*Estadão: Produtividade aumenta, mas medir retorno investido é desafio*
São Paulo, 29/08/2026 - O segmento de energia também tem se beneficiado da inteligência artificial (IA). Na gigante do setor Vibra, maior distribuidora de combustíveis do País, a combinação da IA generativa e reconhecimento de imagem levou a uma redução de custos de cerca de R$ 900 milhões no segundo trimestre de 2024, além de liberar capital de giro e ampliar a eficiência operacional.
Segundo Aspen Andersen, vice-presidente de gente, tecnologia e ESG da Vibra, a plataforma Posto 360 2.0, que usa IA para apoiar a gestão de postos, já gerou mais de R$ 100 milhões em ganhos de produtividade. Usada atualmente em cerca de 600 postos, a ferramenta deve chegar a 1,1 mil unidades até o fim do ano.
A IA permite correlacionar dados com horários de pico e de menor movimento, ajudando a redistribuir tarefas da equipe e melhorar o atendimento. “Operamos em um negócio em que qualquer eficiência em alguma parte da cadeia é relevante. São escalas muito grandes”, afirma Andersen.
A Vibra também usa IA generativa para preparar executivos de vendas antes das visitas aos clientes. A tecnologia reúne histórico de transações, relacionamentos e informações estratégicas em um relatório, reduzindo o tempo gasto pelos vendedores na preparação. Segundo Andersen, a ferramenta já contribuiu para uma receita adicional de cerca de R$ 15 milhões.
MAIS COM A MESMA EQUIPE. O ganho de produtividade também aparece na Synvia, empresa brasileira de estudos clínicos. A área de tecnologia cresceu 30% nos últimos três anos, mas, segundo o CEO Pedro Ducci Serafim, a entrega da equipe triplicou.
Antes da adoção da IA, um dos sistemas da companhia levou dois anos para ser lançado. Mais recentemente, com uma equipe 30% maior e o uso da tecnologia, a empresa desenvolveu mais de três sistemas em aproximadamente um ano. Em uma tarefa de conferência documental, o tempo de trabalho caiu de dez horas para menos de uma. Na montagem de dossiês regulatórios, a redução chega a 70%.
“Tem muita coisa que precisa de uma decisão humana. Nós desenvolvemos uma ferramenta usando IA para tudo que não precisa necessariamente ser feito por um humano”, diz Serafim.
No iFood, agentes de IA ajudam desenvolvedores a identificar bugs, consultar repositórios e sugerir alterações. Segundo a diretora de tecnologia e inovação, Isabella Piratininga, algumas demandas que levavam duas semanas agora são concluídas em sete dias. A empresa afirma trabalhar com o mesmo tamanho de equipe, mas com mais projetos.
O grupo soma 27 mil agentes de IA criados internamente, dos quais cerca de 12 mil estão ativos. A companhia também busca reduzir o custo dos modelos usados. “Em alguns casos, conseguimos trocar por um modelo cerca de 80% mais barato sem cair a qualidade”, afirma Isabella.
DESAFIO. Não há, entre as empresas ouvidas pela reportagem, uma metodologia única para medir o retorno financeiro da IA. Na Synvia, os ganhos são avaliados principalmente pela evolução das entregas e pela comparação do tempo gasto antes e depois da implementação. A empresa desembolsa cerca de R$ 250 mil por mês com IA, considerando tokens e servidores, e estuda estabelecer limites de consumo.
No iFood, métricas como custo, conversão, produtividade e eficiência são usadas para avaliar as ferramentas. A companhia não calcula um único “ROI” (retorno sobre investimento) da IA.
Oliver Jay, vice-presidente da OpenAI, dona do ChatGPT, afirma que a dificuldade de medir o retorno não deve impedir a adoção da tecnologia. “Não vale a pena gastar muito tempo tentando calcular o ROI, porque basta que um dos fluxos de trabalho seja automatizado para que a solução se pague”, disse em entrevista ao Estadão.
Segundo Jay, a própria OpenAI economizou milhões de dólares no processo preparatório para a abertura de capital ao utilizar IA em vez de contratar auditores e outros especialistas.
Um estudo do centro de pesquisas Reglab, encomendado pela OpenAI, estima que o uso da IA no Brasil pode adicionar R$ 986,7 bilhões à economia até 2030, com os maiores ganhos de produtividade concentrados na indústria de transformação, nos serviços e no comércio.
NOVA FASE. Os casos mostram que a IA generativa nas empresas está mudando de fase. Se antes a tecnologia era testada em diferentes atividades para descobrir suas possibilidades, agora o foco está em aplicações capazes de aumentar produtividade, reduzir custos e gerar receita.
Segundo a PwC, as empresas que mais usam IA têm ganhos de receita e eficiência até 7,2 vezes superiores aos das demais. O diferencial está em integrar a tecnologia à estratégia de negócios e usá-la também para criar novas fontes de receita.
Levantamento da EY mostra que 88% das empresas utilizam inteligência artificial e 79% já usam IA generativa. Apenas 38%, porém, dizem que a tecnologia efetivamente gera valor real e transformador, com impacto perceptível no lucro. “O Brasil aparece como um dos pioneiros. Hoje, 94% das pessoas que têm acesso à internet já usam IA. Nas empresas, são 88%”, afirma David Dias, sócio da EY.
(JAYANNE RODRIGUES e LUCAS AGRELA)
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