*Rosa Riscala: Orçamento abre semana decisiva para os juros*
… O Orçamento de 2027 coloca a credibilidade fiscal à prova nesta segunda-feira, quando também saem os dados consolidados de julho. Amanhã, o PIB do segundo trimestre deve reforçar os sinais de desaceleração da economia e as apostas em novo corte da Selic. Lá fora, o payroll de agosto ganha ainda mais peso na sexta-feira, com o mercado sob o impacto do tom hawkish de Warsh em Jackson Hole, que virou as apostas para uma alta dos juros pelo Fed em setembro. O contraste entre Fed e Copom fica mais evidente justamente quando o petróleo volta a preocupar, após os Estados Unidos atacarem alvos iranianos em Ormuz neste domingo e Teerã prometer retaliar.
ORÇAMENTO TESTA CREDIBILIDADE FISCAL – O governo envia hoje ao Congresso o PLOA de 2027, prometendo entregar o primeiro superávit efetivo das contas públicas em anos, mas terá de convencer o mercado de que os números projetados vão se sustentar na execução.
… O Orçamento manterá a meta prevista na LDO, de superávit de 0,5% do PIB, equivalente a R$ 73,2 bilhões.
… Segundo antecipou o ministro Bruno Moretti em entrevistas à GloboNews, à Folha e ao Valor, mesmo depois de contabilizadas as despesas excluídas da meta, o resultado “cheio” ficará positivo entre R$ 18 bilhões e R$ 20 bilhões, pouco acima de 0,1% do PIB.
… A projeção representa um ajuste de cerca de 0,5 ponto porcentual do PIB em relação ao déficit efetivo de 0,4% esperado para este ano.
… A diferença entre a meta oficial e o resultado efetivo decorre, entre outros fatores, das exceções permitidas pela legislação. Moretti destacou que parte das despesas com precatórios ainda fica fora da meta e está sendo incorporada gradualmente, à razão de 10% ao ano.
… O ministro do Planejamento afirma ainda que, diferentemente de Orçamentos anteriores, a proposta de 2027 não dependerá da aprovação pelo Congresso de novas medidas de arrecadação para fechar as contas.
… Entre as receitas previstas estão cerca de R$ 20 bilhões com o leilão de petróleo do pré-sal, adiado deste ano. O governo diz ter adotado premissas conservadoras, como uma cotação do Brent próxima de US$ 70.
… Do lado das despesas, a principal mudança estará na composição.
… Enquanto o limite do arcabouço crescerá 7,7%, os gastos obrigatórios sujeitos ao teto avançariam entre 6,8% e 6,9%, abrindo espaço para uma expansão de cerca de 20%, ou quase R$ 40 bilhões, das despesas discricionárias, que incluem custeio e investimentos, entre eles o Novo PAC.
… O salto das discricionárias chamou a atenção do mercado e ajudou a pressionar a ponta longa dos juros na sexta-feira (leia abaixo).
… Moretti argumenta, porém, que uma base maior de despesas não obrigatórias também amplia a margem para contingenciamentos caso haja frustração de receitas, permitindo perseguir a meta fiscal sem comprometer o funcionamento da máquina pública.
… O governo calcula ainda uma economia de cerca de R$ 100 bilhões em 2027 em relação ao cenário sem as medidas de contenção adotadas nos últimos anos. Desse total, R$ 80 bilhões decorreriam do pacote fiscal de 2024 e R$ 20 bilhões dos gatilhos acionados para o próximo ano.
… Entre eles, estão a trava que limita a 0,6% acima da inflação o crescimento das despesas com pessoal, a limitação do avanço de despesas financiadas por vinculações legais não constitucionais e a retirada das receitas com petróleo e gás do cálculo da receita corrente líquida.
… As contas de 2027 também serão favorecidas pela antecipação para este ano de R$ 3 bilhões em despesas temporárias de saúde e educação que originalmente seriam programadas para o próximo exercício. Já o salário mínimo será projetado em R$ 1.741, alta de R$ 120.
… A promessa de um superávit efetivo, porém, deve ser recebida com cautela após sucessivas diferenças entre as projeções e os resultados realizados. O PLOA/2024, por exemplo, previa superávit de R$ 2,84 bilhões e o ano terminou com déficit efetivo de R$ 43 bilhões.
… Por isso, mais do que o número anunciado nesta segunda-feira, o mercado deve avaliar a qualidade das receitas, a executabilidade das economias previstas e quanto do aumento das despesas discricionárias será efetivamente gasto.
… A reação da ponta longa dos juros será um dos primeiros termômetros da credibilidade atribuída às contas de 2027.
DEPOIS DE WARSH, O PAYROLL – Warsh deixou muito claro em Jackson Hole que a principal preocupação do Fed neste momento é a inflação, advertindo que não há garantia de que os preços retornem sozinhos à meta de 2% – uma fala interpretada como hawkish.
… Reconheceu a melhora dos últimos indicadores, mas disse que eles ainda não mostram avanço significativo das tendências subjacentes. “Se não houver evidências claras de que a inflação está convergindo para a meta com velocidade suficiente, o Fed terá trabalho a fazer.”
… O recado virou as apostas para a próxima reunião do Fomc, em setembro. A probabilidade de aumento dos juros em 25 pontos-base passou a 57,5%, segundo o CME FedWatch, depois de o cenário majoritário na véspera ainda ser de manutenção.
… O mercado também passou a embutir pelo menos uma elevação dos juros até o fim deste ano e novos apertos em 2027, com reação imediata na Treasury de dois anos, que chegou a subir mais de 10 pontos-base, enquanto o dólar se fortaleceu e as bolsas perderam fôlego.
… Warsh não foi explícito sobre setembro, deixando os próximos passos dependentes dos dados. Agora, os números do emprego ao longo desta semana, culminando com o payroll na sexta-feira, vão testar até onde essa disposição para voltar a subir os juros pode ir.
… A bateria começa amanhã, terça-feira, com o Jolts de julho, que deve mostrar 7,35 milhões de vagas abertas. Na quarta, o ADP deve apontar criação de 46,5 mil empregos privados em agosto e, na quinta, os pedidos de auxílio-desemprego devem subir de 203 mil para 207,5 mil.
… O payroll de agosto será o último antes do Fomc de 16 de setembro e ganhou peso adicional após a perda de 23 mil vagas em julho, com a taxa de desemprego em 4,1%. Também serão acompanhados os salários, que avançaram apenas 0,1% em julho e 3,2% em 12 meses.
… Uma nova deterioração do emprego pode dificultar uma alta já em setembro, apesar do tom duro de Warsh.
… Em sentido contrário, sinais de resiliência do mercado de trabalho, que Warsh considerou compatível com o pleno emprego, reforçariam a leitura de que o Fed tem espaço para concentrar esforços na inflação e poderiam consolidar as apostas em aperto monetário.
… O pano de fundo já vinha ficando mais hawkish antes mesmo de Jackson Hole.
… A ata da reunião de julho mostrou três votos por uma alta dos juros e revelou que “vários” dirigentes defendiam um aumento de 25 pontos-base, enquanto “muitos” avaliavam que novo aperto poderia ser necessário caso a inflação permanecesse persistente.
… O Fed terá ainda o Livro Bege na quarta-feira, com novas indicações sobre atividade, emprego, salários e preços nas diferentes regiões do país e os “Fed boys” continuarão falando, entre eles, Michael Barr, Christopher Waller, Beth Hammack e Austan Goolsbee.
… As novas declarações serão acompanhadas de perto para medir quanto apoio existe dentro do Comitê para uma alta já em setembro.
SOBE LÁ, CORTA AQUI – Para os mercados emergentes, a mudança de cenário no Fed tem efeito direto.
… Juros americanos mais altos tendem a fortalecer o dólar e reduzir a liquidez destinada a ativos de maior risco, justamente quando o Brasil caminha na direção oposta e o mercado dá como certo um novo corte de 25 pontos-base da Selic em setembro.
… A aposta ganhou força na sexta-feira, depois que o Caged mostrou criação de apenas 58,6 mil vagas formais em julho, praticamente metade das 114 mil esperadas pelo mercado e mais um sinal de moderação da atividade.
… A surpresa reforçou a percepção de que o mercado de trabalho começa finalmente a perder a resiliência que vinha preocupando o Banco Central e já levou alguns analistas a discutir a possibilidade de outro corte de 25 pontos-base em uma das reuniões seguintes.
… Mas o espaço para estender o ciclo não dependerá apenas da desaceleração da economia.
… Uma eventual alta dos juros pelo Fed estreitaria o diferencial de taxas justamente quando a eleição e as incertezas sobre a política fiscal do próximo governo tendem a elevar o prêmio exigido para os ativos brasileiros.
… E o fiscal, como você leu acima, ganha peso especial nesta segunda-feira, com a apresentação do Orçamento de 2027.
… A combinação desses riscos já apareceu na curva na sexta-feira: enquanto o Caged mais fraco ajudou a derrubar os juros curtos, as taxas longas avançaram mais de 10 pontos-base, pressionadas pelo cenário fiscal, pelos Treasuries e também por fatores técnicos.
… A divergência expõe o desafio para o Banco Central: os dados domésticos podem justificar novos cortes da Selic, mas Fed, fiscal e eleição podem limitar até onde será possível levá-los. Vai ser uma superquarta especial em setembro, com Fomc e Copom no mesmo dia.
E AINDA TEM O PETRÓLEO – O alívio provocado pela melhora do fluxo de navios pelo Estreito de Ormuz levou o petróleo a fortes perdas na semana, mas novos episódios no fim de semana lembraram que a situação continua longe de normalizada.
… Forças americanas atacaram neste domingo dois lançadores de foguetes iranianos na Ilha de Larak, no Estreito de Ormuz, no primeiro ataque reconhecido dos Estados Unidos contra o Irã em um mês.
… Segundo o Centcom, integrantes da Guarda Revolucionária preparavam-se para lançar foguetes carregados com minas nas águas do Estreito. Teerã prometeu retaliar, elevando novamente o risco de uma escalada militar.
… No sábado, um petroleiro já havia sido atingido por um projétil de origem desconhecida quando navegava em direção a Ormuz. Não houve vítimas nem vazamento de carga, mas a UKMTO recomendou cautela extrema às embarcações na região.
… As negociações continuam travadas. Washington já informou a mediadores que não pretende retomar os termos do acordo preliminar de junho, enquanto Teerã diz que a volta à mesa depende de os Estados Unidos “construírem confiança”.
… Ao mesmo tempo, Washington amplia a pressão econômica sobre Teerã.
… As novas sanções já atingiram o Banque Misr, um dos maiores bancos do Egito, acusado de manter operações relacionadas ao regime iraniano. A ofensiva continuará nesta semana no G20, onde Scott Bessent deve pressionar os participantes a restringirem o fluxo de capital para o Irã.
… Do outro lado, Vladimir Putin se reúne com Xi Jinping e Pezeshkian na cúpula da Organização de Cooperação de Xangai, enquanto o líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, pediu neste domingo união dos países muçulmanos contra Estados Unidos e Israel.
… Outra novidade no mercado de petróleo veio da Venezuela.
… Trump anunciou um acordo que dará aos Estados Unidos participação majoritária em uma nova operação envolvendo 17 campos venezuelanos, com potencial de produção superior a 1,5 milhão de barris por dia.
… Segundo os termos divulgados até agora, os Estados Unidos terão direito a 55% da produção efetiva e poderão comprar petróleo a preço de custo. Parte dos barris será destinada à recomposição das reservas estratégicas americanas.
… O impacto sobre a oferta, porém, não será imediato. A deterioração da infraestrutura venezuelana exigirá investimentos bilionários e anos para que o País consiga recuperar parte relevante da capacidade perdida.
… Assim, após acumular quedas de 4,2% (WTI) e 6,6% (Brent), o petróleo começa a semana novamente sob pressão, dividido entre a melhora gradual dos fluxos por Ormuz e a ameaça de retaliação aos novos ataques americanos, que mantém elevado o prêmio geopolítico.
… Na sexta-feira, o WTI fechou cotado a US$ 83,40 (-0,16%) e o futuro do Brent para entrega em novembro a US$ 88,10 (-0,47%).
ELEIÇÃO – Em plena campanha eleitoral, Lula recebe hoje à noite no Palácio da Alvorada grandes empresários e banqueiros para um jantar organizado pelo presidente do PT, Edinho Silva.
… Entre os convidados estão André Esteves, do BTG Pactual, Roberto Setúbal, do Itaú, Luiz Carlos Trabuco Cappi, do Bradesco, Joesley Batista, da JBS, e José Seripieri Júnior, da Amil.
… O encontro ocorre poucos dias depois de Flávio Bolsonaro também participar de um jantar com banqueiros e empresários. Lula já havia recebido André Esteves fora da agenda oficial há cerca de dez dias.
CAMPANHA. Lula e Flávio estrearam no sábado na propaganda eleitoral gratuita. O presidente defendeu o legado do governo e atacou o adversário, enquanto Flávio concentrou críticas na economia e procurou ampliar os acenos ao eleitorado feminino.
… Neste domingo, Flávio prometeu dar um “tesouraço” nos gastos públicos, com uso de tecnologia e IA, e voltou a criticar o nível da Selic.
… O candidato também defendeu acelerar a exploração de petróleo na Margem Equatorial e apresentou como alternativa à PEC do fim da escala 6×1 uma proposta que permitiria aos trabalhadores escolher a própria carga horária e os dias de trabalho.
TSE. A campanha de Lula pediu a inelegibilidade de Flávio por suposto abuso de poder econômico em sua participação na Festa do Peão de Barretos. A defesa alega uso de estrutura financiada por empresas e órgãos públicos e caracteriza o evento como um “showmício disfarçado”.
… Já o ministro Dias Toffoli retirou da pauta do TSE o julgamento do registro da candidatura de Renan Santos, do Missão, previsto para começar hoje no plenário virtual, apontando “indícios de ilicitude” relacionados às informações sobre perfis em redes sociais.
CURTAS – Em semana de esforço concentrado, o presidente da Câmara, Hugo Motta, acelerou a tramitação da MP que acaba com a taxa das blusinhas e marcou para hoje à noite a votação da proposta no plenário. O texto precisa passar também pelo Senado.
6X1. Senadores da base governista articulam votar amanhã a PEC que acaba com a escala 6×1. O relator na CCJ, Omar Aziz, já apresentou parecer favorável ao texto aprovado pela Câmara. Lula afirmou no sábado que o Congresso aprovará a proposta nesta semana.
BRASIL-EUA. Os negociadores dos dois países retomam hoje as conversas sobre o tarifaço, por determinação de Lula e Donald Trump. O encontro virtual, às 14h30, reunirá o ministro Márcio Elias Rosa e o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer.
… A negociação foi reaberta depois da conversa entre Lula e Trump no dia 21.
… O governo brasileiro, porém, não espera uma reversão das sobretaxas americanas no curto prazo e mantém em andamento tanto a ação na OMC quanto o processo para eventual aplicação da Lei da Reciprocidade.
CONGRESSO. O Senado deve aproveitar o esforço concentrado desta semana para analisar também o projeto que cria o Redata. Outra proposta na pauta é a criação da política nacional de minerais críticos, já aprovada pela Câmara.
BANDEIRA AMARELA. A Aneel anunciou na sexta-feira que as contas de luz seguirão com taxa adicional de R$ 1,885 a cada 100 quilowatts-hora (kWh) consumidos no mês de setembro, mesmo patamar verificado desde maio.
… A Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) projeta que as tarifas devem permanecer na bandeira amarela até novembro. A partir de dezembro, com o fim do período seco, podem seguir para a bandeira verde.
MAIS AGENDA – Além do payroll, a agenda internacional traz uma bateria importante de dados de atividade e inflação. Aqui, o Orçamento de 2027 domina as atenções, mas ainda hoje tem o resultado fiscal de julho e, amanhã, o PIB do segundo trimestre.
… No Brasil, o Relatório Focus abre o dia às 8h25, com os dados fiscais divulgados pelo BC às 8h30.
… A mediana das Projeções Broadcast aponta para um superávit primário de R$ 6,6 bilhões para o setor público consolidado, após um déficit de R$ 55,313 bilhões em junho. As estimativas variam de superávit de R$ 1,060 bilhão a R$ 14,300 bilhões.
… Apesar da melhora mensal, a trajetória da dívida continua no radar. Para 2026, a mediana das projeções indica déficit primário de R$ 55 bilhões, enquanto a Dívida Bruta do Governo Geral deve superar 82% do PIB em julho.
… Para o PIB do segundo trimestre, nesta terça-feira, a mediana das Projeções Broadcast aponta crescimento de 0,4% sobre os três meses anteriores, desacelerando ante a alta de 1,1% do primeiro trimestre, e avanço de 1,8% na comparação anual.
… Também amanhã saem a produção industrial de julho e o IPC-S de agosto. Na quarta, o IPC-Fipe e, na sexta, a balança comercial de agosto.
EVENTO DO BTG PACTUAL – O ministro da Fazenda, Dario Durigan, participa às 9h30 do Macro Day do BTG Pactual. No mesmo evento, o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti fará uma palestra sobre o Projeto de Orçamento de 2027, às 10h45.
GALÍPOLO NO G-20 – O presidente do BC está nos Estados Unidos para a reunião de ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais.
LÁ FORA – A Alemanha divulga hoje, às 9h, a leitura preliminar do CPI de agosto, com expectativa de alta de 0,3% no mês e 2,8% em 12 meses. À noite, a China informa o PMI industrial medido pelo setor privado (22h45).
… Ontem à noite, saiu o PMI industrial oficial, que subiu de 49,2 em julho para 49,8 em agosto e superou o consenso de 49,5. Apesar da melhora, o dado abaixo de 50 indicou contração da atividade pelo segundo mês seguido.
… Amanhã, a inflação da zona do euro deve desacelerar para 2,5% em 12 meses, ante 2,9% em julho. Também serão divulgados os PMIs industriais da região e o ISM industrial dos Estados Unidos.
… Na quarta-feira, o Banco do Canadá anuncia sua decisão de juros e o Fed divulga o Livro Bege, com novas indicações sobre atividade, emprego, salários e inflação. Também saem os estoques americanos de petróleo e, após o fechamento, o balanço da Broadcom.
… Na quinta-feira, os destaques são os PMIs de serviços e o ISM de serviços dos Estados Unidos, além do PPI da zona do euro.
FALCÃO DESDE CRIANCINHA – Se algum dia Warsh foi dovish, nem ele mesmo se lembrou disso na sua estreia em Jackson Hole desde que assumiu o comando do Fed, incorporando o discurso de prioridade no controle da inflação.
… Os comentários tiveram efeito imediato nos negócios: o dólar se fortaleceu globalmente, piorou o iene, depreciou o real, pressionou os juros dos Treasuries e a curva do DI, e derrubou as bolsas em NY. Mas o Ibovespa se salvou.
… Desde a coletiva após a decisão do Fed em julho, quando o juro ficou estável, Kevin Warsh andava devendo um recado duro sobre a inflação e, desta vez, não fugiu da raia, a ponto de ter virado as apostas para setembro.
… O mercado, que só precificava chance majoritária de um aperto monetário em outubro e dezembro, antecipou a aposta para setembro, agora com 57,5%, contra 35,4% na véspera e contra 43% de chance de manutenção.
… Warsh afirmou que a meta de inflação de 2% é “firme e inalterável”, que é difícil classificar as atuais condições financeiras como restritivas, levantando a lebre de que o Fed pode ser mais agressivo. Mas alertou o mercado para não interpretar suas palavras como forward guidance.
… “Chame meu discurso de um delineamento, uma trajetória, mas não chame de forward guidance”, afirmou, em uma tentativa clara de não engessar as próximas ações e tentar assegurar a flexibilidade da política monetária.
… Warsh pode até pedir para ninguém tomar conclusões precipitadas, mas o tom hawkish fez a cabeça do mercado.
… O Société Générale passou a esperar três altas de juros no ano, juntando-se ao BofA, Deutsche e Barclays. O JPMorgan manteve o call de manutenção em setembro, mas sublinhou os riscos se a inflação surpreender para cima.
… “A responsabilidade agora recai sobre o Fed para anunciar um aumento da taxa de juros em setembro, a menos que os dados de emprego e inflação de agosto venham muito fracos”, observou o Bank of America. O payroll vem na sexta e o CPI sai dia 11.
… A mensagem firme de Warsh destoa do tom mais brando adotado em julho, quando destacou que o choque do petróleo não havia se espalhado para a inflação em geral, e se alinha agora ao discurso cauteloso de outros Fed boys.
… Mesmo quem não foi dissidente em julho, está alerta. Austan Goolsbee, que votou por manter os juros na última reunião, concordou que o foco principal neste momento deve ser descobrir se a pressão inflacionária vem para ficar.
TESOURO AGRADECE – Robin Brooks, ex-economista-chefe do Instituto de Finanças Internacionais (IIF), avalia que Warsh conseguiu ancorar as expectativas e evitar com seu discurso um novo salto dos juros dos Treasuries longos.
… Duas semanas atrás, o Tesouro ampliou o programa de recompra de títulos de longo prazo, numa tentativa de aliviar os rendimentos, sinalizando o desconforto do governo de Washington com as taxas longas acima de 5%.
… O rendimento do T-Bond de 30 anos ficou praticamente estável na sexta-feira, a 5,210% (contra 5,190%), enquanto o retorno da Note de dois anos, mais sensível à política monetária, subiu bem, de 4,229% para 4,351%.
… “Inequivocamente, esse é o tipo de reação esperada diante de um Fed com postura mais hawkish, o que sugere que Warsh conseguiu transmitir uma mensagem capaz de restaurar a credibilidade do Fed”, resumiu o Jefferies.
… O grande perdedor apontado em Jackson Hole foi o iene, com o dólar voltando a superar 160 ienes. Robin Brooks argumentou que intervenções cambiais não funcionam sem apoio da política monetária. Ou seja, o BoJ terá que agir.
… O consenso agora é que o BC japonês aumente sua taxa de juros na próxima reunião, em 17 e 18 de setembro.
… No final da semana passada, o vice-presidente do BoJ, Ryozo Himino, adotou um tom bem mais agressivo em entrevista coletiva de imprensa, citando o risco de “ficar para trás se não agirmos de maneira oportuna”.
… Apesar disso, o iene caiu para 160,11 por dólar depois de Warsh, enquanto Bessent defendia nova intervenção no iene, porque qualquer volatilidade extrema na moeda japonesa poderia levar a uma alta de juros dos Treasuries.
… Refletindo a ansiedade de Tóquio após o iene ter tocado o piso em 40 anos, o Japão gastou US$ 98,7 bilhões em julho para sustentar o iene, na ação conjunta com os EUA – intervenção recorde com impacto modesto até agora.
… Sob o efeito Warsh, o índice DXY subiu 0,51%, a 99,660 pontos, e derrubou o euro (-0,59%, a US$ 1,1584) e a libra (-0,42%, a US$ 1,3536). O presidente do BC inglês (BoE), Andrew Bailey, enfatizou a meta de trazer a inflação a 2%.
… Mas afirmou que ainda não sabe quanto tempo isso levará, de acordo com entrevista à Bloomberg.
SE DÁ AO LUXO DE ESPERAR – Enquanto os grandes BCs se mobilizam para a urgência de um aperto monetário, o Copom contrata novo corte da Selic em setembro, embora possa ser o último, a depender do trade eleitoral e fiscal.
… Jogam a favor do BC especialmente os indicadores que mostram desaceleração gradual da atividade doméstica.
… Na sexta-feira, mais um dado entrou para a coleção, com o menor Caged para o mês de julho em seis anos. Foram criados 58,5 mil postos de trabalho no mês passado, abaixo do piso da pesquisa Broadcast, de 90,5 mil vagas.
… Como disse o Santander, o emprego formal se aproxima agora de um patamar compatível com a estabilização, depois de um período prolongado de resiliência. Para a XP, os dados mostram moderação do emprego e da renda.
… A casa adverte que não se trata ainda de uma reversão do cenário de mercado de trabalho apertado. Ainda assim, o Caged reforça o cenário de PIB fraco no terceiro trimestre e próximo de zero neste segundo semestre do ano.
… O ministro do Trabalho em exercício, Chico Macena, disse que o varejo vem sucessivamente perdendo postos de trabalho. Ele descartou a existência de uma crise estrutural no setor e falou em “reposicionamento momentâneo”.
… Disse ainda que pretende apurar o vazamento dos números do Caged, publicados no site do Ministério do Trabalho e Emprego mais de uma hora antes do horário informado pela pasta para a divulgação dos resultados.
… Com os dados confirmando a tendência de desaquecimento da economia e abrindo espaço para o Copom relaxar em setembro, os juros curtos fecharam em baixa, enquanto as taxas intermediárias e longas subiram com Warsh.
… Além, disso, a previsão de salto das discricionárias no PLOA chamou a atenção e ajudou a pressionar os juros.
… No fechamento, o DI para janeiro de 2027 marcava 13,610% (de 13,631% no ajuste anterior); Jan/28, 13,795% (contra 13,765%); Jan/29, 14,170% (de 14,066%); Jan/31, 14,505% (de 14,360%); e Jan/33, 14,625% (de 14,479%).
… O câmbio reproduziu o conservadorismo em Jackson Hole e, no momento de maior pressão, o dólar não só rompeu R$ 5,20, como chegou até R$ 5,2308. Mas desacelerou, para fechar em alta de 0,67%, cotado a R$ 5,1965.
PINGANDO ALGUM DINHEIRO – Diariamente, têm sido observadas entradas mais consistentes de capital externo na B3, após a fuga desenfreada. No pregão da última quarta-feira, o investidor estrangeiro aportou mais R$ 1,3 bilhão.
… As saídas acumuladas no mês ainda estão elevadas, em R$ 18,7 bilhões, mas o BofA avalia que a volta de parte do apetite pelo Brasil neste final de agosto explica o melhor desempenho do Ibovespa contra seus pares latinos.
… Na sexta-feira, o índice à vista passou quase o pregão inteiro no vermelho, mas virou na reta final e fechou em alta moderada de 0,30%, aos 175.664,62 pontos. O volume financeiro é que não deu para nada: só R$ 14,6 bilhões.
… Faltando só o pregão de hoje para o mês acabar, o Ibovespa acumula perda de 1,31% em agosto.
… Na última sessão, Petrobras ON (+1,99%, a R$ 48,25) e Petrobras PN (+1,99%, a R$ 43,55) tiveram ganhos expressivos, apesar da queda do petróleo, com sinais de navegação em Ormuz. Circularam rumores de um possível acordo entre o Irã e Omã.
… Vale ON caiu 0,67%, a R$ 78,58, embora o minério tenha subido 0,91% na China. O STF suspendeu o julgamento que discute a tributação de lucros obtidos por controladas e coligadas de empresas brasileiras no exterior.
… A análise, que deveria ter sido concluída na sexta-feira, será retomada no plenário físico, ainda sem data definida.
… Entre os grandes bancos, o dia foi majoritariamente positivo, apesar do ambiente externo de risco. Itaú PN subiu 0,23%, a R$ 39,19; Bradesco PN, +0,89%, a R$ 17,08; BB ON, +1%, a R$ 20,17; e Santander Unit, +1,83%, a R$ 30,01.
… Com Warsh linha dura, as bolsas americanas caíram, mas pouco. O Nasdaq teve baixa de 0,52%, aos 26.402,42 pontos, e o S&P 500 perdeu 0,25%, aos 7.711,76 pontos. Já o Dow Jones ficou estável (-0,02%), a 53.559,99 pontos.
CIAS ABERTAS NO AFTER – CASAS BAHIA conseguiu antecipar efeitos da recuperação para se blindar de credores…
… A Justiça de São Paulo deferiu a antecipação dos efeitos do “stay period” para suspender por 180 dias todas as ações e execuções contra a companhia, e vedar novos atos constritivos…
… Dessa forma, a empresa fica protegida de processos de cobrança e execuções de credores…
… A companhia retirou pedido de ressarcimento de R$ 422 milhões contra o BB e disse à Justiça que negocia solução consensual com o banco, na Folha. Conselho também aprovou fiança superior a R$ 50 milhões em favor do Digio.
SABESP. Acionistas elegeram chapa indicada pela administração para o conselho, mantendo praticamente a composição atual. Paulo Pedrosa, presidente da Abrace e conselheiro da Equatorial, substitui Tinn Freire Amado.
BRB. STF liberou 23 imóveis dados em garantia de créditos vendidos pelo Banco Master ao banco. Ministro André Mendonça determinou o cancelamento dos bloqueios que atingiam seis Cédulas de Crédito Bancário.
CEMIG. Governo de MG indicou Márcio Augusto Vasconcelos Nunes para a presidência, enquanto Alexandre Ramos Peixoto foi indicado para presidir o conselho…
… Safra cortou preço-alvo da Cemig de R$ 12,50 para R$ 11,90, mantendo recomendação neutra.
ELETRONUCLEAR. Governo estuda aporte de R$ 650 milhões para preservar as obras de Angra 3 e cumprir obrigações contratuais e de segurança, segundo O Globo. Estatal disse desconhecer tratativa ou decisão sobre o aporte.
ENEVA e Itaú negociam aumento da participação do banco na Eneva Participações III, que reúne ativos do Complexo Parnaíba. Itaú investiu R$ 1 bilhão na empresa em 2023 e seguirá como acionista minoritário após a nova operação.
AXIA. Acionistas aprovaram a incorporação de quatro controladas: Juno, Tijoá, Retiro Baixo Energética e Nova Era Janapu Transmissora. Operação faz parte da estratégia de simplificação da estrutura societária.
BRAVA ENERGIA recebeu renúncia de Julián Fernando Lemos ao conselho de administração, em razão de mudanças administrativas na Ecopetrol. Companhia colombiana tornou-se controladora da Brava, com 51% do capital.
RANDONCORP. Goldman Sachs passou a deter 4,98% das ações preferenciais da companhia, equivalente a cerca de 11,1 milhões de papéis.
HBR REALTY convocou AGE para 18/9 para deliberar sobre oferta de permuta destinada a adquirir o controle da Helbor e posteriormente fechar seu capital. Oferta prevê R$ 2,52 por ação, pagos com papéis da própria HBR.
CYRELA. TRX colocou em renegociação acordo para compra de cinco imóveis da incorporadora por R$ 2,1 bilhões, após rever o pipeline da 13ª emissão do TRXF11. Operação ficou fora do material atualizado da oferta.
TECNISA aprovou grupamento de ações na proporção de 10 para 1, sujeito à AGE de 21/9, para recuperar cotação acima de R$ 1. Capital social permanecerá em R$ 1,86 bilhão.
GAFISA adiou pela terceira vez a divulgação do balanço do segundo trimestre, agora para 28/9, após a auditoria independente BDO pedir prazo adicional para concluir a revisão das demonstrações financeiras.
AGROGALAXY adiou novamente a divulgação de balanços: o do quarto trimestre de 2025 ficou para 30/11 e os resultados do primeiro e segundo trimestres de 2026 foram postergados para 29/1/27 e 26/2/27, respectivamente.
CORREIOS tiveram prejuízo de R$ 2,39 bilhões no segundo trimestre, queda de 5,5% ante um ano antes. No semestre, porém, o prejuízo aumentou de R$ 4,26 bilhões para R$ 5,55 bilhões…
… Estatal busca nova captação de R$ 7 bilhões com garantia da União.
TRIUNFO fará emissão de R$ 205,7 milhões em debêntures, com prazo de dois anos e remuneração de DI + 8% ao ano. Recursos serão destinados às obrigações ligadas à modernização da concessão da Concebra.
ARCELORMITTAL investirá até R$ 5 bilhões na expansão da Usina de Tubarão (ES), com nova capacidade de 560 mil toneladas por ano de aço laminado galvanizado. Operação deve começar no primeiro semestre de 2030.
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