MORREU LO PRETE (ou COISA DE VELHO)
Refleti sobre se escreveria ou não esta crônica.
Pois, como sempre apreciei e tenho amigos mais velhos, a tendência é haver cada vez mais semelhantes. (E, deveras, têm se sucedido ultimamente.) E não desejo que esta página se torne um obituário.
Mas Lo Prete merece. Era uma figuraça! Vou lhes contar.
Era siciliano. Veio a Recife nos anos 40 ou 50 do século passado, com muita cultura e pouco dinheiro.
Botou uma banca de revistas na Rua da Concórdia, e prosperou. Mas, contrariamente ao nome, teve que se mudar devido a conflitos políticos. Eram os anos anos 1970, de polarização semelhante à atual. (Lo Prete era comunista convicto, desses que REALMENTE leram "O Capital".)
Aí foi para a 7 de Setembro, juntinho da lendária livraria Livro 7. Ambiente perfeito para boêmios intelectuais comunistinhas feito ele.
E manteve, durante 2 décadas, seu reduto de prelo e doutrinação.
Lo Prete não era comunista de teoria. Deixava todos os "lascados" lerem os livros que quisessem em sua banca. (Só os obrigava a fazê-lo desconfortavelmente em pé.)
Também dava comida a todos os cachorros, gatos e mendigos que aportassem lá. (Fazia isso de maneira rude, esculhambando. Mas fazia.)
Era também um mentiroso terrível. Dizia-nos os maiores absurdos, e, se a gente não fingisse acreditar, ficava indignado.
Aos 60 anos, garantiu ter 85. Também jurou ter sido amigo íntimo de Caruso e de Gramsci.
Enviuvou aos 50 e poucos de Dona Carmella, e quase imediatamente casou com Zefinha, pernambucana da gema, cabocla e sestrosa.
Ela parecia vender saúde, mas morreu no parto do segundo filho que Lo Prete ia ter.
A tragédia o abateu ao ponto de só expor os livros e revistas, não mais sua pessoa. Deixou um rapaz de sua confiança "mostrando a cara" na administração dos negócios. Só íntimos, feito eu, tinham acesso pessoal a ele.
Na época, eu era de Esquerda. E ele me apreciava muito.
Previa que eu teria muita ascendência social, e achava que seria um ótimo incubador da Revolução (comunista).
(E teria sido mesmo, se não tivesse descoberto a DESGRACA que é o comunismo.)
Ficou perplexo, indignado e revoltado quando soube que eu pretendia votar no Bolsonaro.
Mandou me chamarem. Fui lá, mesmo achando que seria infrutífero e constrangedor.
Deveras, num italiano "raiz" (retirado de sua juventude, com certeza), que eu mal conseguia entender, ele me pediu que não "traísse" a causa proletária.
Tive pena daquele anarquista moribundo, e menti. Ele morreu feliz. Iludido de que eu ainda ia lutar pela Revolução.
Depois da cremação, perguntei a seu único filho se manteria a banca. Ele me olhou como se tivesse dito um absurdo, e respondeu-me: "Claro que não! Banca de revista é coisa de velho!"
Coisa de velho...
Talvez eu, na minha quinta década de vida, já esteja velho, sem perceber.
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