segunda-feira, 16 de março de 2026

Fernando Dourado

 Contagem regressiva


Eu não sei o que espera "O Agente Secreto" na premiação do Oscar. As categorias são muitas e, se levarmos uma estatueta, chegaremos à segunda-feira de alma lavada. Se vierem duas, teremos um mini carnaval em Recife, a cidade cenário. Quando falo com meus conterrâneos, é evidente que a conversa percorre latitudes que muitos de nós não visitavam há décadas. A grande questão é saber como os estrangeiros reagiram ao filme. Passei pela porta de cinemas que o projetavam em Bruxelas, Paris, Londres e Dublin, nesta última bem ao lado do hotel. Estive tentado a entrar para acompanhar as legendas, para ver como eles traduziam o jargão pernambucano e, sobretudo, qual seria o diapasão das conversas pós filme. Mas não havia tempo para tanto. As críticas eram bastante instigantes em todos os grandes jornais que li. Outra questão candente é como os brasileiros não nordestinos, não pernambucanos e não recifenses captam aquelas alegorias que entrelaçam a mitologia de uma cidade. Conheço pessoas do meu meio aqui em São Paulo que não gostaram nem um pouco. O primeiro indício é dizer que o filme é um pouco longo, que faltou a Kleber Mendonça Filho uma boa tesoura para nos livrar de uns 20 minutos supervenientes. Os recifenses normalmente pensam que o filme poderia durar mais meia hora, e que poderia ter realçado outros ingredientes da época: o futebol, a vida boêmia do porto, um baile de clube e locais icônicos. É assim que a coisa funciona. Entendo quem gosta do filme e entendo também quem não gosta.


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É claro que há uma clivagem que extrapola o que vai nas telas. De novo, há a esquerda e a direita. "O Agente Secreto" agrada mais à esquerda. O filme denuncia um aspecto sombrio da ditadura. O diretor é simpatizante do espectro político canhoto. Logo todo mundo que não gosta de Lula se sente na obrigação de não gostar do filme porque sabe das relações que os ligam. E do horror que o elenco tem ao antecessor do presidente. É humano que assim seja. Não podemos esperar das pessoas uma isenção de magistrado de antigamente, aqueles que honravam a toga e nem a esposa sabia o que lhe passava pela cabeça. Há também um grupo de pessoas que simplesmente não consegue ver graça numa linguagem que é a sua, sem ser. Na dissecação de um tubarão cujo mau cheiro sai das telas e em cujas entranhas jaz uma perna. E mais adiante, o que dizer da alegoria da tal perna moralista e peluda que saltita sua solidão nos parques públicos, chutando e castigando a perversão alheia? Há pessoas muito esclarecidas para umas coisas, mas para quem o Brasil e sua diversidade ainda parece terra estrangeira. Para quem o ideal de País seria uma população que acordasse cedo e dormisse cedo; usasse o crédito com parcimônia e austeridade; poupasse para a educação dos filhos e tivesse como ideal se opor a tudo que saia desse gabarito, inclusive na produção cultural. Esse Brasil consagra a Festa da Uva ou o Festival da Maçã. Come teriyaki na Liberdade, mas se sente mal com os transbordamentos de um povo heterogêneo, que nem sempre respeita o seu breviário.      


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Um amigo oráculo acha que temos uma estatueta garantida, mas esta não é a de melhor ator. Logo, se Wagner Moura for agraciado, teremos feito jus a um bônus. Para mim, a grande alegria é ver alguns endereços de Recife alçados à curiosidade mundial, pelo menos por parte dos cinéfilos. É relativo, sei. Como conto em "A Viagem Imóvel", uma vez fiquei uns dias na Pensió Bellmirall, em Girona, sem me dar conta de que ao lado fora filmada a série "Game of Thrones". É claro que o Centro de Recife é uma espécie de terra arrasada hoje em dia. Em 1977, já havia decadência, mas refulgia aqui e acolá o glamour dos anos 1950-60. Mas quem se aventurar vai gostar de caminhar pelo parque 13 de Maio, pelo casario da rua da Aurora - que está na contracapa de "O Halo Âmbar" - e, com sorte, encontrará um bom cicerone para falar de cinema, dos novos horizontes que a cidade propícia à indústria. Pelo Brasil, por Pernambuco e por Recife, torço sem perder o sono pela consagração do filme com a estatueta. Por Kleber, imagino o que ele mais queira a partir de domingo: esquecer tudo, tirar umas férias, ler bons livros, analisar uns roteiros e voltar ao trabalho porque o ciclo de um filme como este consome 3 anos na vida de uma pessoa - por baixo -, e quem tem o que dizer costuma ter pressa. Imagino que todos aqui neste espaço já tenham visto o filme - quiçá duas vezes -, mas não duvido que alguém ainda não o tenha assistido, por uma das razões acima. Agora vou pedir pela última vez que falemos deste filme e quero ouvir a sua opinião e, sobretudo, os seus sentimentos. O assunto envelheceu, mas é o segundo mais palpitante do momento. Ou seria o terceiro?


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Tudo depende de onde começa e acaba o seu mundo. Como disse Cícero Dias: "Eu vi o mundo... Ele começava no Recife."

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