domingo, 30 de agosto de 2026

Por uma educação de qualidade

 As lições de casa de quem ensina

A educação de qualidade no Brasil não só é possível, como em vários lugares já é uma realidade. O próximo passo é converter exemplos dispersos em aprendizado para o sistema inteiro
Estadão Editorial
30/8/26
O levantamento do Todos Pela Educação sobre o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2025 encontrou em Joinville (SC) uma das melhores aprendizagens entre as grandes redes municipais nas quatro comparações: Português e Matemática, no 5.º e no 9.º ano. No Brasil, metade dos alunos do 5.º ano alcança o nível adequado em Matemática; no 9.º, a proporção cai para 18,8% e, ao fim do ensino médio, para 8,5%. O avanço obtido nos anos iniciais se dissipa justamente quando os conteúdos ficam mais complexos.
Joinville oferece o fato novo, porém está longe de ser um acidente solitário. Sobral (CE), Teresina e outras redes obtêm bons resultados em regiões, escalas e condições sociais muito diferentes. A diversidade desautoriza o conforto fatalista segundo o qual pobreza ou território condenariam os alunos ao fracasso. Também enfraquece a procura por um programa milagroso. Os nomes das políticas variam; o traço comum está no modo como elas se encaixam.
As redes que ensinam mais organizam a escola e a secretaria em torno da aprendizagem de cada aluno. Um currículo claro determina o percurso. Avaliações próximas da sala de aula revelam onde ele foi interrompido e provocam uma resposta antes que a dificuldade se acumule. A formação dos professores trabalha os erros encontrados, enquanto diretores e equipes técnicas ajudam a transformar o diagnóstico em novas aulas. Outra avaliação verifica se houve avanço.
Teresina mostra essa engrenagem em movimento. A Prova Teresina situa os estudantes por nível de aprendizagem e desencadeia respostas diferentes: quem está abaixo do básico recebe uma hora adicional diária de Português e Matemática; alunos no nível básico têm reforço aos sábados. Os resultados orientam a formação quinzenal dos professores. Nas visitas às escolas, superintendentes observam aulas e ajudam os diretores a ajustar a intervenção. O dado percorre um caminho curto entre a prova e o aluno.
Sobral acrescenta uma dimensão menos vistosa, mas decisiva: o tempo. Depois de descobrir, em 2000, que quase metade das crianças do 2.º ano não lia, o município fez da alfabetização uma prioridade. Em torno dela, estruturou currículo e materiais, preparou professores e diretores e preservou o rumo por mais de duas décadas. Continuidade, nesse caso, significou acumular competência e corrigir instrumentos, em vez de rebatizar a política a cada eleição.
O teste mais duro vem na passagem aos anos finais. Aos 11 ou 12 anos, o professor de referência cede lugar a vários especialistas que muitas vezes pouco conversam entre si, justamente quando o adolescente mais precisa de vínculo e orientação. O currículo comum, o acompanhamento individual e a coordenação entre docentes precisam impedir que essa mudança dissolva a responsabilidade pelo aluno. Alfabetizar abre o caminho; a rede ainda terá de mantê-lo transitável.
Essa combinação requer cuidado ao ser reproduzida. Se a cobrança por resultados for mal desenhada, a rede pode estreitar o currículo, engessar o professor e premiar a manipulação. A régua deve alcançar o conhecimento efetivo e cada criança que ficou para trás. Médias altas e aprovação quase universal podem esconder alunos abaixo do básico, escolas negligenciadas e conteúdo raso.
Entre as experiências já testadas para dar escala à qualidade, o Ceará oferece o exemplo mais sólido. O Estado levou aos municípios avaliação, materiais, formação, assistência técnica e incentivos, aproveitando lições e quadros surgidos em Sobral sem retirar das prefeituras a execução cotidiana. Deu, assim, às redes mais frágeis uma capacidade que dificilmente construiriam sozinhas. A União deveria exercer função semelhante, concentrando apoio onde a competência local é menor.
O novo levantamento acrescenta Joinville a um mapa que já contém experiências variadas e conhecimento acumulado. As boas redes brasileiras mostram que ensinar depende da capacidade de descobrir uma lacuna e mobilizar todo o sistema para fechá-la, ano após ano. Os programas precisam adaptar-se ao lugar, mas seus princípios podem viajar. Há pontos suficientes no mapa da boa escola pública. Cabe ligá-los para que a aprendizagem dependa menos da sorte do endereço.

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