Sou Economista com dois mestrados, cursos de especialização e em Doutoramento. Meu objetivo é analisar a economia, no Brasil e no Mundo, tentar opinar sobre os principais debates da atualidade e manter sempre, na minha opinião essencial, a independência. Não pretendo me esconder em nenhum grupo teórico específico. Meu objetivo é discorrer sobre varios temas, buscando sempre ser realista.
quarta-feira, 7 de outubro de 2026
Daniella Marques
Edilson Salgueiro para a Oeste:
Aos 13 anos, ainda longe da Faria Lima e mais longe ainda de Brasília, Daniella Marques tinha o hábito de pôr os planos no papel. A menina nascida em Barra Mansa, município localizado no sul do Rio de Janeiro, não economizava nas metas. “Quero ter US$ 1 milhão”, escrevia frequentemente no diário. Conseguiu. A ambição vinha de uma família de classe média. O pai construiu carreira no Banco do Brasil, onde começou como escriturário. A mãe era professora da rede estadual.
Daniella nasceu em 16 de outubro de 1979. Formou-se em Administração pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, concluiu pós-graduação em Finanças no Ibmec e entrou no mercado financeiro. Antes dos 30 anos, já havia feito fortuna. Passou oito anos na Mercatto Asset, uma das principais gestoras de recursos do país, da qual se tornou sócia e chefe do setor de renda variável. Em 2013, a Mercatto se uniu a outras duas empresas do setor: a BR Investimentos, fundada por Paulo Guedes, e a Trapezus Asset Management. Essa operação deu origem à Bozano Investimentos. Daniella tornou-se sócia do futuro ministro da Economia e passou a responder pelas áreas de risco, compliance e operações.
A relação profissional entre os dois se estendeu até 2018. Na época, Daniella estava no topo da carreira. Tinha rendimentos anuais na casa dos milhões de reais, carro blindado e vida confortável no Rio. Foi quando tudo mudou. Em julho daquele ano, Guedes levou Daniella ao lançamento da candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência pelo PSL, no Centro de Convenções SulAmérica, na capital fluminense. De acordo com o economista, a então sócia se impressionou com o ambiente, as músicas, as placas, as faixas e o entusiasmo dos cidadãos. Ao fim do evento, Daniella pediu para integrar o projeto. “Quero ir para Brasília te ajudar a transformar o Brasil”, disse.
Separada e com um filho de 4 anos, Daniella deixou o Rio e se mudou sozinha para a capital federal. Trocou os rendimentos milionários do mercado financeiro por cerca de R$ 25 mil mensais no serviço público. Depois da vitória de Bolsonaro, Guedes montou uma equipe de 21 dos chamados “supersecretários”. Daniella, nomeada para chefiar a Assessoria Especial de Assuntos Estratégicos do Ministério da Economia, era a única mulher do grupo. Em Brasília, passou a ser chamada de “superego” de Guedes.
Atuação sem holofotes
Entre antigos colegas de governo, Daniella é lembrada pela capacidade de ler o ambiente político. Essa habilidade se tornou especialmente útil para Guedes, que chegara a Brasília com uma agenda extensa e pouca experiência na política. Daniella passou a ajudá-lo na interlocução com parlamentares, em que uma frase mal colocada podia comprometer a aprovação de propostas importantes. Agia dessa forma sem buscar holofotes. Não gostava de aparecer.
Ela tinha acesso direto a Guedes e despachava com Bolsonaro mesmo quando o ministro não estava presente. Esse protagonismo cresceu sobretudo quando a relação entre Guedes e Rodrigo Maia, então presidente da Câmara, atravessava sucessivos atritos. Daniella servia de ponte. Entre outros projetos de relevância, participou das articulações no Congresso para a aprovação da reforma da Previdência, em 2019, e da PEC dos Precatórios, em 2021.
Mas a atuação de Daniella nem sempre se restringiu aos bastidores. Em abril de 2019, Guedes foi à Comissão de Constituição e Justiça da Câmara para debater a proposta de reforma da Previdência apresentada pelo governo. Na sessão, o deputado federal Zeca Dirceu (PT-PR) afirmou que o ministro era “tigrão” com aposentados e professores e “tchutchuca” com privilegiados e banqueiros. Guedes reagiu. A sessão virou tumulto. Daniella saiu em defesa de Guedes e discutiu com a deputada Maria do Rosário (PT-RS). A parlamentar acusou a assessora do ministro de tê-la agredido e pediu a intervenção da Polícia Legislativa. Daniella acabou conduzida pelos seguranças, mas nenhuma ocorrência foi registrada.
Em fevereiro de 2022, Daniella ganhou mais espaço no Ministério da Economia. Deixou a função de assessora de Guedes para comandar a Secretaria Especial de Produtividade e Competitividade, uma das principais áreas da pasta. Ali, passou a cuidar de políticas voltadas à produtividade e ao ambiente de negócios. Mas durou pouco tempo. Apenas cinco meses depois, Daniella enfrentaria um desafio ainda maior.
Uma mulher na Caixa
Pedro Guimarães deixou a presidência da Caixa Econômica Federal em junho de 2022, depois de denúncias de assédio sexual e moral. O governo precisava escolher um substituto para comandar um dos maiores bancos do país em meio à crise. Escolheu Daniella, a primeira mulher a ocupar o cargo mais alto da instituição. Ela já começou anunciando mudanças. Disse que as denúncias seriam investigadas “com independência, com rigor, com seriedade” e que, se comprovadas, haveria punições. Além disso, criou o Diálogo Seguro Caixa, canal voltado ao acolhimento das funcionárias, à apresentação de denúncias e ao recebimento de sugestões. Nos primeiros 30 dias, as funcionárias passaram a ter um canal direto com a nova presidente. “Sou mulher, entendo o que é ser mulher no ambiente de trabalho”, disse às colaboradoras.
Controvérsias também marcaram a trajetória de Daniella à frente da Caixa. Na campanha eleitoral de 2022, o banco começou a conceder empréstimos a beneficiários do Auxílio Brasil, programa de transferência de renda que havia substituído o Bolsa Família no governo Bolsonaro. As parcelas eram descontadas diretamente do benefício. Na época, a iniciativa foi questionada pelo Tribunal de Contas da União, que pediu investigação sobre os empréstimos.
Esse assunto ressurgiu em agosto deste ano, durante uma entrevista de Daniella ao jornal Folha de S.Paulo. Na ocasião, a ex-presidente da Caixa reprovou o aumento de gastos e a expansão de crédito promovidos pelo governo Lula em ano eleitoral. Uma das entrevistadoras lembrou que Bolsonaro também havia ampliado gastos e crédito em 2022 e citou os cerca de R$ 5 bilhões em consignados do Auxílio Brasil liberados pela Caixa entre os dois turnos daquela eleição. A jornalista ainda formulava a pergunta quando Daniella a interrompeu. “Que foram arquivados, né?”, respondeu a entrevistada, referindo-se aos questionamentos do TCU. “Vamos ser corretos na pergunta.” Antes de devolver a palavra à jornalista, arrematou: “Obrigada por ser factual. Se fizer pergunta, detalha”.
De volta ao setor privado
O governo Bolsonaro terminou em dezembro de 2022. Daniella deixou a Caixa em janeiro do ano seguinte e retornou ao setor privado. Ainda em 2023, passou a integrar o grupo de serviços financeiros Legend Capital, inicialmente como integrante do conselho. Mais tarde, chegaria à presidência da empresa.
A parceria profissional com Guedes seguiu na nova casa. O ex-ministro também havia ingressado na Legend em 2023 e assumido a presidência do conselho de administração. Daniella, contudo, voltava à iniciativa privada com uma trajetória própria: havia presidido a Caixa e trabalhado no primeiro escalão do Ministério da Economia.
Nos bastidores da Faria Lima, a executiva ganhou um apelido que resume a reputação de firmeza construída nesse percurso: “Dama de Ferro”. A alcunha remete a Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica que se tornou mundialmente conhecida pelo mesmo epíteto. Daniella também é chamada de “Paulo Guedes de Saias”, referência à parceria entre os dois e à afinidade na defesa de uma agenda econômica liberal.
Esse currículo abriu caminho para a entrada de Daniella na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Guedes havia sido procurado, mas não demonstrou interesse em retornar a Brasília e incentivou o senador a buscar integrantes da antiga equipe do Ministério da Economia. Daniella aceitou. Ela compõe o núcleo duro da campanha do Zero Um. Lá, participa da formulação do programa econômico. Daniella olha para as contas do país como quem examina um balanço: quanto o Estado deve, quanto gasta e que recursos tem à disposição para reorganizar as finanças. Nesse cálculo entram cerca de 760 mil imóveis da União, avaliados em mais de R$ 1,5 trilhão. Como solução, Daniella propõe obter recursos com parte desses ativos e destiná-los à redução da dívida pública, que ultrapassa R$ 9 trilhões.
O mesmo pente-fino alcançaria as despesas. Segundo a chefe da campanha econômica de Flávio, cerca de 45 estatais custam em torno de R$ 30 bilhões por ano aos cofres públicos, enquanto a administração federal reúne 22,5 mil cargos comissionados. “Privatização ou não é consequência”, observa, ao explicar que as estatais precisam ser reavaliadas periodicamente. “A lógica não é necessariamente privatizar tudo.”
A conta que Daniella pretende fechar é de um corte de R$ 190 bilhões em despesas, o equivalente a cerca de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Para chegar lá, defende reduzir ministérios, combater supersalários e mudar a regra fiscal. Propõe ainda medidas para aumentar a produtividade, reduzir a burocracia, ampliar a digitalização dos serviços públicos e melhorar o ambiente de negócios.
É assim que Daniella liga as contas públicas à vida das famílias. Ela explica que, quando o governo gasta muito mais do que arrecada e aumenta a dívida, os efeitos inevitavelmente chegam ao bolso dos brasileiros. Juros altos encarecem o financiamento da casa, do carro e as compras parceladas. A inflação faz o dinheiro render menos no supermercado. “Quem não cuida das contas não cuida das pessoas”, costuma dizer em entrevistas.
O legado continua
A vida também mudou fora dos escritórios. Daniella se casou novamente e tornou-se mãe pela segunda vez, aos 45 anos. Chama Arthur, o filho mais novo, de “milagre”. Católica, costuma usar escapulários e fala abertamente sobre a importância da religião. “A fé é a base de tudo”, ressalta.
Nem o velho hábito de pôr os objetivos no papel desapareceu. Daniella garante que continua escrevendo o que pretende alcançar, como fazia ainda menina, aos 13 anos. Uma das metas daquela época era ter US$ 1 milhão. Teve êxito.
Agora, mais de três décadas depois, Daniella dá outro sentido à ambição. Quer retribuir o que conquistou na carreira e associa a volta à vida pública ao desejo de deixar um legado para os dois filhos. Mesmo com a rotina intensa da campanha, tenta reservar ao menos uma hora do dia para Arthur e Pedro Henrique, o primogênito.
Ao falar sobre o país que gostaria de deixar para os brasileiros, Daniella recorre à própria experiência como mãe. Afirma que cria os filhos para que estudem, cresçam e, no futuro, possam “voar” sozinhos. É a mesma lógica que tenta levar para a política: o Estado deve amparar quem precisa, mas também oferecer condições para que as pessoas conquistem autonomia.
Em 2018, Daniella disse a Guedes que queria ir a Brasília para ajudá-lo. Oito anos depois, pode retornar à capital federal para carregar o legado do ex-ministro.
Uma derrota cantada
Eu continuo esperando um diagnóstico "corajoso", honesto, de um cientista político sobre a realidade do país. Muitos, pela necessidade do "pertencer", de não serem cancelados, continuam neste muxoco q presenciamos no pós primeiro turno.
São vários fatores a explicarem a derrota do PT. O q derrubou a campanha do Lula não foi apenas a campanha do Flávio Bolsonaro, mas também um "sentimento anti PT", legítimo, "encroado" entre os corações e mentes da sociedade brasileira em todos os seus estratos.
O crescimento da religião evangélica também ajuda a explicar isso, na sua batalha "ética e moral". É entre aspas mesmo, pq eu não gosto deste movimento neopentecostal (para mim, é tudo charlatão, vendedor de fé, exploradores), mas é uma realidade.
É importante termos em mente, além dos vários erros de campanha, q o lulo-pestismo está desgastado e envelhecido. E possui uma mancha indelével, q é o seu histórico pesado de corrupção (Mensalão, Lava Jato, aposentados do INSS, Master, etc) e isso não é pouca coisa. Não deve ser naturalizado ou relativizado. São recursos desviados q poderiam financiar escolas e hospitais. Vão para o bolso dos "companheiros".
E tbem me causa asco o "populismo vagabundo" praticado, de esmola para os mais fragilizados.
Programas de governo ou projetos de poder pessoal? Infelizmente, o segundo. E
as gastanças em viagens internacionais reforçam isso, né Janja tatibitati...?? (muito chatinha, por sinal).
Merval Pereira
RECOMENDO MUITO, AMIGOS QUERIDOS.
Orgulho e preconceito
Dirigentes do PT têm a pretensão de ser os donos da verdade, os que sabem guiar o povo para sua redenção.
Por Merval Pereira
06/10/2026 04h30
Sempre se soube que o Brasil é um país conservador, mesmo que seja governado pela quinta vez por um presidente de esquerda (três vezes Lula e duas vezes Dilma). A supremacia surpreendente de Flávio Bolsonaro no primeiro turno da eleição presidencial, no domingo, não quer dizer, porém, que a maioria dos cidadãos seja de extrema direita. Assim como as vitórias de Lula não comprovam que a maioria daqueles momentos era de esquerda, agora também a extrema direita não define a maioria dos que votaram em Flávio.
Lula só foi eleito presidente, nas três vezes anteriores, porque voltou-se para o centro. Do “Lulinha, Paz e Amor” ao apelo a um governo de união nacional para proteger a democracia, adaptou sua agenda pública ao centro, dando lugar até à direita em certos momentos. A insinuação agora de que pode nomear o vice Geraldo Alckmin para o Ministério da Fazenda num eventual quarto mandato vai nessa direção.
Talvez seja tarde demais, pois um dos seus erros fundamentais foi vender um governo de união nacional e entregar um governo petista como os demais que montou, com exceção do primeiro, que, sob a égide do ex-ministro Antonio Palocci, foi inteligente para manter-se ao centro, continuando a política econômica do seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Assim como o economista Joaquim Levy foi engolido pela máquina do PT quando nomeado ministro da Fazenda da então presidente Dilma Rousseff, também Alckmin terá o mesmo destino se Lula conseguir dar a volta por cima e vencer a eleição no segundo turno.
Talvez a razão mais profunda para o desgaste do governo do PT seja exatamente esta, a pretensão de seus dirigentes de ser os donos da verdade, os que sabem guiar o povo para sua redenção. O cansaço com Lula vem desse sentimento de subalternidade com que os não petistas são tratados por seus governos. Ou são manipulados pelas benesses sociais que o governo distribui, ou são relegados a segundo plano.
Há um sentimento de desprezo pelos não convertidos, que transmite uma sensação de não pertencimento a essa parte da sociedade. Lula tem sido incapaz de governar para todos, de ampliar sua base de apoio, trata com superioridade condescendente os que não o seguem. Nem ele nem o PT tentam entender os que os criticam, considerando-os inimigos, nem sequer adversários. A arrogância esteve presente até as últimas semanas da campanha, enquanto Lula considerava uma afronta à sua história a previsão de que poderia perder para Flávio.
O desprezo pelos que consideram inferiores contrasta com o fervor com que trata os excluídos. Se tivesse a mesma empatia com os que discordam de suas políticas, talvez pudesse encontrar o diálogo que o alçaria à altura dos estadistas. Não falo dos que o consideram comunista ou dos extremistas que conseguiram manipular a direita e os centristas. Exemplar dessa arrogância petista é a frase de Lula:
— Se vocês tivessem de escolher entre mim e um gênio, é uma coisa. Mas não é isso que está na mesa.
Claro que Flávio não é um gênio, longe disso, mas também Lula não é imbatível. O que falta a ele e aos seus é tentar entender por que votaram no outro, e não nele. Lembro-me de quando Lula tinha mais de 80% de aprovação, e seus acólitos provocavam:
— Em que planeta vivem os críticos?
Viviam neste planeta que foi se formando à medida que o governo Lula os foi desprezando e se esqueceu de ampliar sua base política para fechar-se numa redoma com os seus.
A união nacional que mobilizou os eleitores independentes na eleição de 2022 foi um estelionato eleitoral. Os que representavam a centro-direita em seu ministério foram relegados a segundo plano, assim como no governo Dilma Rousseff, a ponto de o vice-presidente Michel Temer ter se queixado por escrito de que era tratado como “um vice decorativo”. O mesmo acontecera com Levy, e aconteceu agora com as ministras Marina Silva e Simone Tebet.
Sergio Garschagen
De Sergio Garschagen.
Relato interessante e valioso.
Também fui exchange student e fez muito sentido.
"Anos 70. Eu era contra a ditadura militar. Simpatizava com as esquerdas. Em suma, seguia, sem saber, a máxima do estadista francês George Clemenceau; "Aquele que aos 20 anos não é socialista não tem coração, mas aquele que continua socialista aos 40 anos, não tem cérebro".
Creio ter perdido a ilusão quando fui para os Estados Unidos com a então namorada, Regina, onde nos casamos.
Para sobreviver trabalhei como faxineiro noturno na fábrica de tratores John Deere, em Waterloo/Cedar Falls, no estado de Iowa.
Na primeira semana de trabalho fui cercado por três ou quatro outros trabalhadores que me dirigiram perguntas básicas:
- Você é refugiado político da ditadura brasileira?
Respondi que não. Estava no país para aprender o idioma.
- Você sabe que tira o trabalho de um americano?
Sim. Sabia, mas seria por pouco tempo, pois não pretendia ficar nos EUA mais quer um ano.
- ok. Se fosse um refugiado político iríamos trata-lo mal como um covarde.
Eram típicos red necks locais, simplórios, que após as perguntas me convidaram para sentar à mesa com eles. Sinal de que fora aceito. Até então me sentava sozinho no refeitório, na hora do lanche.
Também costumava me sentar ao lado de uma companheira negra, simpática, de riso fácil, enorme de gorda que queria me apresentar aos filhos. Acho que ela me via como um ET e por isso queria me mostrar à família. Brasil? Que planeta é este? Ria muito quando eu dizia que não iria ao bairro dela sozinho. Era perigoso para um branquelo.
Só ousava ir ao bairro negro com o Fred, mineiro moreno que se passava por mexicano. Íamos, nos fins de semana, aos bares onde se apresentava grupos de jazz. Era de bom tom pagar uma rodada de cerveja, nas mesas coletivas.
Mas foi na Universidade de Cedar Falls que comecei a me livrar das ideias socialistas. Sei lá como, meio na cara de pau, arranjei uma bolsa para o curso de inglês para estrangeiros. Aulas no curso de Literatura Americana, onde sofria para acompanhar as aulas. Fui convidado pela professora duas vezes para ler um trecho de uma obra. Na segunda leitura um jovem americano pediu a palavra e disse:
- Na sua primeira leitura não entendi uma única palavra. Hoje entendi muitas palavras. Seu inglês melhorou muito. Parabéns.
Morri de vergonha ao me lembrar que anos antes, no Liceu "Muniz Freire", a classe inteira riu da pronúncia do português de um menino americano, do intercâmbio cultural do American Fields.
Fiquei chocado também com duas palestras na universidade: a primeira da Ku Klux Klan e a réplica, na semana seguinte, dos Panteras Negras. Auditório repleto de estudantes negros e brancos, todos em silêncio absoluto. Ao final dos discursos de ódio das duas correntes opostas, nenhuma vaia, nenhum aplauso.
Nesta época fizera um bom amigo na universidade: o professor cubano Nodarse, a quem procurei para entender a razão das duas palestras de ódio. Para minha surpresa, ele disse que estava surpres, decepcionado mesmo, era com a minha pergunta.
- Sérgio, uma universidade forma os futuros dirigentes de um país. Eles devem conhecer todos os fatos políticos, bons ou ruins, com que terão de lidar no futuro. Por isso estas palestras.
E concluiu: estudante que vaiar ou tentar proibir estas manifestações podem ser expulsos. Fazem parte da grade curricular.
Sempre me lembro desta aula do professor Nodarse quando leio que estudantes brasileiros proíbem, com vaias e quebra-quebra, palestras de convidados que eles não gostam. Sergio. Moro, à época da Lava-jato não conseguiu falar na PUC. Acho que foi no Rio de Janeiro.
Não é à toa que não temos um única universidade no ranking das 100 melhores do mundo.
Mas, apesar da bronca que levei, o que me deixou muito envergonhado, o professor Nodarse me convidou para trabalhar com ele, legalmente, com direito a green card, no Departamento de Espanhol da universidade. Os seus alunos ficavam fascinados com a semelhança da língua espanhola com o nosso. Português. Muitos conversavam comigo em espanhol e entendiam a resposta em português.
Nodarse era um ex-comunista ligado aos irmãos Castro. Disse-me que marcharam juntos desde Sierra Maestra até Havana. Foi preso por um desentendimento com Raul Castro e colocado em um barco, por Fidel, com outros cubanos, muitos doentes, para Miami.
De dia prestava depoimentos à CIA; à noite sua casa era apedrejada por cubanos fugidos do regime. Por isso seguiu para Iowa, bem longe de Miami. Um dia desabafou comigo:
- Hoje lamento os anos perdidos como comunista."
terça-feira, 6 de outubro de 2026
Ódio autorizado
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*Ódio autorizado*
Alex Pipkin, PhD em Administração e Consultor Empresarial
"Aconteceu no Bom Fim.
Não em Berlim, 1938. Em Porto Alegre, 2026. No corredor de um supermercado.
Uma jovem berrava "sionistas, genocidas, vermes".
Um homem parou. Não se escondeu. Disse: "Eu sou judeu e sou sionista".
Foi o suficiente para liberar o esgoto.
"Verme." "Nazista." "Judeu de merda."
Veio a ameaça. Depois, a ordem de despejo com o “vai embora daqui”.
E as pessoas aplaudiram.
É aqui que a gente apodreceu.
Nunca mais?
Quando "judeu de merda" é gritado em público e a resposta é aplauso, o problema já não é só quem grita. É quem bate palma e ainda se acha moralmente superior.
Existe uma militância que não sabe nada sobre judaísmo. Nada sobre sionismo. Nada sobre Israel. Menos ainda sobre Oriente Médio.
Mas sabe de cor quem tem que odiar hoje.
Estudar dá trabalho. Honestidade intelectual também. Pertencer é fácil. E, para muita gente, pertencer importa muito mais do que pensar.
A tribo te entrega três palavras, aponta o inimigo e te dá um certificado de gente boa. Você terceiriza a consciência, humilha o vizinho e volta pra casa achando que salvou o mundo. Horror.
Goebbels conhecia essa engenharia. Primeiro você transforma o judeu em verme. Depois aparece o idiota útil convencido de que esmagar verme é virtude.
Não sei o que aquela mulher pensa sobre as atrocidades contra civis em 7 de Outubro. Sei o que demonstrou ali.
Diante de um judeu que nunca tinha visto, ela já sabia exatamente como tirar a humanidade dele.
A barbárie não precisa de tanque. Precisa de voluntários.
Chega de covardia semântica.
Criticar Netanyahu é política. Debater Gaza, com fatos e dados, é legítimo e necessário.
"Judeu de merda" é antissemitismo.
Puro. Cru. Nojento.
Se fosse "preto de merda" ou "viado de merda", a indignação seria imediata e ruidosa.
Mas quando é judeu, pode. Basta colar "Palestina Livre" por cima do preconceito e o ódio ganha certificado de virtude.
Chega de nota de repúdio.
Eu quero B.O., investigação e processo. Com o crime provado, quero condenação na forma da lei.
No Brasil, antissemitismo pode configurar crime de racismo. Racismo é imprescritível.
Digo honestamente. Não sei como reagiria se alguém me chamasse de "judeu de merda" nessas circunstâncias. Não partiria para a violência. Isso eu sei. Mas também não iria embora.
Chamaria a polícia. Registraria ocorrência. Iria até o fim. Não deixaria aquilo morrer no corredor de um supermercado como se nada tivesse acontecido.
Há uma hora para desprezar o insulto. E há uma hora em que desprezá-lo significa ajudar a normalizá-lo.
Essa hora passou. Transbordou.
Sou judeu.
Não vamos baixar a cabeça. Não vamos pagar humilhação como pedágio para existir. Não vamos recuar um centímetro do Bom Fim, de Porto Alegre ou do Brasil.
O ódio já perdeu a vergonha.
Agora vai ter que aprender a ter medo da lei. Não há outra saída.
Porque tolerância com o intolerável também é uma forma de autorização."
segunda-feira, 5 de outubro de 2026
Balanço eleitoral ...de um amigo
Algumas alegrias indescritíveis desse primeiro turno:
Jose Dirceu não se elegeu deputado federal por SP, outros figurões também ficaram de fora: Rui Falcão, Vicentinho, Paulo Teixeira🎉
Eduardo Cunha não se elegeu deputado federal por MG 🎉
Barbalhos derrotados no PA🎉
Renan Calheiros não se elegeu senador por AL e de quebra, seu filho perdeu para governador 🎉
O Maranhão disse 'não' às oligarquias de Sarney e Dino🎉
A surra em SP foi avassaladora 🎉
Grandes puxa sacos de Painho receberam um recado duro das urnas (Tebet, Marina, Paes, Manuela, Benedita, Gleisi, Leila do vôlei, Thronicke, dentre outros) 🎉
Novo rompeu com folga a cláusula de barreira e terá 10 deputados e 3 senadores, está maior que o falecido PSDB 🎉
Randolfe Rodrigues não foi reeleito senador pelo AP 🎉
Ciro Nogueira não foi reeleito senador pelo PI🎉
Tiritica não foi eleito deputado federal pelo CE 🎉
Aécio Neves não se elegeu senador por MG, Beto Richa não se elegeu deputado pelo PR🎉
Raquel Lyra eleita governadora em PE, vencendo outro puxa saco de Painho. 🎉
Nem tudo são flores. Não dá para ganhar todas, algumas notícias que eu não gostei:
BA decepciona, reelegendo um petista no primeiro turno contra ACM Neto e dois senadores lulistas. 🙁
No Ceará, torcia por Ciro Gomes contra o governador petista. Sempre contra o PT... Não deu, foi por pouco 🙁
SC errou a mão. Trocar Espiridiao Amim por Carlos Bolsonaro.. Não dá. 🙁
Agora a cereja do bolo será daqui a 3 semanas. Minha previsão é uma vitória por 52x48.
domingo, 4 de outubro de 2026
Gramsci
Antônio Gramsci e o marxismo
1 Um leitor atento manifestou-me o seu interesse num artigo meu sobre A. Gramsci, a publicar aqui em breve.
Nada me deixaria mais satisfeito. Não sou marxista, como todos os leitores sabem, mas é sempre gratificante escrever umas palavras sobre aquele que foi o teórico mais interessante e vigoroso do marxismo, muito, mas muito mais lúcido do que Lenine e Trotsky e então com o «Zé Serralheiro» (alcunha que os neo-realeiros coimbrões davam amorosamente a Estaline) e com o Mao nem há comparação.
Não vou alinhavar umas banalidades sobre a figura de Gramsci. Merece-me respeito demais.
Gramsci, que foi sempre dirigente do partido comunista italiano, escreveu sobre a perspectiva de uma revolução socialista nos países capitalistas europeus. Percebeu desde muito cedo que a teoria tinha de ser adaptada a uma estratégia «frentista», erradicando a estafada tese da «classe contra classe» que dominou o Komintern até tarde e que deu maus resultados, aspecto em que Gramsci se separou de alguns dos seus correligionários como Bordiga, que apostava num feroz anti-parlamentarismo.
Para ele, a estratégia frentista decorria não de uma simples questão estratégica eleitoralista e moderada, cujas vantagens o Komintern acabou por compreender e adoptar. Não: o frentismo era para Gramsci uma questão teórica central. Não era uma questão de mais uns votos. E porquê? Porque compreendeu logo que a luta política nas sociedades capitalistas europeias mais ricas do seu tempo não podia limitar-se ao levantamento da classe operária sobre as ruínas do capital nem explicada apenas pela radical divisão de classes entre capitalistas e trabalhadores, titulares de interesses radicalmente opostos. Compreendeu que para derrubar o capitalismo seria necessário que o proletariado e seus aliados, sempre sob a direcção do partido comunista, teria de fornecer ao todo social um caldo cultural e ideológico credível e consistente, sem dúvida que influenciado pela leitura de Maquiavel, que tanto comentou, e que lhe lembrava que o poder nunca vive só da força e que carece do consentimento.
Mas este novo projecto ideológico só medraria se substituísse os valores dominantes na sociedade burguesa do seu tempo, bem enraizados e servidos por uma multidão de «aparelhos ideológicos» (termo mais tarde cunhado por Althusser, seu confesso admirador), desde a escola, ao exército, à igreja, à imprensa, à família tradicional, à comunicação social, entre outros. A este difuso poder cultural chamou Gramsci «hegemonia».
A hegemonia garante o amplo e diversificado poder da sociedade burguesa. O poder seria não apenas o estritamente político resultante do domínio do aparelho do estado civil e militar, mas seria também o cultural, moral e ideológico. Também este fazia parte dos fundamentos primeiros da sociedade civil burguesa e não apenas a propriedade privada dos meios de produção. A hegemonia vivia de dar ao particular da cultura burguesa uma validade universal. A figura da retórica clássica que lhe corresponde é a sinédoque (tomar a parte pelo todo). Para contrabalançar a hegemonia burguesa seria necessário assentar a hegemonia revolucionária, o que vai colocar o acento tónico na luta pela cultura.
Claro está que tal poder (dito aqui abreviadamente cultural) não se toma com ocupações de fábricas e de latifúndios, com a autogestão, nem com milícias armadas, apesar de Gramsci nunca ter desdenhado a importância política destas iniciativas no clima de pré-guerra civil que se vivia naquela época em Itália, conhecida pelo Biennio Rosso (1919/20). Não. O poder cultural toma-se fornecendo alternativas credíveis, o que demora o seu tempo. A guerra que se segue não é de confronto, é «de posição», como uma guerra de trincheiras, termo também gramsciano. Ao fazer do objecto da acção revolucionária a luta pela hegemonia cultural (em sentido amplo) Gramsci valorizou a «prática» (transformadora da realidade cultural) como critério da acção política. Levou a prática revolucionária para fora do sindicato e do comité. O seu objectivo é demonstrar que as ideias que alimentam a sociedade burguesa em que vivemos não são abstracções naturais nem são verdades eternas mas apenas o invólucro em que nos vendem as representações mentais que alimentam a hegemonia de uma classe definida pela sua posição no circuito da produção.
2 A atenção dada por Gramsci à superestrutura cultural (direito, religião, arte, ensino, educação, civismo, etc…) não condiz com a posição de Marx. Este nunca deu atenção nenhuma à necessidade de uma guerra cultural. Fiel às sua premissas, Marx entendeu sempre que uma vez estabelecido o poder comunista e alteradas as relações de propriedade no quadro da ditadura do proletariado, a substituição da cultura por outra viria como que naturalmente. Nada mais coerente: se sempre afirmou, ao contrário de Hegel, que a consciência era uma simples consequência das condições materiais da produção, como bom discípulo que era da materialista antropologia feuerbachiana, uma vez alteradas aquelas, a consciência seguir-lhes-ia os passos. Nunca lhe passou pela cabeça que no coração da culta Europa a luta política teria de começar pela esfera da cultura.
3 Mas para lutar pela hegemonia o partido comunista não pode actuar sozinho. Tem de fazer alianças estratégicas com os sectores da burguesia mais impressionáveis (pequena burguesia liberal, católicos progressistas, funcionários, quadros médios e tutti quanti), e de mobilizar, tal como a burguesia faz, «intelectuais orgânicos» das classes hostis ao capital que passam a ser o cimento dos novos valores culturais (Gramsci nunca escondeu a sua admiração pelos padres católicos, designadamente os jesuítas, na reproducão do caldo ideológico burguês). As alianças são indispensáveis na luta contra a hegemonia burguesa, tanto mais que, como o próprio lembra, a própria burguesia mais instalada faz o mesmo: serve-se sempre da sua influência hegemónica para arrecadar todos os apoios úteis.
Esta estratégia frentista foi mais tarde adoptada na teorização de N. Poulantzas e de E. Laclau e C. Mouffe, que se ufanam da mais completa teoria das complexas relações entras as classes que sustentam o estado capitalista. Tais relações dizem-nos que a estrutura da sociedade burguesa é demasiado complexa para depender apenas dos interesses do capital e exibe uma autonomia relativa dos factores culturais que impede a sua redução aos meros interesses daquele, chegando ao ponto de nem sempre os secundar.
4 Mas despontava um problema. Ao focalizar a luta nos aspectos culturais e políticos, Gramsci esqueceu, segundo alguns dos ses detractores, a velha tese dogmática da dependência das estruturas políticas e culturais (ditas superestruturas) das estruturas económicas da sociedade, em que Marx tanto insistiu, e que dá predominância à luta pelo domínio das primeiras, posto que as superestruturas como que cairiam depois por si. Neste aspecto, dizem aqueles, os leninistas e o maoísmo foram mais coerentes porque fixaram primeiro o poder político e económico do proletariado industrial e agrícola e só depois se preocuparam com a destruição da hegemonia cultural burguesa.
Percebendo claramente a questão e os perigos dogmáticos da sua ousada construção, Gramsci resolveu o dilema através da noção de «bloco histórico». Esta noção diz-nos que no seio da sociedade concreta em que vivemos a infraestrutura económica e a superestrutura cultural vivem em comunhão e não separadamente. Formam um bloco. Convivendo dentro de uma estrutura unitária, a economia nem sempre determina só por si as ideias e as políticas. Estas têm vida própria e um papel activo na sustentação do poder. Mas Gramsci nunca aceitou, em puridade, que a cultura se alimentasse de si própria, como se fosse uma ideia, esquecendo a sua função que é servir de cimento aglutinador do poder do grande capital, estrategicamente unido ou não aos seus sequazes.
5 Concluindo, o expresso reconhecimento às superestruturas (na linguagem marxista) de uma ontologia própria e distinta deu amargos de boca aos marxistas mais puristas. É que é a estratégia para a tomada do poder que está em causa. Lenine nunca a teria aceite. Na verdade, Gramsci fez uma ruptura epistemológica no marxismo. Acabou com a sobredeterminação da esfera cultural e moral pela base económica. Foi este o contributo imorredouro de Gramsci. A questão de saber se isto o levou ou não para fora do marxismo será abordada no fim.
6 Está hoje em moda repescar nos textos de Engels, vindos a lume na sua maioria já depois da morte do «mouro» (alcunha amigável de Marx), a admissibilidade da autonomia relativa da superestrutura relativamente à base económica, tão vulgarizada pela «teoria crítica» da razão capitalista difundida pela «Escola de Frankfurt» com M. Horkheimer, T. Adormo e H. Marcuse, entre outros, no seu altar, com largas consequências nos campus norte-americanos. O objectivo é permitir uma leitura não economicista e obreirista de Marx,
L. Althusser propõe mesmo uma distinção entre a esfera «dominante em primeira instância» (que pode ser a cultural) e a «determinante em última instância», que seria sempre a económica, e os seus epígonos não andam nada longe disto. A linguagem é que por vezes difere.
Pessoalmente esta habilidade dialéctica nunca me impressionou. Quem pela primeira vez me chamou a atenção para ela foi um colega meu, infelizmente já falecido, no café Avenida de Coimbra em 1973. Dormi mal nessa noite a tentar digeri-la e li logo o Lire le Capital mas fiquei céptico. Penso que a honestidade intelectual é uma virtude.
7 Gramsci constatou que se as estruturas sociais como o capitalismo são o produto da história, também o desenvolvimento da história se faz no interior das estruturas sociais que temos, como nos indica a sua referida tese do «bloco histórico», e estas não estão dispostas como Marx abstractamente entendia. Se as estruturas sociais da Europa do capitalismo avançado são diferentes do que eram na Rússia, no Camboja e na China, também a acção revolucionária teria de ser outra. Mas ao desvalorizar a luta económica, Gramsci desviou-se do marxismo, pois que, segundo bem viram os seus detractores, acabaria por transformar o comité central do partido comunista num salão literário, alheio à ferrugem. E como, do meu ponto de vista, só há marxismo ortodoxo, Gramsci, em boa verdade, saiu de lá e transformou-se naquilo a que Lenine chamaria um filósofo «idealista».
E foi este o destino dos seus continuadores. Se Althusser nunca largou a sobredeterminação da luta política pela esfera económica, de modo a não fugir a Marx (ser militante do partido comunista francês oblige: não se podia irritar Suslov), insistindo sempre em que a lógica da sobredeterminação bastava para salvar o precioso determinismo económico de Marx, se N. Poulantzas aceitou que o poder político burguês vive hoje de e para uma complexa rede de recíprocas influências de classes e que é cada vez mais autónomo relativamente à economia e afastado do proletariado, já E. Laclau e C. Mouffe aceitaram pacífica e finalmente que os conceitos necessários para compreender os confrontos sociais de hoje não pertencem ao património marxista. São outros e não passam por fazer da economia o motor da sociedade nem da luta política.
Chega a ser cómico ver os desertores do marxismo a tentarem compreender a sociedade actual fora do marxismo: uns apresentam uma concepção de sociedade tão fragmentada e desgarrada que não há nada que alicerce valores colectivos, outros, na mesma onda, (Lyotard) têm dela uma concepção wittgensteiniana baseada na presença de uma pluralidade de «jogos de linguagem» incomensuráveis entre si, o que impossibilita qualquer reconstrução política. Safam-se os alemães J. Habermas e sobretudo K.-O. Apel, com as suas magníficas teses da comunicação geral e da pragmática transcendental, que viram completamente costas ao marxismo, mas têm de ficar para outra vez.
Afinal aquilo a que Marx chamava superestrutura não é superestrutura nenhuma, muito menos agarrada ao modo de produção dominante na sociedade. Os níveis da luta política são diferentes e contraditórios e requerem até práticas políticas divergentes, impossíveis de reduzir a uma comum estratégia de base economicista.
Rio-me à brava quando olho para os pequenos e médios intelectuais tugas convencidos que são marxistas. Já não são, só que ainda não sabem e andam desnorteados em busca de uma paternidade um tanto vadia que teima em lhes não aparecer.
OESP
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