivas iranianas contra instalações americanas no Kuwait. Na prática, o conflito voltou a entrar em compasso de espera.


… A retórica permanece dura, mas a retomada das negociações reduz, ao menos por enquanto, o risco de uma escalada imediata.


OPEP+ ENTRA EM CENA – O cartel confirmou no domingo um aumento de 188 mil barris por dia na produção a partir de setembro, concluindo a reversão dos cortes voluntários iniciada em 2023. A decisão já era amplamente esperada pelo mercado.


… Mas o grupo evitou sinalizar os próximos passos para o 4TRI, mantendo em aberto a possibilidade de uma pausa na elevação da oferta.


… Ao mesmo tempo, a Opep expressou preocupação com os ataques à infraestrutura de energia e às rotas marítimas no Oriente Médio, alertando que danos às instalações e interrupções no transporte continuam aumentando a volatilidade e ameaçando o abastecimento global.


… A manifestação ocorre depois de uma disparada de mais de 20% do petróleo em julho com a retomada da guerra entre Estados Unidos e Irã.


… Na sexta-feira, o contrato futuro do Brent fechou em alta de 1,21%, a US$ 87,93 por barril, acumulando valorização de 23,5% no mês, enquanto o WTI avançou 1,29%, para US$ 84,67, com ganho mensal de 21,8%.


CHEGOU O COPOM –O principal destaque da agenda dos mercados nesta semana será a decisão de política monetária do BC, na quarta-feira.


… O mercado chega ao encontro convicto de um corte de 0,25 ponto porcentual da Selic, para 14% ao ano, com a curva de juros precificando 100% de probabilidade para esse movimento. A grande dúvida é em relação à sinalização para os próximos passos.


… Entre os economistas, boa parte espera que a decisão seja seguida por uma pausa. Já no mercado, as apostas permanecem divididas para setembro, entre a continuidade do ciclo com um novo corte de 0,25 ponto e a manutenção da taxa básica.


… A expectativa de mais cortes foi reforçada pelos sinais de desaceleração da inflação, com o IPCA-15 quase zerado e dados benignos do núcleo, além do esfriamento da atividade e da acomodação do mercado de trabalho.


… Apesar disso, o ambiente continua cercado de incertezas, principalmente por causa do quadro fiscal e do ambiente eleitoral – fatores que ainda sustentam dúvidas sobre o espaço para novos cortes – e da instabilidade do cenário externo com a guerra no Oriente Médio.


MAIS AGENDA – Antes do Copom, o mercado terá para monitorar a produção industrial amanhã, terça-feira (4), que deve recuar 0,6% em junho, mais do que recuou em maio (0,2%), segundo a mediana das projeções apuradas pelo Broadcast.


… Hoje, sai o IPC-S de julho (8h), que deve cair 0,02%, e a pesquisa Focus (8h25), com a atualização das projeções macroeconômicas do mercado.


… A semana traz ainda a balança comercial de julho, na quinta-feira, e o IGP-DI de julho, na sexta-feira.


PAYROLL – Nos Estados Unidos, a semana será repleta de dados do mercado de trabalho, com o relatório JOLTS sobre vagas abertas em junho amanhã; a pesquisa ADP, com os empregos criados no setor privado em julho na quarta-feira; e o relatório de empregos de julho na sexta.


… Ainda na quarta, serão divulgados os índices americanos PMI e ISM de serviços, que ajudam a medir o desempenho do principal segmento da economia americana, e os estoques semanais de petróleo pelo Departamento de Energia (DoE).


… No mesmo dia, a diretora do Fed Lisa Cook participa de um evento, com investidores atentos a qualquer sinalização sobre política monetária. Na quinta-feira, fala Alberto Musalem (Fed/St. Louis) e, na sexta-feira, Tom Barkin (Fed/Richmond).


… Fora dos Estados Unidos, a Europa divulga hoje e na quarta-feira as leituras finais dos PMIs industrial, de serviços e composto. Na quinta, saem as vendas no varejo da zona do euro e, na sexta, as encomendas à indústria e a produção industrial da Alemanha.


… Na Ásia, o Banco do Japão publicará amanhã a ata de sua última reunião de política monetária. Ontem, saiu o PMI/S&P Global industrial japonês, que caiu de 54,8 em junho para 54,5 em julho, abaixo do dado preliminar (54,7).


… A China divulga quarta o PMI de serviços. No sábado, serão conhecidos os índices de inflação (CPI e PPI) chineses.


… Na noite de ontem, o PMI/S&P Global industrial chinês caiu de 51,7 em junho para 50,9 em julho, abaixo da previsão de analistas consultados pela FactSet, de queda para 51,5.


… Também estão na agenda da semana as decisões de juros do Banco da Reserva da Índia, na quarta-feira, e do Banco do México, na quinta.


SEM SHUTDOWN – Líderes do Senado dos Estados Unidos fecharam um acordo para manter o governo federal financiado até 11 de dezembro, reduzindo o risco de um novo shutdown durante a campanha para as eleições de meio de mandato.


… A expectativa é que a proposta seja votada ainda nesta semana, antes do recesso parlamentar de agosto. A antecipação das negociações é incomum e busca evitar uma nova paralisação da máquina pública às vésperas do fim do ano fiscal, em 30 de setembro.


BALANÇOS – A temporada continua movimentando os mercados globais nesta semana, embora em ritmo menos intenso em Nova York, onde são destaques Caterpillar, McDonald’s, AMD e SpaceX – que divulga seu primeiro balanço desde a abertura de capital, todos amanhã.


… Na quarta, ainda tem Walt Disney e, na quinta-feira, ConocoPhillips.


… Na Europa, chamam atenção os resultados de HSBC, BP e Lufthansa, na terça, Glencore e Heineken, na quarta, e Commerzbank, na quinta.


… Depois dos números das big techs, os investidores agora buscam sinais sobre a atividade global, o consumo e o setor de commodities, além de acompanhar se o forte ciclo de investimentos em IA continua beneficiando empresas ligadas à infraestrutura e semicondutores.


NA B3, A TEMPORADA GANHA RITMO – No mercado brasileiro, os balanços aceleram, com concentração de resultados de grandes companhias entre amanhã, terça-feira, e quinta-feira. Já hoje, saem BB Seguridade, Isa Energia e Marcopolo, após o fechamento.


… Amanhã, os destaques ficam para Itaú Unibanco, Gerdau, Prio, RD Saúde, GPA, Iguatemi e C&A. A quarta-feira vem com os números de Bradesco, Klabin, Copel, Engie, Brava Energia, Totvs, Banco Inter, Smart Fit e Vivara.


… Na quinta, o foco se volta para Petrobras, principal balanço da semana no Brasil, além de Localiza, Lojas Renner, Magazine Luiza, Assaí, Hypera, Fleury, Energisa, PetroReconcavo e Minerva Foods. A temporada termina na sexta-feira com os resultados da Porto.


DÍVIDA PÚBLICA NAS MANCHETES – O avanço da dívida pública voltou ao centro das atenções no fim de semana, depois que o Estadão destacou a combinação de endividamento crescente e custo cada vez mais elevado para o Tesouro Nacional.


… A dívida bruta do setor público atingiu 81,9% do PIB em junho, o maior nível em mais de cinco anos, enquanto o custo médio da Dívida Pública Federal subiu para 12,68% ao ano, o maior desde setembro de 2016.


… A combinação de juros elevados, incertezas fiscais e aumento do prêmio de risco tem encarecido o financiamento do governo e levado o Tesouro a ampliar a emissão de títulos atrelados à Selic, evitando validar taxas ainda mais elevadas nos papéis de longo prazo.


… A avaliação de especialistas ouvidos pelo jornal é que, sem uma melhora consistente do quadro fiscal, o custo da dívida continuará pressionando as contas públicas e limitando o espaço para a queda estrutural dos juros.


CURTAS DA POLÍTICA – O PT oficializou neste domingo a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição.


… Em discurso, o presidente afirmou que um eventual quarto mandato dará prioridade ao fortalecimento da indústria de defesa, à exploração de terras raras e minerais críticos e à transição energética.


… Lula também prometeu enfrentar a discussão sobre emendas parlamentares e disse que não pretende ser o “Lulinha paz e amor”, mas o “Lulinha porreta”. O plano de governo será apresentado no próximo dia 16.


CENTRÃO TÁ FORA. Depois de o PP rejeitar indicar Tereza Cristina para a vice de Flávio Bolsonaro, alegando neutralidade na disputa presidencial, o Republicanos também deve confirmar a posição de neutralidade do partido.


… No sábado, o Republicanos oficializou a candidatura de Tarcísio de Freitas à reeleição ao governo de São Paulo, enquanto o Partido Missão lançou a candidatura de Renan Santos à Presidência.


ENTREVISTAS. A GloboNews e o G1 iniciam nesta semana uma série de entrevistas com os candidatos à Presidência.


… Lula será o primeiro entrevistado, amanhã, terça-feira, seguido por Renan Santos, na quarta, Romeu Zema, na quinta, e Ronaldo Caiado, na sexta. Flávio Bolsonaro participa na segunda-feira da próxima semana.


CONGRESSO. A Câmara retoma os trabalhos nesta segunda-feira após o recesso de julho.


… Entre os projetos que devem dominar a pauta estão a ampliação do teto de faturamento do MEI, a regulamentação da concorrência entre empresas de tecnologia, a redução de tributos sobre combustíveis em 2026 e a criminalização da misoginia.


BUSCANDO MERCADOS. Em meio às novas tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros, o ministro Márcio Elias Rosa (MDIC) inicia nesta segunda-feira uma missão oficial à Índia, com o objetivo de ampliar o acesso de empresas brasileiras ao mercado do país.


HABITANDO MUNDOS DIFERENTES – Na semana do Copom, economistas reforçam os alertas sobre um possível excesso de otimismo do BC quanto às expectativas de inflação, consideradas menos realistas por parte do mercado.


… Para efeito de comparação sobre este descolamento, a projeção da autoridade monetária para o IPCA deste ano está em 5,20% (contra 5,12% na mediana do Focus), a de 2027 está em 3,7% (de 4,22%) e 2028, em 3,1% (de 3,8%).


… Profissionais advertem sobre a imprudência de cortar demais a Selic, nem só por causa da desancoragem das previsões de inflação à meta, mas especialmente porque a questão fiscal parece um desafio pouco endereçado.


… Um corte do juro depois de amanhã está mais do que garantido, até porque o IPCA-15 de julho veio perto de zero, o câmbio está estabilizado e a percepção é de que a atividade e o emprego vêm perdendo fôlego gradualmente.


… A eficácia da política monetária restritiva demorou, mas chegou à economia. O debate que se faz agora, porém, é sobre o que o Copom fará depois, em setembro, quando os ruídos fiscais vão pegar mais forte no contexto eleitoral.


… Como disse o economista Marco Caruso (Santander), as expectativas de inflação já não ocupam posição tão privilegiada e o “ônus da prova” mudou para quem defende que o Copom pare o ciclo de queda mês que vem.


… Apesar de todas estas questões em destaque, apesar da escalada das taxas dos Treasuries e apesar ainda do petróleo perto dos US$ 90 (na sexta-feira), os contratos futuros dos juros fecharam o último pregão perto da estabilidade.


… No fechamento, o DI para Janeiro de 2027 marcava 13,810% (de 13,818% no ajuste anterior); Jan/28, 13,885% (contra 13,889%); Jan/29, 14,130% (de 14,123%); Jan/31, 14,390% (de 14,410%); e Jan/33, 14,565% (de 14,599%).


… No final da tarde de sexta, a Aneel cumpriu os prognósticos do setor elétrico e manteve a validade da bandeira tarifária amarela em agosto, o que representará um custo adicional de R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos.


… A decisão já estava incorporada nas apostas de inflação do mercado. Neste segundo semestre, porém, o El Niño, com aumento nas temperaturas e menos chuvas no Norte e Nordeste, reforça a perspectiva de bandeiras mais caras.


O MERCADO FALA – Apesar da apatia por aqui na curva do DI, lá fora, o juro do T-Bond de 30 anos voltou a renovar as máximas em 19 anos, no pico de estresse que vem sendo associado à postura de Warsh, lida como mais dovish.


… Descontando os riscos despertados pelo impacto da guerra no cenário inflacionário, o novo presidente do Fed surpreendeu ao passar semana passada uma mensagem bem menos agressiva do que parte do mercado esperava.


… Gerou ruídos, pôs em xeque uma alta do juro em setembro e levantou a lebre sobre um Fed atrás da curva.


… Na sexta, Alberto Musalem lançou um alerta, mesmo não tendo sido um dissidente na última reunião do Fomc:


… “O Sr. Mercado falou esta semana, e eu recebi [um] sinal disso. A venda de títulos do Tesouro americano [com alta nos yields] é uma evidência de que o banco central precisa conquistar sua credibilidade no combate à inflação.”


… Os três dirigentes que racharam o placar do Fed (9 x 3) defenderam os seus votos em comunicado na sexta-feira. Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorie Logan recomendaram acelerar o retorno da inflação para a meta de 2%.


… Logan disse que uma ação moderada pelo Fed no curto prazo, com a opção por uma alta de 25 pontos-base na taxa dos juros, reduziria a probabilidade de serem necessárias medidas mais drásticas posteriormente.


… Hammack conclamou o Fed a agir, afirmou que não considera a política monetária suficientemente restritiva para conter as pressões inflacionárias e que não tem confiança de que os preços retornarão à meta por conta própria.


… De seu lado, o presidente do Fed de Minneapolis, Neel Kashkari defendeu que seria melhor uma “série de pequenas medidas” do que esperar e eventualmente concluir que ações ainda mais ousadas seriam necessárias.


… Para embolar o meio de campo, ainda na sexta-feira, deu no NYT que Warsh teria cogitado no último encontro de política monetária a hipótese de reduzir o número de reuniões do Fed ao longo do ano, que atualmente é de oito.


… Segundo as fontes do jornal, Kevin Warsh deixou a impressão de que um novo calendário do Fomc poderia ser decidido antes da próxima reunião, em setembro, embora as mudanças só devam ser implementadas depois.


… Nos picos desde 2007, o T-bond de 30 anos pagou taxa de 5,249%, contra 5,213% no pregão anterior. O rendimento da Note de 10 anos avançou para 4,707% (de 4,672%) e o de 2 anos, a 4,267% (de 4,240%).


CHAMOU A CAVALARIA AMERICANA – Outro destaque na cena externa foi o novo salto do iene, diante dos esforços coordenados entre os governos do Japão e a Casa Branca para estancar as mínimas em 40 anos da moeda japonesa.


… Na sexta-feira, à medida que o efeito da valorização inicial do iene (após a intervenção de US$ 50 bilhões dos japoneses) começou a se esgotar, a Casa Branca entrou com uma segunda atuação no câmbio em menos de 24h.


… Foi a primeira intervenção dupla desde 2011. O Tesouro vendeu euro para comprar iene e não descartou ações futuras, após o secretário Scott Bessent considerar o iene barato e dizer que a volatilidade não era saudável.


… Ganhou repercussão na mídia a foto de Bessent com uma lista de tarefas na mão, durante uma reunião do gabinete de Trump em Camp David, em que estava escrita a ordem de “comprar iene (JPY) US$ 5-10 bilhões”.


… A moeda japonesa se fortaleceu (+0,66%) para 158,58 por dólar. Entre as divisas europeias, o euro ficou estável em US$ 1,1524 e a libra registrou alta marginal de 0,09%, a US$ 1,3474, com o DYX a 99,914 pontos (+0,05%).


… No domingo, o presidente Donald Trump confirmou a intervenção conjunta dos Estados Unidos e do Japão no mercado cambial para sustentar o iene, afirmando que a operação traz “benefício financeiro” e é positiva para a economia mundial.


… Segundo o republicano, a ajuda foi um “gesto de amizade” ao Japão. De seu lado, a ministra Satsuki Katayama disse que mantém comunicação estreita com o Tesouro americano e não hesitará em intervir junto novamente.


… Para Mohamed El-Erian, ex-Pimco, a principal dúvida agora é se a intervenção terá efeito duradouro ou será apenas um alívio temporário.


… O mercado se envolve nos questionamentos sobre a chance de o BC japonês antecipar um aperto do juro, na discussão que pode bater aqui no carry trade e influenciar também o apelo global pelos ativos de IA.


… O real, que pode sair perdendo com o interesse renovado pelo iene, terminou julho com alta acumulada de 1,8%, favorecido pelo rali superior a 20% do petróleo no mês, após o colapso das negociações para um cessar-fogo.


DEU TILT – Problemas técnicos na B3 atrasaram em mais de duas horas e meia a abertura do pregão do Ibovespa na sexta-feira e contribuíram para manter o volume de negócios nas médias recentes muito fracas, em R$ 18 bilhões.


… A B3 negou que tenha havido ataque hacker ou qualquer interferência externa nos sistemas e atribuiu a pane a “uma intercorrência operacional em um dos componentes tecnológicos do ambiente de pós-negociação”.


… Estrelas do dia, as units do Santander saltaram 13,35% e lideraram com folga os ganhos do dia, mas ainda não romperam os R$ 30, negociadas a R$ 28,62, após o anúncio da OPA de permuta por BDRs da matriz espanhola.


… A disparada zerou o tombo de mais de 8% nos dois pregões anteriores provocado pelo balanço trimestral.


… O foco do mercado se volta agora para os resultados do Bradesco (a ação PN subiu 0,22% e fechou na mínima de R$ 18,43) e do Itaú, que registrou alta de 0,35% e também fechou na menor cotação do dia, em R$ 42,89.


… No day after da divulgação de seus números, Vale desafiou a queda de 1,31% do minério e subiu 0,25% (R$ 76,28). Os papéis da Petrobras seguiram o avanço do petróleo: PN, +1,35%, a R$ 43,42; e ON, +1,01%, a R$ 49,04.


… A um triz dos 178 mil pontos, o Ibovespa fechou em alta de 0,47%, aos 177.999,00 pontos. O índice à vista quebrou uma sequência de quatro meses de queda e terminou julho com valorização acumulada de 3,47%.


… Em Wall Street, apesar do tombo de 9,65% da Apple, depois que a empresa alertou que está sofrendo com a falta de componentes, as bolsas americanas operaram embaladas pelo balanço da Amazon, com salto de 15,15% do papel.


… O Dow Jones subiu 0,53%, para 52.485,03 pontos, e o S&P 500 ganhou 0,70%, aos 7.489,72 pontos. O Nasdaq avançou 1,00%, para 25.373,85 pontos, mas terminou julho em queda de 1,98%, em meio às dúvidas sobre a IA.


CIAS ABERTAS NO AFTER – PETROBRAS aumentou no sábado em 1,9%, ou R$ 0,09 por litro, o preço do querosene de aviação. Em julho, o preço do combustível aéreo havia sido reduzido em 14,4% e, em junho, em 14,2%.


ITAÚ concluiu a transferência da operação de varejo para pessoas físicas de sua subsidiária na Colômbia ao Banco de Bogotá. A operação envolveu R$ 9,7 bilhões em carteira de crédito e R$ 7,2 bilhões em depósitos.


SANTANDER BRASIL. Conselho exonerou Maria Elena Lanciego Perez do cargo de diretora vice-presidente executiva.


CSN. Fitch rebaixou o rating da companhia de B para CCC+, mantendo a nota em observação negativa, diante da piora da flexibilidade financeira, da elevada alavancagem e dos riscos de refinanciamento.


AXIA e a Isa Energia informaram a conclusão do descruzamento de participações societárias na Interligação Elétrica do Madeira e na Interligação Elétrica Garanhuns.


ENGIE BRASIL. Acionistas aprovaram a incorporação da controlada Ceja, de capital fechado.


LIGHT. O fundo de investimentos Santander PB 1 Ações reduziu participação de 10,60% para 7,16% das ações ordinárias, em razão da diluição provocada pelo aumento de capital.


TELEFÔNICA BRASIL aprovou a incorporação da Fibrasil, com efeitos a partir de 1º de agosto. A subsidiária será extinta, sem aumento de capital ou emissão de novas ações.


NATURA recebeu pedido de acionistas que reúnem 38,82% do capital para convocar AGEs destinadas a deliberar sobre a dispensa de OPA e mudanças no conselho de administração…


… O pedido está relacionado à entrada da Advent, por meio do fundo Lotus, com participação mínima de 8%.


JHSF aprovou a 19ª emissão de debêntures, em até três séries, no valor de até R$ 1 bilhão.


RANDONCORP anunciou OPA facultativa para permuta de ações ordinárias da companhia por ações ordinárias da Frasle Mobility, na proporção de 2,7 ações da Randon por uma da Frasle…


… A Previ aderirá integralmente à oferta, trocando sua participação de 9.486.100 ações ordinárias da Randon por 3.513.370 ações da Frasle.


TUPY elegeu Augusto Ribeiro Junior, ex-Vibra, como novo diretor financeiro e de Relações com Investidores.


PARANAPANEMA adiou para 14/08 a transferência de valores aos credores e para 30/09 a liberação de saldo judicial e o pagamento de R$ 100 milhões.


ASTRAZENECA e Bristol Myers Squibb discutem fusão que pode criar companhia avaliada em cerca de US$ 400 bilhões, segundo o Financial Times.

domingo, 2 de agosto de 2026

Divida publica explodindo

 



A íntegra: 

O pior cenário chegou para a dívida pública

Saldo bruto alcança R$ 10,8 trilhões, ultrapassa 81% do PIB e confirma cenário explosivo previsto

Candidatos deveriam colocar na mesa com detalhes o que vão fazer para resolver esse impasse econômico


Adriana Fernandes

Brasília

A poucos meses do fim do terceiro mandato do presidente Lula (PT), o pior cenário para a evolução da dívida pública brasileira se confirmou.


A dívida bruta fechou o mês de junho em 81,9% do PIB (Produto Interno Bruto), de acordo com dados divulgados pelo Banco Central na sexta-feira (31). O maior patamar desde 2021, durante a pandemia da Covid-19.


Esse era o cenário de trajetória explosiva que os técnicos do Tesouro Nacional previam, há exatos dois anos, que a dívida chegaria em 2026, último ano do Lula 3. A previsão estava em documentos encaminhados ao Congresso Nacional como complemento da proposta de Orçamento de 2025.


Não era a projeção de nenhum analista fiscalista do mercado financeiro, que tantas e tantas vezes ao longo dos últimos anos integrantes do governo e do PT insistiam em chamar de terroristas fiscais do caos.


Era a área técnica do próprio governo que já enxergava a dívida bruta acima de 80% do PIB, patamar que o próprio Tesouro em documentos oficiais indicava que seria de uma trajetória explosiva de endividamento.

A previsão era um alerta, ignorado pelo Executivo e Legislativo. A sua divulgação chegou até ser questionada por auxiliares do presidente como alarmista.


Como se observa agora, a projeção era até conservadora, porque os dados consideram uma trajetória de resultado primário das contas do governo no centro das metas estipuladas para o período 2025-2028, o que não está acontecendo.


Àquela altura, o governo e o Congresso tinham nas mãos a oportunidade de mudar o jogo nas discussões de medidas para contenção do crescimento das despesas obrigatórias.


A opção foi seguir pelo caminho da pequenez, de olho nas eleições que acontecem daqui a dois meses. Foi um momento decisivo para o governo e a economia, que mais tarde os historiadores da política econômica vão poder trazer luz.


O pacote de medidas de corte de contenção de despesas, que gerou grande discussão no Palácio do Planalto em meio à escalada do dólar e das turbulências do mercado pelas incertezas fiscais, foi minguado para o Congresso e lá desidratado, inclusive com o apoio da oposição que se autoproclama fiscalmente responsável.


O pacote continha medidas positivas e, algumas delas, eram duras. Mas o problema é que a economia de gastos obtida, ainda que insuficiente, foi usada para abrir espaço para novas despesas. Não era um corte de despesas.


Depois do pacote, ninguém mais acreditou que o governo e o Congresso fariam algo. Passaram a esperar por 2027. A turbulência diminuiu, mas a inação de Brasília em todas as esferas de Poder cobrou seu custo com alta dos juros pagos de longo prazo no Brasil em patamares em torno de 7% e 8% ao ano.


É um cenário insustentável para a economia real, para as empresas, os investimentos e os brasileiros em geral.


É preocupante que muitos no governo Lula não reconheçam as dificuldades e insistam em culpar esse cenário pelos juros praticados pelo Banco Central. Não aceitam cobranças e falam de subserviência às vontades da entidade "Faria Lima".


O aumento da dívida coloca na berlinda o arcabouço fiscal, a regra fiscal que o governo conseguiu aprovar após a PEC da Transição que expandiu as despesas logo no início de 2023.


O ministro da Fazenda, Dario Durigan, fez um movimento no mercado para sinalizar medidas de reforço no arcabouço para diminuir o teto de crescimento anual das despesas permitido nas regras em caso de vitória de Lula. Já há críticas dentro do governo a esse movimento do ministro.


Em 2023, na sua primeira entrevista no cargo, o então secretário do Tesouro, Rogério Ceron, disse à Folha que assumia o compromisso de evitar que o endividamento superasse o patamar de 80% do PIB. "Se nada for feito, pode atingir de fato uma trajetória explosiva, mas não é o que vai acontecer", disse à reportagem. Esse cenário chegou e não dá para ignorar.


O crescimento da dívida e as soluções para barrar a trajetória explosiva não vão decidir a eleição. Mas os candidatos deveriam colocar na mesa com detalhes o que vão fazer para resolver esse impasse econômico. Vale para Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e quem mais estiver na corrida ao Palácio do Planalto.

Inflação e banco central

 *Leitura de Domingo: IPCA-15 benigno deve ampliar dissonância entre projeções de Copom e mercado*


Por Cícero Cotrim


Brasília, 28/07/2026 - A surpresa negativa com o IPCA-15 de julho deve ampliar a dissonância entre as expectativas de inflação do mercado e as projeções do próprio Banco Central, a serem divulgadas no próximo dia 5, junto com o comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom).

Como informou o IBGE nesta terça-feira, o IPCA-15 desacelerou de 0,41% em junho para 0,06% em julho, muito abaixo da menor estimativa coletada pelo Projeções Broadcast, de 0,17%. A mediana da pesquisa apontava para uma inflação de 0,21%, 0,15 ponto porcentual acima do resultado efetivo.

É a terceira surpresa negativa consecutiva, seguindo o IPCA-15 e o IPCA cheio de junho. Além do desvio negativo na inflação cheia, a média dos núcleos e os serviços subjacentes - componentes mais sensíveis à atividade e à política monetária - também ficaram abaixo das medianas.

Seguindo a governança usual, com o dólar estável em torno de R$ 5,10 frente ao Copom anterior e a atividade desacelerando conforme o previsto pelo comitê, tudo aponta para uma queda nas projeções de inflação da autoridade monetária (5,2% em 2026, 3,7% em 2027 e 3,2% no primeiro trimestre 2028) na semana que vem.

Ao mesmo tempo, a provável queda deve ampliar o gap entre as projeções do BC e as do mercado. A mediana do relatório Focus para o IPCA de 2026 está em baixa, mas continua elevada, em 5,12%. As estimativas para 2027 e 2028 têm subido e estão em 4,22% e 3,8%, respectivamente - bem acima do centro da meta, de 3%, e das estimativas do Copom.

É muito improvável, para dizer o mínimo, que haja uma reversão rápida nessas tendências. Afinal, a preocupação com a política fiscal de um eventual governo Lula 4, considerado o resultado mais provável da eleição de outubro, é o fator que tem puxado para cima as expectativas mais longas de inflação.

Esse risco político-fiscal futuro - que sequer decorre de alguma medida concretamente anunciada pelo atual presidente - é um fator que o Copom não incorpora, e nem deve incorporar, nas suas projeções. Por isso mesmo, as estimativas do comitê não devem acompanhar o estresse do mercado.

Ao que os números correntes de inflação indicam, a política monetária restritiva aplicada pelo BC ao longo de 2025 (e até agora) está tendo sucesso em reduzir o ritmo de alta dos preços, por qualquer métrica mensurável. Os choques monitorados - incluindo El Niño e disparada dos preços de petróleo - não são suficientes para explicar a alta das projeções de inflação mais longas.

Não surpreende, portanto, que os agentes do mercado estejam reconhecendo espaço para que o BC reduza a Selic em 0,25 ponto porcentual mais uma vez, a 14%, na semana que vem, mesmo com as expectativas desancoradas e incertezas como o impacto do programa Brasil Soberano 3, de resposta ao tarifaço, no radar.


Contato: cicero.cotrim@broadcast.com.br

Broadcast+

Leitura de domingo

 *Leitura de Domingo: Santander lança oferta de ações na B3 e abre caminho para fechar capital*


Por André Marinho e Altamiro Silva Junior

São Paulo, 30/07/2026 - O anúncio da oferta de aquisição de ações do Santander Espanha para comprar o restante dos papéis que não tem da unidade brasileira, uma operação de R$ 11,2 bilhões em troca de ações, deixa o banco perto de fechar o capital na B3. A liquidez das ações deve se reduzir de forma drástica na Bolsa paulista.

Oficialmente, o Santander afirma que deve seguir listado na B3 e o que pode acontecer é a saída da Bolsa de Nova York, onde tem American Depositary Shares. Na prática, porém, uma eventual adesão elevada secaria o volume de papéis em circulação no mercado brasileiro.

"Ficam a um passo de fechar capital, a liquidez na B3 vai despencar", disse uma fonte. Para um analista, a operação é um "corner" para o acionista minoritário, ou seja, o controlador terá a totalidade das ações, ditando os preços e deixando o mercado sem chance de operar.

Em resposta à notícia, os depósitos de ações (ADRs) do Santander Brasil avançavam cerca de 9% nas negociações estendidas da Bolsa de Nova York, por volta das 20h30 (horário de Brasília).


Discussão antiga

Ao menos desde o final de 2024, analistas e investidores vêm colocando o banco espanhol entre os maiores candidatos a fechar o capital na B3.

A razão é que as ações do Santander Brasil eram negociadas a múltiplos mais baixos que os dos papéis da matriz em Madri. Foi uma análise parecida que levou o Carrefour francês a tirar a filial brasileira da Bolsa, no final de maio de 2025. Mais recentemente, essa distância de múltiplos se ampliou ainda mais, pois os papéis da subsidiária brasileira acumulam queda forte. Só este ano, acumulam baixa de 21%, em meio à piora dos resultados no Brasil.

O anúncio da compra das ações vem um dia após o banco divulgar um balanço considerado muito fraco pelo mercado, com queda anual de 17% do lucro, provisões adicionais de mais R$ 7,6 bilhões e retorno patrimonial (ROE, em inglês) caindo para 12,5%, se distanciando dos pares privados e da meta do banco de levar o indicador para 20%.

Os números foram recebidos com desconforto entre investidores e derrubou ainda mais os papéis da instituição financeira, que perdeu cerca de R$ 8 bilhões em valor de mercado entre ontem e hoje, 30. No final do pregão desta quinta-feira, o banco valia R$ 95 bilhões na B3, o equivalente a um quinto do Itaú e também atrás dos rivais Bradesco (R$ 190 bilhões) e até do pressionado Banco do Brasil (R$ 131 bilhões). O preço deprimido também ajuda a tornar o momento mais favorável para esse tipo de OPA, na avaliação de observadores.

Matriz vê perspectiva favorável

A presidente executiva do grupo Santander, Ana Botín, disse que o Brasil é um dos principais mercados do conglomerado e as perspectivas são favoráveis. "Esta transação faz parte da nossa estratégia de alocação de capital de forma disciplinada, simplificar o grupo e fortalecer ainda mais o nosso compromisso de longo prazo com o Brasil." O prêmio para os acionistas é de 15% e a adesão é voluntária.

Em junho de 2025, analistas chegaram a se reunir com o então presidente do banco, Mario Leão, que deixou o cargo em junho de 2026, e questionaram sobre um possível fechamento de capital. Participantes relataram que Leão disse que essa proposta não existia naquele momento, embora não tenha descartado que pudesse ocorrer no futuro. "Leão reconheceu que dada a atuação avaliação de mercado do banco, não ficaria surpreso se uma ideia como esta fosse considerada no futuro", afirmou a equipe liderada por Daniel Vaz, do Safra, em relatório enviado a clientes naquele momento.

Como parte da operação, o Santander solicitará registro como emissor estrangeiro e o registro de suas ações para negociação no Brasil por meio de um programa de BDR. Também buscará aprovação da Assembleia Geral para o aumento de capital correspondente.

Contato: andre.marinho@estadao.com; altamiro.junior@estadao.com


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