segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Marilda Sotomayor




 "Aos 82 anos, ela organizou um congresso em São Paulo e viu três ganhadores do Nobel de Economia atravessarem o Atlântico só para sentar na plateia e ouvi-la.

Ela mesma, quando perguntada sobre o prêmio, respondeu sem rodeios: "jamais vou ganhar o Nobel".

Não foi resignação. Foi constatação.
Marilda Sotomayor nasceu no Brasil, formou-se matemática, e na juventude pensava em ser professora primária. Em vez disso, tornou-se uma das poucas latino-americanas a construir carreira internacional relevante em Teoria dos Jogos — uma área dominada, até hoje, por universidades americanas e europeias.

No fim dos anos 1980, ela pegou um modelo criado por David Gale e Lloyd Shapley — o problema de "casamento estável", que explica como parear dois grupos (candidatos e vagas, por exemplo) de forma que ninguém tenha incentivo para trocar de par depois — e fez algo que ninguém tinha feito: estendeu a teoria para mercados com dinheiro envolvido.

Essa extensão não era um detalhe técnico. Ela tornou o modelo aplicável ao mundo real, onde quase todo emparelhamento envolve preço, salário ou custo.

Shapley ganhou o Nobel de Economia em 2012 por esse campo. Sotomayor, coautora de um dos textos mais citados da área, não.
O motivo prático por trás disso é simples: o Nobel não é dado a quem constrói sobre uma ideia, mesmo que a construção seja essencial. E isso trouxe à tona uma pergunta desconfortável sobre como o crédito circula na ciência — especialmente para pesquisadoras fora do eixo Estados Unidos-Europa.

Mas o mais interessante é onde essa matemática mora hoje, sem que quase ninguém perceba:

→ Nos algoritmos que alocam residentes de medicina a hospitais nos EUA
→ Nos sistemas de troca de rim entre doadores e receptores incompatíveis
→ Nos motores de matching de apps de transporte e entrega, que decidem em milissegundos quem atende quem
→ Nos sistemas de alocação de vagas escolares em cidades como Nova York e Boston

Toda vez que um algoritmo decide "quem fica com quem" de forma que ambos os lados prefiram não trocar depois, há uma linhagem que passa pela mesa de trabalho de Marilda.

Existe um tipo de contribuição que nunca aparece em prêmio, mas aparece em toda infraestrutura que usamos sem saber que existe. Talvez o reconhecimento mais duradouro não seja uma medalha — seja o fato de que o trabalho continua rodando, silenciosamente, décadas depois.

Uma homenagem a essa brasileira incrível e que nos dá tanto orgulho."

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