segunda-feira, 16 de março de 2026

O PT e o poder Buzatto

 Preciso fazer alguns 'disclaimers' antes de postar o texto de Luiz Felipe Pondé na Folha de S. Paulo, datado de 16/03/2026:


1. Eu sempre fui anti-petista, por diversas razões que não vou enumerar aqui; apesar disso, já votei no PT (para prefeito de Campinas, por acreditar na pessoa, não no partido, e deu no que deu);


2. Tampouco sou bolsonarista; critiquei bastante o governo de Bozo, em especial seu desprezo pelo povo durante a pandemia, resultando no Brasil vice-campeão de mortes, com cerca de 2,5% da população mundial;


3. Em vista do desastre que foi o governo Bolsonaro, teria votado em Lula em 2022 (estava fora do Brasil na época) e recomendei a quem me perguntou que votasse em Lula, por razões óbvias;


4. Dado o desenrolar dos acontecimentos este ano, eu novamente recomendaria - e votaria - em Lula num segundo turno em outubro próximo, e talvez até já no primeiro, conforme os candidatos que se apresentarem;


5. Apesar disso tudo, me julgo no direito de concordar com Luiz Felipe Pondé sobre os estragos feitos ao Brasil por 17 anos de PT no poder. Temer tentou arrumar a casa um pouco, meio como aquele piloto de corridas de longa duração que pega um carro detonado e tem que levar aos boxes para ser colocado de novo na disputa, mas foi abatido em plena tentativa de decolagem pela gravação traiçoeira de Joesley Batista; Bolsonaro, bem, aqui nem há o que dizer, é abaixo de qualquer qualificação, foram 4 anos de desastre total.


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O que o PT fez de significativo para tirar o Brasil da lata de lixo? Nada


* Oposição tampouco põe a cabeça para fora da lama

* O país, hoje, se transformou no quintal de uma gangue


Luiz Felipe Pondé


Desde 2003, o PT domina o governo federal. Até 2026, o PT esteve no poder federal por 17 anos. Temer por dois anos, Bolsonaro por quatro anos —nenhum deles grande coisa. A pergunta que não quer calar é: nesses 17 anos, o que o PT fez de significativo para tirar o Brasil da lata de lixo? Resposta: nada.


Sei, o Bolsa Família. Para um nordestino como eu, o Bolsa Família é nada mais do que o velho voto de cabresto repaginado, que, seguramente, o Lula sabe muito bem o que era. Em troca de um prato de comida, vote no candidato do "coroné".


O Bolsa Família, politicamente, tem duas faces. Uma é a ajuda material para pobres —e não tão pobres que se aproveitam para ganhar um dinheiro fácil sem ter que trabalhar cansativamente; outra é um voto de cabresto, compra descarada de votos. Afora isso, o que o PT fez em 17 anos? Nada que tenha impactado a história recente do país. Sem dúvida, alguns serviços aqui e ali —quem quiser que desfie o rosário.


A última coisa séria que aconteceu no Brasil em termos de alterar a história recente do país e ajudar a população significativamente foi o Plano Real, que, aliás, o PT nunca foi muito a favor na época. A memória, essa infeliz! O Lula se referia ao governo FHC como "herança maldita". Pergunto, como um historiador que não seja vendido ao PT, coisa rara, chamaria a herança que o Brasil recebeu nesses 17 anos?


Vale apontar que a possibilidade de reeleger alguém como presidente muitas vezes —que não é uma invenção petista, há que se reconhecer— é uma herança maldita. Quando alguém, ou um mesmo partido, coloniza o governo federal por décadas, necessariamente, o resultado será catastrófico. Já vivemos essa catástrofe.


Esse processo implicou a transformação do Brasil no quintal de uma gangue. Essa gangue se torna uma hidra que toma quase todos os espaços, formando gerações de lacaios. Uma dessas classes de lacaios do PT é a inteligência pública nacional.


Constatar que os últimos anos do Brasil foram jogados na lata de lixo não implica pôr tudo na conta do PT —a oposição constituída nesses 23 anos tampouco põe a cabeça para fora da lama—, ainda que, tendo ocupado o governo federal por 17 anos, isso deveria aterrorizar sua consciência. O país pasta na lama.


Ainda assim, para além da responsabilidade direta do PT, o país parece condenado ao lixo da história. Nesses anos, o país se tornou quase um narcoestado. O crime organizado, hoje, disputa territorialmente a soberania local, sendo a Amazônia, essa joia do "blábláblá" nacional, parte do objeto da soberania criminosa no país.


O crime se espalha pelo interior do país —sendo as grandes cidades já províncias do crime—, chegando às pequenas cidades. Todo mundo sabe que estamos entregues ao crime.


A corrupção estrutural parece formar quadros profissionais que servirão como ferramenta de normalização de uma sociedade sem lei. Da periferia ao coração do mercado financeiro, sente-se, quase ninguém escapa.


A piora salta aos olhos quando a ideia de normalização passa ao universo da normatização, e a sociedade sem lei parece se tornar uma sociedade em que mesmo a lei serve a alguma forma de corrupção segmentada.


Hoje em dia, o escândalo do banco Master faz a todos —pelo menos àqueles que ainda têm o sentido do olfato ativo— sentir o cheiro de que há algo de podre no reino de Brasília. Corre à solta uma promiscuidade regada a uísque caro. A vergonha na cara parece ser um recurso extinto entre os quadros altos da República.


O cerco se fecha. O argumento da honra vira arma de censura no país. Sob a cortina da falsa honra, poderosos não temem mais fazer o que bem quiser. Onde já se viu o filho de um presidente pedir abertamente a altas autoridades da República para que seu sigilo bancário não seja quebrado por conta de uma investigação da fraude do INSS? Aliás, o que pensar de um país que monta uma gangue para roubar aposentados, essa classe esmagada pela canalhice nacional?


Os bolsonaristas, esses iniciantes na arte de formar gangues políticas, quiseram derrubar a democracia. O fato é que a democracia brasileira está corroída por dentro, e não por ação de uma tentativa de golpe montada por idiotas, mas, sim, por um lento e invisível processo que opera sob o signo de uma microfísica do poder, corrompendo o caráter das altas figuras da República.


Uma quadrilha parece ter tomado o poder no Brasil. Torna-se difícil imaginar quem escapa dessa gangue multifacetada e que ultrapassa os limites ideológicos, apesar de os idiotas insistirem neles. "Em nome do Estado de Direito", perde-se a vergonha na cara.

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