*Estadão: Ajuste fiscal é condição para evitar uma crise maior no País, afirmam economistas*
São Paulo, 29/08/2026 - Os economistas Elena Landau e José Roberto Mendonça de Barros são críticos do comportamento de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Na avaliação deles, a Corte vive uma crise de credibilidade e eles defendem uma discussão mais ampla sobre o processo de eventual impeachment de seus integrantes.
“Eu era contra impeachment de ministro do Supremo como bandeira política, porque esse assunto veio por conta da discussão de 8 de Janeiro e tal”, afirma Elena Landau, economista e advogada. “Hoje, a pauta sobre o Supremo não é uma pauta bolsonarista. Hoje, a pauta do Supremo é uma pauta da sociedade. E a sociedade não compra mais que os abusos do Supremo são em nome da democracia.”
“No caso específico do Supremo, eu acho que ele não percebeu, porque vive numa bolha, mas passou do ponto de não retorno”, acrescenta Mendonça de Barros, ex-secretário de Política Econômica e sócio-fundador da MB Associados.
Elena Landau e Mendonça de Barros participaram do quarto debate da série do Estadão que discute os desafios econômicos para o próximo governo, a partir de 2027, quando se inicia um novo mandato presidencial.
Os dois também mostraram pessimismo com a economia e dizem que o próximo governo - seja qual for o resultado da eleição - precisa avançar com uma agenda fiscal se quiser evitar uma piora acentuada da economia brasileira. “Se houver reeleição e a opção for manter a política atual sem nenhuma correção, o problema pode aparecer rapidamente. Não sei se isso deve ser chamado de otimismo, mas as circunstâncias podem impor uma mudança”, diz Mendonça de Barros. Segundo Elena Landau, “as medidas econômicas necessárias são relativamente conhecidas”. “O problema é político”, afirma.
O Brasil enfrenta problemas de governança no setor público e no privado. Qual é a dimensão desse problema?
Elena Landau: O pano de fundo é uma crise institucional e moral. O Congresso passou a fazer política pública muitas vezes voltada para seus próprios interesses, descolado da sociedade. O Executivo também está isolado, com acúmulo de sigilos e perda de transparência. E o Judiciário está envolvido em uma série de controvérsias, do Supremo às instâncias inferiores. Sabemos quais são as fórmulas para sair disso. É preciso fortalecer as instituições, recolocá-las em seus papéis e recuperar uma relação mais harmônica entre os Poderes. No setor público, isso é ainda mais importante, porque qualquer desvio afeta toda a sociedade. A crise institucional desestimula o bom investidor, o servidor público e o cidadão que procura agir dentro das regras de transparência e responsabilidade. José Roberto chama isso de problema de gestão e governança. Eu chamo de crise moral e institucional. No fundo, estamos falando da mesma coisa.
Mendonça de Barros: Concordo com a Elena. E acrescentaria que esse processo não começou agora. Ele vem se acumulando e está se tornando mais visível. A imprensa e diferentes setores da sociedade passaram a reagir, o que me impede de ser totalmente pessimista. Minha experiência mostra que o Brasil costuma mudar quando chega perto do abismo. Foi assim com a inflação. Sem uma situação-limite, prevalecem a acomodação e a resistência às reformas. Hoje, além do problema institucional, temos um problema econômico grave, ligado ao desequilíbrio fiscal. O crescimento vem desacelerando, as recuperações judiciais aumentaram e os instrumentos que ajudaram o País em outros momentos se esgotaram. A China impulsionou a economia na primeira década do século; depois vieram o agronegócio e o petróleo. Mais recentemente, houve aumento da carga tributária. O diagnóstico está cada vez mais claro: sem reorganizar minimamente as finanças públicas, o Banco Central terá pouca margem para reduzir os juros. Estamos nos aproximando de uma situação perigosa, agravada pela incerteza internacional.
Elena Landau: Minha preocupação é também saber quem terá legitimidade e capacidade para comandar uma saída. Fernando Henrique Cardoso chegou ao governo depois de participar diretamente da formulação do Plano Real e reuniu uma equipe que sabia onde queria chegar. Michel Temer, apesar de todas as dificuldades políticas, também montou rapidamente uma equipe com um diagnóstico claro. Hoje, as soluções econômicas estão sobre a mesa. O problema está na capacidade política de executá-las. Minha maior preocupação é com os Poderes, a representatividade e, especialmente, o Supremo. Aquele que, em tese, pode errar por último, precisa também estar sujeito às consequências de erros graves. Se a população está apática e descrente das instituições, como o investidor olha para o Brasil? Há uma taxa de juros elevada que pode compensar parte do risco, mas a incerteza institucional pode afastar investimentos.
Mendonça de Barros: Há, por outro lado, uma oportunidade. O Brasil é um dos poucos países que vêm atravessando relativamente bem o tumulto provocado pela reorganização da economia global. Temos recursos naturais competitivos, produzimos bens de que o mundo precisa, podemos ampliar a produção e estamos fora das principais zonas de conflito. Isso pode trazer uma transferência de renda do exterior e novos investimentos. É uma das alavancas que podem ajudar o País a enfrentar os problemas internos.
E como vocês veem 2027? O Brasil sai do abismo ou cai nele?
Mendonça de Barros: Acho que 2027 será pior do que este ano. Nossa projeção é de crescimento de 1,8% neste ano e de apenas 1% no próximo. Com esse ritmo, o País pode se aproximar de uma recessão. O melhor cenário seria a percepção, entre os agentes políticos e econômicos, de que o risco se tornou real. Essa percepção já chegou às empresas e aos investidores. A questão é saber se quem vencer a eleição terá capacidade de reconhecer o problema e agir.
Elena Landau: Sou pessimista porque não vejo, até agora, uma movimentação compatível com a gravidade da situação. A discussão eleitoral ainda gira, por exemplo, em torno de saber se os juros causam a dívida ou se a dívida provoca juros altos. Há um número crescente de recuperações judiciais, famílias endividadas e uma desaceleração econômica em curso. É possível produzir um choque de credibilidade, mas isso dependerá do vencedor da eleição e da equipe que formar. Se Lula for reeleito, terá de promover mudanças difíceis, como reformas nas despesas obrigatórias. Se vencer a oposição, será preciso saber se terá equipe e força política para aprovar um programa consistente. Meu otimismo está no próprio País. Quando as condições aparecem, o investimento privado responde, como ocorreu nas concessões e nas parcerias público-privadas. O problema é que o Brasil continua recorrendo a soluções fragmentadas: cria-se um subsídio aqui, uma linha de crédito ali, um benefício para determinado setor. O resultado é uma economia cada vez mais complexa e dependente de exceções.
Mendonça de Barros: Há também mudanças estruturais importantes. O antigo sistema de proteção à indústria nacional está sendo desafiado. A entrada de produtos chineses, especialmente dos carros elétricos, aumentou a concorrência e está obrigando empresas instaladas no País a reduzir preços e ganhar eficiência. Os símbolos da indústria brasileira também mudaram. Empresas como Embraer e WEG representam uma economia mais integrada à competição internacional.
Elena Landau: Exatamente. A concorrência é fundamental. O problema é que os lobbies continuam fortes. Todo setor se considera importante o suficiente para merecer um tratamento especial. Acho que seria necessário regulamentar de forma mais transparente a atividade de lobby. Mas o exemplo precisa vir de cima. Não adianta exigir transparência de representantes privados se os próprios dirigentes dos Poderes se reúnem para discutir acordos políticos sem dar explicações à sociedade. Também é preciso distinguir o lobby de decisões baseadas em uma visão equivocada da economia. Muitas vezes, o governo cria subsídios e linhas especiais de crédito acreditando que isso estimulará o investimento, mas essas exceções reduzem a eficácia da política monetária e acabam pressionando os juros. Uma estrutura tributária mais simples e isonômica reduziria os espaços para privilégios, lobby e corrupção. Quanto mais “caixinhas” existirem, maior será a disputa por benefícios.
Mendonça de Barros: O ponto central continua sendo o ajuste fiscal. Não será suficiente para resolver todos os problemas, mas é a condição inicial para recuperar a credibilidade e permitir uma redução mais consistente dos juros. Mudanças complexas costumam depender de catalisadores. A percepção de que estamos nos aproximando de uma situação-limite pode produzir esse movimento. Se houver um ajuste fiscal minimamente consistente, poderá se formar um círculo virtuoso: mais credibilidade, juros menores e recuperação da atividade.
Elena Landau: Concordo que as medidas econômicas necessárias são relativamente conhecidas. O problema é político. Reduzir o crescimento das despesas obrigatórias significa discutir temas como Previdência, salário mínimo e vinculações orçamentárias. Minha dúvida é se o próximo presidente terá capacidade de fazer isso. Tenho receio de que o debate eleitoral termine em promessas incompatíveis com a situação fiscal e que, depois da eleição, o governo seja obrigado a mudar radicalmente de rumo.
Mendonça de Barros: Se houver reeleição e a opção for manter a política atual sem nenhuma correção, o problema pode aparecer rapidamente. Não será preciso esperar três anos. A inflação pode acelerar, o câmbio subir e empresas começarem a enfrentar dificuldades. Não sei se isso deve ser chamado de otimismo, mas as circunstâncias podem impor uma mudança. A casa está deteriorada e será necessário construir algum tipo de sustentação.
Como vocês avaliam o próximo Congresso e o debate sobre o Supremo?
Elena Landau: Eu era contra impeachment de ministro do Supremo como bandeira política, porque esse assunto veio por conta da discussão de 8 de Janeiro e tal. Totalmente deslocada. Hoje, a pauta sobre o Supremo não é uma pauta bolsonarista. Hoje, a pauta do Supremo é uma pauta da sociedade. E a sociedade não compra mais que os abusos do Supremo são em nome da democracia. Pelo contrário, os abusos vêm fragilizando o sistema democrático. Sou a favor do impeachment de um ministro do Supremo, porque acho que, já que você erra por último, você tem de também sofrer as consequências de um erro grave. Chegou a um ponto que o ministro do Supremo precisa de carro blindado para ir à praia, porque ele não consegue andar na rua mais. Talvez, um processo de impeachment - não vou dizer qual, porque tem vários candidatos - seja uma maneira de dizer: ‘Olha, você está errando muito. Está abusando do seu direito de ser, entre os Três Poderes, aquele que, no fundo, tem o poder de julgar os outros dois’. E tudo indica que vamos ter um Congresso mais à direita, o que significa uma questão da governabilidade no caso de reeleição do Lula, que hoje já é considerado um Executivo fraco, de como é que ele vai se adaptar com os desafios da sua própria herança. Por outro lado, se for um candidato da oposição, o Congresso vai ter de apoiar esse candidato da oposição se ele vier com as ideias que tem de vir. No Congresso, tem de voltar à comissão, tem de parar o regime de urgência.
Mendonça de Barros: No caso específico do Supremo, acho que ele não percebeu, porque vive numa bolha, mas passou do ponto de não retorno. Basicamente é isso. Não tem mais o respeito que tinha antes. Acho que vai acontecer alguma coisa do tipo, alguma coisa séria de impeachment de pelo menos um caso. Não sei se vai chegar até o fim, mas vai mostrar seriamente que esses senhores não têm mais todo o poder que julgam ter. Vai ter de acontecer de fora. É o mesmo argumento. Esse choque tem de vir de fora, porque, obviamente, lá não tem a menor chance de sair. No Congresso, como é muita gente, eu acho mais complicado. Eu acho que a chance de alguma melhora no Congresso é de uma nova geração chegar, porque essa geração que comanda dificilmente vai mudar.
Elena Landau: O País precisa recuperar uma referência institucional e uma ideia de que boas práticas devem prevalecer sobre as más. Hoje, há uma sensação de desorganização e de perda de confiança que afeta desde o comportamento cotidiano até o funcionamento das instituições. Também não conseguimos enfrentar adequadamente o avanço do crime organizado, que se expandiu para diferentes setores da economia. É um dos sinais mais preocupantes da deterioração institucional.
Mendonça de Barros: A situação é mais complexa do que parece. O Brasil precisa interromper uma trajetória de deterioração econômica e institucional. Isso não acontecerá de forma rápida. Reconstruir a governança democrática, a governança privada e a confiança nas instituições levará tempo. Mas o primeiro passo é mudar a direção. O ajuste fiscal é uma condição básica. Depois, será necessário reconstruir, gradualmente, as regras, a transparência e a capacidade das instituições de funcionar dentro de seus limites. Sem isso, continuaremos apenas escorregando.
(LUIZ GUILHERME GERBELLI)
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