domingo, 2 de agosto de 2026

Inflação e banco central

 *Leitura de Domingo: IPCA-15 benigno deve ampliar dissonância entre projeções de Copom e mercado*


Por Cícero Cotrim


Brasília, 28/07/2026 - A surpresa negativa com o IPCA-15 de julho deve ampliar a dissonância entre as expectativas de inflação do mercado e as projeções do próprio Banco Central, a serem divulgadas no próximo dia 5, junto com o comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom).

Como informou o IBGE nesta terça-feira, o IPCA-15 desacelerou de 0,41% em junho para 0,06% em julho, muito abaixo da menor estimativa coletada pelo Projeções Broadcast, de 0,17%. A mediana da pesquisa apontava para uma inflação de 0,21%, 0,15 ponto porcentual acima do resultado efetivo.

É a terceira surpresa negativa consecutiva, seguindo o IPCA-15 e o IPCA cheio de junho. Além do desvio negativo na inflação cheia, a média dos núcleos e os serviços subjacentes - componentes mais sensíveis à atividade e à política monetária - também ficaram abaixo das medianas.

Seguindo a governança usual, com o dólar estável em torno de R$ 5,10 frente ao Copom anterior e a atividade desacelerando conforme o previsto pelo comitê, tudo aponta para uma queda nas projeções de inflação da autoridade monetária (5,2% em 2026, 3,7% em 2027 e 3,2% no primeiro trimestre 2028) na semana que vem.

Ao mesmo tempo, a provável queda deve ampliar o gap entre as projeções do BC e as do mercado. A mediana do relatório Focus para o IPCA de 2026 está em baixa, mas continua elevada, em 5,12%. As estimativas para 2027 e 2028 têm subido e estão em 4,22% e 3,8%, respectivamente - bem acima do centro da meta, de 3%, e das estimativas do Copom.

É muito improvável, para dizer o mínimo, que haja uma reversão rápida nessas tendências. Afinal, a preocupação com a política fiscal de um eventual governo Lula 4, considerado o resultado mais provável da eleição de outubro, é o fator que tem puxado para cima as expectativas mais longas de inflação.

Esse risco político-fiscal futuro - que sequer decorre de alguma medida concretamente anunciada pelo atual presidente - é um fator que o Copom não incorpora, e nem deve incorporar, nas suas projeções. Por isso mesmo, as estimativas do comitê não devem acompanhar o estresse do mercado.

Ao que os números correntes de inflação indicam, a política monetária restritiva aplicada pelo BC ao longo de 2025 (e até agora) está tendo sucesso em reduzir o ritmo de alta dos preços, por qualquer métrica mensurável. Os choques monitorados - incluindo El Niño e disparada dos preços de petróleo - não são suficientes para explicar a alta das projeções de inflação mais longas.

Não surpreende, portanto, que os agentes do mercado estejam reconhecendo espaço para que o BC reduza a Selic em 0,25 ponto porcentual mais uma vez, a 14%, na semana que vem, mesmo com as expectativas desancoradas e incertezas como o impacto do programa Brasil Soberano 3, de resposta ao tarifaço, no radar.


Contato: cicero.cotrim@broadcast.com.br

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